quinta-feira, junho 20, 2013

Eu vi o povo na rua

Praça da Sé, 18 de junho de 2013 – 17 horas.

Eu sei que você preferia “O Povo na TV”, mas o que viu na TV é o Povo na Rua. A TV, um dos principais tentáculos de um monstro chamado mídia, sempre pronto a defender os interesses do sistema, sejam eles quais forem, o sistema e os interesses, desde que o sistema garanta os interesses de uma minoria acostumada aos desmandos de um poder sem freio, “que não tem decência e nunca terá, que não tem vergonha e nunca terá...”
Foi este monstro mídia que eu vi hoje se refazendo de suas posições e opiniões anteriores, conseguindo ver a legimitidade de um movimento de um povo indignado e a gritante infiltração de meia dúzia de baderneiros a serviço de uma vontade secreta e excusa de desqualificar e desligitimar o movimento. Mesmo com a violência com que tentaram invadir o prédio da Prefeitura e com que atearam fogo ao carro de uma emissora de TV que cobria os acontecimentos, a mídia conseguiu ver que era uma minoria, que aquilo não era o e nem do movimento e, o que é melhor, conseguiu dizer isto. Todo mundo fez a lição de casa, a mídia, a polícia, os governantes, quando por lição de casa entende-se de não ficar repetindo a cantilena de que aquilo tudo todos esses dias era só capricho de uma juventude baderneira e sem limites.
Pois bem. Por volta das 17 horas o povo ia chegando de todos os lados, como gotas dentro de um copo que era a praça e a praça ficou cheia e o copo transbordou de gotas gente e tudo aquilo foi lindo de se ver, além de muito emocionante. Havia gente sentada na escadaria da igreja, gente preparando seus cartazes, gente encontrando gente, gente esperando gente, gente ligando para gente, recebendo telefonema de gente, era gente por tudo quanto é lado, porque era um movimento de gente, não de partidos ou coisa que valha, gente descontente com o aumento de vinte centavos na passagem do transporte público e que reivindica o cancelamento de tal aumento e a adoção do passe livre. É isto que querem. É apenas isto, por ora, que movimentou em tantas cidades as pessoas tantas em torno de uma só ideia.
A calmaria reinou o tempo todo. Gritava-se palavra de ordem. Uns pintavam o rosto, uns envergavam máscaras e outros mascaravam-se com suas roupas. Particularmente não gosto e nem gostei dos mascarados. Não é preciso esconder o rosto para se fazer uma manifestação pacífica. O povo começou a caminhar, um grupo descendo a XV de Novembro e pegando a General Carneiro e rumando até a sede da Prefeitura. Outro grupo seguiu subindo a Augusta em direção à Paulista, onde já havia bastante gente, enquanto um grupo estava lá pelos lados da Marginal Tietê e na Raposo Tavares. A coisa só ficou feia ali na Prefeitura, mas tudo que ocorreu depois eu vi pela TV, essa agora que anda elogiando os manifestantes e criticando os infiltrados. Tomara que não seja tarde demais.
Cansado e com fome, fui à casa de uma amiga, onde dividimos um delicioso marmitex e onde acompanhamos o desenrolar dos acontecimentos pela TV. Quando saí de lá, queria tomar o metrô na estação São Bento, mas não consegui passar ali pela prefeitura, pois os ânimos estavam acirrados. E as pessoas que vi ali, muitas delas usavam máscaras e se ocupavam de pixar as paredes dos edifícios. Voltei para o metro Anhangabaú, onde tive que esperar bastante para conseguir entrar no trem. Dois garotos de bicicleta jogavam na rua os sacos de lixo que estavam na calçada, para atrapalhar o trânsito, numa ação já sem nenhum sentido com o movimento, pois a gente toda já tinha seguido.

A presidente, mais o ex-presidente, vieram a São Paulo para conversar com o prefeito e o governador. Olhando tudo daqui, parece que podemos ter a certeza que nenhum deles sabe lidar com a situação, administrar crises. Os políticos brasileiros andam mal acostumados pela impunidade e pela falta de crítica que vem da opinião pública. E nunca estarão preparados para mudanças. Não atinam um discurso conciliatório com propostas e negociações que impeçam o povo de precisar ir para as ruas, correr o risco de ser confundidos com baderneiros mercenários contratados vá saber lá por quem. Em toda fala que vi, vi os políticos dando satisfação ao microfone na sua frente, ao monstro mídia, repetindo uma receita que vem funcionando. Não vi nenhum deles, em suas falas, dirigindo-se realmente a este povo como deviam. Na época das eleições sim, era um tal de meu povo para lá, meu povo para cá. Aliás, na época das eleições todos eles dizendo que iam fazer um milhão de coisas para esse povo e esse povo esperando, esperando, esperando e se cansando de esperar. Todos eles são bem maquiados e ficam tão bonitos no horário eleitoral e falam sobre tudo e sabem tudo e resolvem tudo. Basta serem empossados e já não sabemos quem são.
Eu estive lá e vi. Pensei que não ia viver para ver o povo acordar, largar em casa sua tv e seu computador, sua preguiça e seu comodismo e sair às ruas para dizer que está cansado das coisas como elas estão e que vão lutar para mudar.
Eu estive lá e vi o povo na rua que é do povo, um povo pronto para construir um mundo melhor para o povo. E se precisar, estarei lá de novo.

quarta-feira, março 06, 2013

Essa prosa vai longe V



Súplica

Já que trouxeste este silêncio com sua escuridão, dize-me onde deixaste a angústia dele. Preciso de um pouco dessa dor para me sentir vivo, a dor desse amor que me mantém cativo. Que só eu é que vivo enfeitando de lembranças a saudade de todos os momentos. E sou eu que afugento toda hora o bicho dos esquecimentos, aquele que me come os mais belos pensamentos e faz mofar a imaginação como coisa velha e estragada. Só eu é que fico fazendo a arrumação e limpeza desse vazio que ficou para quando voltares encontrar tudo no devido lugar. Tudo do jeito que deixaste com tudo que deixaste, os anéis e os colares, as roupas e os sapatos, os discos e os livros, as toalhas e os sabonetes, a cama pronta e a mesa posta e no ar aquele incenso de que tanto gostas e a música perfeita para embalar aquele outro silêncio que gostamos tanto de fazer.

Mas não te lembras...

Já que escolheste a distância para ser tudo o que pode haver entre nós, eu te ofereço o infinito e a eternidade para que possas fugir despercebida ou desesperada disso tudo e mais nada. Só não prometo não estar em toda parte o tempo todo, porque espalhei na imensidão todas as vontades de minhas vontades e minha única necessidade é sentir que vives mesmo que distante ou perdida no tempo, mesmo que como parte deste meu mais resistente pensamento, ainda que como uma tola ilusão minha, ficção de amor verdadeiro ou utopia de um sentimento derradeiro. E eu ainda escrevo em todos os meus cadernos o teu nome, como se isso me matasse a sede e a fome, como se isso fosse aquela coisa que não sabemos se tem nome, amor, como se o amor fosse tão mais importante do que pode ser importante viver, como se o amor fosse renascer sempre dessas cinzas dos restos de vida incendiada, à qual entregamos nossas almas entediadas que quando se lembram desse amor não querem mais nada.

Mas não te lembras...

Já que vieste no último dia em que respiro, que meu olhar derradeiro se espalha por tudo o que ainda não viu, no dia em que já ouço todas as melodias de um tempo que ainda nem vivi, já que vieste no dia em que minha vida se vai, eu só te peço que me deixes com tudo do pouco que fomos, para que eu não parta vazio de ter sido ou de ter vivido. Que me deixes ao menos com a ilusão de que te perco para a morte e não para a vida.
Mas não sabias que era o último dia em que respiro, que era meu olhar derradeiro e que eu esvoaçava nas melodias de um sem tempo, que minha vida se ia e nem ouviste que eu te pedia para me deixares com um pouco deste tudo que fomos, que eu partia vazio de ter sido e pleno do que não quis sem ter percebido que vivido esses meus dias em ilusão de vida e amor que a única verdade que havia era a morte e sua espera à minha espreita, taciturna, solene e triste. E nem sabias de todos os cadernos que levam teu nome escrito e uma história de amor que só ocorreu em meus sonhos e nunca, mas nunca mesmo, vai se tornar realidade. Não sabias das cinzas dos restos de vida incendiada e nem de nossas almas entediadas que não queriam mais nada a não ser lembrar-se desse amor. Desse amor de que devias te lembrar.

Mas não te lembras...

Essa prosa vai longe IV


Luz e Escuridão

Eu vi brilhar bem longe essa luz, mas não consigo sair dessa escuridão. E ouvi soar melodias angelicais de um canto celestial, mas estou encerrado neste meu inferno. Eternos não são os momentos, mas a saudade que me ocorre ter sempre deles.
Tenho vivido só de imaginar e a imaginação é este castigo eterno. Porque se imagina o que não existe ou o que não se tem. Vivo este castigo de imaginar teu sorriso, o som de tua voz, teu olhar como razão de eu existir, o bom entre nós, alguma felicidade talvez, que talvez seja felicidade e seja de verdade.
Tenho vivido de sonhar aquele sonho recorrente, quando não mais do que de repente apareces na minha frente e nada é diferente de tudo como foi, diferente de agora que tudo é diferente de tudo como teria sido.
Tenho vivido de esperar que o pesadelo acabe e este abismo desabe, mas não é a mim que cabe desejar o impensável nem pensar o indesejável. Talvez apenas sonhar com o inimaginável. E no meio de tudo isto esta minha tristeza inviolável e eu certo de que pensar nela toda hora é incontrolável.
Inacreditável este universo sublime que a vontade do amor construiu em meus sonhos, destruído pelo poder do silêncio e pela magia da escuridão que se apoderam de tudo.
Tenho vivido de contar os dias com suas horas intermináveis de um tempo implacável, cujo único ofício é passar, levando aos poucos cada pedaço de coisa quebrada que somos.
Eu vi teu rosto na janela, ouvi teus passos na escada, mas nada teu pode mais chegar à masmorra em que me encerraram. Nada teu pode ser maculado pela ansiosa vontade de apenas um olhar meu. Nada teu é feito para eu imaginar em meus sonhos ou desejar em meus tantos devaneios. Nada teu me pertence mais, nada teu me é próximo, nada teu é como se fosse meu. Não mais...
E temos que seguir em frente, mesmo que isso seja para ser na angústia da dor imensa do desencontro. Porque nada teu me alcança. Porque nada meu se move ao acaso e nem por acaso é sustentado por uma tola e vã esperança.
Desespero é o sentimento que fica, sentimento extremo e pequeno, último sentimento que me cabe, que me sabe, que me invade, que me resta. Desespero é o único sentimento que ainda presta.
Sei ao fim de tudo que sou dado a estranhamentos e tenho por mania estranhar tudo o que não seja estranho, por ser estranho que pareça normal. E o que de fato for estranho vai me parecer estranho parecer-se tanto com o que seja normal. Porque de fato é estranho tudo parecer normal, uma vez que o normal é que tudo seja estranho. Círculo perigoso: nada é normal... Nada em mim pode ser assim tão normal; isto seria muito estranho.
Talvez eu só quisesse permanecer no escuro desta masmorra e ser esquecido. Talvez eu só quisesse nunca ter nascido. Tendo nascido só queria não ter vivido. Tendo vivido só queria não ter aprendido. Mas aprendi e tendo aprendido só queria que não tivessem morrido todos os meninos em mim que brincam em quintais fantasmagóricos. Inexistentes...
Porque tudo é tristeza. E porque minha tristeza é feita deste silêncio e desse vazio estranhamente repleto do que não fui e pleno do que não serei, entregue a mais completa escuridão. E tudo isto vem muito bem disfarçado neste olhar dissimulado que brilha e nisto que tem de teimoso este sorriso que permanece como máscara a me ocultar o verdadeiro rosto que chora.
Quando me quiseres, me pensa. E quando me pensares esquece. Quando me esqueceres dispensa o remorso hipócrita que porventura terias ao pensar que perdes mais do que mereces. Pois não perdes nada em me perder, a não ser o tempo que perdes em pensar.

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

Essa Prosa Vai Longe II

O medo e o Silêncio

Tem horas que eu não tenho vontade de música nem de filme. Não tenho vontade de poltrona ou de janela. Tem horas que eu tenho vontade de silêncio e de café, café com silêncio sem açúcar. Então eu pego papel e os cadernos, empilho uns livros para conversar, uns livros assim de gente boa de prosa e de poesia e fico ali no meio deles, entre goladas de café, inventando que sou no meio deles um como eles. E sei que o melhor de tudo não é poeta ler poeta, poeta escutar poeta, poeta falar com poeta. Tem umas horas que o melhor de tudo é poeta fazer silêncio com outro poeta e voar neste silêncio. Porque neste silêncio, num silêncio desses, vamos dizer, deve de ter água de cachoeira e céu azul, canto de passarinho e pio de coruja, assobio do vento, estalar de folha seca e até trovão. E barulho de chuva, é claro, que poeta que é poeta de verdade não pode perder de ouvir um barulho de chuva, até em dias que nem está chovendo. Barulho de chuva faz a gente cair num buraco que nos leva direto para o tempo de criança, que era quando a gente vivia de verdade a poesia, só que não sabia e ainda não escrevia.
É engraçada essa vontade de café. Café com silêncio, café com solidão, café com saudade, café com você. E tantas vezes por ora não sei até quando café sem você, café apesar de você. E se um dia eu não tiver mais nada vai ser café com o quê? Café com mais nada...
E para fazer silêncio, mas um silêncio de verdade, silêncio absurdo e absoluto, um resoluto silêncio, um silêncio impoluto, não é qualquer um que consegue, pois que tem de ser mais forte do que acredita que realmente é, ousado também, abusado até, obstinado, mais corajoso do que o mais idolatrado deus ou herói.
Porque tudo se esconde no silêncio, as alegrias, as dores, as tristezas, os amores. E os medos, que a cada um deles convém ser maior que o outro, e até o que é menor quer ser maior do que o que é maior que ele, que não quer ser menor, o que dá para perceber que até nos medos tem de haver essa confusão dos diabos, se bem que todos os medos são medos bem conhecidos nossos de como são porque sabemos que são e só nós sabemos como são esses medos, uns mais importantes e outros sem importância nenhuma, até aquele medo que nunca admito que tenho, mas tenho, que é o medo de dizer que eu te amo.
Voltemos ao silêncio, que é muito melhor. Mas nem é assim de qualquer jeito que se faz silêncio. Tem que tomar banho, trocar de roupa, botar perfume, pentear o cabelo. Acender um incenso, que fumaça não faz barulho e se for dançar pela casa tem que ser de meias com uma música muito linda, mas imaginária. E pode deixar falar o pensamento, que fala dentro do silêncio aproveitando-se do silêncio e somente no silêncio. E pode também olhar a lua, que o olhar é o fenômeno mais silencioso que existe e, portanto, é a declaração de amor mais próxima do silêncio que se conhece.

(23/02/2013 – 20:56)

Essa Prosa Vai Longe III

No fim de todas as coisas

Agora, depois de tudo terminado, fica a tortura de contemplar as ruínas. E o mais difícil na vida é carregar essas ruínas dentro de si. Aonde se vai leva essa coisa destruída dentro de si, essa coisa não reconstruída, o tudo desfeito a se impor ao nada refeito. Porque refazer demora e exige esforços descomunais. Fazer o novo é ainda mais fácil do que fazer de novo o que foi desfeito.
Penso o tempo como um grande espelho que vai se quebrando todo dia um pedaço e a gente vai ter que aprender a se ver sempre em cada caco de vidro, em cada estilhaço que parece que é o que é mesmo viver, estilhaçar-se no espelho do tempo.
Tudo o que somos não passa de escombros. E nos escombros o assombro de uma hora tão absurda, que sempre se teme chegar.
O que agora morre vivia outrora. E eu não vivi o suficiente para ver alguma coisa que pudesse renascer, para entender que nem toda fraqueza é força dissimulada. Alguma fraqueza é fraqueza mesmo. E somos todos filhos dela.
Muitas vezes não sei o que parece a vida. Uma casa onde todos morreram, uma rua deserta numa cidade desconhecida, e distante, um álbum de fotografias amarelecido de rostos idos já quase esquecidos, a triste lembrança de todos os momentos perdidos e este silêncio aterrorizador aqui dentro do peito, isto tudo perdido numa solidão tamanha que só um amor sem tamanho provoca. E se acaso invocas o meu nome no vazio de teu coração, no vazio e teu coração é que haverá de ecoar teu silêncio em meu silêncio. Este desencontro é como perder-se da vida a vida inteira, passar pelo tempo como se nunca tivesse vindo. E todo amor o tempo todo não passa de uma guerra.
E aquela guerra era pela paz. E a paz, então, pelo que seria? Não era paz. Morremos por tão pouco, quase nada. E nos ferimos e seguimos marcados com este fogo, este ferro, esta dor de tudo o que tem que doer para ser, amor ou qualquer coisa que valha, qualquer tralha que se usa por debaixo da mortalha, minha alma na fornalha e o vento violento que ainda espalha os meus sonhos de menino na fumaça deste esquecimento. E sou somente cinzas deste não pertencimento.
Amor, uma canção que nós todos esquecemos, emoção que nós todos perdemos, momentos vãos que já morreram.
Então é aqui o fim de todas as coisas? Então é assim, neste antes e neste depois, neste durante? Neste durante enquanto dura este olhar para o horizonte, quando um sol que se põe nunca mais voltará, quando a lua mais brilhante não mais virá. E a vontade do sonho não mais acontecerá. O último desejo deverá ser não desejar mais nada. E mesmo assim será ainda um desejo. Há que se ter mais nada, porque nada se carrega quando se vai além de onde não se pode ir.
E se não vou voltar, não preciso dizer adeus!
Fica com os meus cacos e devolve meus pecados, que fico também com os teus. E espalho essa vontade pelo infinito, onde sei que tudo pode ser bem mais bonito...

(25/02/2013 – 08:09)

quinta-feira, março 22, 2012

A Rede e os Peixes

O mundo da importância superlativa é o mundo virtual, este mundo dos sites e dos blogs, dos mini blogs, este lugar virtual que é o nosso outdoor, por meio de que eu faço minha propaganda absolutamente desinteressante.

A internet tem a mágica de ser o lugar onde eu posso mais me mostrar me escondendo.

E nunca fomos tão pobres. Nunca fomos tão ridículos. Nunca fomos tão carentes.

Ali, na minha página, eu sou simplesmente o máximo, penso e digo o que quero, trato as pessoas e as questões da maneira que bem entender. Sou implacável, imperturbável, imperdoável. E minto à vontade, porque não há ninguém por perto que me conheça o suficiente para saber que estou mentindo.

Depois de ler isto aqui, você vai verificar suas páginas, irá lá para conferir se não incorre neste erro. Não precisa! Você incorre sim. Mas não está só, pelo menos não nessa imbecilidade. Há uma legião de iguais a você por ai, uns mais iguais, outros menos iguais e alguns até iguais de um jeito diferente. É. Já inventaram isso: um jeito diferente de ser igual.

Cômico isto e já disseram. Eu tenho duzentos e oitenta e sete amigos virtuais. Há alguns deles que eu nuca vi mais gordo. Sim, tem muitos deles que são meus amigos reais que até se parecem com esses virtuais por estas páginas.

Isto é o mundo virtual. Bem vindos à rede. Nome apropriado. Rede que liga e interliga, do tipo estar ligado em rede, eu com cada um e cada um comigo, todos na mesma sintonia. E rede daquelas que captura e arrasta o peixe.

Somos isto mesmo nesta rede. Somos todos peixes.

E não venha justificar as vantagens antes de mostrá-las, se é que pode mostrar: isto é um modo de estarmos conectados com o mundo e o mundo conosco. Modo de estarmos antenados, plugados. Coisa nenhuma, é só um modo de estarmos sós, tão mais sós do que nunca antes pudemos estar, com direito à ilusão de que estou acompanhado de milhares de pessoas...

Bobagem!

E bobagem em rede que eu posso compartilhar e você curtir. Chique!

segunda-feira, março 12, 2012

Um grito pela solidão


Eu ontem gritei o seu nome
Porque eu me senti sozinho,
Como nunca antes me vi,
Como nunca havia me visto tão só,
Tão só como nunca antes me senti.
E para além dessa solidão
Toda a dor do deserto
E os ermos do silêncio
E foi ali que me senti mais só
E gritei o seu nome...
Mas você não me ouviu...

Eu podia tecer meu desespero
Com as linhas mais finas do sofrimento,
Com todas as palavras mais tocantes
E com esses meus gritos emocionantes.
E podia construir nessa dor lancinante,
A maior dor que há no mundo e, mais que isto,
A mais duradoura...
Podia falar todo dia o dia todo
Da agonia de acordar vivo e ainda só.
Mas, em vez disso, eu gritei o seu nome,
Daqui da inutilidade desse silêncio,
Daqui do absurdo dessa escuridão
Do inferno em que fui cair
Eu gritei o seu nome...
Mas você não me ouviu...

Eu podia tirar forças de onde não tenho
E acalentar pobres ilusões que nem existem.
Eu podia fantasiar todo um mundo
E neste mundo uma vida,
Nesta vida, enfim, um amor...
Mas a realidade todo dia me dá na cara,
Eu acordo triste de nenhum sonho,
Eu acordo vazio e transido de medo,
Acordo varrido pelas promessas da morte
E, quando vi que não vi, gritei o seu nome...
Mas você não me ouviu...

E ontem eu me vi triste
Como nunca imaginei que seria,
Como nunca pensei que pudesse ser.
E dei de entender tanto de tristeza,
A tristeza que tortura devagar antes de nos matar,
Tristeza que é cruel e sanguinária, tão ordinária.
E para quem dizer dessa tristeza?
Pela última vez eu gritei o seu nome
E foi mais triste porque me vi mais sozinho.
Da distância da morte eu gritei o seu nome...

Mas você vive e não me ouviu...

domingo, março 11, 2012

Da solidão e tudo em volta


Daí você fica pescando aquelas músicas de tantas épocas atrás... Então você esbarra de leve numa vivência, que claro que é só sua, que não dá para explicar nem com um tratado, não dá para fotografar, não dá para passar adiante nem com poesia. Aí essa vivência ali relembrada ressurge na forma de uma pequena dor, numa emoção totalmente indescritível. É essa dor, essa espécie de dor que chamamos SAUDADE!

O Que Será? (À Flor da Pele), cantada por Chico e Milton Nascimento... esta é a música culpada disto por ora, dessa vez. Mas há muitas, são as músicas e especialmente quando me entrego a estes momentos de mais completa inutilidade. Se há algo para fazer eu não quero. Se eu quero não há. E o cortejo segue, carregando o que está morto sendo seguido por aqueles que imaginam que estão vivos.

Este final de semana fiquei em casa. Fico sempre e isso nunca me incomoda. Há muito o que fazer, ler, escrever, ver filmes, fotografar coisas e passear. Indeciso se faço uma coisa ou outra, acabo não fazendo nada.

E por umas horas eu estava ansioso. Não fico quase nunca e quando fico não gosto. A ideia de solidão tem me causado ansiedade. Queria que ela se resolvesse logo. Eu devia mandar um pedido de confirmação a todos os que me conhecem, para saber se vão me deixar sozinhos. Diante da unânime resposta positiva, seria mais fácil aceitar a solidão como um fato.

Sim, eu já me acostumei com ela e é exatamente isto o que me assusta. Sei viver e conviver com ela, mas quando preciso me livrar dela eu simplesmente não sei o que fazer. E me senti assim este final de semana, querendo sair, ver gente, fazer um monte de coisa na rua, em lugares cheio de gente, estar com gente que conheço e gosto.

Eu sou assim, acho que todos me conhecem. Se me ligarem agora eu sou capaz de me trocar e sair. Não importa a hora. Mas eu mesmo nunca ligo para ninguém para isto, nunca chamo.

Este final de semana eu fiz isto e ninguém percebeu. Deu vontade de gritar que eu estou me sentindo sozinho e não queria isso só por umas horas.

Acabei ficando sozinho de novo pensando na solidão. Em quando eu não a quiser e ficar como estes dias, sem saber o que fazer para me livrar dela.

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Considerações Extemporâneas IV

(Metralhadora giratória ou coisa no ventilador...)

Já usei este título antes. Quando vem coisa assim, vem coisa aí...

Uma fase interessante da vida e um tanto assustadora: não digo mais que vou fazer as coisas. Eu vou lá e faço. Depois digo: fui lá e fiz. Então deve ser uma fase assim: fui lá e fiz...

O mundo carece de alguma avaliação. O mundo carece de outras e novas classificações. Vai ter que ser a pessoa desimportante aqui dizer que michel teló, restart e os funk de hoje em dia são tudo uma merda? Então tá, eu digo: nem a merda merece essa comparação. E sim, tudo com letra minúscula. Não há nada convencionado menor que a letra minúscula. Pior que isso (ou melhor) só se eu escrevesse com merda na parede suja da consciência alienada de todo mundo. E acima são apenas três exemplos. Poderia dizer isso da globo e de tudo que vem dentro dela, dos abomináveis discursos políticos, enfim, das notícias que a mídia nos proporciona diariamente, tão importantes quanto o peido que acabei de dar agora, que só fede e não serve para mais nada. E poderia também dizer coisa semelhante ou pior, se eu achasse coisa pior para dizer, a respeito das internetices e feicebuquices, das orkutices, twitterices, msnices, das bloguices e todas as outras esquisitices e tais. Sim, eu estou lá. Porque justo eu ficaria de fora dessa zona?

Tem também as recantices, de que faço parte, embora ninguém quase perceba isso. Isto se refere, para quem não sabe, ao site de poesias recanto das letras. A fauna e a flora lá é bastante abundante. E eu me contento em ser mais ou menos lido lá, pouco, muito pouco comentado e bastante escrito. Demais até do que eu mesmo queria, mas não tenho controle sobre isto.

E agora para dizer que todos estes meus blogs estarão em dia, atualizados. É hora de dizer tudo o que ficou para trás.

Quando eu enrolava para sair de casa hoje, puxei da estante um livrinho de antologia de poesias de Mário Quintana. E li aqui e ali uns dois ou três poemas. E me veio essa idéia (o Word burro acentua para mim... deixa!) de classificação, depois, é claro, daqueles pensamentos acerca de qualquer coisa ou coisa nenhuma que leva a lugar nenhum, do tipo assim: Como eu gosto de poesia! E, ao ler Mário Quintana,acho que a poesia carece de outro tipo de classificação. Esqueçamos da métrica e das rimas, do ritmo, enfim, da camisa de força que se coloca num poema até ele virar um soneto decassílabo (não que eu seja contra isso, de jeito nenhum, não sou é capaz disso). Mas queria mesmo é refazer a análise da poesia de vários autores de que gosto e dos seus poemas de que mais gosto de uma forma diferente. Vamos a isto, então.

Que idéia (olha o corretor ortográfico de novo!) que idéia mais estapafúrdia é esta que acabei tendo hoje de manhã: classificar os poemas pela emoção que nos causam. É, isso mesmo! E poderia até se criar uns smileys para isso, ou não. Haveria alguns poemas, do Quintana mesmo, que eu diria que é igual a um “friozinho na barriga”; e as classificações seguiriam por ai: um leve susto como quem foi despertado de uma distração, um aperto no coração, uma pontada de saudade de um amor que se foi, de uma pessoa que se foi, uma dor aguda de uma saudade que nunca vai ter fim; alguns outros, eu sei, seriam recebidos com a emoção de um sorriso que se insinua furtivamente no canto da boca, ou ainda alguns que não escapam de um olhar mais atento, quando a gente aperta o olho e para ver mais do que é capaz de ver. Há poemas também, sabemos disto, que nos arrancariam aquele ar de boca aberta de quem diz “mas vá, que isto não é possível” ou aquele franzido na testa que mostra toda a gravidade e seriedade que o assunto merece.

E o poema de amor? Eu diria que são desses que deixam a gente com um sorriso idiota na cara, daqueles que não se desfaz por nada. Ou que deixa a gente com o olhar perdido no nada, como se a realidade não passasse de um cais de onde a gente espera a nau que trará aquela pessoa que a gente ama.

São bobeiras. A filosofia e a ciência se fizeram de bobeiras como essa. Nós aprendemos a falar, articulamos a fala, porque um dia fomos capazes de brincar com os sons. Isto é o que dizem.

Com a poesia, eu aprendi a brincar com as emoções...

Publicado originalmente em:

quinta-feira, abril 28, 2011

Prosa do Absurdo


DECADÊNCIA

É a ideia de início, apogeu e declínio
A decadência do que ousei chamar poesia
Essa necessidade constante de dizer, dizer e dizer
Como se fosse importante, útil ou necessário
Empreendi uma mesma viagem por mesmas estradas
A paisagem ali parada, a mesma, e eu sem achar graça
Estava em outra cidade, as montanhas com o céu atrás
Muito verde e muita árvore, rios e represas, nuvens
E eu desdenhava essa beleza como se a desconhecesse
Deplorava qualquer emoção de sentir fazendo parte
De repente é que me vejo cansado das pessoas
Com suas ideias de deus e de vida e seu medo da morte
Com seu desdém para com tudo que é real e importante
Com seu descaso para tudo quanto é sentimento mesmo
O amor e o desamor, a paixão, o desejo, um sonho que seja
E de repente a proximidade das pessoas me afronta
E me aflige, aborrece, causa asco de dar pena
De relance surge um lampejo: elas estão certas
Eu é que sempre andei a estar de todo errado
Qual seja! Que seja assim, não sei, nem quero saber
Experimentei uma imensa sensação de grande vazio
E quis apagar meus pensamentos todos e as palavras
Quis calar-me de vez e achei que era falta de inspiração
E é, eu sei que é, essa vontade entranhada de algo novo
Deu medo olhar tudo em volta e não ser capaz de sentir
Deu medo não sentir mais nada como sempre sentia
Deu medo de ser uma irreversível transformação
Tive a nítida sensação de uma irremediável solidão
Assustei-me com a impressão clara e indubitável
De essa tristeza deixar de ser acidente e tornar-se essência
De tornar o alheio silêncio um silencio bem maior e só meu
Mas mesmo assim teimo em fazer pouco caso de tudo
Sem medo da morte de tudo, mesmo dos sonhos fáceis
Não temi amanhã acordar e não ser capaz de escrever mais
De ter ocorrido de uma tal poesia ter me abandonado de vez
Na falta de vontade de um querer ainda ter alguma vontade
De talvez ter abandonado a ideia de sanidade infundada
Para me afundar numa insanidade bem fundamentada
Aquela que me diz que é melhor não querer nada
E aceitar a decadência vir aos poucos me tirar tudo

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Considerações Extemporâneas

CONSIDERAÇÕES EXTEMPORÂNEAS

(Se tem mais o que fazer, vai fazer

porque o texto vai ser muito longo...)


I - Preliminares

Mil e vinte textos. É muita coisa. Considerando que neste espaço há mais de dois milhões e meio de textos, mesmo assim, para um autor só é muita coisa. Voltei à escrita desde janeiro de 2005, o que dá seis anos e 170 textos por anos, mais ou menos 14 por mês. Isso é como escrever um dia sim e outro não. Um texto a cada dois dias é de fato muita prolixidade.

Eu cantaria a cidade, sua cor cinza, seu ar taciturno, sua gente indo e vindo, suas belezas e seus contrastes. Mas a poesia me arrasta para outra prosa e me arranca outros versos mais desatentos, os mais desapegados de mim, como se eu não fizessse nada, só estivesse aqui a servir de intermediário entre a inspiração e a composição.

Eu cantaria a estrada, mudar de paisagens. Outros rostos, outras cidades, as árvores pelo caminho, o por do sol ao longo da caminhada, os céus azuis e as nuvens propondo charadas em suas formas. As montanhas azuis ao longe, o verde, uma cachoeira a cantarolar bem ao lado de onde se passa, a fumaça que sai de um fogão a lenha de uma casa qualquer. Mas a poesia me traz de volta com seu ímpeto e me dita as palavras mais dissonantes entre o que se capta pelo olhar e o que se derrama na letra fria.

Eu cantaria essa razão suficiente para quebrar o silêncio, o motivo de toda essa inquietação, essas indagações todas, esse encanto diante dos mistérios, esse pasmar diante do ainda não conhecido e explorado, essa saudação respeitosa ao infinito, essa adoração a tudo o que ainda nem existe de belo. Mas a poesia me arranca do voo e me atira na terra, me faz murmurar entre trevas e andar sobre as pedras.

Eu cantaria a vida e os mistérios dela, todas as canções dos sonhos e suas cores, os sorrisos e o êxtase diante do romper de cada aurora a me invadir a retina, as brisas da tarde e o suspirar de cada anoitecer. Mas a poesia me cala e me obriga a olhar para dentro, me abre este abismo dentro do ser, me coloca diante do espelho, dita o próximo passo e insinua a próxima palavra. E me faz falar sempre de amor. Amor, do amor, meu amor, este único que tenho. E me faz nunca esquecer.

Daí que os versos são tristes e cinza. Daí que as palavras estão sempre em torno dessas tristezas, adornando essa solidão, ensaiando o grito contido. A palavra me obriga a viver. E viver é sentir tudo o que sinto.

Certo é, como me inspirou Cortázar, que entre viver e escrever não faço nenhuma distinção. O que vai na alma deito em palavras, o que dói dentro soa fora como dor que deve ser.

E me pergunto tanto como é que podia ser diferente. Sobre o que mais a poesia teria que dizer. Há os rascunhos de dois contos, umas três crônicas e há até mesmo algumas elucubrações filosófica para ser escritas, mas dormem no papel, porque o lirismo rebelde e sem freio não quer dizer outra coisa.

Escrevo quase que por osmose. O pensamento vira palavra, a palavra vira verso e o verso vira poema. E o poema vira tudo de cabeça para baixo e torno a dizer mais uma vez o que tanto já disse de tantas formas. E o poema não espera, tem pressa em dizer e quer dizer tudo. E diz sem paciência, mesmo sem ter tempo para dizer. Não para nem para descansar ou para pensar, pensou já é.

Então a poesia se faz prolífera e prolixa. Diz tudo outra vez buscando sempre uma outra forma de dizer. Repete, corta, acrescenta, lembra, esquece, negligencia e dá importância ao tudo e ao nada, dá importância só para o dizer.

Há cem poemas que grito pelo amor que perdi, e vou gritar ainda muito mais. Há muito mais de cem poemas que só quero dizer que quero amar, essa mulher e não outra, dessa forma ou melhor, nunca menor ou pior. Só nesse amor é que qualquer poesia em mim vai se realizar. E ponto final.


II – Penetração

Mas estou aqui e é aqui que escrevo. Aqui despejo tudo o que penso e sinto todos os instantes de meus dias. É assim mesmo. Como se não houvesse mais o que fazer ou como se eu não soubesse fazer outra coisa. Como se eu não pudesse mais viver se não fizesse isso.

Aqui é um lugar aprazível, confortável mesmo. Mas ao mesmo tempo estranho e engraçado. Aqui é o lugar onde sou acusado de ser poeta.

Aqui é o lugar em que achamos que somos e podemos ser poetas. E, diga-se, nunca foi tão fácil escrever, ou melhor dizendo, postar seus escritos à vontade, como se eles fossem assim tão importantes para o resto insensível da humanidade. Dessa facilidade, garantida pela impessoalidade do mundo virtual, advém o sentimento de que podemos tudo. Somos deuses solitários de nossos universos apartados, extremamente separados pela arrogância do arvorar-se divinos. E somos humanos, demasiado humanos. E padecemos, hoje, de agorafobia. O outro é apenas o que se interpõe entre o que somos e o outro que criamos em nossas mal fundamentadas expectativas.

O meio em que nos comunicamos não dá margem para a crítica, ainda que construtiva e bem intencionada. O meio em que produzimos nossos maravilhosos textos está povoado de gente despreparada para o convívio intelectual (ou poético-literário), que está aqui para satisfazer alguma necessidade excusa ou resolver no local menos apropriado as carências que não foram resolvidas no real.

Acontece que a vida é real e a realidade é para ser vivenciada. O mundo não espera parado a gente amarrar os sapatos, o tempo corre, sempre com sua seta apontando para o que vem. A vida não espera a gente aprender e ensina a cada momento a todos sem distinção, os atentos e os distraídos.

Sim. Eu acho que todo mundo tem o direito de escrever-dizer o que quiser a liberdade garantida para isso. Sim. Eu acho que todo mundo pode se expressar segundo suas capacidades e possibilidades, segundo suas crenças e convicções, segundo suas ilusões e anseios. Creio mesmo que todo mundo precisa sair do silêncio na hora de sair e soltar seu grito.

Só não aceito transformarem aquilo que nos é tão caro em no mínimo estrume para o futuro.

“Diga-me o que lê e te direi o que és capaz de produzir. Se fisicamente somos o que comemos, intelectualmente somos o que lemos.” Tirei essa frase de um livro que estou lendo e ela soou como uma bofetada.

Em Retratos da Leitura no Brasil vi que a nossa média de leitura é de 4,9 livros por ano, sendo que há países em que essa média é de 10 livros por ano. Isso sem falar nos títulos que são lidos. Mas isso são estatísticas e considerações sobre elas que poderei explorar em outro texto, depois de terminada a minha pesquisa. Gasta-se mais tempo vendo televisão do que lendo livros, isso sem esquecer que a programação que nos empurram pode ser classificada como puro lixo. Nem é preciso citar exemplos.

Não há, de minha parte, intenção alguma de elitizar o conhecimento, o acesso a ele ou o modo como o obtemos. Tenho imenso prazer em ver que as pessoas estão lendo nos ônibus e nos trens e que a internet tenha possibilitado o ingresso de tantos à capacidade democática de expressão. E possibilitando maior facilidade na obtenção de informação ou mesmo de formação, se é que há esta. Preocupa-me apenas a qualidade do que comemos, porque a quantidade e variedade temos de monte.

Triste povo que não tem uma boa escola, que não é apenas o lugar onde adquirimos conhecimento, mas sim onde temos a oportundidade de compartilhar tanto o conhecimento obtido quanto a convivência com o outro que também exerce a mesma oportunidade.

Sou apenas um entre tantos. A poesia que tento aqui escrever está em permanente construção e reconstrução. Estou aqui simplesmente para dividir meus textos com quem se dispõe a ler. E leio tanta gente, mais do que se pode imaginar. Estou aqui somente para compartilhar, com quem possa chamar de meu igual, essa inquietação lírica sobre o que nem somos capazes ainda de definir. Estou aqui para dizer e digo.

Foi num dia qualquer de minha vida que me demorei a digerir um pedaço de verso de Álvaro de Campos em “A Hora Absurda” que me soou estranhamente encantador: “...e a hora é de assombros e toda ela escombros dela.” E nunca mais deixei de ficar encantado.


III – Orgasmo

Mesmo que eu goste de verdade de muitos deles, sei que mil e vinte textos é muita coisa para se escrever impunemente. E nem todos vão ser tão bons assim, alguns até muito ruins. E tenho até alguns que me são verdadeiramente caros que muita gente não leu. Estão lá atrás no tempo em que empilhei todas estas páginas. “Brinca a Vida”, “Errando Poesia”, “Agora Fico Só” e a tentativa de conto “Revelação” são alguns deles.

Estou sempre ensaiando descansar essa escrivaninha e descansar dela. Talvez descansar os outros de minhas palavras. E ler mais a literatura que me falta, assim como a poesia e a filosofia. Conversar com aqueles que trilharam o caminho bem antes e que trilharam muito bem. E revisar e repassar esses meus tantos textos. Aprender a ler e aprender a escrever é minha maior meta. O que é necessário e indispensável.

Não porque o que a gente vai escrever a partir disso seja algo mais bonito para mostrar para os outros, ou galgar os degraus de uma certa fama, granjear elogios e cultivar vaidades. Mas porque tenho que dizer o que vai lá de insistente dessa coisa que chamamos poesia.

Agora só falo desse amor. Um amor que vou querer para todo o sempre e sei que vou querer. E sei mais, que nunca vou deixar de querer. Porque foi minha poesia mal ajambrada e derramada sem nenhum cuidado que me chamou a atenção para essa forma de amar e me disse que isso sim é que amor. Nem que ele seja só meu, que só eu o sinta, já terá valido a pena tê-lo sentido, porque depois disso eu me construí dois dedinhos melhor, eu me tornei melhor do que posso ser, tudo isso só por causa desse amor.

Amor o que nos falta. Amor fundamentado e consentido, amor sentido como tudo o que não entendemos, mas que não é por isso que vamos deixar de querer. Porque se não sei o que é, pelo menos sei também o que não é.

Não que eu não tenha tido outros amores na vida, ou outras experiências de amor. Amores tão grandes quanto este, tão bons e até melhores. Mas é que este Amor aconteceu num momento da vida em que eu achava que nunca mais ia ter. Quando eu não acreditava mais que podia acontecer.

É isso tudo que não quero que me peçam um dia para jogar fora ou esquecer.

É disso que tenta falar a minha vã poesia. E nunca vai se cansar de dizer.

E mesmo que um dia eu não diga mais, vai ser este Amor que ainda me fará querer tanto escrever. Que ninguém leia, ou lendo não se importe. Pois isso ainda é pouco motivo para eu deixar de dizer.

Postado no Recanto das Letras:

http://recantodasletras.uol.com.br/prosapoetica/2796788

terça-feira, dezembro 07, 2010

Rescaldo II

Alguns meses a cultivar a idiotice do que parece uma ideia fixa. O dilema de esquecer ou não quem se ama se estende até o cansaço definitivo. Até sentir-se mal com o descaso parecer até ofensa, ou de propósito, ou coisa que se leva, mesmo sem querer, para o lado pessoal. A coisa deve ser comigo. Só pode ser comigo.

Ridículo ficar imaginando que o telefone vai tocar. Ou que ao ligar o computador vai ter um email. Uma carta, isso é o pior. Esperar uma carta. Uma mensagem no celular.

E já imaginei coisa ainda pior, que a encontraria me esperando a porta, ou mesmo dentro do apartamento. Ou ainda sentada num banco do parque a minha espera, para conversar, dar notícias. Espantosamente ridículo. E digo que imaginar isso é o pior porque tenho a plena certeza de que isso nunca vai mesmo acontecer.

Não preciso adivinhar as coisas, esse esforço é inútil, as palavras estão ditas, os recados estão dados, as decisões tomadas. “Segue teu caminho” e “Eu não quero amar você”. Que mais quero ainda ouvir ou saber? Que mais ainda penso em fazer?

As férias começam com a promessa das horas de todos os dias a correrem vazias e eu chego ao extremo de pensar na heresia de que seria melhor eu estar trabalhando, andando estrada afora, quanto mais longe e cansativo melhor. Tanto melhor que fosse como foi dias atrás, semana atrás de semana, que nem deu para pensar em mim mesmo e nessas coisas todas.

O que tortura é parar aqui e ter tempo para mim mesmo este nada que sempre sobra depois dos equívocos de parte a parte, cuja culpa sempre tenho a sensação de ser somente minha ou de ter que carregar sozinho.

A ilusão é um tormento, promete coisas que a realidade nunca vai proporcionar.

Tenho o péssimo costume de respeitar a decisão dos outros, mesmo quando não foi claramente dita e mesmo em prejuízo do meu próprio bem estar. E fico de mãos atadas, pois sei que qualquer iniciativa minha vai ser vista como invasão. Ou como insistência em que de mim não se quer mais.

Saio dos desenlaces sempre com nada, sempre à deriva, sempre com um enorme sentimento de culpa e com a sensação de que não resta mesmo nada a fazer. Então não faço, mesmo que queira muito e saiba o que poderia ou deveria fazer, em respeito a quem não quer mais, eu me calo e me entrego a essa autocomiseração de me fazer triste e solitário, certo de que o amor sorri para mim como que de brincadeira.

Assim vou me entregando até me acostumar com essa espécie de solidão imputada pelas circunstâncias. Elimino minha vontade, desfaço-me facilmente dos desejos.

Vou aceitando a máxima por mim mesmo inventada que melhor do que precisar de pouco é precisar de nada.

Nada eu tenho, nada eu quero, nada eu penso, nada mais a dizer...

terça-feira, novembro 30, 2010

Rescaldo I

Acordei assim, meio com um ar blazé, ou o vulgo cara de entojo para comigo mesmo diante do espelho. Assomado de um desacorçôo que não sei de onde vem. Quer dizer, sei, mas não sei como. Um entojo, uma má vontade de administrar as coisas, certas coisas, com o passar do tempo, esperando o tempo passar para ver se tudo melhora por decurso de prazo.

É aí que eu penso nessa merda toda de ficar racionalizando o irracional do que nem é tão concreto assim, puramente abstrato. Complicado? Pois é. É assim que é.

Não gosto destes períodos de sai ano e entra ano. Nada demais isso, nenhum trauma, nenhuma lembrança ruim. Nada disso. Não gosto simplesmente do espírito de alienação que toma conta de todos, como se passar de trinta e um de dezembro de um ano que morre para o primeiro de janeiro de outro ano que nasce fosse a solução para tudo o que não resolvemos nos trezentos e sessenta e cinco dias precedentes. Se me pego fazendo isso, fico puto comigo mesmo.

Ora, talvez esteja tentando fazer um balanço, e isso também é típico dessas épocas. Depois do balanço uma lista de propósitos com um leve disfarce de planejamento do futuro, porque o futuro vai ser melhor.

Quer saber? Foda-se o futuro e o presente. E o passado que morra também se quiser, porque dele já peguei o que precisava e só o que precisava.

Mas tá! Fico pensando no que passou, o que fiz esses dias todos e esses anos. Sinto um cheiro de repetição no ar, vindo de uma acomodação absurda. A vida tem sido muito confortável, previsível, protocolar.

Escrevi demais e abusei demais da poesia, até sangrar os piores dos melhores versos e vice versa, os melhores dos piores versos.

Se olhar tudo que escrevi, uns trinta, cinqüenta poemas atrás, talvez mais, foi essa choradeira com as palavras por um amor que se realizava e ia tão bem, mas depois descambou para o infortúnio de nem as súplicas das palavras adiantarem de nada. Daí eu me sentir mendigando a atenção de quem parece não querer me ver nem pintado, não saber de mim e nem dar o ar da graça, para um “oi, como vai?”.

Assim eu entendo o entojo. Sou eu mesmo cansado de mim mesmo. Tudo isso nem é diferente de qualquer coisa que seja que eu já não tenha feito ou pela qual não tenha passado. Tudo de novo, de novo do mesmo jeito.

Eu não desisto das coisas tão facilmente. Não sou tolo o suficiente para desistir. Mas deixo as coisas desistirem de mim. São as coisas que perdem o significado e eu, insistente, que demoro a perceber. Ainda agora nem imagino o significado que as coisas tem.

Eu amo ainda. O mesmo amor, só que carregado dos equívocos de parte a parte, de todos os ônus que parecem pesar tanto sobre mim. Amor e equívocos, assim se vai fazendo da vida essa aventura desinteressante.

O que eu quero então? Emoção! Quero diante de mim e de meu olhar um olhar que aceite os desafios por piores que eles possam parecer. Mas não tenho mais o poder de fazer esse amor dizer e significar a outro o que diz e significa para mim.

Então aceito o silêncio. E aprendo a aceitar mais. E aprendo um silêncio insustentável, que pouco depois vai ser muito difícil de quebrar. Depois de tudo não vou ser mais eu mesmo, serei eu acrescido dos equívocos dos quais a vida se faz mais rica e do que se aprende mais do que com os acertos.

E, diga-se de passagem, o que eu aprendo, nunca esqueço.

sexta-feira, abril 16, 2010

16/04/2010 - 00:21

Agora parece que estamos os dois lá naquele “fim de todas as coisas”. Parece que se passou um século, dois. Parece que há atrás de nós toda uma era. E o que se foi não volta mais. Triste, não? Triste não.

Um inventário de todos os momentos, dos melhores momentos, seria um tanto inútil, para não dizer sem sentido. Porque paira no ar a impressão de que todos os momentos não foram mais do que simples ensaios para a vivência do presente, única parte do tempo em que nos reconhecemos incompletos tanto para o passado quanto para o futuro. E o que fomos ou fizemos ou não, no passado, faremos ou seremos ou não, no futuro. Mas o que dizer sobre o que somos? Não dizemos nada, queremos ser sempre aquele que fomos ou aquele que seremos e nunca o que somos realmente.

Isso tudo para falar de história, da nossa história. Olhar para os tão conhecidos e já vividos momentos e rir deles com gosto. Ou para falar do que há por vir, que queremos tanto prever e não somos capazes.

E eu me sinto cada vez mais incapaz de dizer qualquer coisa que valha sobre qualquer coisa que importe. Carrego na vida todas as boas lembranças da vida, no entanto não isentas de suas emendas e remendos, ou um parafuso faltando, uma peça solta aqui ou ali, alguma coisa sobrando em alguma parte ou faltando em outra.

Tivemos amigos (ou ainda temos?) e eles parecem que não nos tem. Mudamos imperceptivelmente e eles nada mudaram, são os mesmos e nós somos os mesmos numa versão mais aprimorada, aprendendo com erros e acertos, rindo das desgraças e mesmo lamentando pequenas alegrias paradoxalmente.

O tempo nos leva adiante, sempre. Crescemos, envelhecemos, perdemos coisas pelo caminho e não encontramos nunca mais o que nem sabíamos que procurávamos tanto. Mas amadurecemos aquelas coisas exatas as quais não se vende nem se empresta, muito menos se aluga, amadurecemos aquelas coisas que compartilhamos sempre.

Queria dizer mais, sempre. Ter em mãos uma fórmula ou uma receita. Mas essa coisa de felicidade e satisfação não cabe em lugares pequenos, motivo pelo qual temos de nos fazer grandes para as poucas coisas grandes da vida ou para as muitas coisas pequenas que realmente importam.

Eu posso me gabar de dizer diante de muita coisa que eu sabia que muita coisa seria assim mesmo. Não adivinhei e nem sei ao certo se pressenti. O saber muitas vezes não se explica com palavras, mas sim com uma certa dose de silêncio.

Deveria dizer, se pudesse, então, aquieta sua alma e sinta o cheiro e o sabor desse silêncio interior. Se acha que foi fundo consigo mesma, vá mais fundo ainda para ver o que é bom.

Na verdade, acho essa vida medíocre demais para demasiada preocupação, e curta para tantos planos. Acho o mundo ridiculamente plausível demais para ser pensado em demasia. Aliás, acho que pensamos demais, somos por demais “intelectuais” que não percebem que basta um buraco na terra e um pouco de água para cultivar uma porção considerável de beleza.

Abdico de ser este ser que pensa para ser este ser que sente que pensa. Porque não creio em absolutamente nada que me cheire a mofo, não creio em nada que vá um pouco mais além do que imaginamos poder descrever em nossos intelectuais devaneios. Nosso discurso que constrói um mundo possível e uma realidade plausível destrói desastrosamente a beleza de as coisas serem exatamente o que são.

Por que este discurso para você? Eu não sei, sou o cara que não sabe. Sou o cara que sente, embora muitas vezes nem saiba o que sente.

Talvez para dizer a você para trocar o olhar ou o espelho, ou talvez os dois a um só tempo. Para dizer que leio ainda suas coisas paradas no tempo, aquele tempo que já foi. Para dizer que as águias já vieram nos resgatar no fim de todas as coisas e que talvez tenhamos um absurdo receio de viver cada recomeço, sem as coisas todas que nos atrapalham continuar caminhando. Ou voar com a devida e insustentável leveza.

Sejamos leves, então. E sejamos os mesmos, que já deu certo e vai dar mesmo. Mas sejamos rápidos, que o tempo desconhece nossa paciência e capacidade de esperar.

Porque daqui a dez anos, vou estar velho demais para dizer as coisas e você velha demais para ouvir.

domingo, julho 26, 2009

Já está escrito!

Terá sido o brilho dos olhos. Talvez a luz do sorriso. Os cabelos emoldurando toda a beleza do rosto. O jeito de olhar. Ou um certo modo de sorrir. Pode ser que seja a perfeição das mãos. A pele limpa e clara, suave, muito suave, macia aos olhos, talvez doce para o toque. A força das pernas, quem sabe? A cintura perfeita, os ombros que encaixam um lindo pescoço. Uma certa elegância nos braços? Ou a voz? Talvez a voz... a postura no andar, pode ser a postura ao estar parada? Não dá para saber, talvez tudo como um todo e uma riqueza em cada detalhe, ou a combinação de ricos detalhes em tudo como um todo. As costas nuas, se eu as visse nuas agora, como de bailarina em pose. Os pés de menina num corpo de mulher. Um corpo de mulher...

Uma menina num corpo de mulher, uma mulher com jeito de menina, a alegria de viver, o sorriso amplo sempre aberto, olhos brilhantes, jeito faceiro de me olhar, que não esqueço, um modo suave de piscar, sedutora, querendo aprender a seduzir com a inocência de quem sabe sentir mas ainda não sabe que sente o que sente.

Terá sido mesmo obra do destino que brinca com a história de nossas vidas, que nos coloca uma hora perto e outra longe, que nos aproxima de novo sem que possamos ficar próximos, que nos faz encarar um ao outro tendo que disfarçar que seria inevitável não resistir desviar o olhar. Seria obra do destino nos fazer viver em terras distantes e vagar em navios e mares distintos, para depois dar-se o encontro num mesmo porto, naquele dia frio e chuvoso, que seria tão triste se não tivesse sido tão importante.

Ou terá sido um capricho do acaso, que quando resolve caprichar não economiza nas cenas mais lindas que pode arranjar para arrancar dois seres de seus caminhos desencontrados para os colocar na mesma estrada, na mesma sala, no mesmo quarto daquela casa na mesma rua de nossas infâncias, onde ainda tínhamos o sabor de nossos quintais e o cheiro das fogueiras das festas tradicionais, na mesma rua onde nunca imagináramos onde nossos passos iriam nos levar e onde nosso caminhar iria nos trazer.

Ou ainda terá sido obra de um deus travesso a escolher quem atingir com suas setas envenenadas do mais doce veneno que existe, tão doce que quem tem não quer perder e quem não tem não vê o dia em que possa ter. Aquele veneno que quando se tem se vive e quando se perde morre-se um pouco.

Terá sido por obra de algum feitiço que venha a existir quando existe fogo nos olhos e um arder dentro do peito, quando sucumbimos com a falta de sono e fome, quando pensamos só naquilo que sabemos o que é sem precisar dizer o nome.

Terá sido por isso e por tudo talvez, talvez por nada, por simplesmente ter que ser porque assim teria sido desde todo o sempre. De tal modo que por ele é que passamos a existir, sendo que sem ele nada do que somos poderia existir e nada do que queremos faria sentido acontecer.

Terá sido por causa desse silêncio de perguntas que nunca ousamos fazer, por temer a resposta que há ou não haver a resposta, mas que uma coragem insana irrompe do peito num grito inevitável como o trovão das tempestades a bradar dos céus a tudo o que há na terra para que ouça de uma vez que eu te amo tanto e não sei o que terá sido esse amar que não me interessa saber senão sentir que é esse amar que por falta de melhor nome todos os poetas haverão de cantar e chamar pelo simples, singelo e terno nome de Amor.

21/07/2009 – 03:00

segunda-feira, julho 20, 2009

Vida Minha

Vida minha, nada a por, nada por tirar, cada cena em seu lugar, cada gota, de suor e sangue, derramada, nunca foi em vão, cada coisa a seu tempo e no seu lugar, a cada palavra o seu efeito, a cada sentimento sua emoção, a cada passo uma direção, a cada grito a sua canção. Vida minha, viveria tudo de novo, exatamente como teria que ter sido, se soubesse que tudo que teria que viver, era para ter aqui me trazido. Vida minha, faria tudo de novo, se soubesse que era para vir até aqui e ter ainda tanto por fazer. Vida minha, e sentiria tudo de novo, pelo simples e incontestável prazer de aprender a sentir. Todas as coisas como as coisas são. Para viver, vida minha, de novo toda essa emoção!
Vida minha, eu perderia de novo todos os amores, e mesmo isso não seria em vão. Só para aprender sobre os amores que vem e vão, só para estar atento quando esse amor tivesse vindo, se eu soubesse que viria, ah, vida minha, não teria nada mais por fazer, a não ser sentar num canto qualquer de todos os meus dias, e ficar olhando a estrada, o céu, a lua e as estrelas, o nascer e o por do sol, e mesmo debaixo da mais forte chuva, porque saberia que você viria, vida minha, e que a partir disso, viver valeria muito a pena.

sábado, julho 18, 2009

Amor, meu grande amor!

Amor, meu grande amor! Já não era sem tempo depois que se passou o tempo, que o tempo nos trouxesse bem aqui, de frente um para o outro, depois que o tempo tinha nos arrastado cada qual para sua própria vida, despercebidos de existir um e outro, um para o outro, um sem o outro, sempre outro sem o um. E solidão e esquecimentos que lá longe no tempo existia já esse amor, assim como devia ser, com seus apertos no coração de uma saudade sabe-se lá como, sabe-se lá por que, sabe-se lá de que, e sabe-se lá de quem.
Amor, meu grande amor! Repartiu-se entre nós exata metade para cada um e foi tentar ser amor para qualquer um, por qualquer coisa, qualquer ilusão, desencontro e desencantos; amor semente que foi no tempo brotar tão a tempo, esse fogo crescendo, incendiando bem devagar, até nos queimar em febre e nos arrancar soluços, nos deixar exaustos de saudade, tanta saudade de tudo o que nem tivemos ainda, por falta de tempo.
Amor, meu grande amor! Esse amor silêncio, sussurro tão bem escondido bem lá dentro do peito, esse amor sombra a nos seguir aonde quer que fôssemos, esse amor espera, esperado, esse amor desesperado de nunca se revelar revelando-se bem no romper desse silêncio, nessa noite à distância tornando próximos passado e presente, misturando tudo dentro da gente, tão de repente que parece que foi sempre.
Amor, meu grande amor! Nascido de repente bem na nossa frente e a gente de olhos fechados e o coração distraído, amor subtraído de nossos passos, um amor de antanho, de tão bem antes que percebêssemos ser amor, grande amor que nunca nos deixou assim tão afastados, que nos manteve próximos mesmo nos desencontros, marcando hora e lugar de vir e chegar bem a tempo de nos encontrar nesse grito, no ecoar de nossa poesia insistente.
Amor, meu grande amor! Amor para ser sentido agora, enquanto o tempo haverá de fazer eu aprender, aos poucos e bem devagar, sua pele, seu cheiro, suas mãos, dentro desse abraço, seus olhos e seus lábios, toda essa tanta luz de seu sorriso, como se fora do tempo, de todo o tempo tudo tivesse nascido ali exatamente naquele momento.
Amor, meu grande amor, para eu aprender seu gosto, para nunca mais esquecer.

quarta-feira, julho 01, 2009

Rascunho de poema

Não era só meu o poema que se perdeu quando tocou a campainha.... rompendo o silêncio sempre há gritos e mediocridades e clamores de uma vidinha tão singular e sem sal. E a gente perde o que não se quis, a gente não quer e perde, deixa passar, enquanto passamos. Estamos sempre passando e, passados, passamos sem ver o crepúsculo, ou aquele por-do-sol. A gente não vê nada no espelho.
Não era só meu o sonho que se perdeu... esquecemos dele sempre que se abre e fecha rapidamente a porta do trem. Quando respondemos o "bom dia" protocolar de sempre, sempre o mesmo, sempre igual. E esvaziamos todas as horas do dia enchendo a agenda. Deixamos a noite passar sem um suspiro, sem nem sequer um arrepio de perplexidade diante do tão comum e corriqueiro de uma vida besta e sem sonhos, sem aspirações, sem ter aonde ir, o que fazer e sem ter a menor ideia do que há por sentir. E descobrir...
Não era só meu o amor que se perdeu... ah, nossas emoções tão bem planejadas, nossas mais doces ilusões estampadas em out doors fora de nós, fora e tão distantes, nossos sentimentos self service, nosso prazer delivery, nossas lágrimas plastificadas para viagem. Nosso tesão fast-food, tanta assepsia em nossas relações mais banais, a distância mais conveniente, nossa posição tão segura bem aqui dentro... nossos amores fabricados em série na linha de montagem dentro do peito.
Não era só minha a imensa tristeza quando olhei o álbum de fotos da vida.... e vi como era lindo aquele amor tão fora de moda, ultrapassado, embolorado, esmaecido, amarelecido com o pó do tempo. Aquele romantismo tão imbecil e que sempre tinha sido tão bom, tão bom que chegava a ser ótimo.
Não era só meu aquele amor que se perdeu pelos fios dos postes em inúteis interligações telefônicas, que se dissolveu e se banalizou via cabo.
Não era só meu, e nem sei se tinha sido um dia meu, amor ridículo e impossível, impraticável, amor inimaginável. Empoeirado numa sala de museu aquele amor, ah, amor, vi também que ele era teu.

quarta-feira, junho 24, 2009

Um dia...

Vontade de escrever alguma coisa que de mim eu diga algo a mim mesmo... chato chegar tarde em casa e querer aproveitar a noite desse dia para ainda tentar ser algo. A poesia em mim cansada ou cansada de mim, ou eu cansado de tudo, ou de nada, cansado a ponto de nem querer dormir.
Um dia esquecerei rostos. Um dia apagarei caminhos e não deixarei rastros. Um dia se apagarão em mim as lembranças, todas. Um dia irão se desfazer prováveis destinos e possíveis desatinos. Um dia, amor, não haverá mais o que amar e nem porque amar. Um dia será tarde, tão tarde, que restará apenas essa sensação de ainda nem ter vivido.
Insatisfação. A angústia que brota na pele como uma certeza de que a única coisa que verdadeiramente angustia é viver.
Amor por tudo e por todos, por qualquer coisa e qualquer um, por que não diz logo o que quer de mim? Poesia gritando em mim, por que não silencia e me deixa de uma vez por todas em paz?
Desejo de ser comum, o mais reles dos seres comuns que rastejam sobre a terra. Sem anseios e sonhos, sem expectativas, sem possibilidades. Ser apenas, só ser. Ser da maneira mais econômica de emoções e sofrimentos, ser pleno de esquecimentos.
Como o por do sol que nada te pede, apenas repete insistentemente o seu espetáculo cotidiano...
Como o vento suave que nunca vai a lugar algum e está sempre voltando...
Ou como o tempo que tem como única ocupação passar.
Um dia as palavras ainda não concebidas brotarão de um descuido meu.
Um dia os poemas não serão mais escritos, mas escreverão tudo o que ainda não pude dizer.
Um dia esse amor se apresentará em chamas, inevitável.
Um dia as emoções hão de explodir em mim como a parir um outro universo.
E não saberei mais o que fazer, o que ser, o que sentir, o que imaginar.



sexta-feira, junho 12, 2009

Se não dormes...

Eu só vou dormir agora para ver se nasce novo o dia de amanhã... acho que não! Essa inquietação que me rouba o sono vezes seguidas, uma noite atrás da outra, coisa sem diagnóstico definido, sem explicação. É só uma inquietação, sutil e sorrateira. É uma vontade de fuçar velhas gavetas sem saber bem o que procurar, um não saber o que se quer fazer, escrever, desenhar, ver filmes ou ouvir música, sempre a mesma coisa do mesmo jeito...
Não! Eu não vou cantar essa solidão e essa tristeza como se fossem um poema de Chico Buarque... porque isto é aquela coisa já impregnada nas paredes do apartamento, um tapete de cacos de vidro!
Nada é assim tão sério. Eu tinha tanto por fazer e fazer por querer mais do que precisar, mas essa apatia me tira para dançar sua marcha fúnebre, tenho que ir dormir embalado ao som de mais esse réquiem. Ora dane-se!
Então é o quê? É só trabalhar, ganhar dinheiro e pagar as contas, perder vinte quilos, parar de fumar, beber menos, estudar não sei o que para o que nem sei, diminuir ainda mais a quota já precária de prazer, não dá para ser feliz porque a felicidade não existe, não se pode ter prazer porque o prazer é uma ignomínia: substantivo feminino, afronta pública, desonra, injúria, degradação moral, humilhação, vergonha, opróbrio... e para ser franco, eu queria ser um franco-atirador.
E já chega! Tudo chega a um estado tão estranho de normalidade a ponto de a gente não se importar com nada. Está muito na moda não se importar com nada. Até fingir que é dor a dor que deveras sente...
E despeja-se tudo nesses jogos de palavras, incessantes, desinteressantes, que afinal ninguém mesmo vai ler e, se o fizer, muito difícil que vá se importar.
Banalização, do adjetivo banal: vulgar, corriqueiro, trivial, fútil, frívolo... banalização de todos os sentimentos, de todos os pensamentos e conceitos, de toda ideia que se pode ter da realidade, banalização do desejo de desejar, do amor e da paixão, toda a nossa vida expressa em planilhas de cálculo visualizada em gráficos coloridos, estatísticas, receitas, requisitos básicos para atestado de normalidade, certificados de adequação, enquadramento, ajustes, aceitação! Enquanto isso...
Os sonhos se dissipam... o que era mesmo aquela tal esperança? Vou lá eu saber daquela tal esperança? Que sobre ela escrevam um tanto mais de livros somente para as árvores terem morrido em vão.
O último poema de amor hei de escrever na areia de uma praia...