quarta-feira, outubro 17, 2007

Pensando coisas...


Pensando coisas é que me perco. Pensasse menos, encontraria uma certa paz. Ainda mais agora que já sei o nome da árvore que enfeita minha janela: Tabebuia pentaphylla, mas podem chamá-la ipê-rosa-el-salvador. Sim, é um ipê, não como os nossos aqui, é mesmo de El Salvador. Os nossos, o também Ipê Rosa, o Branco, o Roxo e o Amarelo (eu vi todas essas árvores, e com flores) são do tipo de dar galhos mais comportados, formam uma bela copa, são bem mais elegantes que o seu primo de El Salvador. Mas eu gosto deste último, com seus galhos não comportados. Dão flores em ramalhetes, quer dizer, várias flores no mesmo lugar. E dão flores enquanto têm as folhas. Mas vocês todos, quando a virem, podem chamar de árvore mesmo, que ela atende de qualquer modo.
O gato trava uma guerra contra os insetos. E ele tem como brinquedo seis bolas de meia, duas bolinhas de plástico, algumas que aparecem, feitas de papel, tem como brinquedo ainda eu e a casa toda. Tudo é dele e tudo é brinquedo. Ele aprendeu a brincar de pega-pega. Gosta de correr de mim e atrás de mim, já demos umas quase trombadas. E sempre me ameaça quando estou descalço e de bermudas, caçando qualquer um dos meus pés. Ele é divertido, mas acho que eu o divirto ainda mais, enquanto me divirto com ele. Mais do que isso, só vendo.
As pessoas no terminal rodoviário são pura ansiedade. Lá estão a esperar alguém que vem de longe num ônibus, ficam espreitando feito gato cada ônibus que chega. E se ô ônibus é da cidade de que vem a pessoa esperada, ficam espreitando cada um saindo pela porta. E as pessoas que descem já procuram alguém conhecido no meio dos muitos ansiosos rostos. Quando encontram, já se cumprimentam pelo olhar e por um sorriso que eu diria que simplesmente ou escapa ou muito dificilmente pode ser contido. Mas essa é a hora da chegada.
A hora da despedida tem as mesmas coisas de modos diferentes. É um outro tipo de ansiedade. A antecipação da saudade certa que vai pairar entre quem parte e quem fica. Inevitável. Querem falar de tudo um ao outro, ou uns aos outros, nos minutos que antecedem a separação que se dará de fato. Outros ficam abraçados, incapazes de decidir se quem fica quer ir ou se quem vai quer ficar. Ou se pegam nas mãos, beijam-se, fazem pequenas carícias, um afago no cabelo, um correr dos dedos pelo rosto. Olhares que dizem adeus e querem dizer volte logo. E os ônibus são monstros gigantes a engolir e carregar para longe quem a gente ama.
Estive ontem na rodoviária. Sempre olho com hostilidade para o monstro gigante. Ela entrou num desses e se foi. Que pessoa de rodoviária ela é? Que pessoa ela é da minha vida? De tanto olhar, não pude deixar de perceber. Chegando, ao descer do ônibus, ela olha direto para o bagageiro do mesmo, como se sua bagagem fosse lhe pular no colo feito um animal de estimação. Sempre tem gente na frente a pegar suas malas. Ela espera sem olhar para ver se chegou quem veio esperá-la. Estou ali, já a vi e ela não me vê.
E na hora de partir, ela esgota os assuntos, mais preocupada em dar o bilhete ao motorista do que se entregar ao ritual da despedida. Não sabe se quer apertar as mãos, abraçar, beijar, e de novo beijar, abraçar e pegar nas mãos. É muito desajeitada com gestos íntimos em público ou com despedidas, não sei qual das duas coisas. Então, ela simplesmente entra e vai.
Então foi assim que ela se foi. Assim termina o romance que na vida eu escrevia, que tinha de tudo para ser tão mais belo e insistiu para ser apenas belo o suficiente. E no tempo certo, não muito além da conta.
Não contente em ficar encarando o monstro gigante que a levou para longe, achei de ficar encarando todos os outros monstros gigantes a fechar as suas portas e partir, levando tanta gente e suas histórias para bem longe. Separando as pessoas.
Depois disso, era imprescindível que eu fumasse dois ou três cigarros, para configurar a saudade para agüentar mais um tempo, com a nítida certeza de que esse tempo vai ser mais longo do que eu possa imaginar. Esse tempo pode ser para sempre.
Se eu tivesse na vida mais despedidas, faria a alegria e a fortuna dos livreiros. Saí de lá com mais um livro para ler no trem a caminho de volta para casa. E para ler e reler a vida toda, porque é um bom livro de um bom autor tratando de um bom assunto. Tudo parece tão bom.
Cheguei em casa com uma sensação que não é muito fácil de descrever, sei apenas que não é simplesmente alívio e muito menos é resignação. Mas é como se tivessem tirado a adaga fincada bem no meio do meu peito. Tenho que correr atrás do gato. Ele vai querer correr atrás de mim. Não sei o que ele pensa quando me arranca risadas no meio da noite. Mas acho que ele se diverte bastante.
PS.: Claro que o ipê da foto não é o que está em frente a minha janela. É apenas imagem para quem não conhece. Também acho que o ipê da foto é o brasileiro, não o de El Salvador, que não perde as folhas quando dá flores. Ah! Preciso mesmo de uma máquina digital, para poder mostrar o ipê da minha janela. Providenciarei.

quarta-feira, outubro 10, 2007

Uma aventura

Eu preparo uma aventura. Quer dizer, eu me preparo atirar-me a uma aventura. E olho para trás a procura de aventuras do passado, quando foi a última? Tirando as de caráter pueril, ou mais próprias da adolescência, que são só aventuras porque parecem aventuras naquela idade, tirando isso, desde que me entendo por gente, essa coisa adulta cheia de peso na bagagem, às vezes até em volta da cintura, essa coisa cheia de limites e limitações, essa coisa cheia de ponderações, que não se sabe se dono ou escravo da própria razão, desde que virei isso que sou, não sou capaz de me lembrar de mais nenhuma aventura de verdade.
A vida que querem que tenhamos, ou que permitem que tenhamos, nos enquadra da forma que quer e no que quer, dita o tamanho de nossos passos, a extensão de nossas ambições, os limites de nossas possibilidades. Quem dita isso? Sei lá, não vou tecer nenhum tratado sociológico ou antropológico, e muito menos filosófico, a essa altura dos acontecimentos. Mas tenho todo o direito do mundo de tergiversar sobre o que quero e o que não quero, à vontade. Minha vontade, só minha, vontade minha.
Mas também deixemos dessas considerações rebeldes desprovidas de causas plausíveis. A realidade é que ser o que queremos e tudo o mais nessa porcaria de vida tem um preço, e muitas vezes a gente vende a alma para pagar esse preço. Ou às vezes vamos entregando tudo em intermináveis prestações, pagando o preço em doses homeopáticas, com juros e correção monetária, sempre com correção no nosso saldo devedor. Não estou falando de dívidas bancárias, que também tenho, como podem pensar. Estou falando de nossa dívida existencial, para respirar e existir pague! E pague bem caro. Não tem dinheiro? Então pague indiretamente, consumindo tudo o que lhe oferecem para você ser algo mais do que é, (puxa vida!), essa porcaria que não figuraria bem num horário global, nem no núcleo pobre da pior novela. Esse algo que é que não fotografaria bem suas caras numa certa revista, que não seria bem visto passeando em Beverly Hills ou transitando distraidamente em Hollywood. Ora bolas!
Declaro-me, desde já, um inadimplente.
Mas não era disso que eu estava falando. Eu falava de uma certa aventura. Será que queria mesmo falar? Agora é tarde, meus dedos correm muito rápido pelo teclado e falam por mim. Eu falava de uma aventura de amor. Desde fevereiro que não a vejo e ainda acho que ela é minha namorada. Parece não ser mais, acho que terminamos por telefone (por telefone?). Não! Não posso aceitar isso. Se pelo menos fosse por carta, ainda ia.
Às vésperas desse feriado, deu-me de me dar uma idéia louca e absurda, inteiramente pueril, de fazer uma viagem de setecentos quilômetros só para ver a pessoa amada. E de ônibus. Tivesse trem para lá seria muito mais emocionante, além de romântico, é claro. Mas não há. Parece que não há. Ônibus mesmo, e estrada, esses meus dois velhos conhecidos. Já fiz virtualmente a bagagem, vou levar bastante papel, lapiseira e caneta. Roupas? Não sei se vou precisar. Vou num pé e volto n’outro. Sem hospedagem. Vim aqui não para conhecer essa fabulosa cidade, mas só para ver você. E só ver mesmo, se for o caso. Como se fosse a última coisa que tivesse para fazer na vida. Nem que seja para ouvir ao vivo e em cores que está tudo terminado. Mas vou ver você. O que mais vou conversar? Não sei. Não dá para ficar fazendo ensaios com essas coisas. Levarei todas as palavras que tenho não na bagagem de mão, mas em outra minha bagagem, essa que acho que trago desde sempre, desde que comecei acumular. Levarei esses meus ultrapassados sentimentos. Como não sei rezar e nem cantar, levarei meu olhar, meu olhar. Acho que deveria levar também flores, só para parecer ainda mais antiquado. Levarei então o presente de aniversário atrasado, isso, com um mês de atraso, mas tudo bem, será um outro livro, de longe o presente que mais gosto de dar e é muito bom quando encontro alguém que gosta de ganhar exatamente esse presente. Que mais? Que mais? Não sei. Nem sei mais.
Mais perguntas? Quais são as minhas verdadeiras intenções? Bem, eu só quero ver a moça. Preciso parar de sonhar com aqueles lábios espalhados por toda parte. Ou, quem sabe, ter motivos para sonhar com eles ainda mais. Aventura, cada um tem a que merece.

segunda-feira, outubro 08, 2007

Talvez sim! Talvez não! Talvez...

“Aquele que trabalha com suas mãos é um operário, aquele que trabalha com suas mãos e sua cabeça é um artesão, aquele que trabalha com suas mãos, sua cabeça e seu coração é um artista”

Talvez isso seja só um poema e nada mais. Talvez não. Talvez...

Talvez eu seja rancoroso, desde que haja um bom significado para a palavra. Talvez eu saiba amar e as pessoas não saibam ser amadas, talvez o contrário disso. Talvez nada disso, talvez eu precise aprender a não amar tanto, ou achar que amo tanto, ou talvez encontrar um outro jeito de amar. Talvez eu tenha pelas pessoas muita consideração. Consideração demais e talvez me importe muito com isso. Talvez eu nutra uma estranha esperança com relação às pessoas. Uma esperança de todo inútil, frágil e sem sentido. Talvez...
Talvez eu precise sonhar menos e agir mais. Ou talvez agir o suficiente para poder sonhar o quanto quiser, sonhar à vontade. Talvez a realidade não tenha para mim nenhum significado. Ou talvez tenha significado demais. Talvez eu seja mais racional, racional ao extremo, mais racional do que eu possa imaginar. Talvez seja uma grande e tola ilusão que eu seja assim todo sentimentos. Talvez eu me engane muito com as paixões, talvez achando que delas me alimento até me fartar. Talvez essa fome de tudo ser outra coisa um tanto melhor não seja fome, mas algo que não tem nome. Talvez...
Talvez eu tenha pela vida mais desprezo do que ouso ser capaz de perceber, talvez muito mais do que sou capaz de ousar admitir. Talvez esse asco, esse olhar de viés, talvez esse dar de ombros, essa ausência de um esperado desespero, essa mais completa falta de ansiedade, essa nulidade de quaisquer ambições, talvez isso tudo seja meu melhor jogo de cena posto em meu melhor personagem, que sou um “eu” nenhum de nenhum lado dos espelhos em que me olho. E talvez isso não resista a um olhar atento no espelho. Talvez...
Talvez seja melhor eu estar sozinho, sempre, talvez. Talvez seja bom não ter aonde ir, para onde voltar, não ter onde ficar. Talvez seja melhor sempre recomeçar tudo do zero, talvez esquecer tudo o que quero, deixar de lado tudo quanto espero. Talvez o melhor de tudo seja não esperar nada. Talvez...
Talvez seja bom não desperdiçar esses olhares, não lidar talvez tão bem assim com as palavras e procurar talvez lidar com os números. Talvez eu deva fazer mais silêncio, talvez calar mais sobre tudo aqui dentro, para talvez sofrer menos, ou não, talvez , sofrer logo tudo de uma vez. Talvez...
Talvez seja tarde, tão tarde talvez para tudo na vida. Talvez eu deva somente respirar essas tardes que avançam na noite, essas noites que desabam sobre mim, impiedosas e naturais, e se tornam madrugadas torturantes. Talvez eu deva sorver mais as noites de sábado e as tardes de domingo como coisas só minhas. Talvez dormir mais, viver menos, pensar menos. Talvez menos amor à sabedoria, em tudo o que é, afinal, tão muito mais simples do que podemos ver. Talvez um outro amanhecer de luzes assim tão estranhas, talvez um amanhã que me saia das entranhas, e talvez essa manhã tão supostamente impossível traga quase por um mero acaso algo de novo. E talvez a mim reste apenas esperar. Talvez...
Talvez eu deva dar graças por estar vivo, e andar sobre as duas pernas, conhecer todos os caminhos, ter rumo e direção. Talvez não. Talvez eu deva ser grato pelo alimento, pela água, pelo ar e pelo veneno. Talvez eu deva ser muito agradecido por tudo que afinal de contas eu tenho que arrancar do nada para mim mesmo. Talvez eu deva louvar a vida e todas as suas portas, mesmo que sejam do céu ou do inferno, todas as portas me são batidas na cara e há sempre de todos estarem dentro e eu fora, fora de todas as lógicas, de todas as histórias, de todas as lembranças, fora de todas as casas, de todos os olhares e sorrisos, fora de tudo que é afinal tão simples e corriqueiro, esse sentimento exato de que a vida cabe numa equação matemática. Talvez eu deva seguir as estradas certas, trilhar os bons caminhos, ter uma sina, crer no destino, fazer parte de algum horrendo plano divino. Talvez não. Talvez eu deva me perder mais do que me perco, perder-me ainda mais e mais, de uma vez por todas, para nunca mais me encontrar, para talvez ser menos, ter menos, desejar menos, merecer menos. E me contentar talvez por estar sempre olhando para o nada, o nada da morte, essa angústia de quem vive, o nada da solidão, esse fim de quem ama. Talvez toda essa dor tenha um sentido e um significado, talvez tenha mesmo, mesmo que eu nunca consiga desvendar, talvez tenha. Talvez...
Talvez me falte sal ou açúcar, talvez um sabor de qualquer coisa. Algum sabor. Talvez em tudo tivesse que ter um outro tempero, ou algum tempero, mesmo que fosse uma pitada de raiva, um pouco que fosse de amor-próprio, um grãozinho de ódio ou de desespero, talvez devesse ter usado alguma mágoa a meu favor, alguma doidice ao meu dispor. Talvez eu tivesse que ter gritado, xingado, ter dado todos os possíveis murros em ponta de faca. Talvez ter dito desde o início e imediatamente que não quero mais. Talvez mais montanhas para escalar, mais ladeiras nos caminhos, mais becos escuros, e terrenos baldios, talvez mais poços sem fundo onde me afundar, talvez um tanto mais de emoções baratas, talvez um coração mais duro e uma mente menos displicente. Ou talvez não, apenas minhas lágrimas secretas em minhas noites vazias por simplesmente tudo e em tudo meu mais profundo silêncio, talvez me arrepender por todas as palavras, por cada frase dita, por cada pensamento libertado sem nenhum mistério. Talvez...
Talvez eu devesse ter mentido, ou talvez ocultado ao menos minhas reles impressões sobre qualquer coisa que pudesse parecer verdade. Talvez eu devesse ter aprendido onde por os pés, onde por as mãos, talvez aprendido para onde ter dirigido o olhar, ou talvez devesse ter fechado os olhos a tudo, talvez menos luz, menos lucidez. Talvez...
Talvez eu devesse ir atrás de você, ter ido atrás de tudo o que quero. Talvez eu devesse tentar tornar fáceis as coisas difíceis, mesmo sabendo que é muito difícil tornar fácil as coisas difíceis. Ou talvez eu torne sempre difícil as coisas fáceis e, desistindo delas enquanto difíceis, essas coisas permaneçam sendo o que realmente são, fáceis. Talvez muito mais fáceis do que percebemos. Talvez jogos de palavras e de idéias, talvez apenas jogos, nada mais. Ou talvez tentar outro caminho, outros desertos, outros portos distantes, talvez eu devesse ter prestado atenção em tantos outros pensamentos que se dão muito além do cais. Talvez um mar aberto, uma ilha perdida, um naufrágio talvez, não ter tantos tesouros escondidos. Talvez eu devesse construir com gestos todas as histórias, todos os destinos, talvez um desatino, uma coisa nunca antes pensada por se fazer, apenas por fazer, ação e simplesmente isso, ação talvez. Talvez...
Talvez eu devesse deixar que vivesse mesmo uma vida melhor do que a vida que posso lhe dar. Talvez fosse de fato necessário livrar você de todo peso, de toda a incerteza trazida pelo tempo, talvez afastar você dessas coisas todas tão complicadas. Talvez complicadas. Talvez não. Talvez eu soubesse de toda a distância mesmo antes de a distância se fazer concreta, palpável e presente, e talvez eu devesse viver somente todas as distâncias, nunca estar por perto, nunca desperto, e não cultivar talvez qualquer proximidade com o que quer que seja. Talvez...
Talvez tudo seja apenas isto: essa tristeza e essa solidão, esse imenso silêncio nas horas mais erradas. E talvez esses medos todos nas horas mais acertadas. Talvez tivesse que ter aceitado a efemeridade desses momentos que às vezes parecem tão eternos. Ou talvez percebido que há eternidade em momentos apenas efêmeros. Talvez só isso. Talvez...
Talvez eu devesse ter olhado as estrelas mais como astrônomo do que como poeta. Talvez tivesse sido melhor ter olhado a vida como espectador mais do que como amante. E talvez sentido o amor mais como objeto do que como sujeito. Talvez fosse melhor não querer nada tão perfeito, talvez nada ter feito, talvez nada revelado, nada escrito, nada pensado, nada dito. Talvez nada. Talvez...
Talvez ter olhado para tudo mais como observador do que como amante, esforçar-me talvez para não amar e não ser amado, ter economizado sentimentos tão caros e tão raros. Talvez ter todo o prazer como coisa corriqueira do corpo, talvez só isso, como se fosse possível, talvez tornar possível, como algo somente do corpo muito mais do que como alguma coisa d’alguma alma. Talvez...
Talvez eu devesse apagar toda a história, destruir talvez todas as memórias, viver de esquecimentos, talvez, rasgar todos os papéis acumulados, quebrar todos os instrumentos que me tornam outra coisa, talvez desativar todos os mecanismos da imaginação. Talvez encarar tudo o que se derrama mais como tolices do que como inspiração. Talvez não inspirar, não respirar, talvez não mais caminhar, não ter talvez tanto empenho e arte em lembrar e relembrar e lembrar tudo outra vez. Talvez...
Talvez eu devesse ter dito tudo isso e muito mais. Talvez não ter dito nada, nunca mais, ou talvez nunca ter dito. Entre o tudo e o nada, o dito e o não dito, uma existência que se resume em grandes fracassos diante de pequenos triunfos, esse poço que somos de emoções baratas, talvez me esvaziar mesmo dessas águas. Talvez ter arrancado tudo pela raiz, talvez não ter desejado tudo quase por um triz. Talvez fosse melhor eu não ter querido tudo como quis. Talvez não ter me iludido poder ser feliz, porque a felicidade é melhor não saber se existe do que saber que não se tem. Talvez...
Talvez haja um outro modo de ver tudo, de sentir tudo, de saber tudo, tudo o que é necessário, nada além, nada a mais, nada mais, só o necessário. Talvez haja um outro olhar, um outro mar, algum outro cais, talvez haja mesmo essa coisa de nunca mais. Talvez...
Talvez eu devesse escolher viver sem você, e muitas outras coisas que não quero. Talvez não escolher entre o querer e o poder, talvez nem ao menos poder. Talvez o querer seja só mais alguma coisa com a qual a gente se engane, talvez haja uma fronteira tão tênue entre o que se é e o que não se pode ser. Talvez...
Talvez haja alguma grande coisa nessas coisas tão pequenas, talvez o demônio tenha criado a luz e deus as trevas, talvez o mundo não seja pequeno e nem o universo infinito, e nem seja a vida um fato consumado, talvez haja em meio a todo esse terror algo talvez muito belo. Talvez belo. Talvez...
Talvez haja ainda tempo, tempo para mais um poema, um monte de palavras tolas e inúteis lançadas ao vento, a se perderem nos quatro cantos, talvez um pouco mais de tempo para essas coisas lindas que jamais existirão. Talvez sim. Talvez não. Talvez...
E talvez isso seja só um poema e nada mais. Talvez não.
Talvez eu viva para brincar em outros quintais. Talvez não.
Talvez...
Talvez eu ame você para sempre. Talvez eu esqueça todo o amor ao virar a esquina, talvez não haja mais essas esquinas por que passei, talvez eu desista mesmo de amar, nem sei, talvez sei, se é que sei que não sei que sei. Talvez haja mais o que pensar e fazer, talvez vida muito mais além dessas janelas, talvez haja vida lá fora, lá fora no mundo, fora do mundo, talvez fora de tudo, talvez fora de mim. Talvez...
Talvez tudo isso termine, talvez derramar tudo de uma vez seja sofrer toda essa dor inútil e sem fim ainda uma outra vez. E talvez não aprendemos nada ainda sobre o fim, do fim e com o fim. Fim talvez de tudo. Talvez...
Talvez eu alimente esperanças em relação a todas as coisas, e nem dê com isso a devida atenção, talvez eu nunca esteja atento com o fato de que o que nos mata ou faz sofrer é qualquer esperança. Talvez então eu possa estar vazio, esvaziar o corpo das dores, a alma dos amores. Ou talvez esvaziar meus olhos das cores, das paisagens, talvez não haja mais o perfume de flores, talvez esvaziar minhas mãos dos gestos , meus ouvidos das mais belas sinfonias, talvez eu possa esvaziar todos os meus dias, esvaziar a mente das lembranças, esquecer os gostos e em minha língua matar as palavras, conter os pensamentos que me invadem, expulsar os demônios, matar os anjos, correr com os santos para fora do templo, sem pressa e sem preces, talvez eu possa destruir todos os deuses, todos os ritos, todos os mitos. Talvez...
E, vazio de mim, e em mim, vazio por mim, talvez isso não passe mesmo de palavras ao vento, poemas para o esquecimento, e nada mais. Talvez...
Talvez essa tristeza seja somente medo, medo da solidão. E talvez essa solidão seja só uma tristeza que nasce sempre de uma certeza. Ou talvez nem seja medo, talvez um arremedo dele, um pequeno engano, talvez uma impressão apenas, uma impressão de medo que mais é uma coragem velada de tocar em frente com o que vem e com o que se tem, e como vem, quando vem, talvez um desejo reprimido e escondido de estar a olhar em volta e ficar satisfeito em não encontrar ninguém. Talvez ninguém. Talvez...
Talvez abandonar tudo, deixar meus passos pelos caminhos, meus rastros em nenhuma estrada, talvez cessar de lançar palavras ao vento, colher as tempestades, não permitir nunca mais nem lágrimas nem lamentos, aceitar o mal como mais possível e real do que o bem que imagino espalhar-se por toda a parte. Talvez ser capaz de negligenciar quaisquer sentimentos acerca de absolutamente tudo, tudo talvez absolutamente sem o menor sentido. Talvez sem sentido. Talvez...
E talvez procurar não me arrepender de tudo aquilo que não fiz. Talvez procurar fazer todas as coisas, sem medo algum de me arrepender. Talvez nunca o arrependimento. Talvez!

(05/10/2007 – 17:45 * 06/10/2007 – 14:42 * 07/10/2007 – 15:18 * 08/10/2007 – 09:20)

terça-feira, outubro 02, 2007

(Des)arrumação

Depois da chegada e devida arrumação da nova estante, sobrando tanto espaço na velha, e depois da chegada e inevitável desarrumação do novo habitante felino, tudo o que faço é arrumar e arrumar, organizar as coisas, como se arrumar tudo em volta e fora de mim arrumasse tudo dentro de mim.
Depois da glória efêmera de mais uma premiação poética, ponho-me a pensar que sou poeta coisa nenhuma. De volta ao ostracismo e ao esquecimento, resta-me arrumar meus muitos papéis, depois da arrumação dos livros. E lá vou arrumando esses tais papéis, muitos textos, alguns lidos, outros não, apenas colecionados. Etiquetando: poesia, literatura e filosofia. Escapam outros gêneros, história, ciência e alguns que são classificados mais no geral com uma etiqueta grafada diversos.
Tenho que sair rapidamente para o meu almoço, pegar o livro que deixei encomendado ontem. Bem que vai ser útil para um projeto de tese de mestrado, que parece se avizinhar nas cercanias de minha criatividade. Eu sei que vou escolher o tema mais difícil de ser abordado. Eu sou desse jeito, um sujeito difícil. Mestrado? Ora, o que estou dizendo?
Eu escrevia com pressa, mas perdi toda a pressa, uma questão de ritmo é sempre minha questão. Sinto-me como se estivesse sentado numa pedra bem no meio do deserto, para onde quer que eu olhe, nada.
Eu estava agora a pouco na livraria, aguardando o livro encomendado. Tantos livros são escritos. Eu que comprei um tanto desses que foram escritos, agora quero escrever um. Quero? Não sei se quero.
O Centro da cidade, tantas pessoas! De repente, um sentimento de estranhamento: o que são as pessoas? Ao que me parece, esse poço de emoções baratas. Eu quero ser esvaziado dessas águas. As pessoas e seus rostos, seus olhares, seus esgares, fico cá pensando na misantropia de minha grande amiga, talvez também esteja se perguntando o que são as pessoas. Ou talvez não. Talvez uma tristeza na qual eu não tenha prestado atenção. Talvez esteja ferida de uma batalha que trava sozinha, sem que eu possa fazer qualquer coisa. Sinto sua falta, mas parece que estamos vivendo nossos momentos em que algo mais nos falta. Isso mesmo. Aprendendo sobre o que exatamente nos faz falta. Ou quem sabe aprendendo a não fazer falta para nada e ninguém desse mundo. Uma arrumação, provavelmente, da bagunça interior. Um tal de um “sentimento de não estar de todo”.
Pois foi chafurdando na minha bagunça de papéis que encontrei vários poemas, que fui lendo quase com uma devoção extraordinária. Prestando atenção em como os poetas de verdade usam as palavras, tantas palavras mais do que as que eu uso, e fazem suas tão belas construções, pintando os sentimentos das mais variadas cores. E fiquei dessa vez me perguntando por que e para quê. Por que temos que ter tanto para dizer, o tempo todo, porque essa tagarelice escrita e rimada, bem construída? Melhor que ficássemos todos calados. Melhor que desistíssemos de achar que podemos querer mudar ou melhorar o mundo.
Ainda olho a caixa de correspondência, o telefone não toca e nem eu toco nele. Um e-mail eu não consegui responder. Parece que finalmente não tenho mais nada a dizer. Mais nada. Meu silêncio me atormenta, o vazio que fica me assombra. Não sei mais o que fazer das coisas do coração. Não sei mais. Silenciar. Entregar-se de uma vez por todas às lembranças de tudo que, afinal de contas, passou e, passando, acabou. E que não parece querer recomeçar.
Quanto ao coração, melhor seria que nunca tivesse amado, do que a possibilidade de um dia não amar mais. Do mesmo modo, melhor era nunca ter sido amado do que não ser mais amado. Esses instantes em nossas vidas tão impossíveis de serem eternos. E esse gosto por eternidade que temos por mera recaída do viver. Não! O tempo nem apaga e nem cura nada. Muito menos o tempo vence. O tempo apenas devora. A imagem mitológica, na minha humilde opinião, é a que ainda tem mais peso.
Então vamos seguindo em frente, sempre com um pedaço a menos do que somos, devorado pela voracidade do tempo. Errônea impressão de que somos mais enquanto o tempo flui. Vamos no fluir do tempo sendo cada vez menos, até sermos nada, nosso fim último e mais provável. Tudo isso sem grandes inquietações existenciais. Verdade!
Diria-nos Horácio, nessa hora tenebrosa: carpe diem.


Última semana de setembro

Semana cheia essa que passou, a última do mês de setembro, afinal um mês qualquer, com suas coisas ruins e boas, cada uma delas na justa medida. Cheia de emoções corriqueiras, nem grandes nem pequenas, médias talvez, uns tantos minutos de fama que me tiraram do ostracismo, para me devolver a ele com a mesma rapidez e desenvoltura. O que fazer depois de conquistar Tróia? Querer conquistar Roma. E o que fazer depois de conquistar Helena? Querer o amor da própria Afrodite. Toda megalomania, ainda que só desejada, sonhada, tem que ser controlada, colocada nos limites do possível. Será mesmo que tem?
Na segunda não fui ao trabalho. Recebi um telefonema da universidade, avisando que dois poemas dos três que coloquei no concurso foram classificados. Classificados Beijo e Errando Poesia, fiquei matutando por que é que As Horas ficou de fora. Talvez tenham sido poucos concorrentes. Disseram que não, que foram apresentados duzentos poemas, então dos treze classificados dois eram meus. Desci imediatamente o chicote na megalomania. Calma lá com o andor.
Mas também me convidaram para ir ao estúdio de rádio da universidade, para gravar as minhas poesias, que na quarta-feira seriam colocadas no site da universidade. Fui lá e gravei. A professora responsável disse que estava ótimo, logo de primeira leitura, o operador da mesa de som, no entanto, pediu-me para repetir um ou dois trechos. Depois fui conferir o resultado no site e odiei a minha voz de taquara rachada, minhas poesias lidas sem a devida entonação e não passando a emoção adequada. Autocrítica inevitável! Eu bem que tinha dito que preferia as poesias lidas na voz do Paulo Autran. Não! Eu não sou nada bobo.
Na quarta-feira, estavam todas as poesias no site. Deu um frio na espinha, achei três ou quatro muito bons e eles não eram meus. Comecei a ensaiar saber perder, afinal de contas, não se pode ganhar sempre. E também nunca é possível agradar a gregos e troianos, o que se dirá também dos romanos, que achei de colocar na peleja. E aquela minha voz de taquara rachada. Tudo bem, não sou locutor de rádio, mas sou um reles poeta.
Enquanto o resultado não vem, vamos ao simposio. Nesta mesma quarta ouviu-se sobre Nietzsche, Para muito além do tédio. Os expositores foram competentes no que prepararam. Mas cá no ouvido doeu um pouco a história de trabalho contra o tédio e uma outra história sobre ócio produtivo. Talvez eu deva escrever algo sobre como conviver com o que achamos que é tédio, embora eu concorde que ele exista, prefiro ele a um monte de coisa por aí. Quanto ao ócio, taxa-lo de produtivo, ou querer que o seja, é transformar o ócio em algo que ele não é. Ócio é ócio e pronto. Se estiver a produzir alguma coisa, por simples e pequena que seja, já não tenho mais ócio. Preciso pensar melhor nisso.
Valeu esse dia para depois da palestra, a caminho do metrô, achar aquele que seria meu futuro gato de estimação. Quer dizer, não fui eu quem o achou, minha grande amiga o achou por mim. Levamos ele para a casa dos gatos, onde já há sete residentes e pelo menos uns cinco visitantes nos telhados vizinhos. Hospedou-se lá por essa noite ao menos, para a decisão de quem ficaria com ele, Trinity ou eu. Eu ainda acho que ela planejou tudo direitinho, porque depois poderá se ver que quem ficou com ele fui eu.
Na quinta-feira perdi grande parte da palestra, sobre o tempo, porque fiquei perdendo meu tempo aqui no Centro da cidade, noite quente, cerveja gelada no copo. Mas foi o dia de decidir levar o gato. Lá fomos nós dar uma nova moradia para esse gato. Agora com nome: Logan. Pois é, por algum tempo, Trinity carrega nas costas uma marca de suas garras, quando tentou fugir. Fugir talvez não, tentou voltar para a rua. E ele foi para casa na caixa de transporte, no metrô, e nem sabíamos se isso era permitido ou não.
Sexta-feira, dia de trabalho e final do concurso de poesia. Eu preocupado com o Logan sozinho em casa. Pronto! Agora eu tenho um gato. Sempre me dá um nervoso não sei porque nessas horas de resultados. Se envolvesse sorte, tudo bem, porque sei que não tenho sorte, então qualquer um ganharia. Tivemos que ler os poemas e eu subi ao palco para ler logo os dois. Tive que caprichar dessa vez na entonação e na emoção da leitura, afinal, pela primeira vez nesses concursos, minha filha estava lá prestigiando. Terminadas as leituras, aqueles trinta ou quarenta minutos de coral, musica para alegrar o ambiente. Eles retornam logo depois com o resultado. Deram-me o segundo lugar. Quer dizer, premiaram-me pela terceira vez consecutiva. Ainda tenho que ouvir aqui dos amigos do trabalho que eu não ganhei nada, perdi o primeiro lugar. Primeiro lugar? Que tolice imensa, penso eu, sem dizer nada, com minha costumeira modéstia. A questão é que começo a ficar preocupado, porque sei o que me leva a escrever poesias, e sei também em que estado de espírito as escrevo. Sempre coloquei nesse concurso as três a que tenho direito. Em 2005 deram-me o terceiro lugar, o primeiro lugar em 2006 e agora o segundo. Ano passado classifiquei duas em dez e este ano duas em treze, dizem que essas treze selecionadas de duzentas. Isso me preocupa bastante. Se as pessoas gostam do que escrevo, tenho que continuar a escrever. Nada de pretensões literárias e monetárias, ao menos por ora, que sou perito em não ganhar dinheiro. Mas é incrível ver alguma coisa dar certo nesse universo de coisas tortas e desengonçadas, mal ajambradas que tem sido a vida.
Logan estava vivo na sexta-feira, depois de ficar o dia inteiro sozinho. Deve ter ficado dormindo. Comportou-se bem na festinha que fizemos para ele, comendo somente sua ração e não querendo nosso macarrão com arroz e fritada de ovos. Experimentou o colo de todo mundo, brincou e fez gracinhas. Gato atrevido e exibido, loiro de olhos claros, pensa que é o Brad Pitt.
No sábado, tendo eu dormido até quase meio-dia, tive que ter com ele uma conversa séria sobre como as coisas funcionam em casa. A caneta se mexendo sobre o papel não é brinquedo, mesa não é cama quando tem comida em cima, eu não como a comida dele e ele não come a minha. Eu recolho as fezes dele e ele não vai precisar recolher a minha. Tudo bem que dividamos a poltrona, ela é suficientemente grande para nós dois, mas não serve para afiar as garras, assim como não serve também as costas de minhas amigas.
Domingo teve mais visita para o gato. Três dias em casa e ele já recebe para ele mais visitas do que eu. Tenho que insistir sempre naquela história de posição na cadeia alimentar, mas ele não parece gostar dessa história.
Ontem tive que acabar de arrumar toda a minha papelada depois da estante nova na sala e uma redistribuição dos livros. Ele parece não perceber o que é trabalho e o que é brincadeira. E ontem estava simplesmente impossível, correndo pela casa toda.
Pois é, eu até que estava bem quieto no meu canto.
Mas tinha que me aparecer um gato no meio do caminho.

PS.: com o prêmio do concurso de poesia, mais cinco livros em minha estante, três do Umberto Eco, um Michel Onfray e um Drumond de Andrade. E vontade nascida no final de semana de começar um projeto de tese. E não vai ser sobre epistemologia.

quinta-feira, setembro 27, 2007

Logan e um soneto

Um soneto ronda-me desde ontem. Poesia, esses pequenos triunfos e significativos fracassos. Esses traços de palavras, esboços e rascunhos da imaginação. Falar que a distância de quem se ama torna o próprio amor distante, essa aventura errante que vai desvanecendo, muito aos poucos, um tanto de nada a cada instante. Até que se esqueça dele os nomes e as cores, os sabores e os toques, os retoques e os recalques, os tiques, as mais boas lembranças que vêm e vão na mente como cenas de um filme muito antigo que se precisa ver de novo, do qual já se esqueceu o enredo. Lembrança tola de que esse filme era bom. Só isso e mais nada.
Como explicar que o que sobra é apenas vazio? Algo que falta em algum lugar, algo que ali estava e não está mais. E dizer que há que se cansar de sentir aqueles velhos desesperos de outrora. Essa tolice de andar na rua como se me faltasse um braço ou uma perna, um olho no meio da cara, como se eu não tivesse bem no meio dela o nariz. Sim, eu tenho tudo, então é andar na rua como se tivesse escrito em minha testa que estou sozinho.
Se pudéssemos escolher por quem nos apaixonarmos... eu escolheria me apaixonar por você. Mas a idéia não é minha, é sua. Que fique com os frutos do encanto, caso haja fada madrinha ou qualquer coisa que o valha.
É assim que sempre escolho contemplar os mistérios desses instantes todos, desse enredo sem propósito. Escolhi de tudo o que podia o pior: a paciência e a contemplação, o compasso de espera, talvez a resignação (para meu desespero), escolhi a aceitação de estar sempre à sombra da luz, atrás das cortinas, nos bastidores do espetáculo da vida, espetáculo tão cheio de rostos sorridentes e bocas que se beijam, de mãos dadas em passeios que não darei, cheio do conforto do abraço sempre na hora certa, um colo onde reclinar a cabeça, a companhia de alguém que lhe quebre o silêncio e que se aquiete com devoção para compartilhar até com o seu silêncio. Esse espetáculo eu posso imaginar e até escrever, posso assistir de um lugar privilegiado. Só não posso participar dele.
Eu vou olhar a caixa de correspondência ainda por muito tempo. E cada vez que não tiver uma carta vou poder me dar por feliz, por ter a certeza de que alguém lá tão distante vai estar feliz, sem o peso e a abrangência insuportável de meu amor tão complicado. Vai significar que o que eu queria sem muito querer aconteceu, ela estar definitivamente livre de mim e esse meu jeito tão implacável de amar. Como eu fico? Quem disse que há tempo e arcabouço para constituir nisso tudo algo que beire à preocupação? Aliviado? Tranqüilo? Sereno? Contemplativo mais uma vez diante do inevitável! E isso é só. Não sei como fico, eu só sei ficar.
Sinto que me abandonam os velhos sonhos. E não sei o que sonhar a partir de agora. Não creio em tédio e nem em ócio produtivo. Eu sou quem assombra o demônio do meio dia, minha acedia é um silêncio profundo tão bem cultivado. E quero mais silêncio, muito mais silêncio do que posso fazer. Por dentro e por fora.
Não vamos dar nomes a essas coisas. Os nomes são nomes e as coisas são as coisas, que se encontram por acaso, um mero acaso, n’algum pensamento. Solidão, tristeza, melancolia, medo, amor e suas necessidades. São coisas que precisam de outros nomes ou nomes que precisam referir-se a outras coisas. Nada mais que isso.O nome dele é Logan. Achado na rua já me vem com duas protetoras hospitaleiras e uma madrinha, por ele arranhada nas costas, numa tentativa de fugir de seu destino. Minha casa, onde não me fará companhia e nem eu a ele. Haveremos de compartilhar nossa solidão e nosso silêncio. E vamos sempre nos encontrar como no primeiro encontro, quase que por acaso. Logan, o negócio é o seguinte: todo o espaço desse apartamento é meu enquanto seu. Assim está tudo muito bem dividido. Bem vindo. Que sejamos companheiros de batalha como numa fábula maravilhosa. Só uma fábula.
Depois termino de escrever o soneto. E falo mais do Logan, quando ele tiver vindo para casa.

quinta-feira, setembro 20, 2007

Eu queria falar do Johnny Deep

A sensação que eu tenho não é lá muito simples, mas talvez uma imagem ajude, uma imagem que se tenta descrever por meio de palavras, é claro. É como se o mundo todo, como se tudo em volta tivesse ficado numa espécie de estado de suspensão, ou como aquelas cenas dos filmes em que o personagem perde os sentidos, corta-se o som, o ritmo cai para câmera lenta. Isso! A vida ficou em câmera lenta, sem som. Como nos meus sonhos, que não têm cor, rostos ou som.
Eu vou dormir numa noite e tenho tudo. Acordo no dia seguinte e não tenho nada. Algo como andar numa cidade deserta. Essa sensação de sempre ser um fantasma. Impressão de que não me vêem.
A minha tristeza tem dessas cenas. Eu fico pensando as coisas ditas, as não ditas, as coisas ainda por se dizer. Construo enredos que soam como uma ficção do que a vida poderia ter sido. Futuro do pretérito, odeio esse tempo verbal. A rotina parece ser melhor descrita no gerúndio: indo e vindo, fazendo, tentando, trabalhando, querendo, fugindo, pensando. As mesmas coisas. E nossos desejos parecem vir naquele maldito futuro do pretérito: iria, viria, faria, tentaria, trabalharia, quereria, fugiria, pensaria, seria, teria. Assim por diante.
Não conhecer o caminho e andar em círculos. Perder-se desconhecendo o endereço de onde se quer ir. O que mais parece a vida? Isso cansa. Mais que isso, esgota. Isso tira o tudo do nada que conseguimos ser.
Isso seria uma descrição do vazio? Não! A noção de vazio seria ainda pouco para descrever. Talvez seja a descrição dos limites (ou da limitação) para descrever isso. Ou seja, dá para ir até aqui, além desse ponto é um “deus nos acuda”. Vazio existencial ou existência vazia, não sei. Filosofia demais para quem na verdade se pretende um poeta ou, no mínimo, um bom contador de histórias.
Eu confesso. Não posso estar mesmo bem com tudo isso. Mas essa resignação tem como fim manter-me vivo, mais ou menos inteiro. Seria muito bom, como você mesma disse (isso mesmo, escrevo para você, amiga), que a gente pudesse escolher por quem se apaixonar. Ou talvez escolher não se apaixonar nunca. Não sei. Enquanto não inventam esse fabuloso passe de mágica, vou vivendo minha vidinha de animal em extinção: romântico e idealista. Um reles sonhador, algo tão fora de moda quanto anágua, espartilho, sei lá mais o que.
Nós só temos esta vida (não é verdade?), como diria o Kundera, e não podemos alterar nossas escolhas, os rumos traçados, evitar as conseqüências do que já foi feito. Alguma coisa à frente tem conserto sim, outras nem tanto, e outras ainda, são irrecuperáveis. Tivéssemos mais de uma vida, poderíamos escolher à vontade, sem pensar muito, pois haveria a possibilidade de mudar de opinião.
Eu teria feito... pronto! Eis aqui de volta aquele terrível tempo verbal.
Então o que vou dizer agora para você, amiga de todas as horas? Certo é que precisamos de namorados/namoradas, exercer essa nossa capacidade de ser românticos, e precisamos também de uma causa que justifique nosso idealismo. Mas você consegue imaginar o rosto do seu namorado vindouro? Eu me pego pensando nisso, como vai ser o rosto da próxima mulher que eu vou amar. Isso é uma droga, atestado de incompetência. Acho que deve haver um jeito de olhar que não estamos usando muito, um jeito de olhar todas as coisas, talvez um pouco diferente desse que usamos agora. E parece que todas as outras pessoas sabem usar.
Estou triste sim. Esse vazio que sinto aqui dentro é o pior de todos que já senti. Às vezes dá até um certo medo de tudo ser assim mesmo, e eu em minha teimosia não querer aceitar. Então o mundo está todo ajustado como bem deve ser, e o desajustado sou eu. Preciso encontrar um lugar em que possa manter meu desajuste, preciso conquistar meu lugar no hospício que me cabe e que ainda nem foi construído. Deveriam criar um museu da humanidade, e lá estaria eu, com meus companheiros, o australopiteco, o pitecantropus, o neandhertal, e outros mais.
Estou triste e essa tristeza é a mais estranha que já senti. Triste sem saber exatamente por que, sem encontrar dessa tristeza a origem e a verdadeira razão. Mas em vez de me encolher num momento de desespero, derramar algumas boas lágrimas, lamentar tudo isso com a boa e velha poesia, o que eu fiz parece que foi endurecer o coração. E isso agora me dá medo. Eu não me conheço e nem posso ser reconhecido com essa possibilidade de ter endurecido o coração.
Só me falta agora, para minha ruína, eu me tornar extremamente um pouco mais racional. Isso seria o fim.
Agora é viver no reino do absurdo, essa fábula que parece acontecer somente dentro de minha mente. Meus sentimentos, meus tão desperdiçados sentimentos. Eu penso nela evitando pensar nela. E evito pensar nela, o tempo todo evito, e estou pensando. Sério. Queria não mais pensar. Eu fico lembrando as coisas que quero esquecer e acabo esquecendo é de esquecer. O que me resta é fingir que não foram assim tão importantes. É uma lástima. Se tem uma coisa que nunca fui capaz de conseguir (e nem sei se vou ser ainda) é de mentir a mim mesmo.
Sinto falta dela e vou sentir ainda muito. Mas é uma dor com a qual afinal de contas você se acostuma, até deixar de ser dor e ser uma outra coisa, sei lá o que.
Estou cansado.
E queria falar tanto do Johnny Deep, mas não falei.
(E depois lendo seu post, percebo o quanto chato também tenho sido. Queria falar muito também de outras coisas, todas elas. Talvez de alguns sonhos não meus, de poetas e escritores, cineastas e atores, muito melhores do qualquer coisa que eu tenha sonhado. Talvez até do que qualquer um tenha.)

sexta-feira, setembro 14, 2007

Solilóquios...

Mais uma vez aqui para a solidão dessas páginas. Perguntar-se por que realmente fazer tudo isso, quer dizer, falar, falar e falar, pensar, pensar e tanto pensar. e agora, hoje em dia, essa tola necessidade de registrar tudo aqui. A pequena história insignificante de uma vida insignificante. Exercícios não do pensamento, mas de qualquer pensamento. Do pensamento não de uma pessoa, digamos, mas de qualquer pessoa, ou de uma pessoa qualquer. E quaisquer pensamentos parecem essa coisa infinitamente importante.
É isso mesmo. Não me importa se você tenha um câncer no cérebro do tamanho de um limão. Estou aqui para falar da minha unha encravada.
Solilóquios de uma alma perturbável, sensível a tanto dessas coisas insignificantes. O engraçado é que este é exatamente o espaço em que temos acesso a milhares de pessoas e elas a cada um de nós, mas esse é o espaço da mais absoluta e inegável solidão.
Brain storm não faz meu gênero, mas vivo permanentemente com essa garoa de pensamentos a me povoar o cérebro. Sempre uma dia a mais as mesmas coisas, eu sempre voltando a todos os pontos por que já passei e os mesmos olhares mesmo para as coisas diferentes. Tudo tão repetitivo seria bom se tudo estivesse bem e fosse bom. Mas não, amargar a sensação de que tudo demora em ser tão ruim.
Algumas palavras atrás por aqui mesmo, peguei-me dizendo que “melhor do que precisar de pouco é precisar de nada.” Soa como uma verdade irrefutável, mas como conseguir precisar de nada? Seria piegas dizer que preciso de sol ou de chuva, de água e de ar, um chão para meus pés não afundarem na terra quando andar, preciso de um pouco de verdura e legumes a cada dia, cereais, frutas e proteínas. Bom, este seria o estado de natureza. Mas fico agora pensando como que este estado de natureza acabou.
Eu penso que podemos ter tudo que precisamos sem ter a posse disso. São os exemplos dados acima. Mas alguém tinha que inventar-nos outras necessidades, estas supondo sua posse. Seria a posse, a propriedade, o grande problema da humanidade? Não sei, filosófico demais para meu gosto. Não quero mais falar disso, falem vocês. Talvez eu ainda fale das necessidades, ou melhor dizendo, do que poderia ser necessário realmente para se viver bem.
Mas na verdade não sei bem o que estou fazendo aqui. Esse é exatamente o tipo de papo que menos gosto. Fica aqui o registro dessa coisa por mim tão “desgostada”.

D qualquer modo, gosto muito ainda das pessoas. Não vejo minha vida a não ser rodeado de pessoas, conhece-las e ser por elas conhecido. Não sou anti-social, não tenho a mínima vocação para a misantropia. As pessoas me são caras ainda e sei que serão ainda por muito tempo. Gosto de histórias de vida, histórias de infância, experiências alheias e diferentes dessa mesma coisa que é assim para todos nós, a vida. Gosto da visão outra e diferente da minha que possam ter sobre qualquer coisa.
Fórmula básica: gosto de pessoas porque sou também uma pessoa.
E gosto de bichos, porque sou também uma espécie de bicho.
Mas chega por ora com essas divagações.

terça-feira, setembro 11, 2007

Um réquiem

Não dá para falar coisa com coisa, não numa missa fúnebre. Entendo agora o que é vomitar coelhinhos: é um problema que sai à força de dentro de você.
Geração e corrupção de todas as coisas. As folhas mortas no parque me fazem atinar com a idéia de que não sei o que é feito das folhas que morrem e caem de mim. Elas não são repostas. Nenhuma folha nova nasce, e a gente só perde e vai perdendo até o tempo de não perder mais.
Agora, de novo, tudo é só meu. Os meus dias que amanhecem como devem ser, as tardes que desabam soturnas e as noites que pesam sobre mim. E são só minhas as madrugadas adentro, em que pasmar na sacada joga meu olhar atônito para a luz de estrelas mortas. E apagadas. Porque distantes. E eu tenho a impressão de que nunca vou entender direito essas distâncias. É tanta luz apagada de folhas secas no chão céu do parque. Um réquiem para as folhas mortas e estrelas de luzes que se extinguiram tão distante de meus olhos.
Um réquiem para mim a esta hora: réquiem aeternam.
Minhas palavras soltas ao vento compõem os melhores poemas de minha tristeza, mas não foram escritos, vagam no infinito, vêm e vão, sempre estão partindo e de volta. Quero não mais sentir o enfado de cada inspiração. Estou cansado de minha visão de todas as coisas.
Tudo em volta são fragmentos. Sentado em minha sala, há num canto um fragmento de um poeta, noutro o de um desenhista. Há por toda parte fragmentos de um leitor contumaz, aqui e ali os de um filósofo. Em toda a parte espalham-se fragmentos de mim. Nada na vida se vive de maneira completa e dessa vida aos pedaços estou farto, dessa ânsia aos bocados, dessa vontade de ser alguma coisa aos goles, gota por gota. Não me agrada mais esse prazer homeopático, dessa felicidade ministrada em muito pequenas doses. Não quero mais as pequenas alegrias, prefiro até as grandes tristezas a manterem-me em estado de constante melancolia. Não quero mais nada pequeno, pequenas graças, eis que aceito as grandes desgraças. Aceito tentar sorrir sempre com tudo em volta tão sem graça.
Agora não preciso mais esperar. Por nada. Nem por um futuro incerto que agora sei que certamente não vem. Não vou precisar daquela agonia a olhar a caixa do correio, os dias de férias, nem vou precisar me atormentar com certas lembranças tão doces, tão plausíveis, tão possíveis e agora tão distantes. Muito melhor do que precisar de pouco é precisar de nada.
Decerto uma espécie de ilusão terá sido tudo isso, um sonho bom a se repetir mais uma vez na minha vida e quantas vezes mais? Vontade de dizer que eu não quero mais.
Que sentimento? Leveza. Estranhamente um sentimento de leveza, mesmo com todo o peso da solidão, mesmo com todo o peso das noites e madrugadas que ainda irão desabar sobre mim, eu sei. Mesmo com o peso do próprio corpo jogado no chão, mesmo com a incapacidade de ir buscar lágrimas onde elas nunca estarão. Nem chorar eu consigo.
Vazio. Mais umas das minhas palavras preferidas e suas mais inumeráveis traduções. Vazio, esvaziado, tirado de si qualquer e todo conteúdo, qualquer idéia de próximos sorrisos, qualquer ilusão de momentos se repetirem quando forem tão bons. Vazio como o vazio da imensidão desse céu escuro, entregue a essas insuportáveis madrugadas, essas noites de pensamentos em perambulação.
Quero me irritar contra tudo isso, revoltar-me de vez, mas não posso. Esse terrível e incômodo sentimento de aceitação.
Quero não sentir que há muito mais dentro de minha mente do que fora no mundo inteiro, em todo o universo. Para quem não consegue entender essa desproporção, basta não pensar estritamente em apensas três ou quatro dimensões. Tudo fora é tão pequeno, mas tão pequeno, que cabe mil vezes dentro de um pensamento. E cansa-me tanto pensar tudo mil vezes, cansa-me mil vezes olhar para as mesmas coisas que mudam tão devagar e demoram a passar. Quero luz e velocidade, quero a velocidade da luz para pensar. Minha imaginação traiçoeira, tinha tanto ainda por me ensinar. E ficou calada em mim, displicente, desprezando-me com uma desprezível exatidão.
E uma frase estranha ao diálogo inteiro: nós só temos medo da morte porque não pensamos nela.
Tudo acaba, tudo perece, tudo morre. Nem que seja para nascer de novo. Eu não sei mais quantas vidas tenho. Nem quantas tenho gastado nessa aventura desesperada de viver. E vou viver tudo o que é mais que vida. Vou sobreviver. Como sempre. Seja para meu bem ou para meu mal.

O dias amanhecem e a vida continua, outros eus, outros vocês, outros eles e elas, outras coisas dentro dos mesmos pensamentos, outras paisagens tantas dentro dos mesmos olhares. Os dias amanhecem e nós temos sempre que levantar.
Empunhar a velha espada.
A última batalha nem começou.

quarta-feira, setembro 05, 2007

Eu te amo e pronto!

Eu te amo e pronto. Assim como quem termina uma obra. Dá os últimos retoques, olha-a e fica satisfeito com o que vê e diz: pronto! E depois tira o ultimo dia para descansar e chama esse dia de eternidade.
Dei os últimos retoques nessa minha obra, olhei para o que fiz e fiquei satisfeito. E tirei a eternidade do ultimo dia para descansar de tudo. Eu te amo! Pronto!
E nunca mais vou mexer nisso, mais nenhum retoque, nenhuma pincelada, nenhuma desbastada a mais nesse tão caro mármore de Carrara, nenhuma palavra a mais nesse poema, mais nenhum verso nessa poesia, mais nenhuma cena nessa peça, nenhuma tomada nesse filme sublime, mais nenhum capítulo nessa história, a mais bela que teria lido. Eu te amo! E pronto!

Há os que precisam de motivos para amar. E os que amam e desconhecem absolutamente qualquer motivo. E andam por aí satisfeitos, mais do que isso, felizes por serem capazes de um amor tão assim... sem motivo. Motivo quase que equivale à razão. A razão de eu te amar é... razão? Eu te amo e pronto! Tipo assim pirraça de criança, mania de velho, idéia fixa de um sonhador, certeza de um visionário, antecipação de um profeta. Se preciso for, eu te amo por pura teimosia. E por vocação. Eu te amo até por um certo talento. Não me envergonharia de te amar até por devoção.

Eu te amo porque te vi passar na minha vida. Por um brilho que vi em teus olhos, pelo calor e maciez das tuas mãos. Eu te amo por teu jeito de andar e falar, por teu jeito de escutar, teu jeito de desenhar um sorriso em teu rosto, pelo perfume de teus cabelos, pelas curvas de teu corpo, pela beleza incompreensível de tuas costas que são esculturas. Por tua boca que me engoliria como obra tua, por teus seios, por tuas pernas fortes e por tua pele que era para estar sempre à mostra, desde que andasses nua. Eu te amo porque encheste de vida as noites de minha rua. Eu te amo e pronto!

Eu te amo por cada pedaço de tua história, sempre emendados a outro e mais outro, a teu bel prazer, um pedaço em cada pedaço e uma história em cada uma de outras tantas histórias, a volta para casa da escola num dia de chuva, um tênis afundado no barro, um banho de mangueira, um gato macho com nome feminino, nem falo de tuas aulas de catequese. Eu te amo por tudo isso que lembro e por muito mais que não lembro. Eu te amo e pronto.

Eu te amo por cada lembrança que deixaste em minha vida, teu rosto entre meus livros na mesa, tuas alquimias no fogão, teus banhos narrados... ah! E as conversas pela janela do banheiro, por te ver tanto lendo deitada na cama, por te ver entrando e saindo daquele apartamento, por aquela luz acesa quando eu chegava à noite, por me pintares os olhos, por me abraçares dormindo, por passeares meus passeios, por enfeitares os meus dias e por iluminares minhas noites. Eu te amo e pronto!

Eu te amo por tudo o que disse. Por tudo que não disse ainda. Por tudo que ainda tenho a dizer. Por tudo que nem sou capaz de dizer.
Não sei. Não sei. Só sei que te amo!
E pronto!

Músicas

Medi os céus, agora meço as sombras,
A mente era dos céus, o corpo repousa na terra.
EPITÁFIO DE KEPLER (escrito por ele mesmo)

Adágio
Sobre palavras, palavras de meus dias mais insanos. Toda a insanidade de minhas horas mais tristes. Quem dera tudo isso coubesse em palavras.
Epitáfios. Escrevi tantos. Que escrevam agora o que quiserem. Não quero somente os verbos “repousa” e “descansa”. Não há descanso nem repouso. Há apenas, e haverá de haver, apenas o gradual esquecimento de quem desapareceu.

Presto
Desapareceu, enfim, na tranqüilidade do silêncio.
Aos que ficam: esquecimento.

Largo un poco maestoso
Tranqüilidade. A minha mais almejada e mais utilizada das palavras. Paz, sossego, quietação, serenidade. Repouso do corpo ou do espírito. Distância é uma palavra capaz de expressar mais do que qualquer outra a realidade que indica. É uma palavra que você sente. E que pesa sobre você. Torna-se quase que material, palpável. A mais visível das palavras.
Tranqüilidade é tudo o que posso ver de olhos fechados. Um tolo sonho, um desejo impossível. Há que se dar conta do turbilhão de pensamentos, enquanto pensar. Mas não creio em controles. Enquanto não encontrar um modo de não pensar. Aquietar as palavras dentro de mim. Ter próxima e possível uma certa paz. Deve ter havido um tempo da tranqüilidade. Mas definitivamente esse tempo não é hoje. Vivemos o tempo da intranqüilidade, tempo de grades nas janelas e trancas nas portas, sejam de nossas casas ou de nossos sentimentos. Grades e trancas. Tempo de esconder-se, de dissimular, de fingir que não há tudo o que nos toca e afeta. Tempo de não reconhecer todos os medos. Tempo apenas de entregar-se a todos os medos.

Andante
Se houvesse uma espécie de habilitação para se viajar nas palavras, minha carteira já deveria ter sido cassada. Perdi a noção de todas as palavras que estão em minha órbita. Meu universo de palavras, tão restrito, minha confusão cósmica de frases e períodos, a desconexão mais provável entre o que sente e o que fala. Tanto que chego à conclusão de que devia pensar mais e falar menos, ou nem falar e nem pensar. Evitar, enfim, certas reflexões tão problemáticas. Isso tudo quando não me é difícil de perceber que todos em volta estão a me estranhar as palavras, portanto é hora de calar. Porque tudo o que falo me põe distante de tudo e só faz tornar-me mais indefinido do que posso imaginar, abrindo e gerando desertos entre mim e o interlocutor. Este último, para mim, aquele que nunca ouve, só escuta um balbuciar de palavras. Tudo que me restou parece que foi esse jogo mal fadado de jogar ao vento minhas palavras, nem que para que não me ouçam, mas para que olhem para mim, que não me entendam, mas que vejam pelo menos quem fala, perdido em meio a tantas palavras que perderam todo o sentido. Aliás, esse que sou que precisa aprender a calar, morrer nesse grito de vida incontido. O resumo da ópera é que estou cada vez mais perdido, à mercê de tudo o que não fiz, e a realidade está a cobrar-me que algo seja feito. E minhas palavras não servem para construir um mundo, nem para mim, nem para ninguém. Desisto, então. Falar menos, pensar quase sempre pouco. Pelo menos pensar mais do que fala. Escrever, talvez o que me reste de verdade, será daqui para frente somente essa válvula de escape. Essa boca do vulcão.

Largo
Cai a noite, a me acender as estrelas. Cai uma lagrima a me apagar a chama do que me mantém vivo. Consomem-me lentamente essas horas do dia, com tudo o que há de mais indefinido. Passados assombrados, futuros improváveis e um presente sem sentido. A olhar tudo em volta tão mudado de tudo quanto me acostumei ver. Tudo tão desencontrado de mim.
Os telhados das casas. As paredes dos edifícios. A história já esquecida de quem ali pôs cada telha. Pedra sobre pedra a consumir para existir tanta força de tanta vida. Os tijolos mataram as arvores. As janelas acesas riem-se disso tudo. E as calçadas de cimento reservam um pequeno quadrado por onde as raízes deixam brotar seus troncos e galhos. As folhas me olham tristes do alto dos seus ramos eu a olhar o chão de tantas folhas mortas.
Ao meu lado 2260 páginas com o significado de 200 mil palavras. E eu não sei agora o que dizer. Eu não sei mais o que dizer... eu não sei! Por detrás de tudo isso um céu que eu não sei medir, enquanto vou medindo as sombras.
O artista é sempre um solitário que vê luz e desenha sombras. Todo esse barro ordenado em telhas e tijolos são escombros. Todas as folhas, sequiosas de ação e reação, olham para mim. Eu não. Elas preparam um colchão para eu me deitar no parque, dormir para sempre debaixo das estrelas. Tranqüilidade. Silêncio. Esquecimento.

Presto
Espelho. Sempre é, mais que o objeto que a palavra indica, o que esse objeto mostraria. É um olhar para si mesmo. Sempre que uso essa palavra, há esse olhar, esse tentar ver a si mesmo. Tentar ver-se como lhe veriam, ou ver como quem imaginando como é visto. Enfim, a palavra espelho é “introspecção”, esta mesma difícil e inaceitável, hoje em dia, muito pouco usada. Começou de um gesto material mesmo, um gesto real, olhar-se de verdade no espelho e ver-se, saber seus contornos, as características por que é reconhecido. Partindo daí para ver o que não são meros contornos. Colocar-se diante do espelho é sempre alienar seu modo de ver, suspenso por uns instantes, para refletir sobre como lhe veriam os que olham você.
Imensidão. Essa é fácil, é tudo o que é maior do que posso ser, e isso não é pouca coisa (não o que posso ser, mas o que é maior). Uma arvore imensa na janela convida a olhar um parque imenso, cuja visão não se restringe aos seus limites, mas vai além, para muito além de todos os parques, abarca todos os parques, e bosques e florestas que nunca vi, mas que trago vivos na imaginação. E tenta também definir, essa palavra, a vida como um caminho. Tente caminhar por mais de quarenta anos e veja aonde vai chegar. Tantas paisagens diante dos olhos, tanta gente, tanto céu, tantas ondas indo e vindo no mar (a imensidão mais poética e absoluta, depois do céu), tantas estrelas, e luas cheias, tanto querer saber, tanto indagar a respeito de tudo. A mente dos poetas, dos escritores, dos cientistas, dos bêbados do centro da cidade, dos mendigos nas praças ou nos bares em que tomamos nossa cerveja, tão pequenos a ponto de cabermos dentro de nosso próprio copo. O olhar aguçado das crianças, a força diante de tudo que têm os jovens, a plácida resignação e contemplação dos velhos diante da morte.

(Heavy Metal – um descuido do andamento – ma un poco scherzo)
Morri. Ora, não me venham dar um velório piegas. Eu posso merecer mais. Não digam nunca “ele foi tão bom”, porque eu não sou, bem, não era, não fui, sei lá. Pessoas muito melhores do que eu encontram-se por aí de cambulhada, facilmente. Não sei se quis ser assim tão bom, ou bonzinho. Terei saído da vida tendo passado vontade de ter dado uns bons socos e alguns pontapés ou de ter dito mais impropérios. Podem crer, há quem os mereça. Terei dito menos palavrões do que desejaria. Mas não gosto de violência.
Esqueçam os epitáfios! Escrevam-nos para a sua própria vida!
Não! Não! Não me venham com esta de relembrar os bons momentos! Tentem, então, digam meia dúzia deles, três, dois, um! Não irão lembrar nenhum. Não há bons momentos. Tirem-me da história e ela continuará a mesma. Minha companhia nunca lhes foi imprescindível e minha falta nunca foi sentida de verdade. Olhei nossos álbuns de fotografias, as fotos de nossas festas. Eu, que nunca tirei fotos, apareço em muito pouco delas. Há quem tenha aparecido mais do que eu nas fotos de meu próprio aniversário. Corram e confiram.
Quero ser enterrado junto com meus telefones, tão inúteis quanto a própria vida!
Eu gostaria de umas músicas para esse solene ultimo instante. Mas esqueçam tudo. Esqueçam os epitáfios, as músicas e os desejos. Apenas façam silêncio, uma vez em suas vidas. Homenageiem-me com o silêncio. Depois disso, podem voltar à costumeira tagarelice. Eu não vou poder ouvir mesmo.

Presto presto
Suicídio?! Coloquem diante de mim um bilhão de estúpidos que defendem (ainda que filosoficamente) essa idéia e eu mudo-lhes a “causa mortis”: homicídio qualificado.

Adágio
A propósito de tijolos e telhas, “The Wall” (Pink Floyd) em meu som parece soar tétrico. Eu vi o filme, eu sei a história. Uma criança perdeu o pai na guerra (preciso falar dessa palavra), cresceu, tornou-se roqueiro e se vinga com um álbum desse. Se não se vinga, pelo menos faz uma bela critica, ou uma necessária catarse. E isso abre precedentes vários para mais um bocado de palavras e para os seus mais variados significados.
Rancor. É ódio inveterado, oculto, profundo. Uma grande aversão não manifestada, antipatia. Ressentimento. Ira secreta, malquerer. Pelo que parece, nenhum desses sinônimos alivia o peso dessa palavra. E a qualidade de oculto e secreto faz pensar se isso pode aparecer naquele olhar no espelho.
Ressentimento. É ação ou efeito de ressentir (tornar a sentir, sentir muito – e eu diria continuar a sentir ou não evitar sentir). Mas também é melindre, suscetibilidade. E, o que é pior, recordação de uma afronta, acompanhada do desejo de vingança. É o sentimento reservado de qualquer ofensa ou lembrança “dolorosa” de uma palavra ou ato ofensivo.
Meu maior e pior pecado terá sido manter meus sentimentos reservados demais, ter deixado que algumas lembranças, mesmo por um certo tempo, fossem dolorosas. Meu pecado mais freqüente é minha tolerância à dor.
Mas não é um erro meu não falar. Eu falaria e seria bom. Há um sentimento de olhar em volta e sentir-se só. E o solitário é sempre silencioso. A questão é achar que nunca é ouvido, não querer das pessoas o que elas não podem ou não estão dispostas a me dar. Como as fotografias em festas de aniversário. Aliás, sobre a palavra “sorriso”, é aquilo que aparece somente nas fotografias. Uns muito belos e até sinceros. Mas ninguém imagina como pode ser tão muito mais belo um sorriso de verdade, ao vivo e em cores, quente.
Agora não quero mais ser ouvido, apenas aprender uma de duas coisas: calar e esquecer. Ou as duas.

Allegro ma non troppo
Vida real. Não sei o que é isso. Muito menos sei sobre os seus principais ingredientes: dinheiro, planejamento, profissão e outros mais. Alias, não sei nem o que é vida, muito menos o que é real. Essas duas palavras juntas formam, para mim, algo ainda tão impalpável e inimaginável. Materializar isso é vê-la, a vida real, como um hecantóquiro, aquele monstro mitológico de cem braços e cinqüenta cabeças, que quando você corta uma, nascem duas no lugar. Vida real, sei apenas de seus golpes e imprevistos, de suas surpresas, de sua tacanhice sem igual, de sua teimosia atroz em bater na mesma tecla, sempre.
Telefone. Retiro tudo o que disse, só nesse momento, tudo o que disse sobre ele. Toca, às vezes, a gente estando em pleno banho. Para atender tem que sair pelado, enxugando-se. Valeu a pena, era ela, para dizer que vai ligar à meia-noite. Passaram-se duas eternidades, uma para chegar à meia-noite, e outros quinze minutos depois desse horário em que ela ainda não ligou. Para passar o tempo, volto às palavras...
Espera. Palavra tão dura e palpável quanto distância. Não quero falar dela, da palavra, por ora. Ela tem sido muito polêmica ultimamente. Prefiro falar de muitas outras coisas e palavras, enquanto dura a espera. Droga! Já se passaram vinte minutos da meia-noite e ela ainda não ligou. Tenho de esperar mais um pouco e conseguir falar de outra coisa, aquilo que não é uma coisa, não é aquela coisa, não é a coisa. Intrigante a palavra “coisa”, tudo parece caber nela, nela tudo se encaixa, ou se desencaixa. Que coisa! Não estou falando coisa com coisa. Nexo causal. Nexo, nexo, nexo, complexo, amplexo, circunflexo, reflexo, convexo, mais alguma coisa terminada com essa silaba... é um telefone que não toca, a espera da espera da espera é esperar esperar ter o que esperar enquanto espera o que se espera esperando esperar o que se está esperando.
Não! Este post não é para você. Para você reservo outras palavras de nossa história, mas pode ser que aqui tenha uma ou outra, não sei, não se veja nele tanto assim, não sei o que deve ser isso de não gostar tanto de você. E nem quero saber. Duas moças lindas em casa, aliche, margherita e mussarela........
Tocou o telefone...
...acabou o post, ela acabou com o meu post. Sinto muito, o post acabou!

Em 02/09/2007 às 00:30 h.

quinta-feira, agosto 23, 2007

Nada

Aonde foi minha alma a noite inteira, que acordei esta manhã tão cansado como se nem tivesse dormido? Se for verdade que temos alma, e se temos, se é que tenho direito a uma como todos.
Voltava para casa ontem tentando entender a lógica das escadas, aquilo que é uma coisa só, mas que faz você subir ou descer. E, conforme for, no meu caso, descendo as escadas, estou indo ser nada nesse mundo imenso. Subindo, estou de volta ao meu tão pequeno mundo, tão repleto de tudo o que sou, de tudo o que não sou, de tudo que poderia ter sido. Analogia imediata do subir/descer como sair do paraíso e ir ao inferno. E viver muito mais tempo no inferno do que em qualquer outro lugar. A lógica das escadas é igual à lógica dos caminhos. Ir e vir dependentes de escolhas e decisões, deixando-nos tão à mercê dos acasos.
Suspenso. Nos seus mais possíveis sentidos. Que flutua na parte alta de (algo); que se interrompeu temporária ou definitivamente; paralisado, adiado, sustado, cancelado; que tem sentido incompleto. Nenhum nexo causal entre o momento anterior e este, e entre este e o possível próximo. Um outro olhar que me força ver a vida como mera sucessão de acasos.
Se acaso me quiseres, sou tão difícil de esconder. Se acaso me quiseres, sou tão fácil de ser encontrado, nessas escadas, subindo ou descendo, visite meu inferno e, dependendo da hora do dia, poderei ser encontrado numa espécie de paraíso.

Nenhuma carta na caixa de correspondência, o telefone não toca, em volta tanta gente que tanto gosta de mim mas que nada sabe de mim. Eu ouvindo, ouvindo, ouvindo, sem quase nunca poder falar. Eu que sei o que falta naquele lado da cama, do outro lado da mesa, do outro lado de qualquer abraço, do outro lado de meu olhar cansado que busca os olhos da pessoa amada. Eu que sei. Quando falo dessa solidão, mais importância vai ter a dicotomia entre razão e emoção, sempre um ponto de vista e nenhuma vista exatamente naquele ponto.

Vou acordar no meio da noite, tendo perdido completamente o sono. Por um tempo muito mais longo do que possa imaginar. O que me atormenta, não sei. O que me preocupa, talvez a falta de preocupar-me com alguma coisa. Cansado sou tanto morto quanto posso imaginar. Não há nada adiante, nada agora em torno de mim, não há mais nada de tão importante e interessante que vivi há algum tempo atrás. Nada.
Descobri, de repente, o que existe na nossa idéia de inferno e paraíso. Nada.

quarta-feira, agosto 22, 2007

O cara do espelho

As coisas todas não estão em seu devido lugar. Só pode ser isso. Pelo menos, as coisas que eu queria em seu devido lugar, estão a setecentos quilômetros de distância.
Falei pouco da Marilyn ontem, mas encontrei uma foto digna de falar mais do que falei. Maravilhosa, linda. Minha mania de amar mais os mitos do que a realidade.
Sentei-me na janela do escritório ainda agora e fiquei a admirar longamente a paisagem em volta, o Pátio do Colégio, o Parque Dom Pedro, a rua e os camelôs, pessoas indo e vindo, que tribo enorme nos tornamos, a ponto de perdermos a noção de irmandade, tribo mesmo, fátria. Que espécie nos tornamos? Arrisco um palpite: homo urbanus virtualis.
O cara do espelho. Eu pensava, enquanto estava na janela, no cara do espelho. Aquele cara que me olha e, bem, diz o que tem que dizer. Faz falta um espelho na casa de cada pessoa, não para conferir a roupa ou o cabelo, não para fazer a barba. O cara no espelho para dizer para você, de uma hora para outra, que chega!
Então. O cara do espelho, ontem, ostentava um risinho irônico, daqueles que sabe as respostas para as suas mais medíocres perguntas, porque essas respostas são óbvias, e não pode fazer nada além de achar engraçado essa coisa de nos perdermos nessas inúteis inquietações. O cara do espelho de casa é mais chato do que eu consigo ser.
Falei muito de meu pai e nele pensei muito nesses dias. Até parece que não tenho mãe. Tenho sim. Ela vai fazer setenta anos mês que vem. Eu sou já um quase velho que nasci dela, ela deve estar velha também, bem mais que eu. Puxa vida!
Mãe. A vida. A vida que demoramos tanto para viver, acumulando tanta coisa. Disso que queria falar. Devo ir lá dia desses. Preciso ir. Falar com ela sobre tanta coisa que não falamos ainda. Antes que seja tarde demais. Não, ela não. Pode ser que eu próprio não veja o próximo amanhecer. Pensando na morte? Eu não. Só o cara do espelho que conta o tempo, eu não conto o tempo e nem meço os espaços, assim a vida transcorre linear, dá para ver tudo, o começo, o meio e o fim.
Também afirmei muito esses dias estar cansado das pessoas. Como explicaria isso? Na melhor das hipóteses, canso-me das pessoas porque preciso delas. E é por isso que me mantenho em torno delas, penso sempre nelas. E talvez a explicação para o fato de as pessoas não se cansarem de mim seja justamente o fato de elas não precisarem tanto de mim.
Uma certa vocação para a reclusão, é o que timidamente tenho desenvolvido. Em casa, eu e o cara do espelho.
Tenho a impressão de que duas certezas posso ter na vida, a de morrer ou a de enlouquecer. Desse modo, se viver muito anos mais, com certeza não será no gozo de minhas faculdades mentais. Se viver pouco, terei morrido lúcido ainda, por pura teimosia, por essa mania de ir teimando na vida para ver no que a vida dá. Exagero essa coisa de loucura? De modo algum. Tenho olhado em volta e me questionado muito sobre a lucidez de muita gente.
O cara do espelho sempre diz que eu chego lá: morte ou loucura.
No mais, esse meu sentimento diante de todos como se eu fosse um fóssil de um animal extinto. Exclamações estapafúrdias: ele é romântico! Ele ama! Ele está apaixonado! Ele é tão idealista! É mesmo um sonhador!
Ora bolas! Devo avisar aos dinossauros que o cometa não tarda. Com meu sangue de barata tenho uma grande probabilidade de sobreviver ao grande desastre.
Pensamentos soltos à procura de uma certa tranqüilidade (que eu tive?) que tem me feito falta. Tranqüilidade com relação a simplesmente tudo em volta. Talvez esses não sejam mais tempos assim tão propícios para o cultivo de algo tão inverossímil quanto a tranqüilidade. Tempos difíceis, de se imprimir uma grande velocidade a tudo, correndo com tudo, de tudo, correndo para tudo. Vivemos correndo. Que ritmo alucinante. O carro diante dos bois.
Ninguém tem mais tempo de ser contemplativo diante de uma janela.
E nem se dispõe a conversar com o cara do espelho.

terça-feira, agosto 21, 2007

Melhor que eu fosse dormir

“Eu sei que vou sofrer a eterna desventura de viver, a espera de viver ao lado teu, por toda a minha vida.” (Jobim/Vinícius)

Não gosto muito quando brigo com os papéis. Os desenhos estão agora encerrados em suas pastas, amontoados. Calados, todos os papéis são só papéis. E não podem virar outra coisa, algo com forma e cor, com poesia. As canetas e os lápis em seus potes estão de castigo no armário, trancados. A mesa não está posta, está limpa, o chão está limpo, tudo limpo, está limpo o meu coração.
Estou assolado pela rotina. As horas do dia me esmagam. Tirei os livros da minha frente. Para saber quem ou o que sou eu em tudo isso, poemas e desenhos, eu a ver-me em contos fantásticos e em inimagináveis romances. Silêncio.
Todos os meus fantasmas aparecem no silêncio.
Nem tanto. Minha tristeza precisa sempre de um fundo musical. E, pelo que parece, nada em língua estrangeira, por ora, algo na minha língua, de preferência.
Os discos de vinil. Depois da arrumação do apartamento, quiseram os discos de vinil falar comigo. É tristeza à moda antiga, de um tempo em que havia amigos que ouviam sobre suas tristezas, aliás, que viam sua tristeza, de um tempo de conversas téte-a-téte, sem as absurdas intermediações de orkut, msn, e-mail, torpedos, e nem telefone. De um tempo que não se faziam distâncias.
Os discos de vinil. Maldição! Chamei para a conversa Chico, Bethânia, Vinícius, Toquinho, Maria Creuza, Marília Medalha, Nana Caymmi, Elis Regina. Só para começar.
Eu precisava dar um pulo no mercado. Além da pinga que já havia em casa, umas latas de cerveja e um Martini para colocar ao lado da vodka e enfeitar a minha tão negligenciada geladeira. Tenho prometida e garantida uma semana de nostalgia, de uma melancolia que serve como uma luva para me quebrar o silêncio. Ou para aquietar-me os pensamentos. Pensar cansa, esgota. Tudo isso para superar o silêncio dos papéis e a falta de imaginação, minha criatividade moribunda dentro de uma rotina tão sem sentido, todo dia, as mesmas coisas. E sou ninguém com essa falta de imaginação que me chega às mãos. Se minhas mãos se aquietam e não querem fazer nada, não tem jeito.
O que seria isso eu não sei. Essa quase certeza de um não pertencimento a esse espaço e a esse tempo, esse espaço que me limita, esse tempo que não me contém. Um não pertencimento a um mundo em que as pessoas usam cada vez mais as palavras para esconder as verdades, essa razão-vitrine a ocultar as mais belas emoções que tanto aprendi a apreciar no ser humano.
Queria agora alguém que soubesse suspirar comigo, por uma lembrança boa, uma história engraçada, uma sensação de bem-estar, e que chorasse por nada e por tudo, quando necessário. Alguém que entendesse de perda e de saudade. Que se emocionasse com o barulho da chuva, com um por-de-sol, com uma lua alta e branca num céu salpicado de estrelas, que ficasse boquiaberto diante desses mistérios todos do universo.
Começou tudo ontem, talvez, com a saudade do azul dos olhos de meu pai, com a brancura do sorriso de Marilyn, com a incompreensível força e coragem de um poeta de verdade chamado Victor, que não padecia de tristezas virtuais, mas sim sofria as tristezas de fato, de um tempo duro e violento, em que tinha que ser inevitável o medo de que a força e a coragem lhe custasse a vida. Como custou.
Eu lhes pergunto, então: quanto custa hoje a nossa vida?
Comecei com Chico cantando com Bethânia: “deixe em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa, e qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d’água.” E Elis, “Dois pra lá, dois pra cá” de João Bosco e Aldir Blanc.
Começou outra bagunça em minha mesa, três latas de cerveja vazias, uma cheia, um copinho de pinga a mais, os discos, cinzeiro com cigarro queimando, e eu tendo que dizer a mim mesmo coisas que não se diz, saudades tantas de minhas tristezas de outrora, que será de mim com essas tolas tristezas de agora?
Deixo os discos por ora, arrumados e separados para um outro momento. O domingo que acabou ontem me deu de presente uma semana completa, passei pela segunda-feira e vivo ainda, preciso saber se chego até sexta-feira, para mais um final de semana em que o telefone não toca, o interfone não grita, ninguém me chama, ninguém me sente ausente, ninguém me quer.
Mais um cigarro, a quarta cerveja que se acaba, a quinta pinga, minha perna esquerda dói, doem-me os dedos da mão, preciso dormir ao menos uma noite inteira, recuperar sei lá que forças para nenhuma luta amanhã. Só tédio, a monotonia, a rotina que me cabe desse olhar tudo lá fora daqui do lado de dentro da janela.
Estou mais só do que triste, sofro mais do que choro, sinto mais do que demonstro, demonstro tanto nada que não percebem em volta. Meu silêncio me esconde em cada palavra que uso muito bem para não revelar nada.
O que eu não daria por um abraço demorado, um colo onde repousar a cabeça, alguém com um silêncio tão grande a ponto de compartilhar meu grande silêncio.
Palavras me cansam. Pessoas me cansam. Amor me cansa. Sou feito de amor, pessoas e palavras. E me canso de mim. Não quero ser eu. Esse que sou que nada quer, nada tem, nada faz. Só espera. Quero um beijo apenas, antes do instante de minha grande morte. Um beijo que devora palavras, gera silêncios e une pessoas nesse mistério que, por falta de ciência, chamamos amor.
Mas quem me amará com um amor assim, tão desprovido de proposições?
Os cães e os gatos têm amor melhor que o meu, tanta gente medíocre é mais amada do que quero ser amado. E tanta gente que mente tem, mais do que eu, mais prazer, muito mais prazer em um minuto do que posso ter em um ano.
Sou o amigo que todos querem ter, mas não posso ter nenhum amigo que possa merecer. Eu sei ouvir, mas não sei quem me ouve, eu pareço nunca ter o que dizer.
Ser forte cansa. Ser idealista cansa. Ter esperança cansa. E cansa o tempo todo ter que manter um injustificável bom-humor. Conheço tanta gente, sei seus segredos, mas conhecer-me é fugir de meus segredos. Saber meus segredos nem quem me pariu. Puta que o pariu!
Eu só quero dormir essa noite! Quero o abraço da noite, o colo do silêncio, o beijo da madrugada... quero silêncio, só o silêncio, mais silêncio. Não pensar, não ser, não sentir.
Quero fingir, como todos, que estou feliz.
Não sei mentir, não sei fingir, quase mal consigo disfarçar. Mas me custa muito envergar essas máscaras indesejáveis.
Mais um cigarro. A quinta cerveja? Ou sexta, sei lá. A perna dói. Os dedos doem. Pensar dói. Ser dói. Sentir é que dói. Viver dói. Tudo dói. E tudo a doer a mim resta aceitar essa e qualquer dor. Toda a dor do mundo.
Seja como for, era melhor desistir de tudo, negar toda a dor, abandonar de vez tudo o que dizem que é vida, essa estrada tão mal fadada, esse último passo diante do abismo. Esse vôo no escuro, esse mergulho tão duro para dentro de si mesmo.
Baudelaire, Pessoa, Artaud, Rimbaud, tem um Pascal me atormentando os pensamentos. Cala-te, Schpenhauer! Não sou pessimista, a vida é que parece péssima. Deve ter um outro jeito de olhar, deve ter. Cala-te, Nietzsche! O niilismo já veio em nós embutido. Chico! A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu. Eu nunca vi um bispo com os olhos vermelhos. Vinícius! É chama, posto que não é imortal e não sei se enquanto dura é infinito. Pessoa, essas coisas lindas nunca existirão. O que me dói, dói tanto, e não é o que há no coração, esse cofre que não se pode fechar com o que há de cheio.

Melhor que eu fosse dormir
Dormindo, melhor que dormisse para sempre
Mais um dia o peso do amanhã
Se palavras me escapam e rompem silêncios
Fere muito mais o que tenho de calar
Melhor esquecer dessas mãos toda a destreza
Que as palavras soem em qualquer lugar
Não em mim, não de mim, não por mim
Melhor que não soem tão verdadeiras
E que não anunciem que não há nada
Melhor esquecer dessa alma sua força
Ou sua mera ilusão de poder
Melhor não ser, não ter, não fazer
Melhor perder esse olhar na madrugada
Num abandono em desertos incomensuráveis
Num vicejar de utopias macabras
Que anunciam que somos nada
Melhor que eu fosse morrer
Em qualquer lugar tão bom de dormir
O peso das palavras de mais um dia
É o que tenho, tudo o que tenho
Um amanhã de silêncios inescapáveis
Melhor calar essas mãos
Matar a verdade dessas palavras
E essa destreza da alma
E de sua força utópica
Mais um amanhã e seu peso
Todas as levezas dilaceradas
Melhor que eu fosse dormir...

segunda-feira, agosto 20, 2007

Agosto Setembro Outubro


Saudade de palavras que vêm lá de além do sol, saudade tanta, que temo entrar numa espécie de catástrofe psicológica. Pois é, tem algum silêncio que me incomoda, ou me deixa assim a sentir falta de algo para a vida parecer, às vezes, um pouco melhor. E nem sinto vontade de escrever aqui quando demora para ler um post que vem de lá. Mas vou tentar, com umas coisas que andava em minha cabeça por esses dias.
Andava atrás de uma letra de música, muito bem cantada por Mercedes Sosa, de quem já tive oportunidade de falar por aqui. Encontrei-a dias desses em uma pesquisa ou outra pela internet, num site com mais de oito mil letras. Eu ouvia a musica e não sabia o que dizia, embora soubesse de quem falava. O título da música é “A Victor”. E esse Victor é Victor Jara.
Todas essas coisas me levaram a algumas coincidências de data. Mas antes disso, há alguns domingos atrás, dia dos pais, lembrei do meu, que nasceu em 1933 e morreu em 1985, um dois meses antes de completar 51 anos. A última vez que o vi com vida foi no Hospital da Beneficência Portuguesa, eu minha mãe íamos visita-lo. Levamos um susto ao entrarmos no quarto no dia de sua cirurgia, ele não estava na cama e havia sangue no lençol. Quedamo-nos em silêncio alguns instantes e ele saiu do banheiro. Estava preparado para a cirurgia, o sangue era de uma espetada de agulha. Ele sentou-se na cama, e eu aos pés, observando seus pés inchados. Perguntei alguma coisa sobre o que seria aquilo. Disse que era por causa dos problemas nos rins. Ele tinha cálculos renais e mais um monte de problemas dos quais nem mais me lembro, foi tudo escrito no atestado de óbito. Não quis mais ver uma cópia, não sei onde está a minha. Depois disso, um silêncio imenso se interpôs entre nós. A única lembrança que tenho é de ter olhado profundamente em seus olhos tão azuis, um olhar que dispensou qualquer palavra, que disse tudo, sem que se tivesse que usar de qualquer palavras. Uma despedida, talvez, um adeus, um até breve. “Daddy's flown across the ocean”.
Ele não viu os netos que lhe dei. Eu fico imaginando como seria ele me ver pai, pai como ele, eu e ele, um filho e dois pais. Saudade dos mais belos blue eyes.
A canção, eis a letra aí embaixo. Coloquei uma tradução, ainda que não seja muito difícil. Sempre me impressionou mais a morte de Victor do que os perigos de sua vida. Líder da canção nova, nascido em 28/09/1932, um ano antes que meu pai e alguns quilômetros muito distante. Dando uma olhada em sua biografia, cheguei a uma outra data interessante, 11 de setembro. No caso o ano é 1973, golpe militar no Chile. Morto Allende, sobe ao poder o general Augusto Pinochet, que era da confiança de Allende, nomeado por ele. Mas que mudou de lado. E no dia 16 de setembro daquele mesmo ano, os militares colocavam o povo no Santiago Stadium (por que “Stadium”?) e entre eles, Victor Jara, que animava a população estarrecida com suas canções e seu violão. Um soldado o mandou parar de cantar, ele não obedeceu, cortou-lhe as mãos. Entre gritos de dor, entremeava versos de suas canções de protesto. Calou-se com um tiro fatal na cabeça. Como negar que essa canção na voz de Mercedes Sosa me emociona?

No puede borrarse el canto
con sangre del buen cantor
después que ha silbado el aire
los tonos de su canción.

Los pájaros llevan notas
a casa del trovador;
tendrán que matar el viento
que dice lucha y amor.

Tendrán que callar el río,
tendrán que secar el mar
que inspiran y dan al hombre
motivos para cantar.

No puede borrarse el canto
con sangre del buen cantor,
tendrán que matar el viento
que dice lucha y amor.

Tendrán que callar el río,
tendrán que secar el mar
que inspiran y dan al hombre
motivos para cantar.


Tendrán que parar la lluvia,
tendrán que apagar el sol,
tendrán que matar el canto
para que olviden tu voz.

Não pode apagar-se o canto
com sangue do bom cantor
depois que assobiou o ar
os tons de sua canção.

Os pássaros levam notas
a casa do trovador;
terão que matar o vento
que diz luta e amor.

Terão que calar o rio,
terão que secar o mar
que inspiram e dão ao homem
motivos para cantar.

Não pode apagar-se o canto
com sangue do bom cantor,
terão que matar o vento
que diz luta e amor.

Terão que calar o rio,
terão que secar o mar
que inspiram e dão ao homem
motivos para cantar.

Terão que parar a chuva,
terão que apagar o sol,
terão que matar o canto
para que esqueçam tua voz.


Naquele ano, o de 1973, eram iniciadas as obras das Torres Gêmeas em Manhattan. Aquelas mesmas que em 11 de setembro de 2001 foram abatidas por dois aviões num atentado terrorista. No dia anterior, eu trabalhava em Campinas, atendendo mutuários de minha companhia. E na manhã do dia 11 fomos dispensados do trabalho porque o prefeito da cidade tinha sido assassinado. Voltei ao hotel e liguei a televisão. Ali estava uma das torres queimando e os repórteres não sabiam nada, se era só um incêndio ou o que, até que vi, na tela da tv um avião rasgando o espaço aéreo que estava interditado, meus olhos grudaram-se na tela e estarrecido, vi o avião chocar-se.
Estava acabando o mundo? Liguei para casa, para saber se estavam todos bem, minha esposa e meus filhos. Podia ser uma operação global, podia ser a terceira guerra mundial.
Mas o 11 de setembro que mais me interessa agora é o próximo. É o aniversário dela. Minha namorada que vive tão longe de mim. Mas depois falo disso.

Faltou agosto. Tirando que nunca consigo esquecer as duas bombas atômicas atiradas sobre o Japão, em Hiroshima em 06/08 e em Nagasaki em 09/08/1945. as fotos dos cogumelos que eu via nos livros de história sempre me encheram de medo. Um dia destruímos tudo, para descobrir que não construímos nada.
Mas agosto tem uma outra data, o dia 05, mais precisamente 05/08/1962, eu já tinha nascido há uns seis meses, e ela morria aos 36 anos em Los Angeles. Andei olhando aqui pela internet muitas fotos dela, incrivelmente linda, incrivelmente mais maravilhosa do que podemos imaginar que fosse. Seu nome: Norma Jean Baker, nascida em 01/06/1926, sete anos antes de meu pai, seis antes de Victor Jara, mais conhecida dos menos aficionados como Marilyn Monroe. Vi também alguns vídeos postados no Youtube. E me deu a estranha impressão de que ela gostava mesmo de sorrir, algo denunciou isso, porque ela sorria com muita facilidade. Encontrada morta e nua, dizem que foi overdose. Dizem que não. Saudade de quem não conheci, dela e de Victor, duas belezas cada qual a seu modo.
Podia agora listar muita gente que se foi e muitas datas. Bastam-me agora esses três, Pai, aos 50; Victor, aos 40; Marilyn, aos 36 anos.
Não sei como o mundo sobrevive depois de perder tanta beleza.

sexta-feira, agosto 10, 2007

O efeito da causa

Precisamos de tempo para pensar. E, pensando, gastamos nosso tempo. Uma decisão se avizinha, eis que imediatamente precisamos de tempo para pensar sobre o que decidir. Pensar e decidir, no mínimo, na melhor das hipóteses, sobre duas coisas, duas alternativas. Geralmente um par de opostos, sim ou não, vou ou não vou, faço ou não faço, isto ou aquilo, sempre uma afirmação contraposta a uma negação ou vice-versa. Decidir implica pensar.
Aproveito para puxar a sardinha para a minha polêmica preferida. Precisamos de tempo para pensar. No entanto, não precisamos de tempo para sentir. Precisaríamos de tempo para pensar sobre o que sentimos? Complicado esse negócio de abrir mão do pensamento poético e ver-se emaranhado em reflexões filosóficas. Sempre esse dilema.
Os primeiros resultados daquilo que fiz afirmando que não queria fazer começam a aparecer. Descubro, atônito, que não tenho certeza se pensava mais que sentia ou o contrário. E desconfio que estava freqüentemente pensando sobre o que sentia. O pior é que, achei que não precisava de tempo para isso. Fui lá fazendo, dando vazão a uma relação de causa e efeito que não levava em conta até aqui. Aparecendo os efeitos, eis o absurdo, eu voltando a pensar sobre o que sinto.
E agora ela também está pensando e gastando seu tempo. Pensando no relacionamento, provavelmente em mim. E eu tendo que pensar se isto é bom ou ruim, se fico satisfeito com essa situação, por achar que antes ela não refletia e agora, depois de meu ato (impensado?), reflete. Vai colocar nos pratos da balança o peso e a leveza desse relacionamento.
Estou preocupado com tudo que vem por aí, no que isso tudo vai dar. E tentando evitar esse fiozinho de esperança que desponta, pois a esperança é feita sempre para gente tentar adivinhar o futuro de acordo com nossas expectativas.
Melhor seria que não fosse assim. Mas quem disse que as coisas perguntam para gente como é que elas devem ser? Nós é que devemos fazer as coisas, não é isto o que parece? Voltamos à necessidade de decisão. Que nos leva ao seu fim mais importante, que é o imperativo da escolha. E escolher não escolher, antes de ser uma fuga, algo que elimina a escolha, nada mais é do que uma escolha.
Amo aquela mulher. E, pensando sobre o que sentia, escolhi decidir não mais esperar por ela.
Lá se vão minhas noites de sono com esse raciocínio circular. Isso ainda vai me deixar tonto.
“O coração tem razões que a própria razão desconhece”. É, Pascal não ajuda muito. Melhor voltar aos poetas.

quinta-feira, agosto 09, 2007

Necessário

Agora que fiz não sei mais se penso ou não penso mais no que fiz. Quanto mais penso, mais me arrependo, e depois me arrependo de ter me arrependido. E arrepender-se do arrependimento é manter o que se fez. E o que fiz fica como está. Feito
Fiz o que não queria e fazer o que não se quer é querer o que não se faz. E muita coisa do que a gente faz, perde-se embrenhada no tempo. E no tempo embrenhada a coisa feita parece não poder ser desfeita, não volta atrás.
Minhas palavras voaram no vento de um instante fugaz. Minhas palavras juntadas uma vez como nunca antes juntadas, para dizer o que não se quer, para não querer o que se diz. Minhas palavras de mim dissidentes, rebeladas de meus anseios, traidoras de minhas vontades, esquecidas de meus mais caros desejos. Levaram num sopro minha alma, e eu fiquei casca, emprenhado desse vazio, entranhado de minhas mais absolutas incertezas, eu casca um vazio tão fundo por dentro e tanto silêncio fora, o que foi que eu fiz?
Não quis e fiz. Era necessário. E na insuportável lógica, o que é necessário sua negação implica uma contradição. E não cabe no coração a desnecessidade do que é ilógico, mesmo que não possa haver lógica alguma na necessidade de ter que fazer sempre o que não se quer.
O amor não é lógico. Não é matemático. Não pode ser expresso por uma equação e nem por nenhum tipo de proposição. Não se presta a deixar-se revelar por meio de elucubrações filosóficas. Quando muito, insinua-se entre um verso e outro da mais displicente e distraída linguagem poética. O amor não é um objeto, nem coisa subjetiva, tampouco é abstração. Talvez fosse uma força da natureza, mas nem isso é, talvez não possamos saber, como algo que confere a toda natureza sua força. Palavras para nos aproximarmos dele, dele nos afastam, abismo, deserto, desolação, solidão, imensidão, um vazio tão pleno de si, tão distante de nossas pobres e inúteis palavras.
Agora há o silêncio de todas as palavras apartadas de mim, um silêncio que é, antes de tudo, triste. Feito de escombros e sombras e de ausências de amanhãs. E de dolorosos esquecimentos, e falsos, que tentam nos arrancar do que somos cada momento do que vivemos. Deixa no lugar apenas uma ferida aberta. Uma luta inglória numa batalha incerta.
A morte nunca me levou ninguém. Mas a vida me toma cada um. Perdidas lembranças, a consciência de estar fadado a viver de esquecimentos.
Meus olhos esquecerão rostos e sorrisos, minha pele não se lembrará de nenhum toque, meus lábios serão secos de todos os beijos, meus braços sem abraços, minhas mãos sem o poder da carícia, meu corpo privado de prazeres, o desejo apenas uma lembrança desvanecida. Nenhum grito na noite, lágrimas apagarão todos os nomes e não saber mais da saudade apagará todos os sinais.
Os lugares marcados sempre trarão de volta tudo o que perdi. Os momentos me prenderão no indesejável passado. O futuro deverá ser um nada imerso no tempo, dissipando-se na atenção incontrolável ao passar das horas.
O apartamento, meu laboratório de alquimia do que vou ou não vou ser, meu túmulo de silêncio e solidão, um bunker que me guarda o coração, onde vivo por pura teimosia, onde espero na absurda espera que um dia a realidade não seja verdade, até cair desse sonho em todos os abismos, para percorrer em vão todos os desertos.
Deixem-me todos! Nunca me viram, não me conheceram. Não ouviram sequer o que havia entre as palavras. Nunca me notaram as mãos, sempre escravas da minha imaginação. Nunca souberam decifrar meu brilho nos olhos, nunca ousaram olhar na direção de meus olhares, para não se perderem em mundos fantásticos, nunca foram capazes de compartilhar meu silêncio. Deixem-me todos! Nunca irão aonde vou.
Eu estou bem não estando nada bem.
Eu caminho por entre sombras, por entre troncos, pisando folhas mortas. Eu saio de todas as casas e desconheço portas, entro pelos olhos de quem não me olha e desvendo a alma. E sei cada palavra antes que saia da boca de quem me fala. sinto a dor antes que sintam quem perto de mim sofre.
No entanto, são meus, só meus, meus olhares e palavras, meus sentimentos do jeito que são. E meu sofrimento que se aquieta constantemente.
Só meus são meus mais impossíveis sonhos, meu silêncio e minha escuridão, a madrugada que me acolhe e o vazio que me recolhe. Meus são todos os pensamentos.
Estou só. E só sou somente sentimentos.