sexta-feira, setembro 14, 2007

Solilóquios...

Mais uma vez aqui para a solidão dessas páginas. Perguntar-se por que realmente fazer tudo isso, quer dizer, falar, falar e falar, pensar, pensar e tanto pensar. e agora, hoje em dia, essa tola necessidade de registrar tudo aqui. A pequena história insignificante de uma vida insignificante. Exercícios não do pensamento, mas de qualquer pensamento. Do pensamento não de uma pessoa, digamos, mas de qualquer pessoa, ou de uma pessoa qualquer. E quaisquer pensamentos parecem essa coisa infinitamente importante.
É isso mesmo. Não me importa se você tenha um câncer no cérebro do tamanho de um limão. Estou aqui para falar da minha unha encravada.
Solilóquios de uma alma perturbável, sensível a tanto dessas coisas insignificantes. O engraçado é que este é exatamente o espaço em que temos acesso a milhares de pessoas e elas a cada um de nós, mas esse é o espaço da mais absoluta e inegável solidão.
Brain storm não faz meu gênero, mas vivo permanentemente com essa garoa de pensamentos a me povoar o cérebro. Sempre uma dia a mais as mesmas coisas, eu sempre voltando a todos os pontos por que já passei e os mesmos olhares mesmo para as coisas diferentes. Tudo tão repetitivo seria bom se tudo estivesse bem e fosse bom. Mas não, amargar a sensação de que tudo demora em ser tão ruim.
Algumas palavras atrás por aqui mesmo, peguei-me dizendo que “melhor do que precisar de pouco é precisar de nada.” Soa como uma verdade irrefutável, mas como conseguir precisar de nada? Seria piegas dizer que preciso de sol ou de chuva, de água e de ar, um chão para meus pés não afundarem na terra quando andar, preciso de um pouco de verdura e legumes a cada dia, cereais, frutas e proteínas. Bom, este seria o estado de natureza. Mas fico agora pensando como que este estado de natureza acabou.
Eu penso que podemos ter tudo que precisamos sem ter a posse disso. São os exemplos dados acima. Mas alguém tinha que inventar-nos outras necessidades, estas supondo sua posse. Seria a posse, a propriedade, o grande problema da humanidade? Não sei, filosófico demais para meu gosto. Não quero mais falar disso, falem vocês. Talvez eu ainda fale das necessidades, ou melhor dizendo, do que poderia ser necessário realmente para se viver bem.
Mas na verdade não sei bem o que estou fazendo aqui. Esse é exatamente o tipo de papo que menos gosto. Fica aqui o registro dessa coisa por mim tão “desgostada”.

D qualquer modo, gosto muito ainda das pessoas. Não vejo minha vida a não ser rodeado de pessoas, conhece-las e ser por elas conhecido. Não sou anti-social, não tenho a mínima vocação para a misantropia. As pessoas me são caras ainda e sei que serão ainda por muito tempo. Gosto de histórias de vida, histórias de infância, experiências alheias e diferentes dessa mesma coisa que é assim para todos nós, a vida. Gosto da visão outra e diferente da minha que possam ter sobre qualquer coisa.
Fórmula básica: gosto de pessoas porque sou também uma pessoa.
E gosto de bichos, porque sou também uma espécie de bicho.
Mas chega por ora com essas divagações.

terça-feira, setembro 11, 2007

Um réquiem

Não dá para falar coisa com coisa, não numa missa fúnebre. Entendo agora o que é vomitar coelhinhos: é um problema que sai à força de dentro de você.
Geração e corrupção de todas as coisas. As folhas mortas no parque me fazem atinar com a idéia de que não sei o que é feito das folhas que morrem e caem de mim. Elas não são repostas. Nenhuma folha nova nasce, e a gente só perde e vai perdendo até o tempo de não perder mais.
Agora, de novo, tudo é só meu. Os meus dias que amanhecem como devem ser, as tardes que desabam soturnas e as noites que pesam sobre mim. E são só minhas as madrugadas adentro, em que pasmar na sacada joga meu olhar atônito para a luz de estrelas mortas. E apagadas. Porque distantes. E eu tenho a impressão de que nunca vou entender direito essas distâncias. É tanta luz apagada de folhas secas no chão céu do parque. Um réquiem para as folhas mortas e estrelas de luzes que se extinguiram tão distante de meus olhos.
Um réquiem para mim a esta hora: réquiem aeternam.
Minhas palavras soltas ao vento compõem os melhores poemas de minha tristeza, mas não foram escritos, vagam no infinito, vêm e vão, sempre estão partindo e de volta. Quero não mais sentir o enfado de cada inspiração. Estou cansado de minha visão de todas as coisas.
Tudo em volta são fragmentos. Sentado em minha sala, há num canto um fragmento de um poeta, noutro o de um desenhista. Há por toda parte fragmentos de um leitor contumaz, aqui e ali os de um filósofo. Em toda a parte espalham-se fragmentos de mim. Nada na vida se vive de maneira completa e dessa vida aos pedaços estou farto, dessa ânsia aos bocados, dessa vontade de ser alguma coisa aos goles, gota por gota. Não me agrada mais esse prazer homeopático, dessa felicidade ministrada em muito pequenas doses. Não quero mais as pequenas alegrias, prefiro até as grandes tristezas a manterem-me em estado de constante melancolia. Não quero mais nada pequeno, pequenas graças, eis que aceito as grandes desgraças. Aceito tentar sorrir sempre com tudo em volta tão sem graça.
Agora não preciso mais esperar. Por nada. Nem por um futuro incerto que agora sei que certamente não vem. Não vou precisar daquela agonia a olhar a caixa do correio, os dias de férias, nem vou precisar me atormentar com certas lembranças tão doces, tão plausíveis, tão possíveis e agora tão distantes. Muito melhor do que precisar de pouco é precisar de nada.
Decerto uma espécie de ilusão terá sido tudo isso, um sonho bom a se repetir mais uma vez na minha vida e quantas vezes mais? Vontade de dizer que eu não quero mais.
Que sentimento? Leveza. Estranhamente um sentimento de leveza, mesmo com todo o peso da solidão, mesmo com todo o peso das noites e madrugadas que ainda irão desabar sobre mim, eu sei. Mesmo com o peso do próprio corpo jogado no chão, mesmo com a incapacidade de ir buscar lágrimas onde elas nunca estarão. Nem chorar eu consigo.
Vazio. Mais umas das minhas palavras preferidas e suas mais inumeráveis traduções. Vazio, esvaziado, tirado de si qualquer e todo conteúdo, qualquer idéia de próximos sorrisos, qualquer ilusão de momentos se repetirem quando forem tão bons. Vazio como o vazio da imensidão desse céu escuro, entregue a essas insuportáveis madrugadas, essas noites de pensamentos em perambulação.
Quero me irritar contra tudo isso, revoltar-me de vez, mas não posso. Esse terrível e incômodo sentimento de aceitação.
Quero não sentir que há muito mais dentro de minha mente do que fora no mundo inteiro, em todo o universo. Para quem não consegue entender essa desproporção, basta não pensar estritamente em apensas três ou quatro dimensões. Tudo fora é tão pequeno, mas tão pequeno, que cabe mil vezes dentro de um pensamento. E cansa-me tanto pensar tudo mil vezes, cansa-me mil vezes olhar para as mesmas coisas que mudam tão devagar e demoram a passar. Quero luz e velocidade, quero a velocidade da luz para pensar. Minha imaginação traiçoeira, tinha tanto ainda por me ensinar. E ficou calada em mim, displicente, desprezando-me com uma desprezível exatidão.
E uma frase estranha ao diálogo inteiro: nós só temos medo da morte porque não pensamos nela.
Tudo acaba, tudo perece, tudo morre. Nem que seja para nascer de novo. Eu não sei mais quantas vidas tenho. Nem quantas tenho gastado nessa aventura desesperada de viver. E vou viver tudo o que é mais que vida. Vou sobreviver. Como sempre. Seja para meu bem ou para meu mal.

O dias amanhecem e a vida continua, outros eus, outros vocês, outros eles e elas, outras coisas dentro dos mesmos pensamentos, outras paisagens tantas dentro dos mesmos olhares. Os dias amanhecem e nós temos sempre que levantar.
Empunhar a velha espada.
A última batalha nem começou.

quarta-feira, setembro 05, 2007

Eu te amo e pronto!

Eu te amo e pronto. Assim como quem termina uma obra. Dá os últimos retoques, olha-a e fica satisfeito com o que vê e diz: pronto! E depois tira o ultimo dia para descansar e chama esse dia de eternidade.
Dei os últimos retoques nessa minha obra, olhei para o que fiz e fiquei satisfeito. E tirei a eternidade do ultimo dia para descansar de tudo. Eu te amo! Pronto!
E nunca mais vou mexer nisso, mais nenhum retoque, nenhuma pincelada, nenhuma desbastada a mais nesse tão caro mármore de Carrara, nenhuma palavra a mais nesse poema, mais nenhum verso nessa poesia, mais nenhuma cena nessa peça, nenhuma tomada nesse filme sublime, mais nenhum capítulo nessa história, a mais bela que teria lido. Eu te amo! E pronto!

Há os que precisam de motivos para amar. E os que amam e desconhecem absolutamente qualquer motivo. E andam por aí satisfeitos, mais do que isso, felizes por serem capazes de um amor tão assim... sem motivo. Motivo quase que equivale à razão. A razão de eu te amar é... razão? Eu te amo e pronto! Tipo assim pirraça de criança, mania de velho, idéia fixa de um sonhador, certeza de um visionário, antecipação de um profeta. Se preciso for, eu te amo por pura teimosia. E por vocação. Eu te amo até por um certo talento. Não me envergonharia de te amar até por devoção.

Eu te amo porque te vi passar na minha vida. Por um brilho que vi em teus olhos, pelo calor e maciez das tuas mãos. Eu te amo por teu jeito de andar e falar, por teu jeito de escutar, teu jeito de desenhar um sorriso em teu rosto, pelo perfume de teus cabelos, pelas curvas de teu corpo, pela beleza incompreensível de tuas costas que são esculturas. Por tua boca que me engoliria como obra tua, por teus seios, por tuas pernas fortes e por tua pele que era para estar sempre à mostra, desde que andasses nua. Eu te amo porque encheste de vida as noites de minha rua. Eu te amo e pronto!

Eu te amo por cada pedaço de tua história, sempre emendados a outro e mais outro, a teu bel prazer, um pedaço em cada pedaço e uma história em cada uma de outras tantas histórias, a volta para casa da escola num dia de chuva, um tênis afundado no barro, um banho de mangueira, um gato macho com nome feminino, nem falo de tuas aulas de catequese. Eu te amo por tudo isso que lembro e por muito mais que não lembro. Eu te amo e pronto.

Eu te amo por cada lembrança que deixaste em minha vida, teu rosto entre meus livros na mesa, tuas alquimias no fogão, teus banhos narrados... ah! E as conversas pela janela do banheiro, por te ver tanto lendo deitada na cama, por te ver entrando e saindo daquele apartamento, por aquela luz acesa quando eu chegava à noite, por me pintares os olhos, por me abraçares dormindo, por passeares meus passeios, por enfeitares os meus dias e por iluminares minhas noites. Eu te amo e pronto!

Eu te amo por tudo o que disse. Por tudo que não disse ainda. Por tudo que ainda tenho a dizer. Por tudo que nem sou capaz de dizer.
Não sei. Não sei. Só sei que te amo!
E pronto!

Músicas

Medi os céus, agora meço as sombras,
A mente era dos céus, o corpo repousa na terra.
EPITÁFIO DE KEPLER (escrito por ele mesmo)

Adágio
Sobre palavras, palavras de meus dias mais insanos. Toda a insanidade de minhas horas mais tristes. Quem dera tudo isso coubesse em palavras.
Epitáfios. Escrevi tantos. Que escrevam agora o que quiserem. Não quero somente os verbos “repousa” e “descansa”. Não há descanso nem repouso. Há apenas, e haverá de haver, apenas o gradual esquecimento de quem desapareceu.

Presto
Desapareceu, enfim, na tranqüilidade do silêncio.
Aos que ficam: esquecimento.

Largo un poco maestoso
Tranqüilidade. A minha mais almejada e mais utilizada das palavras. Paz, sossego, quietação, serenidade. Repouso do corpo ou do espírito. Distância é uma palavra capaz de expressar mais do que qualquer outra a realidade que indica. É uma palavra que você sente. E que pesa sobre você. Torna-se quase que material, palpável. A mais visível das palavras.
Tranqüilidade é tudo o que posso ver de olhos fechados. Um tolo sonho, um desejo impossível. Há que se dar conta do turbilhão de pensamentos, enquanto pensar. Mas não creio em controles. Enquanto não encontrar um modo de não pensar. Aquietar as palavras dentro de mim. Ter próxima e possível uma certa paz. Deve ter havido um tempo da tranqüilidade. Mas definitivamente esse tempo não é hoje. Vivemos o tempo da intranqüilidade, tempo de grades nas janelas e trancas nas portas, sejam de nossas casas ou de nossos sentimentos. Grades e trancas. Tempo de esconder-se, de dissimular, de fingir que não há tudo o que nos toca e afeta. Tempo de não reconhecer todos os medos. Tempo apenas de entregar-se a todos os medos.

Andante
Se houvesse uma espécie de habilitação para se viajar nas palavras, minha carteira já deveria ter sido cassada. Perdi a noção de todas as palavras que estão em minha órbita. Meu universo de palavras, tão restrito, minha confusão cósmica de frases e períodos, a desconexão mais provável entre o que sente e o que fala. Tanto que chego à conclusão de que devia pensar mais e falar menos, ou nem falar e nem pensar. Evitar, enfim, certas reflexões tão problemáticas. Isso tudo quando não me é difícil de perceber que todos em volta estão a me estranhar as palavras, portanto é hora de calar. Porque tudo o que falo me põe distante de tudo e só faz tornar-me mais indefinido do que posso imaginar, abrindo e gerando desertos entre mim e o interlocutor. Este último, para mim, aquele que nunca ouve, só escuta um balbuciar de palavras. Tudo que me restou parece que foi esse jogo mal fadado de jogar ao vento minhas palavras, nem que para que não me ouçam, mas para que olhem para mim, que não me entendam, mas que vejam pelo menos quem fala, perdido em meio a tantas palavras que perderam todo o sentido. Aliás, esse que sou que precisa aprender a calar, morrer nesse grito de vida incontido. O resumo da ópera é que estou cada vez mais perdido, à mercê de tudo o que não fiz, e a realidade está a cobrar-me que algo seja feito. E minhas palavras não servem para construir um mundo, nem para mim, nem para ninguém. Desisto, então. Falar menos, pensar quase sempre pouco. Pelo menos pensar mais do que fala. Escrever, talvez o que me reste de verdade, será daqui para frente somente essa válvula de escape. Essa boca do vulcão.

Largo
Cai a noite, a me acender as estrelas. Cai uma lagrima a me apagar a chama do que me mantém vivo. Consomem-me lentamente essas horas do dia, com tudo o que há de mais indefinido. Passados assombrados, futuros improváveis e um presente sem sentido. A olhar tudo em volta tão mudado de tudo quanto me acostumei ver. Tudo tão desencontrado de mim.
Os telhados das casas. As paredes dos edifícios. A história já esquecida de quem ali pôs cada telha. Pedra sobre pedra a consumir para existir tanta força de tanta vida. Os tijolos mataram as arvores. As janelas acesas riem-se disso tudo. E as calçadas de cimento reservam um pequeno quadrado por onde as raízes deixam brotar seus troncos e galhos. As folhas me olham tristes do alto dos seus ramos eu a olhar o chão de tantas folhas mortas.
Ao meu lado 2260 páginas com o significado de 200 mil palavras. E eu não sei agora o que dizer. Eu não sei mais o que dizer... eu não sei! Por detrás de tudo isso um céu que eu não sei medir, enquanto vou medindo as sombras.
O artista é sempre um solitário que vê luz e desenha sombras. Todo esse barro ordenado em telhas e tijolos são escombros. Todas as folhas, sequiosas de ação e reação, olham para mim. Eu não. Elas preparam um colchão para eu me deitar no parque, dormir para sempre debaixo das estrelas. Tranqüilidade. Silêncio. Esquecimento.

Presto
Espelho. Sempre é, mais que o objeto que a palavra indica, o que esse objeto mostraria. É um olhar para si mesmo. Sempre que uso essa palavra, há esse olhar, esse tentar ver a si mesmo. Tentar ver-se como lhe veriam, ou ver como quem imaginando como é visto. Enfim, a palavra espelho é “introspecção”, esta mesma difícil e inaceitável, hoje em dia, muito pouco usada. Começou de um gesto material mesmo, um gesto real, olhar-se de verdade no espelho e ver-se, saber seus contornos, as características por que é reconhecido. Partindo daí para ver o que não são meros contornos. Colocar-se diante do espelho é sempre alienar seu modo de ver, suspenso por uns instantes, para refletir sobre como lhe veriam os que olham você.
Imensidão. Essa é fácil, é tudo o que é maior do que posso ser, e isso não é pouca coisa (não o que posso ser, mas o que é maior). Uma arvore imensa na janela convida a olhar um parque imenso, cuja visão não se restringe aos seus limites, mas vai além, para muito além de todos os parques, abarca todos os parques, e bosques e florestas que nunca vi, mas que trago vivos na imaginação. E tenta também definir, essa palavra, a vida como um caminho. Tente caminhar por mais de quarenta anos e veja aonde vai chegar. Tantas paisagens diante dos olhos, tanta gente, tanto céu, tantas ondas indo e vindo no mar (a imensidão mais poética e absoluta, depois do céu), tantas estrelas, e luas cheias, tanto querer saber, tanto indagar a respeito de tudo. A mente dos poetas, dos escritores, dos cientistas, dos bêbados do centro da cidade, dos mendigos nas praças ou nos bares em que tomamos nossa cerveja, tão pequenos a ponto de cabermos dentro de nosso próprio copo. O olhar aguçado das crianças, a força diante de tudo que têm os jovens, a plácida resignação e contemplação dos velhos diante da morte.

(Heavy Metal – um descuido do andamento – ma un poco scherzo)
Morri. Ora, não me venham dar um velório piegas. Eu posso merecer mais. Não digam nunca “ele foi tão bom”, porque eu não sou, bem, não era, não fui, sei lá. Pessoas muito melhores do que eu encontram-se por aí de cambulhada, facilmente. Não sei se quis ser assim tão bom, ou bonzinho. Terei saído da vida tendo passado vontade de ter dado uns bons socos e alguns pontapés ou de ter dito mais impropérios. Podem crer, há quem os mereça. Terei dito menos palavrões do que desejaria. Mas não gosto de violência.
Esqueçam os epitáfios! Escrevam-nos para a sua própria vida!
Não! Não! Não me venham com esta de relembrar os bons momentos! Tentem, então, digam meia dúzia deles, três, dois, um! Não irão lembrar nenhum. Não há bons momentos. Tirem-me da história e ela continuará a mesma. Minha companhia nunca lhes foi imprescindível e minha falta nunca foi sentida de verdade. Olhei nossos álbuns de fotografias, as fotos de nossas festas. Eu, que nunca tirei fotos, apareço em muito pouco delas. Há quem tenha aparecido mais do que eu nas fotos de meu próprio aniversário. Corram e confiram.
Quero ser enterrado junto com meus telefones, tão inúteis quanto a própria vida!
Eu gostaria de umas músicas para esse solene ultimo instante. Mas esqueçam tudo. Esqueçam os epitáfios, as músicas e os desejos. Apenas façam silêncio, uma vez em suas vidas. Homenageiem-me com o silêncio. Depois disso, podem voltar à costumeira tagarelice. Eu não vou poder ouvir mesmo.

Presto presto
Suicídio?! Coloquem diante de mim um bilhão de estúpidos que defendem (ainda que filosoficamente) essa idéia e eu mudo-lhes a “causa mortis”: homicídio qualificado.

Adágio
A propósito de tijolos e telhas, “The Wall” (Pink Floyd) em meu som parece soar tétrico. Eu vi o filme, eu sei a história. Uma criança perdeu o pai na guerra (preciso falar dessa palavra), cresceu, tornou-se roqueiro e se vinga com um álbum desse. Se não se vinga, pelo menos faz uma bela critica, ou uma necessária catarse. E isso abre precedentes vários para mais um bocado de palavras e para os seus mais variados significados.
Rancor. É ódio inveterado, oculto, profundo. Uma grande aversão não manifestada, antipatia. Ressentimento. Ira secreta, malquerer. Pelo que parece, nenhum desses sinônimos alivia o peso dessa palavra. E a qualidade de oculto e secreto faz pensar se isso pode aparecer naquele olhar no espelho.
Ressentimento. É ação ou efeito de ressentir (tornar a sentir, sentir muito – e eu diria continuar a sentir ou não evitar sentir). Mas também é melindre, suscetibilidade. E, o que é pior, recordação de uma afronta, acompanhada do desejo de vingança. É o sentimento reservado de qualquer ofensa ou lembrança “dolorosa” de uma palavra ou ato ofensivo.
Meu maior e pior pecado terá sido manter meus sentimentos reservados demais, ter deixado que algumas lembranças, mesmo por um certo tempo, fossem dolorosas. Meu pecado mais freqüente é minha tolerância à dor.
Mas não é um erro meu não falar. Eu falaria e seria bom. Há um sentimento de olhar em volta e sentir-se só. E o solitário é sempre silencioso. A questão é achar que nunca é ouvido, não querer das pessoas o que elas não podem ou não estão dispostas a me dar. Como as fotografias em festas de aniversário. Aliás, sobre a palavra “sorriso”, é aquilo que aparece somente nas fotografias. Uns muito belos e até sinceros. Mas ninguém imagina como pode ser tão muito mais belo um sorriso de verdade, ao vivo e em cores, quente.
Agora não quero mais ser ouvido, apenas aprender uma de duas coisas: calar e esquecer. Ou as duas.

Allegro ma non troppo
Vida real. Não sei o que é isso. Muito menos sei sobre os seus principais ingredientes: dinheiro, planejamento, profissão e outros mais. Alias, não sei nem o que é vida, muito menos o que é real. Essas duas palavras juntas formam, para mim, algo ainda tão impalpável e inimaginável. Materializar isso é vê-la, a vida real, como um hecantóquiro, aquele monstro mitológico de cem braços e cinqüenta cabeças, que quando você corta uma, nascem duas no lugar. Vida real, sei apenas de seus golpes e imprevistos, de suas surpresas, de sua tacanhice sem igual, de sua teimosia atroz em bater na mesma tecla, sempre.
Telefone. Retiro tudo o que disse, só nesse momento, tudo o que disse sobre ele. Toca, às vezes, a gente estando em pleno banho. Para atender tem que sair pelado, enxugando-se. Valeu a pena, era ela, para dizer que vai ligar à meia-noite. Passaram-se duas eternidades, uma para chegar à meia-noite, e outros quinze minutos depois desse horário em que ela ainda não ligou. Para passar o tempo, volto às palavras...
Espera. Palavra tão dura e palpável quanto distância. Não quero falar dela, da palavra, por ora. Ela tem sido muito polêmica ultimamente. Prefiro falar de muitas outras coisas e palavras, enquanto dura a espera. Droga! Já se passaram vinte minutos da meia-noite e ela ainda não ligou. Tenho de esperar mais um pouco e conseguir falar de outra coisa, aquilo que não é uma coisa, não é aquela coisa, não é a coisa. Intrigante a palavra “coisa”, tudo parece caber nela, nela tudo se encaixa, ou se desencaixa. Que coisa! Não estou falando coisa com coisa. Nexo causal. Nexo, nexo, nexo, complexo, amplexo, circunflexo, reflexo, convexo, mais alguma coisa terminada com essa silaba... é um telefone que não toca, a espera da espera da espera é esperar esperar ter o que esperar enquanto espera o que se espera esperando esperar o que se está esperando.
Não! Este post não é para você. Para você reservo outras palavras de nossa história, mas pode ser que aqui tenha uma ou outra, não sei, não se veja nele tanto assim, não sei o que deve ser isso de não gostar tanto de você. E nem quero saber. Duas moças lindas em casa, aliche, margherita e mussarela........
Tocou o telefone...
...acabou o post, ela acabou com o meu post. Sinto muito, o post acabou!

Em 02/09/2007 às 00:30 h.

quinta-feira, agosto 23, 2007

Nada

Aonde foi minha alma a noite inteira, que acordei esta manhã tão cansado como se nem tivesse dormido? Se for verdade que temos alma, e se temos, se é que tenho direito a uma como todos.
Voltava para casa ontem tentando entender a lógica das escadas, aquilo que é uma coisa só, mas que faz você subir ou descer. E, conforme for, no meu caso, descendo as escadas, estou indo ser nada nesse mundo imenso. Subindo, estou de volta ao meu tão pequeno mundo, tão repleto de tudo o que sou, de tudo o que não sou, de tudo que poderia ter sido. Analogia imediata do subir/descer como sair do paraíso e ir ao inferno. E viver muito mais tempo no inferno do que em qualquer outro lugar. A lógica das escadas é igual à lógica dos caminhos. Ir e vir dependentes de escolhas e decisões, deixando-nos tão à mercê dos acasos.
Suspenso. Nos seus mais possíveis sentidos. Que flutua na parte alta de (algo); que se interrompeu temporária ou definitivamente; paralisado, adiado, sustado, cancelado; que tem sentido incompleto. Nenhum nexo causal entre o momento anterior e este, e entre este e o possível próximo. Um outro olhar que me força ver a vida como mera sucessão de acasos.
Se acaso me quiseres, sou tão difícil de esconder. Se acaso me quiseres, sou tão fácil de ser encontrado, nessas escadas, subindo ou descendo, visite meu inferno e, dependendo da hora do dia, poderei ser encontrado numa espécie de paraíso.

Nenhuma carta na caixa de correspondência, o telefone não toca, em volta tanta gente que tanto gosta de mim mas que nada sabe de mim. Eu ouvindo, ouvindo, ouvindo, sem quase nunca poder falar. Eu que sei o que falta naquele lado da cama, do outro lado da mesa, do outro lado de qualquer abraço, do outro lado de meu olhar cansado que busca os olhos da pessoa amada. Eu que sei. Quando falo dessa solidão, mais importância vai ter a dicotomia entre razão e emoção, sempre um ponto de vista e nenhuma vista exatamente naquele ponto.

Vou acordar no meio da noite, tendo perdido completamente o sono. Por um tempo muito mais longo do que possa imaginar. O que me atormenta, não sei. O que me preocupa, talvez a falta de preocupar-me com alguma coisa. Cansado sou tanto morto quanto posso imaginar. Não há nada adiante, nada agora em torno de mim, não há mais nada de tão importante e interessante que vivi há algum tempo atrás. Nada.
Descobri, de repente, o que existe na nossa idéia de inferno e paraíso. Nada.

quarta-feira, agosto 22, 2007

O cara do espelho

As coisas todas não estão em seu devido lugar. Só pode ser isso. Pelo menos, as coisas que eu queria em seu devido lugar, estão a setecentos quilômetros de distância.
Falei pouco da Marilyn ontem, mas encontrei uma foto digna de falar mais do que falei. Maravilhosa, linda. Minha mania de amar mais os mitos do que a realidade.
Sentei-me na janela do escritório ainda agora e fiquei a admirar longamente a paisagem em volta, o Pátio do Colégio, o Parque Dom Pedro, a rua e os camelôs, pessoas indo e vindo, que tribo enorme nos tornamos, a ponto de perdermos a noção de irmandade, tribo mesmo, fátria. Que espécie nos tornamos? Arrisco um palpite: homo urbanus virtualis.
O cara do espelho. Eu pensava, enquanto estava na janela, no cara do espelho. Aquele cara que me olha e, bem, diz o que tem que dizer. Faz falta um espelho na casa de cada pessoa, não para conferir a roupa ou o cabelo, não para fazer a barba. O cara no espelho para dizer para você, de uma hora para outra, que chega!
Então. O cara do espelho, ontem, ostentava um risinho irônico, daqueles que sabe as respostas para as suas mais medíocres perguntas, porque essas respostas são óbvias, e não pode fazer nada além de achar engraçado essa coisa de nos perdermos nessas inúteis inquietações. O cara do espelho de casa é mais chato do que eu consigo ser.
Falei muito de meu pai e nele pensei muito nesses dias. Até parece que não tenho mãe. Tenho sim. Ela vai fazer setenta anos mês que vem. Eu sou já um quase velho que nasci dela, ela deve estar velha também, bem mais que eu. Puxa vida!
Mãe. A vida. A vida que demoramos tanto para viver, acumulando tanta coisa. Disso que queria falar. Devo ir lá dia desses. Preciso ir. Falar com ela sobre tanta coisa que não falamos ainda. Antes que seja tarde demais. Não, ela não. Pode ser que eu próprio não veja o próximo amanhecer. Pensando na morte? Eu não. Só o cara do espelho que conta o tempo, eu não conto o tempo e nem meço os espaços, assim a vida transcorre linear, dá para ver tudo, o começo, o meio e o fim.
Também afirmei muito esses dias estar cansado das pessoas. Como explicaria isso? Na melhor das hipóteses, canso-me das pessoas porque preciso delas. E é por isso que me mantenho em torno delas, penso sempre nelas. E talvez a explicação para o fato de as pessoas não se cansarem de mim seja justamente o fato de elas não precisarem tanto de mim.
Uma certa vocação para a reclusão, é o que timidamente tenho desenvolvido. Em casa, eu e o cara do espelho.
Tenho a impressão de que duas certezas posso ter na vida, a de morrer ou a de enlouquecer. Desse modo, se viver muito anos mais, com certeza não será no gozo de minhas faculdades mentais. Se viver pouco, terei morrido lúcido ainda, por pura teimosia, por essa mania de ir teimando na vida para ver no que a vida dá. Exagero essa coisa de loucura? De modo algum. Tenho olhado em volta e me questionado muito sobre a lucidez de muita gente.
O cara do espelho sempre diz que eu chego lá: morte ou loucura.
No mais, esse meu sentimento diante de todos como se eu fosse um fóssil de um animal extinto. Exclamações estapafúrdias: ele é romântico! Ele ama! Ele está apaixonado! Ele é tão idealista! É mesmo um sonhador!
Ora bolas! Devo avisar aos dinossauros que o cometa não tarda. Com meu sangue de barata tenho uma grande probabilidade de sobreviver ao grande desastre.
Pensamentos soltos à procura de uma certa tranqüilidade (que eu tive?) que tem me feito falta. Tranqüilidade com relação a simplesmente tudo em volta. Talvez esses não sejam mais tempos assim tão propícios para o cultivo de algo tão inverossímil quanto a tranqüilidade. Tempos difíceis, de se imprimir uma grande velocidade a tudo, correndo com tudo, de tudo, correndo para tudo. Vivemos correndo. Que ritmo alucinante. O carro diante dos bois.
Ninguém tem mais tempo de ser contemplativo diante de uma janela.
E nem se dispõe a conversar com o cara do espelho.

terça-feira, agosto 21, 2007

Melhor que eu fosse dormir

Eu sei que vou sofrer a eterna desventura de viver, a espera de viver ao lado teu, por toda a minha vida.” (Jobim/Vinícius)

Não gosto muito quando brigo com os papéis. Os desenhos estão agora encerrados em suas pastas, amontoados. Calados, todos os papéis são só papéis. E não podem virar outra coisa, algo com forma e cor, com poesia. As canetas e os lápis em seus potes estão de castigo no armário, trancados. A mesa não está posta, está limpa, o chão está limpo, tudo limpo, está limpo o meu coração.
Estou assolado pela rotina. As horas do dia me esmagam. Tirei os livros da minha frente. Para saber quem ou o que sou eu em tudo isso, poemas e desenhos, eu a ver-me em contos fantásticos e em inimagináveis romances. Silêncio.
Todos os meus fantasmas aparecem no silêncio.
Nem tanto. Minha tristeza precisa sempre de um fundo musical. E, pelo que parece, nada em língua estrangeira, por ora, algo na minha língua, de preferência.
Os discos de vinil. Depois da arrumação do apartamento, quiseram os discos de vinil falar comigo. É tristeza à moda antiga, de um tempo em que havia amigos que ouviam sobre suas tristezas, aliás, que viam sua tristeza, de um tempo de conversas téte-a-téte, sem as absurdas intermediações de orkut, msn, e-mail, torpedos, e nem telefone. De um tempo que não se faziam distâncias.
Os discos de vinil. Maldição! Chamei para a conversa Chico, Bethânia, Vinícius, Toquinho, Maria Creuza, Marília Medalha, Nana Caymmi, Elis Regina. Só para começar.
Eu precisava dar um pulo no mercado. Além da pinga que já havia em casa, umas latas de cerveja e um Martini para colocar ao lado da vodka e enfeitar a minha tão negligenciada geladeira. Tenho prometida e garantida uma semana de nostalgia, de uma melancolia que serve como uma luva para me quebrar o silêncio. Ou para aquietar-me os pensamentos. Pensar cansa, esgota. Tudo isso para superar o silêncio dos papéis e a falta de imaginação, minha criatividade moribunda dentro de uma rotina tão sem sentido, todo dia, as mesmas coisas. E sou ninguém com essa falta de imaginação que me chega às mãos. Se minhas mãos se aquietam e não querem fazer nada, não tem jeito.
O que seria isso eu não sei. Essa quase certeza de um não pertencimento a esse espaço e a esse tempo, esse espaço que me limita, esse tempo que não me contém. Um não pertencimento a um mundo em que as pessoas usam cada vez mais as palavras para esconder as verdades, essa razão-vitrine a ocultar as mais belas emoções que tanto aprendi a apreciar no ser humano.
Queria agora alguém que soubesse suspirar comigo, por uma lembrança boa, uma história engraçada, uma sensação de bem-estar, e que chorasse por nada e por tudo, quando necessário. Alguém que entendesse de perda e de saudade. Que se emocionasse com o barulho da chuva, com um por-de-sol, com uma lua alta e branca num céu salpicado de estrelas, que ficasse boquiaberto diante desses mistérios todos do universo.
Começou tudo ontem, talvez, com a saudade do azul dos olhos de meu pai, com a brancura do sorriso de Marilyn, com a incompreensível força e coragem de um poeta de verdade chamado Victor, que não padecia de tristezas virtuais, mas sim sofria as tristezas de fato, de um tempo duro e violento, em que tinha que ser inevitável o medo de que a força e a coragem lhe custasse a vida. Como custou.
Eu lhes pergunto, então: quanto custa hoje a nossa vida?
Comecei com Chico cantando com Bethânia: “deixe em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa, e qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d’água.” E Elis, “Dois pra lá, dois pra cá” de João Bosco e Aldir Blanc.
Começou outra bagunça em minha mesa, três latas de cerveja vazias, uma cheia, um copinho de pinga a mais, os discos, cinzeiro com cigarro queimando, e eu tendo que dizer a mim mesmo coisas que não se diz, saudades tantas de minhas tristezas de outrora, que será de mim com essas tolas tristezas de agora?
Deixo os discos por ora, arrumados e separados para um outro momento. O domingo que acabou ontem me deu de presente uma semana completa, passei pela segunda-feira e vivo ainda, preciso saber se chego até sexta-feira, para mais um final de semana em que o telefone não toca, o interfone não grita, ninguém me chama, ninguém me sente ausente, ninguém me quer.
Mais um cigarro, a quarta cerveja que se acaba, a quinta pinga, minha perna esquerda dói, doem-me os dedos da mão, preciso dormir ao menos uma noite inteira, recuperar sei lá que forças para nenhuma luta amanhã. Só tédio, a monotonia, a rotina que me cabe desse olhar tudo lá fora daqui do lado de dentro da janela.
Estou mais só do que triste, sofro mais do que choro, sinto mais do que demonstro, demonstro tanto nada que não percebem em volta. Meu silêncio me esconde em cada palavra que uso muito bem para não revelar nada.
O que eu não daria por um abraço demorado, um colo onde repousar a cabeça, alguém com um silêncio tão grande a ponto de compartilhar meu grande silêncio.
Palavras me cansam. Pessoas me cansam. Amor me cansa. Sou feito de amor, pessoas e palavras. E me canso de mim. Não quero ser eu. Esse que sou que nada quer, nada tem, nada faz. Só espera. Quero um beijo apenas, antes do instante de minha grande morte. Um beijo que devora palavras, gera silêncios e une pessoas nesse mistério que, por falta de ciência, chamamos amor.
Mas quem me amará com um amor assim, tão desprovido de proposições?
Os cães e os gatos têm amor melhor que o meu, tanta gente medíocre é mais amada do que quero ser amado. E tanta gente que mente tem, mais do que eu, mais prazer, muito mais prazer em um minuto do que posso ter em um ano.
Sou o amigo que todos querem ter, mas não posso ter nenhum amigo que possa merecer. Eu sei ouvir, mas não sei quem me ouve, eu pareço nunca ter o que dizer.
Ser forte cansa. Ser idealista cansa. Ter esperança cansa. E cansa o tempo todo ter que manter um injustificável bom-humor. Conheço tanta gente, sei seus segredos, mas conhecer-me é fugir de meus segredos. Saber meus segredos nem quem me pariu. Puta que o pariu!
Eu só quero dormir essa noite! Quero o abraço da noite, o colo do silêncio, o beijo da madrugada... quero silêncio, só o silêncio, mais silêncio. Não pensar, não ser, não sentir.
Quero fingir, como todos, que estou feliz.
Não sei mentir, não sei fingir, quase mal consigo disfarçar. Mas me custa muito envergar essas máscaras indesejáveis.
Mais um cigarro. A quinta cerveja? Ou sexta, sei lá. A perna dói. Os dedos doem. Pensar dói. Ser dói. Sentir é que dói. Viver dói. Tudo dói. E tudo a doer a mim resta aceitar essa e qualquer dor. Toda a dor do mundo.
Seja como for, era melhor desistir de tudo, negar toda a dor, abandonar de vez tudo o que dizem que é vida, essa estrada tão mal fadada, esse último passo diante do abismo. Esse vôo no escuro, esse mergulho tão duro para dentro de si mesmo.
Baudelaire, Pessoa, Artaud, Rimbaud, tem um Pascal me atormentando os pensamentos. Cala-te, Schpenhauer! Não sou pessimista, a vida é que parece péssima. Deve ter um outro jeito de olhar, deve ter. Cala-te, Nietzsche! O niilismo já veio em nós embutido. Chico! A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu. Eu nunca vi um bispo com os olhos vermelhos. Vinícius! É chama, posto que não é imortal e não sei se enquanto dura é infinito. Pessoa, essas coisas lindas nunca existirão. O que me dói, dói tanto, e não é o que há no coração, esse cofre que não se pode fechar com o que há de cheio.

Melhor que eu fosse dormir
Dormindo, melhor que dormisse para sempre
Mais um dia o peso do amanhã
Se palavras me escapam e rompem silêncios
Fere muito mais o que tenho de calar
Melhor esquecer dessas mãos toda a destreza
Que as palavras soem em qualquer lugar
Não em mim, não de mim, não por mim
Melhor que não soem tão verdadeiras
E que não anunciem que não há nada
Melhor esquecer dessa alma sua força
Ou sua mera ilusão de poder
Melhor não ser, não ter, não fazer
Melhor perder esse olhar na madrugada
Num abandono em desertos incomensuráveis
Num vicejar de utopias macabras
Que anunciam que somos nada
Melhor que eu fosse morrer
Em qualquer lugar tão bom de dormir
O peso das palavras de mais um dia
É o que tenho, tudo o que tenho
Um amanhã de silêncios inescapáveis
Melhor calar essas mãos
Matar a verdade dessas palavras
E essa destreza da alma
E de sua força utópica
Mais um amanhã e seu peso
Todas as levezas dilaceradas
Melhor que eu fosse dormir...

segunda-feira, agosto 20, 2007

Agosto Setembro Outubro


Saudade de palavras que vêm lá de além do sol, saudade tanta, que temo entrar numa espécie de catástrofe psicológica. Pois é, tem algum silêncio que me incomoda, ou me deixa assim a sentir falta de algo para a vida parecer, às vezes, um pouco melhor. E nem sinto vontade de escrever aqui quando demora para ler um post que vem de lá. Mas vou tentar, com umas coisas que andava em minha cabeça por esses dias.
Andava atrás de uma letra de música, muito bem cantada por Mercedes Sosa, de quem já tive oportunidade de falar por aqui. Encontrei-a dias desses em uma pesquisa ou outra pela internet, num site com mais de oito mil letras. Eu ouvia a musica e não sabia o que dizia, embora soubesse de quem falava. O título da música é “A Victor”. E esse Victor é Victor Jara.
Todas essas coisas me levaram a algumas coincidências de data. Mas antes disso, há alguns domingos atrás, dia dos pais, lembrei do meu, que nasceu em 1933 e morreu em 1985, um dois meses antes de completar 51 anos. A última vez que o vi com vida foi no Hospital da Beneficência Portuguesa, eu minha mãe íamos visita-lo. Levamos um susto ao entrarmos no quarto no dia de sua cirurgia, ele não estava na cama e havia sangue no lençol. Quedamo-nos em silêncio alguns instantes e ele saiu do banheiro. Estava preparado para a cirurgia, o sangue era de uma espetada de agulha. Ele sentou-se na cama, e eu aos pés, observando seus pés inchados. Perguntei alguma coisa sobre o que seria aquilo. Disse que era por causa dos problemas nos rins. Ele tinha cálculos renais e mais um monte de problemas dos quais nem mais me lembro, foi tudo escrito no atestado de óbito. Não quis mais ver uma cópia, não sei onde está a minha. Depois disso, um silêncio imenso se interpôs entre nós. A única lembrança que tenho é de ter olhado profundamente em seus olhos tão azuis, um olhar que dispensou qualquer palavra, que disse tudo, sem que se tivesse que usar de qualquer palavras. Uma despedida, talvez, um adeus, um até breve. “Daddy's flown across the ocean”.
Ele não viu os netos que lhe dei. Eu fico imaginando como seria ele me ver pai, pai como ele, eu e ele, um filho e dois pais. Saudade dos mais belos blue eyes.
A canção, eis a letra aí embaixo. Coloquei uma tradução, ainda que não seja muito difícil. Sempre me impressionou mais a morte de Victor do que os perigos de sua vida. Líder da canção nova, nascido em 28/09/1932, um ano antes que meu pai e alguns quilômetros muito distante. Dando uma olhada em sua biografia, cheguei a uma outra data interessante, 11 de setembro. No caso o ano é 1973, golpe militar no Chile. Morto Allende, sobe ao poder o general Augusto Pinochet, que era da confiança de Allende, nomeado por ele. Mas que mudou de lado. E no dia 16 de setembro daquele mesmo ano, os militares colocavam o povo no Santiago Stadium (por que “Stadium”?) e entre eles, Victor Jara, que animava a população estarrecida com suas canções e seu violão. Um soldado o mandou parar de cantar, ele não obedeceu, cortou-lhe as mãos. Entre gritos de dor, entremeava versos de suas canções de protesto. Calou-se com um tiro fatal na cabeça. Como negar que essa canção na voz de Mercedes Sosa me emociona?

No puede borrarse el canto
con sangre del buen cantor
después que ha silbado el aire
los tonos de su canción.

Los pájaros llevan notas
a casa del trovador;
tendrán que matar el viento
que dice lucha y amor.

Tendrán que callar el río,
tendrán que secar el mar
que inspiran y dan al hombre
motivos para cantar.

No puede borrarse el canto
con sangre del buen cantor,
tendrán que matar el viento
que dice lucha y amor.

Tendrán que callar el río,
tendrán que secar el mar
que inspiran y dan al hombre
motivos para cantar.


Tendrán que parar la lluvia,
tendrán que apagar el sol,
tendrán que matar el canto
para que olviden tu voz.

Não pode apagar-se o canto
com sangue do bom cantor
depois que assobiou o ar
os tons de sua canção.

Os pássaros levam notas
a casa do trovador;
terão que matar o vento
que diz luta e amor.

Terão que calar o rio,
terão que secar o mar
que inspiram e dão ao homem
motivos para cantar.

Não pode apagar-se o canto
com sangue do bom cantor,
terão que matar o vento
que diz luta e amor.

Terão que calar o rio,
terão que secar o mar
que inspiram e dão ao homem
motivos para cantar.

Terão que parar a chuva,
terão que apagar o sol,
terão que matar o canto
para que esqueçam tua voz.


Naquele ano, o de 1973, eram iniciadas as obras das Torres Gêmeas em Manhattan. Aquelas mesmas que em 11 de setembro de 2001 foram abatidas por dois aviões num atentado terrorista. No dia anterior, eu trabalhava em Campinas, atendendo mutuários de minha companhia. E na manhã do dia 11 fomos dispensados do trabalho porque o prefeito da cidade tinha sido assassinado. Voltei ao hotel e liguei a televisão. Ali estava uma das torres queimando e os repórteres não sabiam nada, se era só um incêndio ou o que, até que vi, na tela da tv um avião rasgando o espaço aéreo que estava interditado, meus olhos grudaram-se na tela e estarrecido, vi o avião chocar-se.
Estava acabando o mundo? Liguei para casa, para saber se estavam todos bem, minha esposa e meus filhos. Podia ser uma operação global, podia ser a terceira guerra mundial.
Mas o 11 de setembro que mais me interessa agora é o próximo. É o aniversário dela. Minha namorada que vive tão longe de mim. Mas depois falo disso.

Faltou agosto. Tirando que nunca consigo esquecer as duas bombas atômicas atiradas sobre o Japão, em Hiroshima em 06/08 e em Nagasaki em 09/08/1945. as fotos dos cogumelos que eu via nos livros de história sempre me encheram de medo. Um dia destruímos tudo, para descobrir que não construímos nada.
Mas agosto tem uma outra data, o dia 05, mais precisamente 05/08/1962, eu já tinha nascido há uns seis meses, e ela morria aos 36 anos em Los Angeles. Andei olhando aqui pela internet muitas fotos dela, incrivelmente linda, incrivelmente mais maravilhosa do que podemos imaginar que fosse. Seu nome: Norma Jean Baker, nascida em 01/06/1926, sete anos antes de meu pai, seis antes de Victor Jara, mais conhecida dos menos aficionados como Marilyn Monroe. Vi também alguns vídeos postados no Youtube. E me deu a estranha impressão de que ela gostava mesmo de sorrir, algo denunciou isso, porque ela sorria com muita facilidade. Encontrada morta e nua, dizem que foi overdose. Dizem que não. Saudade de quem não conheci, dela e de Victor, duas belezas cada qual a seu modo.
Podia agora listar muita gente que se foi e muitas datas. Bastam-me agora esses três, Pai, aos 50; Victor, aos 40; Marilyn, aos 36 anos.
Não sei como o mundo sobrevive depois de perder tanta beleza.

sexta-feira, agosto 10, 2007

O efeito da causa

Precisamos de tempo para pensar. E, pensando, gastamos nosso tempo. Uma decisão se avizinha, eis que imediatamente precisamos de tempo para pensar sobre o que decidir. Pensar e decidir, no mínimo, na melhor das hipóteses, sobre duas coisas, duas alternativas. Geralmente um par de opostos, sim ou não, vou ou não vou, faço ou não faço, isto ou aquilo, sempre uma afirmação contraposta a uma negação ou vice-versa. Decidir implica pensar.
Aproveito para puxar a sardinha para a minha polêmica preferida. Precisamos de tempo para pensar. No entanto, não precisamos de tempo para sentir. Precisaríamos de tempo para pensar sobre o que sentimos? Complicado esse negócio de abrir mão do pensamento poético e ver-se emaranhado em reflexões filosóficas. Sempre esse dilema.
Os primeiros resultados daquilo que fiz afirmando que não queria fazer começam a aparecer. Descubro, atônito, que não tenho certeza se pensava mais que sentia ou o contrário. E desconfio que estava freqüentemente pensando sobre o que sentia. O pior é que, achei que não precisava de tempo para isso. Fui lá fazendo, dando vazão a uma relação de causa e efeito que não levava em conta até aqui. Aparecendo os efeitos, eis o absurdo, eu voltando a pensar sobre o que sinto.
E agora ela também está pensando e gastando seu tempo. Pensando no relacionamento, provavelmente em mim. E eu tendo que pensar se isto é bom ou ruim, se fico satisfeito com essa situação, por achar que antes ela não refletia e agora, depois de meu ato (impensado?), reflete. Vai colocar nos pratos da balança o peso e a leveza desse relacionamento.
Estou preocupado com tudo que vem por aí, no que isso tudo vai dar. E tentando evitar esse fiozinho de esperança que desponta, pois a esperança é feita sempre para gente tentar adivinhar o futuro de acordo com nossas expectativas.
Melhor seria que não fosse assim. Mas quem disse que as coisas perguntam para gente como é que elas devem ser? Nós é que devemos fazer as coisas, não é isto o que parece? Voltamos à necessidade de decisão. Que nos leva ao seu fim mais importante, que é o imperativo da escolha. E escolher não escolher, antes de ser uma fuga, algo que elimina a escolha, nada mais é do que uma escolha.
Amo aquela mulher. E, pensando sobre o que sentia, escolhi decidir não mais esperar por ela.
Lá se vão minhas noites de sono com esse raciocínio circular. Isso ainda vai me deixar tonto.
“O coração tem razões que a própria razão desconhece”. É, Pascal não ajuda muito. Melhor voltar aos poetas.

quinta-feira, agosto 09, 2007

Necessário

Agora que fiz não sei mais se penso ou não penso mais no que fiz. Quanto mais penso, mais me arrependo, e depois me arrependo de ter me arrependido. E arrepender-se do arrependimento é manter o que se fez. E o que fiz fica como está. Feito
Fiz o que não queria e fazer o que não se quer é querer o que não se faz. E muita coisa do que a gente faz, perde-se embrenhada no tempo. E no tempo embrenhada a coisa feita parece não poder ser desfeita, não volta atrás.
Minhas palavras voaram no vento de um instante fugaz. Minhas palavras juntadas uma vez como nunca antes juntadas, para dizer o que não se quer, para não querer o que se diz. Minhas palavras de mim dissidentes, rebeladas de meus anseios, traidoras de minhas vontades, esquecidas de meus mais caros desejos. Levaram num sopro minha alma, e eu fiquei casca, emprenhado desse vazio, entranhado de minhas mais absolutas incertezas, eu casca um vazio tão fundo por dentro e tanto silêncio fora, o que foi que eu fiz?
Não quis e fiz. Era necessário. E na insuportável lógica, o que é necessário sua negação implica uma contradição. E não cabe no coração a desnecessidade do que é ilógico, mesmo que não possa haver lógica alguma na necessidade de ter que fazer sempre o que não se quer.
O amor não é lógico. Não é matemático. Não pode ser expresso por uma equação e nem por nenhum tipo de proposição. Não se presta a deixar-se revelar por meio de elucubrações filosóficas. Quando muito, insinua-se entre um verso e outro da mais displicente e distraída linguagem poética. O amor não é um objeto, nem coisa subjetiva, tampouco é abstração. Talvez fosse uma força da natureza, mas nem isso é, talvez não possamos saber, como algo que confere a toda natureza sua força. Palavras para nos aproximarmos dele, dele nos afastam, abismo, deserto, desolação, solidão, imensidão, um vazio tão pleno de si, tão distante de nossas pobres e inúteis palavras.
Agora há o silêncio de todas as palavras apartadas de mim, um silêncio que é, antes de tudo, triste. Feito de escombros e sombras e de ausências de amanhãs. E de dolorosos esquecimentos, e falsos, que tentam nos arrancar do que somos cada momento do que vivemos. Deixa no lugar apenas uma ferida aberta. Uma luta inglória numa batalha incerta.
A morte nunca me levou ninguém. Mas a vida me toma cada um. Perdidas lembranças, a consciência de estar fadado a viver de esquecimentos.
Meus olhos esquecerão rostos e sorrisos, minha pele não se lembrará de nenhum toque, meus lábios serão secos de todos os beijos, meus braços sem abraços, minhas mãos sem o poder da carícia, meu corpo privado de prazeres, o desejo apenas uma lembrança desvanecida. Nenhum grito na noite, lágrimas apagarão todos os nomes e não saber mais da saudade apagará todos os sinais.
Os lugares marcados sempre trarão de volta tudo o que perdi. Os momentos me prenderão no indesejável passado. O futuro deverá ser um nada imerso no tempo, dissipando-se na atenção incontrolável ao passar das horas.
O apartamento, meu laboratório de alquimia do que vou ou não vou ser, meu túmulo de silêncio e solidão, um bunker que me guarda o coração, onde vivo por pura teimosia, onde espero na absurda espera que um dia a realidade não seja verdade, até cair desse sonho em todos os abismos, para percorrer em vão todos os desertos.
Deixem-me todos! Nunca me viram, não me conheceram. Não ouviram sequer o que havia entre as palavras. Nunca me notaram as mãos, sempre escravas da minha imaginação. Nunca souberam decifrar meu brilho nos olhos, nunca ousaram olhar na direção de meus olhares, para não se perderem em mundos fantásticos, nunca foram capazes de compartilhar meu silêncio. Deixem-me todos! Nunca irão aonde vou.
Eu estou bem não estando nada bem.
Eu caminho por entre sombras, por entre troncos, pisando folhas mortas. Eu saio de todas as casas e desconheço portas, entro pelos olhos de quem não me olha e desvendo a alma. E sei cada palavra antes que saia da boca de quem me fala. sinto a dor antes que sintam quem perto de mim sofre.
No entanto, são meus, só meus, meus olhares e palavras, meus sentimentos do jeito que são. E meu sofrimento que se aquieta constantemente.
Só meus são meus mais impossíveis sonhos, meu silêncio e minha escuridão, a madrugada que me acolhe e o vazio que me recolhe. Meus são todos os pensamentos.
Estou só. E só sou somente sentimentos.

quarta-feira, agosto 01, 2007

Odeio o amor à sabedoria

A realidade é feita assim, dessas imagens ilusórias. Ou talvez as ilusões se façam de realidades momentâneas, fugidias. Lucidez é a maior das ilusões. E sabedoria, a mais vã das aspirações humanas.
Por isso é que prefiro a linguagem poética, muito mais que a filosófica. Fora aquela, somente a linguagem matemática, que para mim não deixa de ser também poética.
Quando foi que sumiu da cultura humana o matrimônio? Há dez anos, vinte, trinta ou cinqüenta? E a virgindade, começou a sucumbir nos anos 60 ou 70, mas quando é que teve o golpe final? Certo é que há pessoas ainda hoje em dia que se casam, assumindo o matrimônio indissolúvel. E certo também é que há quem ainda guarde a virgindade, talvez para um momento sagrado, para a realização de algo que ainda chamam noite de núpcias, precedida de uma cerimônia que envolve smokings alugados, belos vestidos, véu e grinalda. Com certeza, não podemos precisar quando foi que tudo isso perdeu o sentido e o significado que outrora ostentavam.
É muito reconfortante ver que as pessoas hoje são livres daqueles velhos preconceitos e tabus, todos desnecessários, diga-se de passagem. Livres dos grilhões dos afetos, dos sentimentos exclusivos por uma única pessoa, daquelas tolas esperanças de um amor eterno, algo que soe bem com um “até que a morte os separe”.
E não é difícil entender como tudo aquilo atrapalhava o uso do corpo na obtenção do prazer. De um lado a sexualidade aflorando, de outro o imperativo da virgindade, senão da castidade e da pureza. Sexo era feio e sujo, mas se consentido por um ritual e praticado com fins da reprodução da espécie humana, justificava-se, tornava-se belo e puro, aceitável, plenamente aceitável. E depois, a união entre duas pessoas tinha que ser meticulosamente pensada, afinal era com essa pessoa que se viveria até a morte os separar.
A vida era chata, eu sei, era preciso conter os desejos, o prazer era justificável somente para povoar a terra, segundo o mais divino dos planos.
Então foi ótimo, e muito, livrarmo-nos de tal empecilho. Estamos no século vinte e um e não podemos viver ainda com estruturas nascidas lá tão longe, bem no meio da idade média. Somos bem mais sábios que nossos ancestrais.
Só que eu gostaria que fôssemos também mais poéticos. Nada indica que a queda desses preconceitos e tabus implicasse na eliminação pura e simples do amor. Sim, os afetos, aquele amor que não se sabe se é para sempre, mas que é tão bom enquanto dura. Mesmo porque temos a oportunidade de outra tentativa, sem o peso na consciência de viver permanentemente em pecado.
Creio que os libertinos amavam e lutavam contra a repressão ao corpo, o repúdio vigente ao prazer e o represamento desnecessário do desejo. Não sei se por eles, ou por quem os seguiu durante tanto tempo, libertamo-nos desse inferno. Mas somos hoje o oposto deles, completamente, libertos dos preconceitos e tabus, no mais pleno gozo dos nossos direitos ao prazer e livres para o desejo, o que fizemos foi somente renegar o amor, ou o simples afeto. Para conquistar essa liberdade tão corpórea, por assim dizer, tivemos que reprimir o amor.
Pois é, ninguém mais ama, só deseja, só quer, só goza. E quem não o faz é logo tachado de romântico, como se esse alegado romantismo fosse uma praga, uma doença contagiosa, um defeito de caráter ou o pecado da vez.
Fui muitas vezes em minha vida acusado de romantismo, sempre tachado de incorrigível romântico. Esse rótulo e esse rotular esconde um medo presumidamente tão sábio de não encarar os sentimentos que não conseguimos varrer de nossa vida.
Na verdade, não sei se sou de fato romântico. Não sei se posso ser classificado dessa forma, mesmo que o seja. Sei apenas que amo e amo não de outra forma, mas dessa única forma que sei amar. Há idealização do ser amado? Há um sentir-se incompleto? Há o desejo de se unir para sentir-se pleno? Sim. Se todas essas e outras características mais são o que definem o romantismo e o romântico, aceito a pecha, sim, sou romântico.
Mas há que se falar ainda das opiniões filosoficamente fundamentadas. Dessas, aceito várias coisas, como o caráter indissolúvel do matrimônio, que prendeu por muito tempo e a contragosto muitos casais, a sacralização absurda e anacrônica da virgindade e tudo aquilo que pertence ao mais comum dos relacionamentos, como o sentimento de posse, a perda da liberdade, o ciúme e por aí vai.
Então devo acreditar que o sábio filósofo não se apaixona, não ama, não se entrega ao amor. Tudo para ele é puramente, estritamente racional.
Acontece que estou cansado mesmo deste post, cansado de minha mente racional, cansado de prestar atenção à sabedoria vigente, que sempre me dita coisas sobre os meus mais caros sentimentos.
Amo. Amo e espero. Amo, e a pessoa amada é única. Amo e sou romântico porra nenhuma. Somente sei amar e me sinto bem assim. Excluído dessas libertinagens de butique, eu amo como sei amar e não de outro modo. E nenhum pensador é capaz de me ensinar. Amo e não tenho medo do amor. E cada vez mais odeio a sabedoria.

quarta-feira, julho 25, 2007

Poema em pesadelo

Iminência de abismos e desertos... turbulências de silêncios e sombras.
Uma ressaca de um mar dentro de mim, atônito, como quem espera descer a lâmina da guilhotina. Um momento de contemplação de horizontes distantes, preso ao cais, coberto de céus e desprovido de asas, ou conhecedor de todos os caminhos mas esquecido de pés e passos. Minhas estradas e minhas estadas em tantos lugares ermos.
Minhas janelas e meus quintais, meus dias tão mal corridos, debruçado em outros umbrais, refém de todas as possíveis tristezas tais e quais.
Meus poemas esquecidos num baú empoeirado da mente, meus sonhos de demente, meus brinquedos de criança, minha infância iluminada de estrelas.
Meu olhar nauseabundo para qualquer coisa que não é desse mundo, uma capacidade de inventar e desfazer o inventado, redesenhar tudo que deu errado, pintar de outras cores. Mesmo que seja para ficar pior, que é melhor do que estava tão mal concebido, percebido e resolvido. E o pior de tudo é tudo demorar tanto.
Minha fiel e leal solidão, aquela lágrima que me escapa sorrateira, meu olhar de madrugadas inteiras, contente sempre por não encontrar nada. Horas que passam são areia de ampulhetas, areia que escoa é alma que esvoaça, e aos poucos acaba em fumaça. E se espalha em imensidão ainda não percorrida.
Aceitar que isso é só isso e o que mais seria além disso se não pudesse ser só isso?
Cansaço de nascer e renascer, saudade de morrer, negado descanso, renegada eternidade. E um riso histérico diante de nenhuma verdade.
Minhas noites vazias, em vigília, terrível batalha de um guerreiro solitário contra um exército de fantasmas. Minhas mãos esquecidas da espada, minha espada esquecida da jornada. Na calada da noite o choro soar como uma gargalhada.
Meus olhos esvaziados de olhares, meus pedaços perdidos em mil lugares, minhas certezas sobre tudo tão elementares.
Saudade de mim mesmo quando a esmo me perco a procura de quem me olha nos espelhos, para me ver com olhos vermelhos, uma dor no peito que faz o amor dobrar-me de joelhos. Vontade de ficar deitado no chão, roçar o chão, de ser o chão de meus próprios vôos inimagináveis.
Um amontoado de gritos que se calaram e não cabem mais em mim, um não saber sentir se sentir não for sentir assim. Sentimentos anacrônicos, sou eu o próprio fantasma que me assombra, o exército que me ameaça. A graça da desgraça é ela ficar mais bela em poesia do que em prosa.
Meus pensamentos chovem para regar hortas de silêncios. E se me molha uma idéia qualquer a mais sobre qualquer coisa, a realidade tem seus sóis para me evaporar a imaginação.
Todas as horas são absurdas, todos os momentos pesam sobre mim, o tempo é esse monstro com sua bocarra aberta, insaciável e implacável. Eu velho me olho menino me olhando velho, eu sou todos e ninguém, eu sou tudo e sendo tudo sou até o nada. Essa idéia inconcebível de infinito, essa eternidade que não cabe em mais um único e intangível instante, sempre a um passo de qualquer abismo de todos os abismos que formam o abismo.
Eu mudo um segundo antes do grande grito, sufocado de suores noturnos, afogado em pesadelos renitentes, eu, senhor de passos no escuro, de olhares perdidos em luzes mortas, eu, trancafiado por todas as portas, eu, essa sombra solitária e triste com o olhar perdido em todos os cais. Eu, um grão de tristeza num imenso e desconhecido mar, impregnado de todas as dores imortais. Eu e minhas velas rasgadas, todas as naus desgovernadas.
Esse desprezo, esse asco, essa náusea, essa repugnância de sentimentos que podem ser assim tão normais, meus pressentimentos mais imorais, viver é dar vazão a espasmos colossais, entregar-se a inquietudes colossais, verter angústias por todos os poros, deixar-se esmagar pelo peso de todas as eternidades, caçar, correr, fugir de todas as realidades.
Caminhar como quem flutua, penetrar dimensões imemoriais, deslocar-se, “descolocar-se”, atirar-se de todas as alturas, perder-se em todas as profundezas, devorar distâncias, os esquecimentos, renegar identidades, diluir-se em sentimentos, estranhar amenidades, não pensar, não ser, não querer, sequer imaginar nada além da pedra que há dentro da pedra, apenas pedra, só pedra, mais pedra, nada mais, pedra que não se sabe pedra, mas é tão bem sem saber que é. Apenas pedra.
Alguém me chama, silêncio da noite, vazio, distâncias, olhar para dentro de si mesmo, e eu me esqueço o nome, ouço sinfonias do vento, desfaço-me em vento, sinto o vento, sei o vento, sou o vento. Esqueço-me de meu nome, nessa fome, inúteis memórias, sou esquecimento, de vento me alimento. Para me esvair em sinfonias.
Amor! Seja como for, era melhor não ter nascido, não ter me tomado pela mão, não ter colocado o leite do peito em minha boca, não ter acendido o fogo que arde, não ter povoado de sonhos meus dias com tanto alarde, nem me aberto os olhos, nem me tirado do chão, não ter sido luz para essa escuridão, canção de meu silêncio, minha melhor e pior parte, minha insignificância e minha imensidão.
Amor! Seja como for, melhor era não ter me consumido a carne, triturado os ossos, feito-me em destroços, meus escombros sem assombros, não ter espalhado os despojos de tantas quimeras, quatro cantos do mundo, sete mares, confins do inferno, minhas ilusões pelos ares, tempestade repentina, rastro de destruição, uma guerra para acabar com todas as guerras, meu universo apenas um olhar para o vazio, meus devaneios, meu desvario, a um passo da loucura ou da lucidez na embriagues de minhas palavras mortas e paradoxais, passos entre troncos, pisando folhas mortas, entreabertas portas, entrecortados clamores, exorcismos de todos os amores, seja como for, amor, melhor não ter me tirado desses umbrais, não ter trazido choro e ranger de dentes nas catedrais, não ter me privado do consolo de um último cais. Seja como for, tinha que ter sido para que eu não soubesse como seria nunca mais. Amor, seja como for, não há mais sol em meus quintais.
Eu fui feito de minha própria imaginação, eu invento o que me inventa, e eu sei o que é trilhar sozinho essa estrada de sonhos, isso tudo que inventei, não sei se sou real ou algo da mente, fenômeno ou pensamento, recônditos inacessíveis, meandros, atalhos, descaminhos, inventar sentido e direção, e viver do que se inventa, e o que não invento é tudo aquilo em que me desfaço, meu melhor traço, mas não invento a luz nem a escuridão, uma palavra torpe é que me inventa e um silêncio imenso é o que me desfaz. E me desfaço em poemas, silêncio de palavras torpes, entre o grito e o calar, apenas um pouco de paz.
E o que me traz à tona é essa agonia entre quatro paredes, essa ausência de janelas, portas estreitas, essa angústia nas mãos, papéis brancos, suspiros e soluços e solavancos, incontáveis giros dos ponteiros, tic-tacs incessantes, areia que escoa rápido, não há outra ampulheta, só essa me cabe, me serve, delimita e me define, água nos pés de um outro mar, galhos balançados pelo vento, e se me arrasta esse tormento para mais um amanhecer, há esse esmorecer, esse padecer e perecer um dia a mais, fenecer de flores ilusórias em meus jardins regados de lagrimas, suor e sangue.
Seja como for, cansaço apenas, amor tão tolo, tão vil e humano, amor profano, mundano, desprovido de grandes coisas pequenas.
Repleto de distâncias, seja como for, amor apenas.

quinta-feira, junho 28, 2007

Cartas e telefonemas

Semanas a fio, ao sair do metrô e subir suas escadas, cortar caminho por dentro do parque, caminhando por entre as árvores, já penso na caixa de correio do prédio. Dia após dia examino a correspondência, a procura de uma carta com aquela letra tão conhecida, meu nome escrito de um lado, do outro o nome dela, nome que se refere a uma pessoa, pessoa que não me sai do pensamento. Não veio nenhuma carta.
Não me aborreço. Ela não tinha dito que seria de outra forma. Mas nada me impede de esperar, e todas as esperanças tem que ser como são, essas coisas tolas que cultivamos no pomar das contingências.
Nos falamos por telefone, quinzenalmente. E semanalmente, dependendo das necessidades. E é caro. Mesmo a vinte e cinco centavos por minuto, fica caro. Mesmo porque tem muitos minutos em uma hora e meia ou duas de conversa. Mas falar ao telefone, ainda que seja muito bom, não é a mesma coisa. Conversa à distância, ouvir a voz e não ver a boca que a emite. Além disso, o telefone é o engodo, faz de conta que aproxima, mas distancia, este lá e cá, estar à mercê da distância, o telefone faz você querer muito mais o que está longe com a ilusão de que está perto. E tem sempre a razão que quer ser rápida na resposta, mais rápida do que o sentimento de ouvir ao longe uma voz familiar que sai da boca de uma mulher que se ama. A razão toma a frente de tantos outros sentimentos e luta contra todas as sensações. E a razão à distância é muito mais danosa, porque não se vale do olhar, do olfato, do tato. Então ela, a razão, impera e coloca todo o sentimento no calabouço do castelo da distância. E não cuida nem da saudade, mistura as palavras, escolhe-as, seleciona-as, faz com que passem todas por seu crivo. Uma pequena parcela do tempo custa vinte e cinco centavos, a razão tem pressa e pensa no amanhã. A razão me consome as palavras, me faz esquecer que eu levaria menos de três segundos para dizer “eu te amo”.
Escrevo cartas. Gosto de escrever cartas. A razão interfere apenas na grafia das palavras, na sintaxe dos períodos. E descuida do sentimento. A razão é burra, fria e insensível. Ainda bem. Gosto de escrever cartas, porque sempre é no silêncio e na solidão, na intimidade que não reconhece distâncias no tempo ou no espaço. E o papel marcado pela tinta tem o poder de levar junto muito do que nem se ousou sonhar dizer, leva uma parte do que se é e do que se sente, leva muito de poesia que paira ali sorrateira, e no distraído ato de escrever se derrama: eu te amo.
A saudade é um pouco de tudo isso, esses passos na escada, esse atalho pelo parque, a busca fiel na caixa de correspondência, essa capacidade de não se aborrecer, e nem de se entregar, essa necessidade de encher folhas e folhas de papel, que vão lacradas e protegidas em sua intimidade num envelope que leva um selo, que ao sair de minhas mãos passa de mãos em mãos a procura de suas mãos, de seus olhos que reconhecerão a letra, que entenderão as palavras, que saberão quem é que fala.
A carta. Eu derramei as palavras que transbordam. Toquei e marquei a tinta o papel que você toca. E sofri o que você lê. Encerrei no envelope toda a saudade exatamente do jeito que ela é, essa dor aguçada pelo avançar das horas na madrugada, esse silêncio e esse vazio no apartamento. Os passos na escada, o olhar por entre árvores do parque, a caixa de correspondência que não me fala de você. E algo em mim que nunca se aborrece e nem desiste de querer saber.
Algo em mim que não me deixa esquecer que todas as cartas dizem eu te amo.
Eu te amo. Noventa centavos por dez páginas que viajam setecentos quilômetros.

sexta-feira, junho 22, 2007

Saudade no devido lugar

Meu espectro foi passear no último fim de semana. O mar continua o mesmo, fiel e leal, roçando a areia sob os meus pés, atirando-se em minha direção desmanchado em espumas brancas, com sua maravilhosa sonata de uma nota só. Eu viajaria para bem mais distante, por mar, mas ainda não sei inventar um cais. O mar sempre me impõe silêncio e respeito, torna-me pequeno, frágil e indefeso. Se meu filho estivesse lá comigo, aí sim, esse grande mar ia ver só.
Uns bebem demais, falam demais, outros cansados, outros ainda arrastam para debaixo de um céu de estrelas brilhantes as mesmas neuroses, trazem-nas na bagagem. Não sei ao certo se tentam recuperar algo que perderam ou talvez algo que ainda nem conquistaram. Felizmente uns trazem violão e criança, que nos lembra sempre que há ainda muito que explorar no mundo, nós não sabemos nada. Desenhos na areia e pombos, o horizonte é um limite para a visão, mas ao mesmo tempo um convite para ir muito mais além. No fim das contas foi muito bom, mas precisamos aprender a nos levar de verdade diante do mar.
Sótão do Carlos é o mais novo link que coloquei aqui. O autor é protagonista de uma história de amor muito bela. Pelo menos inusitada e sem precedentes. Ele era muito mais garoto do que agora e apaixonado por minha irmã, que ainda escolhia o homem ideal, sei lá, procurava entre os sapos algum que virasse príncipe, quem sabe, um homem menos igual a todos os outros. Quando ela terminou com o último namorado, ele, que é nissei, estava no Japão. Mandou-lhe uma carta pedindo-a em namoro já com noivado e casamento. Veio depois uma procuração dele para o pai, para casar-se com minha irmã, ele lá e ela aqui. Casada, ela teve o maior trabalho para entrar naquele país. Entrou, foi trabalhar numa montadora. Estão lá já uns oito anos, têm uma filha, nascida lá, mas na certidão consta filha de estrangeiros no país. Bárbara Victoria diz que ama o Brasil que não conhece. Eles três planejam voltar no final desse ano ou no começo do outro. Sorte que eu não tenho muitos motivos para invejar quem ama à distância e por cartas. Eu sei bem como é isso.
Esses últimos quatro meses demoraram uma eternidade para passar, e eu os senti como se cumprisse uma pena no inferno. Agora estou a um pouco mais de uma semana do tão sonhado mês de julho, férias escolares, assolado por uma inquietante expectativa, uma espécie de angústia preliminar por um futuro tão ali próximo, permeado de contingências: ou ela vem ou ela não vem. Senti todas as saudades do mundo, todas a que podia e as que não podia sentir. Repassei na lembrança cada momento com ela, cada palavra, cada gesto e cada olhar, como que para torná-los eternos. Isso foi bom, porque transformou tudo em presença, de certo modo ela não foi de todo embora, ficou dela um muito aqui comigo. Ao inferno com os rótulos que me poriam agora, dizendo que sou romântico, isso não é ser romântico, isso é amor, e já cansei de dizer que não sei senti-lo de outra forma. Uma voz conhecida ao telefone distante, vestígios dela por toda parte em meu apartamento, em minha vida, em meu ser. E, de repente, a mais completa ausência de medo. Um amor a deslizar num mar, aqui um cais, lá um porto distante, inventando naus e caravelas, nada no mar é distante, só maior do que nós.
Por sentir amor assim, não de outro jeito, lamento que não exista receita, nem manual de procedimentos. Em tantas conversas sobre relacionamentos, tenho a impressão que daqui a pouco as pessoas procurarão por amor como quem preenche uma ficha de emprego, passa por um teste e uma entrevista, depois um período de experiência, com chances de admissão. Senão é a demissão e voltar aos anúncios classificados. Bobagem. Navegar nesse mar tão grande! Nós traçamos a rota, mas não comandamos o vento.
Meu primeiro amor foi à primeira vista, o que era típico de minha época. Então tive que conhecer a moça, ficar amigo dela, desvendar as pontas de seus segredos e preferências, fazer com que gostasse de me ver e de conversar comigo. Na distração dessas sensações excitantes estava plantada a semente da paixão. E tudo isso sem receita, ou manual de instruções. Sendo a pessoa que éramos, apaixonávamos pelo que a outra pessoa era. O resultado era uma estranha e quase perfeita média aritmética de duas paixões, cujo final da equação era amor. Hoje procuram amor de hp em punho, com cálculos e projeções. Não existe nada mais horrível do que um amor previsível, sem o encanto de pequenas surpresas, sem o êxtase de novas descobertas. Lastimavelmente, os que não estão cegos e surdos estão mortos.
Meu espectro trouxe do último passeio uma linda vista do mar, de um horizonte, de um cais e de um porto. De velas enfunadas, de um vento sem controle, de um navegar sem pressa nem ansiedade. Meu espectro trouxe do último passeio um azul de céu que me cobre de tranqüilidade.
E colocou no seu devido lugar toda a saudade.

segunda-feira, junho 04, 2007

Coisas à toa de nada à toa

Nós gostamos de sopa. E a sopa faz parte de nossa história. Na praça da alimentação da faculdade, sempre tomávamos aquelas de copinho, práticas e rápidas. Até um dia eu precisar estrear o meu novo jogo de panelas, que veio inclusive com uma panela de pressão. Já falei tanto desses quase cinco litros de sopa que deixamos só um fundo de panela, talvez um litro ou um pouco menos. Semana passada foi o frio e a proximidade que nos levou a mais uma sopa tomada ali na Av. Ipiranga. Ela é o tipo de amiga que quando nos encontramos não nos perguntamos como vão as coisas, a gente já vai falando delas, como se tudo fosse apenas o próximo capitulo. Nos já sabemos a história, porque fomos nós que a fizemos. Depois tive que agüentar o olhar de ciúmes de outras amigas do trabalho a quem eu disse que ela tinha tornado minha vida melhor naquele dia.
Você é daqueles que não tem uma, pelo menos uma, amiga assim? Então pode continuar a se lamentar em posts darks em blogs idem. Lamentação e tagarelice, até quando não nos livramos disso? Tagarelar e lamentar é matar todo pensamento e em cada pensamento qualquer poesia.
Estamos a planejar mais uma festa. E a impressão que tenho é que os amigos vão ficando antigos e distantes e precisam de festas para se encontrarem. Para aquelas coisas do tipo perguntar como você está, o que está fazendo, como vai a vida. Amigos, esses seres que nunca se entendem, precisam saber que não precisam de festa para se encontrarem, mas sim de um encontro no qual cada vez é uma festa. Nada melhor que um bom papo e uma pizza meia aliche e meia palmito com mussarela, num final de domingo. Sim eu sei, estou lendo Cortázar demais, o sexto livro dele que leio, Todos os Fogos o Fogo, oito magníficos contos, dando idéia de como queria escrever se soubesse escrever. E ver o mundo pela ótica cortazariana tem lá suas vantagens e suas coisas interessantes, e suas desvantagens, embora todas sejam aproveitáveis. Então meti numa roupagem de conto de Cortázar todas as festas que já fizemos, e talvez todas as que ainda vamos fazer. Um novo olhar para as pessoas e as coisas como elas são ou não são, vontade de entender essa realidade, mesmo que pareça sempre absurda. E nunca me surpreende o desfile dos personagens.
O telefonema de quinta me deixou com a sensação de que a conversa foi boa, e ao mesmo tempo difícil. Foi uma grande besteira mandar uma comprida carta lamentando que a saudade era muita e a distância difícil, para ela se colocar tão próxima lembrando que tudo isso já conversamos. Eu tenho sorte com as coisas inusitadas. E, de certa forma, uma propensão para estar sempre em meio a coisas inusitadas. Não bastava somente realizar o sonho de morar sozinho só depois de casado (no caso, com separação), agora tenho uma namorada que mora longe, bem longe, e ter que administrar isso me faz fazer umas besteiras aqui e ali. No fundo, não queria estar apaixonado assim. Mas no limite, não queria estar apaixonado de outra forma. E eu não vivo no fundo, mas sim no limite. Corro o risco de ela ser a mulher da minha vida, para sempre. Mesmo que não fique comigo. Mas se ficar, terei que ser o homem da vida dela. Simples assim. Amor não é outra coisa senão amor. Nós é que ficamos inventando adereços, enfeites aqui e ali, penduricalhos para o amor, contingências. E o amor não parece ser contingente, o amor tem sempre o jeito de ser fulminante, sempre aquilo de inusitado que vem depois das simples paixões.
Volto a pensar nos meus medos mais conhecidos, justamente aqueles que não tenho e nunca tive. Não tenho medo de ficar sozinho, de morar sozinho, de não encontrar uma pessoa e resolver ser apaixonado por todas as pessoas, de olhar para trás e dizer que se pudesse faria tudo de novo. Paira, no horizonte, apenas um velho medo de meus medos desconhecidos.
Outro dia pensei na velhice, que no meu caso já se avizinha. Quem lá vai estar comigo para um chá ou um vinho, um passeio pelo parque, para falar de livros, de poesia e literatura e até mesmo de filosofia, jogar xadrez, para falar de pintura, falar da vida, dos velhos tempos e dos novos, do tempo que se foi e do que vem? Quem vai estar lá comigo para atestar a passagem do tempo? Eu não faço a mínima idéia. E nem preciso fazer.
Peço apenas aos que quiserem isso que não envelheçam muito, porque eu estarei cada vez mais jovem.

quarta-feira, maio 23, 2007

Prosa do labirinto

Persegue-me essa estranha mania de escrever cartas. Um rascunho de poema para hoje à noite: “Em tudo que falo penso tão triste, sentindo tão duro sê-lo...”, o que vem daí não se pode saber, as idéias são cozinhadas num caldeirão no fundo da mente, cento e cinqüenta poemas e nenhum livro. Falando em livro, um passeio na tarde chuvosa do almoço me fez entrar mais uma vez em mais um sebo, mais dois Cortazar para a coleção: “Bestiário”, que li e não tinha, e “Todos os Fogos o Fogo”. A noite cai como uma tempestade de escuridão e faz frio lá fora, e o frio parece que a tudo entristece, ou pelo menos silencia. As pessoas estão sempre a se recolher em si mesmas.
Vou mexer com papéis de desenho. Organizá-los em suas pastas, conforme tamanho e tipo. Toda a criatividade supõe um trabalho material anterior, e não sei que trabalho vem depois, tudo flui rotineiro e impetuoso, dizer as coisas é senti-las antes de dizê-las, para senti-las depois de ditas, tudo novo de novo, os círculos incessantes de tantos pensamentos insistentes.
A solidão no frio sempre parece mais palpável, parece pesar como o ar que se nos corta, sufoca e aflige, joga-nos no chão, deixa-nos como mortos.
Estranhas decisões, não telefonar mais, não escrever, não mandar e-mail, escandalizar a outra pessoa com a auto-indiferença, para que se note a indiferença que lhe causa, sabe-se lá por que motivo, ou a indiferença que se sofre. Nem tudo precisa ter motivo, como se fosse agrilhoado em relação de causa e efeito.
Saber o que fazer com a tristeza não a ameniza e nem a elimina. Torna-a real apenas, torna-a presente, e faz com que faça parte da vida, ao menos de momentos cruciais e inevitáveis.
E quando a arte não se manifesta em inspiração, como ontem foi, tem de haver o trabalho pesado, preparar folhas e folhas de papel, uma certa desordem organizada de tudo que é necessário para pôr para fora o que vem da imaginação, tanto significado tem papéis e rascunhos, pincéis e tintas espalhados pela casa. E houve de sair aquele poema a soar tão estranho quanto começou enquanto mote, em duas partes, prometendo que se alonga. Eu sei o que é isso, sempre me ocorre quando leio Cortázar, as palavras sempre deslocadas no lugar certo, as personagens sempre como pano de fundo de uma realidade à beira do absurdo, como se não fossem assim tão importantes, do mesmo modo que não somos também nada importantes.
Ainda a chuva, ainda essa luta interna por perder-se de caminhos tão conhecidos. Dizer que só é mais uma máscara. O que pode garantir que não seja isso o meu próprio rosto, estupefato por ver-se nesse espelho partido, assustado em não se reconhecer? E pensar que esses sinais se manifestam sorrateiramente, por tudo que sai pelas mãos, vindo não sei de onde, sai das mãos escrevendo, rabiscando, pintando, não pensando, não ligando para nenhuma lógica, razão nenhuma, não se importando com qualquer sentido que faça qualquer coisa, não se dando conta de que estamos a todo tempo inventando o possível dessas realidades que precisamos viver, e buscar outras realidades, verdades, certezas, um rosto no espelho.
Flutuar enquanto anda, quase poder ver através das coisas, quase um estado de ver todo o tempo transcorrer sem as limitações de passado e futuro, tudo de longe, num incompreensível presente. Capacidades nossas humanas tão aquém de tamanha percepção. Estado de esquecimento que qualquer um almejaria, melhor que isso, um estado de alheamento diante de todas as coisas, um nada, vazio, escuridão. E silêncio. Nada que justifique o medo. Nada que justifique não viver. A fuga de todas as fugas, não ter para onde fugir, não ter nem a fuga, nem sua justificação ou necessidade.
Solução possível para o eterno paradoxo, a inexistência da verdade é já uma verdade, a de que qualquer verdade pode não ser verdade, a verdade sendo o que não é pode existir, mas não é o que parece ser.
Manhã fria e chuvosa, até tão tarde ontem à noite e logo cedo hoje de manhã a impressão de que o que há é somente esse labirinto.
Eu já vi esse corredor antes.

segunda-feira, maio 21, 2007

Um monte de coisa tudo junto

Um monte de coisa tudo junto. Assim mesmo que escrevo: uma carta depois de um telefonema, antes disso, no sábado, presente na mudança de uma amiga para o Cento, bem aqui perto do trabalho. Uma alegria indescritível. Meus desenhos no final de semana, pincéis e tintas, finalmente, a leitura de mais um livro do Cortázar, “Os prêmios”, ainda as idéias de Comte-Sponville, um texto do Gonçalo Palácios, e quase li Nietzsche, para uma breve e futura investida contra os Adoradores de Nietzsche, ou Devotos, ou dos bebês-chorões que têm medo do Bicho-Papão de fartos bigodes, ele, sempre ele, Friedrich Wilhelm Nietzsche. Ai que medo! Quanta fé tem esse povo para temer perde-la?
Então do começo, o Bicho-Papão Bigodudo. Costume que tenho de ler alguns blogs de que gosto, e o impulso que não contive de um comentário, uma resposta ao comentário, eu o vilão atacando a presa indefesa, eu o perseguidor, o “ensinador” de coisas fáceis. Penso que um blog aberto a comentários parece um convite a dizer alguma coisa. Se me enganei e ofendi o autor, que ele desconsidere a intromissão primeira e permita essa segunda (e última, se for o caso), somente para esclarecer esse ponto. A minha resposta a resposta ao meu comentário seria mais ou menos essa, que redigi e resolvi manter no meu próprio campo nessa batalha ingênua de fazer de conta que todos temos conteúdo:

A devoção está na escolha do nome: Nietzsche parece tão profundo que não vou descer tanto e tão elevado que nunca vou me elevar tanto. Sou ninguém...
É difícil falar de filosofia, com filósofos. A gente sempre parece arrogante.
Somos todos platônicos? Academicamente platônicos? Tudo tão distante lá em cima e nós diante da impossível e irrealizável ascese.
O amor pode ser difícil, sim. Isso quer dizer que não pode ser fácil?
Ou é um Amor-em-Si tão inatingível? Não poderia existir também o oposto de tudo o que sente sobre o amor?
Uma pessoa boa demais para mim... todas parecem. E isso é tão bom!
Sobre os pensadores, grandes e pequenos, eu diria para sentirmo-nos grandes com os grandes e pequenos com os pequenos. Mas isso poderia parecer mais uma frase arrogante metida a ensinar alguma coisa a alguém, sempre. E eu só queria conversar.
No reino dos sentimentos ilógicos, acaso também não examinei a questão?

Fui buscar, então, no texto de Gonçalo Palácios, a fundamentação excelente para a crítica ao academicismo. Que leiam o livro “Como fazer Filosofia sem Ser Grego, estar Morto ou ser Gênio”. Três anos de estudos de filosofia e uma única vez um professor pediu para abrir um livro, escolher um trecho, um tema e dizer o que pensamos do que estava escrito. O autor era Kant, e o livro, a famigerada e temida “Crítica da Razão Pura”. Escolhi o trecho e disse o que achava. Excelente exercício de pensamento. O professor era o Robinson, a quem ainda não agradeci essa oportunidade inédita. De resto, sempre pediram para expressar o que o filósofo em questão dizia. Papagaios repetidores é o que fomos formados, graduados em comentários de comentaristas de fulano de tal, isso é o que somos. Faço uma exceção ainda à melhor de nossas professoras, a Glória, que sempre soube recortar temas e vários autores e sempre privilegiou o que ela chamava de “problematização” do texto em questão. Glória só existe uma. E ela não tem e nunca teve medo do Bicho-Papão Bigodudo, e nem Devoção.
Sábado, ex-moradora de Poá, atual moradora do Centro, tão perto de tudo. Depois de sua mudança, vindo da direção do Teatro Municipal para a Praça Patriarca, pisando o Viaduto do Chá, lembrei-me de uma noite ter passeado com ela por essa paisagem, da qual ela disse que gostava muito. Agora ela mora ali do lado, pode usufruir dela à vontade. E eu sou um tonto que, apesar de não ter demonstrado, fiquei mais feliz com a felicidade dela, do que com a minha própria. Eu só não sei por que não se desmonta uma cama para subir três andares.
O livro de Cortazar, “Os Prêmios”, várias pessoas ganham numa loteria uma viagem de barco. Alguma coisa pode acontecer, porque o suspense insinua-se em cada linha. Cortazar une a construção excelente dos personagens, numa trama sempre insólita. Leiam o “Jogo da Amarelinha”, “As Armas Secretas”, “Bestiário”, “Prosa do Observatório” e o simpático “História de Cronópios e Famas”. Cortázar é um contista imprescindível.
Acho que ela não vem para as férias. No último telefonema, no domingo, disse isso e me deixou com todas as pulgas atrás da orelha. Algo na resposta inquietou-me. As palavras têm um significado bastante específico aos apaixonados, pena que não seja assim com os filósofos e pretensos filósofos, que sempre buscam o significado exato que as palavras não têm. Ou que teriam se não tivessem o significado que têm. Ela disse que talvez não dê para vir, se ficar de dependência em alguma matéria, tiver que estudar, e tudo o mais. Não foi isso que eu perguntei. Bastava ela dizer que quer muito vir, mas teme problemas que a impeçam. Estudante muito aplicada e disciplinada. Eu fico imaginando como interrompe suas leituras para comer alguma coisa, ir ao banheiro, dormir, tomar banho. Se é que interrompe. Essa é minha birra da filosofia tornada obscura e intangível, precisamos deixar de viver para filosofar, não podemos ser normais, somos seres que pairam num plano inconcebível. Tudo o mais de corriqueiro na vida serve para atrapalhar: viver, ter prazer, amar alguém, sentir saudade, pensar em outra coisa. Então não vou ter nunca essa disciplina. Nunca vou ser filósofo. Gosto de desperdiçar bastante o meu tempo, comigo mesmo. E com alguma coisa em volta. Odeio simplesmente esse temor acadêmico, esse terror "comentariológico", essa absurda ignorância a que nos reduz os mestres e professores doutores em filosofia. Não há nada mais absurdamente besta do que escrever para ninguém entender. Ai que medo! Estamos fadados à miséria do mundo sensível, nunca atingiremos o absoluto do mundo inteligível. Que merda que somos. Que merda fazem de nós.
Enfim, que faltou dizer? Quanto medo temos, de tudo, de nós mesmos! Quão rasteiros somos, como precisamos sempre de um Guru que nos diga Rá, Ba, Tá, Foda-se. Nosso mantra devia ser Ai! Ai! Ai! Ai! O mantra do medo.
Sobre amor e felicidade, essas coisas que não existem, tanto que sempre nos parece preciso inventa-las, assim como inventamos deus. Por medo da escuridão e do nada, nos inventamos sóis, e preenchemos nosso vazio com algo tão mais pobre do que o vazio. (Obrigado, Comte-Sponville, não sou seu devoto, mas você escreve como um cara que toma uma cerveja comigo e tem um papo muito bom).
Platão sabia sobre essa necessidade de inventar as coisas de que precisamos, para sairmos desse "buraco-caverna escuro e vazio”. Inventou um mundo inacessível, para que somente os puros do logos pudessem atingir. E Nietzsche, se não tivesse ficado doente e tivesse comido a Lou Salomé, será que escreveria tão bons aforismos?
Dou minha cara a tapa. Mas nunca ofereço a outra face. Não sou mais cristão.

terça-feira, maio 15, 2007

Ataraxia

Estava agora olhando para as construções do Páteo do Colégio, onde fomos parar naquele nosso passeio no Centro. Da janela do escritório, minha prisão domiciliar, ou melhor dizendo, laboral. Fui dormir ontem tarde, muito tarde. Na cama, no escuro, pensei nos papéis enrolados ao lado da estante. E nos pincéis e tintas guardados no armário. Do lado, a prancheta desarmada. Amanhã à noite vou pintar. Há dias atrás, lendo e lendo muito, tomando notas, percebi que minha criatividade adormeceu. Ontem quis acordá-la. Eu a acordarei hoje à noite. As cores no papel branco, a mente esvaziada de tudo: ataraxia.
Ataraxia. Mesmo antes de conhecer essa palavra, sempre soube buscar uma certa ausência de preocupações. Ser nada diante de tudo em volta.
Coleciono os grandes pintores, livro que vem com o jornal de domingo. Van Gogh, Cézane, Da Vinci, Monet, Goya e Picasso, os seis livros que me perturbam o sono. E coleciono meus próprios desenhos, que vez por outra saem das pastas. Gosto muito desse movimento que agora me possui, esse ir e vir e nunca saber onde se está. Ataraxia, ausência de preocupações, a mente vazia, o nada, nossa essência, buscar o deserto, para nele se encontrar.
O mundo é muito rápido e muito fugaz. Violento. O mundo tem tudo o que não precisamos precisar, labirinto onde nos perdemos. O mundo é barulhento. O silêncio é onde nascem minhas mais importantes inquietações. Tagarelice, preste atenção à sua volta, que tudo é só tagarelice. Ninguém sabe de mim, ninguém sabe de você, ninguém sabe de ninguém. Precisamos aprender o silêncio para aprender a palavra que realmente importa, na hora que importa.
Por trás dos prédios há um céu, há terra embaixo do asfalto, há vida lá fora, lá fora de nós mesmos, há muita vida. Há vida a não ser isso tudo que nos disseram que é vida. Mas não vou arriscar, não é simplesmente ir morar no campo ou na praia, uma casa na montanha, há vida nas veias, correndo e pulsando a despeito de todas as vicissitudes humanas. Não vou arriscar, não é a plenitude de tudo quanto é material, bens de consumo e estados do ser. Há muito mais vida e a vida não pode ser só isso.
Meus passos flutuam pelas ruas, meus olhos devoram pessoas, meu olhar alimenta-se de olhares estranhos. E tão familiares... E nada me é tão familiar. Estranhamente.
Acordei hoje e estou vivo. Escolha minha. Ausência de esperanças e temores: desespero. É bom não crer em nada, nada esperar e nada temer. Falsas todas as crenças e esperanças, infundados todos os temores. Vazio e escuridão, silêncio e solidão: labirinto.
Asas de Ícaro, nem tão perto do sol, nem tão perto do mar, nas alturas. Só o vôo. Voar.
Ausência de preocupações. A vida segue seu curso e não somos donos do vento, o tempo nos precede e nos perpassa. O tempo nos consome devora a tempo de nos consumirmos e sermos devorados. Tudo além não passa de uma noite escura. E silenciosa.
Tudo a tempo, a seu tempo.
Ataraxia.

quinta-feira, maio 10, 2007

O bode na sala

O pobre homem chegou desesperado diante do guru, contando exasperado seu dilema. “Sou muito infeliz, minha mulher não me entende, meus filhos são desonestos e minhas filhas não são virtuosas. Minha família só me visita para brigar comigo, minha vida é um inferno”. Pacientemente, o guru perguntou-lhe se ele tinha um bode. “Um bode? Tenho, mas por que...” “Coloque o bode na sala”, disse-lhe o guru, “e volte daqui um mês”. Depois de um mês volta o homem exasperado: “aquele bode comeu todo o sofá, as cortinas, sujou o tapete, não agüento o cheiro dele mais”. E o guru: “tire o bode da sala!”
Essa piada infame e sem graça ocorreu-me de novo, dia desses, enquanto eu fumava na janela do quarto, observando o parque. Lá adiante pastavam meus bodes, calma e tranqüilamente. De vez em quando vou dar uma volta pelo parque e encontro com eles, encontro sempre amigável, eles me reconhecem, afago-lhes o pelo sujo, como se fossem animais de estimação. Os bodes pastam no parque perto de casa.
Todo santo dia olho a caixa do correio. Nenhuma carta para mim. Olhei ontem, olho hoje e vou olhar amanhã. Não espero nenhuma carta. Acho que espero que me escrevam. Um dia eu juro que levo aquele monte de correspondência que ninguém recolhe, lá para o meu apartamento, separo e coloco debaixo das respectivas portas. Para saber que a caixa está vazia ou para ver uma carta para mim. Espero que me escrevam uma carta.
Eu achava que o desespero era um substantivo que nomeava uma coisa negativa. Comte-Sponville me disse que não. Desesperar é não esperar, e quem não espera não tem o que temer, não tem a expectativa de se frustrar. Filósofos materialistas franceses! Ensinou-me, então, que não é mal viver sem esperança e sem temor. Mas não terminei o livro, quando terminar, conto mais coisa. Estou entre o Desespero e a Beatitude. Brilhante tratado.
Tem um papa aqui do lado do meu trabalho. Peguei um metrô cheio de devotos e padres. E o livro na minha mão. Bem no trecho: “Pascal ateu. Imaginar sua grandeza, liberto de seus penduricalhos! Que mestre teria sido! O desespero tê-lo-ia curado de sua tristeza e de sua ira molestas. Ele teria perdoado aos homens a inexistência de Deus, em vez de torturá-los com seu temor. E a esperança, como uma esponja de vinagre... A aposta é um suplício. Alguém já viu um jogador feliz? A esperança é o mal deles. Os padres são insuportáveis com suas promessas. Por quem nos tomam? Mercadores de esperança, mercadores de ilusões... ‘O contrário de desesperar é crer’, diz Kierkegaard. Pode-se inverter: o contrário de crer é desesperar.” Os devotos e os padres iam descer no Paraíso. Fechei o livro, não dá para ler no metrô lotado, não tem espaço para um livro aberto, quando se está de pé.
Desci na São Bento, com toda a “segurança” do mundo. Para trabalhar e o papa não me ver.
Trinity, obrigado pela música “Vai”. Os bodes passeiam no parque, pastando. Tem uma garrafa de vodka para você na geladeira. E eu consegui escrever um post curto.

quarta-feira, maio 02, 2007

Sem inspiração

Dizer que venho sempre aqui para dizer nada.
O que é o mesmo que mostrar a nulidade da vida de às vezes quase sempre. Minha mesa de trabalho (a de casa, porque a chamo assim) é o retrato do maior desnorteamento a que estou entregue. De um lado uma pilha de livros, do outro uma pilha de papéis, no meio sempre uma prancheta com papéis para uma idéia nova, mesmo as mais furtivas, os papéis para um desenho e os lápis e canetas. Tudo ali, como se a inspiração viesse sempre quando se quisesse, do nada. E a dura descoberta de que a inspiração vem sempre de algo bem dentro de nós. Nosso arcabouço de leituras do mundo e da realidade. Um feriado inteiro e nada veio. Quatro dias em casa e as únicas idéias aproveitáveis foram lavar e secar e passar roupa, ir ao mercado, depois dormir um pouco. Dar um descanso para a mente que parece querer mesmo só isso: descanso.
Olhar em volta e ver que o tempo passou, que envelheci, que meus sonhos ficaram embotados, meus passos erráticos me levaram a estranhos caminhos, até aqui, onde estou diante do nada, nada que sou e nada que construí.
Não sou artista, desenhista ou pintor, não sou poeta, escritor, nem filósofo e nem projeto de filósofo. Sou esse personagem estranho perdido entre papéis e livros.Agora o que fazer?
Ler os livros e acariciar os papéis com as canetas, numa incompreensível teimosia. Falta luz num túnel que também falta. Falta um norte nesse deserto infinito.
Durante toda a vida há essa especialização horrenda, a de não-ser. E não sendo, segue-se querendo ser menos ainda. Haveria férias para esse mundo. Não quero ser bem informado, saber o que anda passando pela TV, o que deu nos jornais, não quero saber nem a previsão para o tempo de amanhã. Será sempre uma grata surpresa passar calor ou frio, tomar chuva. Não dá para acompanhar a programação do mundo, do lado de cá da janela do escritório.
A verdade é que eu odeio trabalhar. Se há quem goste e crê mesmo que isso dignifica o homem, que trabalhe por mim.
Também acho que vivemos um mundo de faz de conta e nele vamos enganando e sendo enganados. Faz de conta que lutamos por um mundo bem melhor. Pegue o seu crachá ali adiante e vai fazer de conta nesse teatro grotesco. Somos todos felizes e esperançosos, teremos nossa recompensa no céu, a vida é bela, tudo vai acabar bem. Façamos isso, então, nesse horrendo faz de conta.
Sabe o que me importa desse mundo, muitas vezes? Nada! O que o papa veio fazer no Brasil? O que fez ou que está fazendo George Bush? Como anda a guerra no oriente médio? Qual o ministério atual do Lula? Como anda a democracia na América Latina? Será que a China vai mesmo dominar o mundo? Qual é a última do nosso glorioso prefeito? Blá Blá Blá!
Eu já vejo toda a realidade de que necessito pelos olhos de terceiros. Quero a ver a de que não necessito, pelos meus próprios olhos. E necessitar dela.
Vivemos a era da imposição de conhecimento e informação. E é por isso é que somos medidos. Não tenho argumentos para criticar isso e, na falta deles, uso da minha mais fina rabugice: enfiem todo esse mundo no cu.
Agora entendo porque Wittgenstein foi viver numa cabana de pescador em Galway, na costa irlandesa, um pouco antes do fim de sua vida.
E onde ele mandaria a gente enfiar o mundo com todo o conhecimento e a informação nele contidas.