quarta-feira, outubro 08, 2008
Ponto Crítico
terça-feira, setembro 30, 2008
Sarau, dor nas costas e um gravador...
quarta-feira, setembro 17, 2008
Outra reflexão urbana
A segunda-feira tem um ar de porre, de ressaca, de humor alterado. Pelo menos é o dia em que ponho para fora todo o lixo, o lixo de todo o fim de semana, quando não o lixo da semana toda. E é dia de devolver os filmes à locadora. Segunda-feira é sempre o começo de nada.
A noite tem um céu nublado. Saio à rua, vou à locadora, os filmes. A noite parece silenciosa em respeito a minha passagem. Eu pareço flutuar em vez de andar. As ruas do bairro parecem me conhecer mais do que eu a elas. As luzes dos postes esboçam um sorriso irônico, como se olhassem quem já tivesse morrido e teimasse em andar por ali.
Vejo um Ford 1930 estacionado em frente ao mercado, placa de Mauá, DJL 1930. Parece posto ali de propósito, não para ser visto com meus olhos, mas com a imaginação. Para me causar estranheza. O passado materializado num automóvel, insinuando como que uma espécie de resistência diante do futuro, ainda que este me pareça um tanto incerto.
Sentada na calçada, a mulher que recolhe latas de alumínio faz palavras cruzadas. Atravesso a rua no cruzamento, e o Ford 1930 ainda olha para mim, com cara de sorrir ironicamente...
O bairro convive comigo há pouco mais de vinte anos. Conheço cada calçada, cada buraco no asfalto e cada árvore. As árvores parecem jazer sufocadas, envoltas de tanto cimento. Com o pensamento, imaginando, vou tirando todo este cimento das calçadas, o asfalto das ruas, os muros e as grades das casas e dos prédios, tanto ferro e tanto vidro, tanta pedra em cativeiro, as árvores não têm mais a terra.
Na porta da locadora, um Porsche de quinhentos mil reais. O dono dele e eu somos sócios dos mesmos filmes.
Volto pelo mesmo caminho que vim, o contrário de uma subida é uma descida. Ainda vou arrancando ferro e cimento, asfalto, as guias e as sarjetas. Eu preciso de terra...
A luz acesa da sala, por um segundo imaginei que você estivesse aqui, que tinha vindo... ensaio diálogos que vou inventando, para depois esquecer. Imagino cenas que nunca vou viver.
Aquele violão adormecido no canto do quarto, quatrocentos livros na estante, os filmes, as pastas de desenho, os rascunhos de poemas que nem sei mais quando vou digitar... isso tudo sou eu, que não sei como usar.
E essas palavras... esse tic-tac incessante no cérebro. Escreve, escreve! Escreve e não vive, assim está bom... porque se vivesse, não escreveria.
Seriam nossos desejos esses sonhos incompletos, pedaços de sonhos que juntos fariam uma história de verdade? Nossos sonhos seriam desses desejos repletos?
Pseudo-poeta é puta que o pariu... “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é...”
Não é minha vocação ser pequeno demais para caber em suas ilusões racionalistas. E nem grande demais para lhe cobrir com minha sombra. Eu e você: a diferença entre nós é que você pensa que sabe o que é e eu sei que não sou. A sua vida não é nem uma saga, nada tem de glorioso ou heróico. E minha vida não é uma nota de rodapé. A sua vida é tão igual a minha e a minha tão igual a sua. A sua história é nada e a minha não é tudo. São só histórias... histórias que não modificam em nada o curso causal da contingência fenomênica de que se compõe a (des) ordenação do universo.
Ensaio discursos, profiro e escrevo discursos, imagino discursos que se referem a essas nossas ilusões, a nossas máscaras, nossas fantasias, às nossas hipóteses existenciais e às nossas incertezas mais cruciais.
Vê? É noite e há silêncio. Estamos sós do lado de cá do que podemos chamar de realidade, que é o avesso dessa dança da precisão do acaso. Vê? Nossa solidão é cumulada de uma tristeza latejante, que estranhamente brota dessa estranha saudade de tudo aquilo que não somos.
Uma reflexão urbana
De qualquer modo, era uma noite dessas que não se desperdiça impunemente, mas não sei dizer sobre essa noite em toda sua importância e realiza-la em toda sua necessidade. O que não me impede de senti-la e vive-la. Ou mesmo imagina-la em sonhos tantas vezes quanto quiser.
E me comporto como se guardasse um segredo inconfessável de coisas que são só minhas para mim. Enquanto isso, parece que de propósito o resto da humanidade se comporta como se vivesse dentro da mais absoluta normalidade. E eu tendo que conviver com essa ridícula sensação de que tudo tarda ou de que já é muito tarde para tudo, sequer para pensar no que tarda. Esses sentimentos com ares de excessivamente pueril, essa sentimentalidade fora de moda. E esse jeito de amar que parece não ter mais lugar neste mundo.
Eu ali com vontade de mandar tudo à merda. De esquecer que tenho sido há muito temo uma ilha que todos conhecem o nome, mas não sabem como é e nem onde fica. Eu que não consto no mapa do mundo de todas as outras pessoas.
Esse silêncio uma arma, faca de dois gumes, esse silêncio que faz bem a todo mundo e tão mal para mim.
Ela subiu as escadas e desapareceu na escuridão da noite. Deixou um pouco mais de silêncio dentro de mim.
De repente, estou em casa, a garganta seca e a cabeça doendo, os olhos inchados de sono, debruçado na sacada olhando ninguém dobrar aquela esquina, tocar o interfone, subir as escadas do prédio, inundar a sala com um sorriso e iluminar a tarde com alguma presença.
Então imagino cenas. Ela dobra a esquina, pára ao lado daquele poste e me vê olhando-a chegar. Os olhares se fixam por um instante, ínfimo, e conversam mais do que se poderia fazer com todas as palavras, e dizem o que estas não ousam dizer.
Ela sobe e entra no apartamento como quem vem a este mundo ao nascer, como se fosse a primeira vez, e, ao entrar, tudo nasce e renasce com ela, por ela e para ela. Fazemos silêncio e esse silêncio faz justiça a tudo aquilo que as palavras, por serem por demais precárias, não são capazes de expressar.
Amo você desde sempre, ainda que tenha descoberto isso ainda ontem, tão tarde para se dizer como se deve, tão tarde que isso é assim mais um transtorno do que uma alegria. Aquilo que a paixão trazia ontem, hoje não traz mais. Sou tão antigo como as pedras mais antigas. Todo esse arrebatamento, esse êxtase, toda essa saudade com sua inseparável melancolia, são coisas que parece que ninguém mais sabe que ainda se sente ou que ninguém mais sabe sentir.
Há um sonho que sempre tenho, recorrente, em que ela chega em casa e estou dormindo (ou dormitando numa tarde quente), sonhando estar sonhando este sonho. Então ela me vela o sono e, como que dentro do sonho, ou fora dele, me acorda com um leve toque de sua mão. Desperto, eu não sei nunca em que sonho estou, tudo assim tão sonhado, tão feito só de sonhos, mesmo o que tem um quê de parecer real.
Mas tudo isso é poesia de má qualidade, que não serve para nada. Lembra algo que li: “...a poesia, toda a poesia, todo pensamento poético é uma fraude. Ou melhor: uma armadilha, e uma das mais temíveis.”
E esses discursos interiores mais me atormentam do que tranqüilizam. E nada do que eu possa imaginar ou desejar muito muda isso. Olho em volta e estou sempre só, à mercê dos relógios que me dizem o quanto as coisas demoram tanto.
Esse sonho dentro do sonho, do qual acordo com a sensação de que ainda estou sonhando, é tudo o que tenho e o que mais demora em ser o que é. Ninguém dobra a esquina, sobe as escadas, ninguém me vela o sono, me olha nos olhos ou acorda com um leve toque. E isso, eu sei, não é sonho, mas vai ser assim para sempre.
quinta-feira, setembro 04, 2008
Taubaté, setembro de 2008
A estrada, velha e conhecida estrada, zomba de minha disposição atual para enfrentá-la. Não sou mais o mesmo, não sou mais jovem, meus sonhos foram atualizados, alguns eliminados, outros acrescidos que são estranhos demais para quem parece estar cansado de viver, mesmo sem perceber isso ou mesmo tendo que fazer um tremendo esforço para perceber.
Fora de casa, a rotina a que nos entregamos é só uma rotina estrangeira, só isso e nada mais. Mas continua a ser rotina. Longe de casa eu posso perceber que me sinto sufocado, afastado de tudo o que me dá, por assim dizer, uma certa segurança.
E os sentimentos... esses são implacáveis. No estrangeiro elevam-se a décima potência os mesmos costumeiros sentimentos: a solidão e a tristeza e a saudade.
Saudade... tem gente levando muito pouco a sério esse sentimento, essa palavra, que tem esse nome e me leva a outras coisas que ainda não ouso pronunciar o nome. Chico... a saudade é o revés de um parto... a saudade dói latejada... a saudade é o pior tormento... etc etc etc.
E eu, laconicamente, absurdamente atormentado por essas coisas todas lindas que nunca existirão, essas coisas das quais me fogem o nome.
Porque nem mesmo eu mais ouso ter um nome. Só essa fome que chamo saudade, só essa dor que só dói pela distância, só esse silêncio a que me obrigo sem saber por quê e que me atormenta e devora com o tempo a passar, inexoravelmente, sem que eu escolha, do qual não posso fugir e nem fingir, trazendo sempre tudo o que não posso evitar.
Isso: preciso voltar para minha casa e para meu corpo, minha vida e minhas máscaras.
E preciso descobrir urgentemente onde deixei guardada aquela velha tranquilidade...
Mas tenho ainda a estrada pela frente, sempre ela, minha sina e meu destino, minha maldição!
quarta-feira, setembro 03, 2008
Ah, bom!
Todos os lugares parecem (deveriam ser) como quartos de hotéis vagabundos: uma cama, um chuveiro e, quando muito, um aparelho de televisão, dispensável, totalmente dispensável o aparelho de televisão. Na bagagem, roupas, papéis e livros. Você pode levar a tristeza e a solidão para passear em outras paisagens, mas elas não se tornam coisa melhor... E se, aliada a elas a saudade de tudo aquilo que tanto quis e nunca fiz, completam esse quadro, um dia de nuvens sombrias e silêncios, de reflexões inúteis e de imprestáveis conclusões, você vê apenas que tudo o que se fez foi sentir o tempo passar, sem nada de interessante, uma loucura que seja, uma aventura excitante, um novo desafio, sem um outro olhar revelador sobre as mesmas coisas: só a voracidade do tempo a nos consumir.
É complicado amar e parece que ser amado é impossível. Prazer por sua própria rapidez e acuidade de sentido é tudo o que de mais superficial pode haver no que consideramos prazer, esse sentimento tido como impróprio e impuro, não natural e repugnante. Quem nos disse isso em nome de que seita dogma de que deus de que porcaria de paraíso?
Viver é administrar precariedades? Quantos livros mais de Kundera terei que ler para entender isso? Ou quanto tempo mais vou ter que viver para saber que nunca vou entender isso?
A lógica da felicidade (essa lenda) é excluir-se das possibilidades de felicidade, porque esta tem sua cara verdadeira oculta sob a máscara das impossibilidades. Será que é melhor "não querer" para não se decepcionar por não se ter o que se quer? Responda-me quem for capaz, enquanto eu vou seguindo justificando esse meu querer nada.
O que é que escondo tanto de mim mesmo a ponto de nem ousar imaginar como é o que sinto que sinto se é que sinto? Essa estranha e torturante capacidade de não chamar as coisas por seus nomes.
Eu amo e acho isso ridículo, como se eu não tivesse mais esse direito, ou como se não combinasse mais com o que sou, como se eu nem tivesse mais essa necessidade. Amo você e protejo você disso (pelo menos tento), protegendo talvez a mim mesmo. Enquanto isso, resta-me pairar entre esses tantos vazios, entre o querer e o não querer, entre o poder e o não poder querer e até mesmo entre o querer e o não querer querer.
terça-feira, setembro 02, 2008
Hein?!
Minha tristeza tem essa mania de se disfarçar em meus tolos risos.
Minha solidão ronda mesas e companhias nunca escolhidas.
Meu futuro brinca de não existir e meu passado é um espelho,
E essa saudade faz de conta que não é nada... mentirosa, e me engana!
Eu finjo que estou bem e não tenho nenhum talento para isso.
Aos prantos minto que não choro e que desconheço o desespero.
Essas distâncias... essas distâncias me aproximam de tudo!
domingo, agosto 10, 2008
Primeiro
Brilhou sem eu pedir!
Com um sol de viver
Depois foi a noite...
Caiu sem eu perceber!
Com uma lua de chorar
Agora é você
Brilhando como o dia
Linda como uma lua da noite
Entra na minha vida
Sem eu perceber
E fica aqui dentro
Sem eu pedir
Como um sol de viver
Como uma lua de chorar...
sábado, junho 14, 2008
Ah, esse amor...
Eu amo e amo este amor e não outro. Amo uma mulher com este amor e não outra com outro porque sei assim que este amor é este. Ah, este amor que me faz tonto desperdiçar meu tempo a ocupar-me deste amor e não de outro. Amasse outra com outro amor não sei se seria ainda este amor. Ah, esse amor que ocupa os pensamentos com essas questões e não outras. Ah, esse amor...
Este amor que não escrevo mais em árvores, na areia da praia, e nem em papéis que espalharia na bagunça de tantos papéis, só para perderem-se mesmo, os papéis e o amor, este amor, e a idéia dele, a certeza dele, o medo de ele não ser o que não é num futuro que não sei se vem, ou ter sido o que foi num passado nem tão remoto assim do qual não esqueço. Este amor que me consome os dias, espalha-se em cada minuto do viver, aparece em cada poema que ainda ouso escrever, este amor que não me quer crer, que se afasta de mim. Ah, esse amor...
Este amor é feito de proximidades e distâncias, de lembranças e de saudade, de brincar de faz de conta, de pequenas alegrias passageiras e de grandes tristezas duradouras, de momentos de solidão tão inevitáveis, este amor é feito de um medo de ser uma dessas coisas lindas que nunca existirão. Ah, esse amor...
Este amor é feito de confundir-me por inteiro, até não saber o que sinto e como sinto, faz-me confundir delícia com delírio, um gesto de carinho por todo carinho que não se tem em momentos de insustentável carência. Esta carência e este amor. Ah, esse amor...
Este amor me ludibria, me põe indeciso entre amar quem está próximo ou esperar quem está distante, me põe contra todas as paredes, me deixa na beira de sempre mais um abismo, este amor me causa cisma, me obriga a enamorar-me da lua, a suspirar por mais uma estrela que antes não tinha visto, me torna melancólico a ponto de passear sozinho à noite, a espelhar lágrimas em poças d’água, este amor me faz perambular por aí recitando em pensamentos poemas que esquecerei de escrever, talvez os mais bonitos, como seria este que escrevo, se não tivesse esquecido todo o resto, toda a sua forma, toda a sua cor, toda a sua beleza, toda sua delicadeza. Este amor me consome. Ah, esse amor...
quinta-feira, junho 05, 2008
Noite de chuva, sonhos e trovões
Acabei de jantar ovos com bacon, mais umas doses de pinga que eram suas, sei que tenho outra garrafa igual e cheia, que será também minha, se demorar para vir tomar posse dela. Eu prometo e descumpro. Eu minto.
Esse blog não está fechado para balanço (nem nunca estará), muito menos eu. Estamos todos abertos para balanço. Saldos e rescaldos, tanto faz, parece que sei tudo o que sobra sempre, essas coisas repetitivas.
Led Zeppelin no DVD, um livro sobre a Terra e o Universo, da National Geographic, um gato que pensa que páginas virando são brinquedo, eu com os últimos posts impressos, pensando de onde é que se tira tanta besteira. Os romantismos fora de moda, pensando em estar apaixonado por você. Seria tudo de bom, a melhor coisa que poderia acontecer (não fosse esse maldito tempo verbal), mas dei para desconfiar em tudo o que há e pode haver de melhor...
A guitarra de Jimmy Page, a voz de Robert Plant, mas o que me agita é a bateria de John Bonhan, o mais feio deles, portanto o único que tem como obrigação ser talentoso, muito talentoso, o mesmo que se dá com John Paul Jones (não que os outros não sejam talentosos, mas são bonitos.). E neste exato instante começa Stairway to Heaven e eu posso saber nesse momento que The Songs Remains the Same... meus sonhos que não se vendem na feira, minhas esperanças de sobra que, por sobrarem, são sempre jogadas fora.
Agora há pouco cerveja com os amigos, eu, o Coringa, o que se encaixa em qualquer baralho, unanimidade local, nacional, internacional, quando só o que eu queria é um presente barato no dia dos namorados...”Dear lady can you hear the wind blow...” e tudo isso me dá uma inadvertida saudade de você. Você que não está aqui agora, que não vai poder estar sempre que eu queira ou precise, você que tem suas estradas e seus sonhos, suas ilusões que serão no final das contas tão diferentes dos meus ao mesmo tempo que tão parecidos...
It’s late! O que foi feito dele? alguém sabe? Dizem que foi visto por aí, a barba e o cabelo compridos, uma mochila às costas, dois ou três livros na mão, a expressão de quem andou muito mas ainda não se cansou. A mesma expressão estranha no olhar, como o de quem quer ver. Dizem que se deixou de vez levar pelo chamado das estradas, pelas distâncias tantas ainda não percorridas, deixou-se enlevar pelo canto de todas as distâncias, pelo sussurrar do desconhecido. Dizem simplesmente que saiu por aí. Tomou direção norte, ou quem sabe qual? Falou em Bolívia ou Peru, falou num mar chamado Mediterrâneo, em não morrer antes de vê-lo, antes de nele molhar os pés, falou em navios, balões, um trem na Sibéria, o Delta do Okavango, falou de aventuras contra o pouco que oferece o protocolar dia-a-dia, essa mediocridade do passar das horas, falou em uma revolta contra o tempo e a hora de ditar-lhe as regras em vez de submeter-se a elas. Meu tempo é meu! Eu sou o Senhor do Tempo! Foi o que ouviram dizer que disse.
Dizem que enlouqueceu... mas há quem ache que antes é que era louco, e que agora assumiu todo o risco provável da lucidez. Outros contam que morreu, mas dizem que abandonou a morte para a busca incansável de um pouco de vida. Estava morto antes, agora é que resolveu viver. Tudo nele mudou, mas os olhos são os mesmos: só que mais enigmáticos e desafiadores... na verdade, nunca o olharam de verdade nos olhos.
Não lamenta o que deixou, anseia pelo que vai encontrar. Nunca teve nada, porque sempre quis tudo.
Anda a conversar com gente simples que nada conheceu além do rio de sua própria aldeia, que não sabem que língua falavam no tempo de Adão, que não consideram melhor um certo Aristóteles do que alguém com quem se divide um dedo de prosa ou umas tragadas de fumo de corda, umas duas ou três doses de pinga.
Mas insistem em afirmar que ficou louco. Dizem que ouviram dizer que segue rumo ao horizonte para pegar um pôr-do-sol com a mão. E que a vida pode lhe tirar tudo, menos essa vontade de seguir em frente.
Dizem ainda que é um atormentado. Dizem que falou com Deus, outros dizem que esqueceu de Deus. Dizem que é atormentado por causa da tristeza e da solidão, que se desencantou com o amor, com a idéia de felicidade. Mas contam que ele sempre diz que felicidade é não precisar de nada e que amar é não pedir nada em troca. Que melhor do que precisar de pouco é precisar de nada. Diz isso e um monte de outras tolices. É um louco! É o que dizem.
Dizem que ouve vozes. Que ouviu a voz do vento, o silêncio das madrugadas, o clamor de coisas novas nunca antes experimentadas. E saiu por aí.
Dizem que escreve os pedaços dessa história e os pendura nos troncos das árvores, coloca entre as pedras do caminho, deixa nos bancos das praças e das igrejas, põe nas caixas do correio nas casas onde viu alguém sorrir, ou alguém triste demais, onde viu alguém chorar sozinho, sem um ombro para confortar. Ou simplesmente lança esses papéis no ar em dias de grandes ventanias. Crê que não somos a história toda, mas somente pedaços dela. Pedaços tão pequenos que precisam gritar para existir.
Para alguns está certo. Para outros é um infeliz. Para uns tantos é apenas um espelho a refletir o que sentimos quando esquecemos de sentir: saudade.
Saudade no medo de toda liberdade ser só uma estrada, a vida uma mera escolha e tudo mais um sonho. Saudade de cada dia que faz um amanhã.
É tarde. Dorme sob a luz da lua, sua senhora soberana. Sonha com a vida que há ali no fim da rua, no fim da dor, no fim de todas as coisas. E sabe que tudo só pode ser se for para ser no fim de todas as coisas...
De repente acordo com o estrondo imenso de um trovão, são três horas da manhã. Chove muito lá fora. Essas palavras presas na garganta serpentearam pelo pensamento. A noite é mais solitária quando fria e chuvosa. Nisso tudo sinto saudade de você. E me sinto mais sozinho do que sou de fato. E mais triste. O sol trará um calor chamado realidade. E, com ele, essa estrada que não escolhi. E vontade de transformar todos os sonhos em verdade.
terça-feira, junho 03, 2008
Pedido de desculpas
Uma noite fria e vazia, andar em silêncio sem ter alguém do lado, uma garoa leve a fazer espelhos de luz na calçada, os pensamentos arredios procurando disfarçar toda a tristeza. Caminhar como quem flutua na cadência da própria respiração. A solidão de passos que não sabem aonde vão. Diante de uma cena com uma paisagem assim, o que se tem para dizer ou é muito pouco ou é quase nada.
Mas tudo é fruto dessa tristeza que dura, que anda a envenenar-me por dentro, bem aos poucos. Mata tudo que tenho e tudo que quero e mata até o que não tenho. E o que ainda poderia vir a ter.
Melhor fechar tudo para um balanço até segunda ordem. A começar por este blog. E a terminar por mim mesmo.
Romantismo fora de moda
Mas que sinais seriam esses? Tudo fica dúbio... a gente se ilude com uma palavra, um gesto, um jeito de olhar, ou com tudo o que sente bem aqui dentro, que devia conhecer bem, mas não, isso aqui dentro é que desconhece a gente. Sinais que seriam fáceis de entender, bastando o discernimento e a coragem de perceber esse se sentir bem ao lado justamente daquela pessoa, e sentir-se bem de uma maneira bem peculiar. É pensar nela o dia todo, memorizar coisas ditas, as cenas desse filme que tende sabe-se lá para que final.
E não dizer nada, não falar nem da própria suspeita. Deixar como está, porque a paixão torna-se amor e tudo isso pode estragar a amizade. Mas amizade é tão pouco de tudo que se queria, mas já está muito bom. Fica-se com o que já se tem para não perder o que se quer.
Aí ocorre de entrar o frio, de anoitecer todo dia e o silêncio apoderar-se de tudo. Para complicar, uma garoa fina escorre lentamente do céu nublado, do qual não se dá para ver nem que lua tem no céu. E acontece de eu não dormir, o que é pior, como as pessoas normais normalmente fazem. Então é um querer estar onde não se está, fazer outra coisa que não este nada, sentir de novo mais uma vez um tremendo querer estar junto, uma paz e tranqüilidade que não se encontra noutros momentos da vida, sentir sempre como se fosse a última vez que se sentiu, como se não fosse sentir nunca mais.
E depois, sonhar com isso e tentar em vão entender os enigmas desses sonhos, justamente para quem não tem mais paciência para ficar decifrando enigmas. Eu acho que amo você. Não sei. Mas acho também melhor calar. E acho melhor mesmo não saber. E me iludir uma vez mais por achar que esse amor pode ficar muito bem aqui comigo e já é o bastante. Não precisa estar com você. Esse amor só precisa saber que você existe e fazer segredo de si mesmo, para não correr nenhum risco. E existir o quanto for possível. Porque eu amo você, de um amor assim feito de silêncio.
Post Encalhado
Porque depois disso aconteceu muita coisa boa, que contaria aqui, não fosse o fato de algo em ficar preso naquilo que lá trás eu não disse, que tenho que expurgar agora como peso morto que se joga fora, para não ficar o dito pelo não dito no ato de dizer.
De 01/05/2008 – 01:10
Mais de uma hora da manhã e eu já devia ir dormir. Tanto trabalho amanhã por fazer, trabalho enfim que me traz o maldito pão que o diabo amassa com os pés. Mas dormir é meu maior dilema. Resisto até a hora certa de ser vencido pelo cansaço. Como se quisesse prolongar cada hora de mais um dia que passa, como se tudo isso fosse só para viver mais e intensamente essa absurda espera.
E eu espero. Espero que passem todos esses dias que faltam para chegar não sei que dia em que toda essa espera terá se revelado inútil e tola. Para eu poder finalmente poder parar de esperar. Para eu poder seguramente não esperar mais nada.
Seu silêncio pesa sobre mim como um mundo que tenho que carregar nas costas. A distância me limita. E sua ausência me define. Há um vazio que é feito de tanta coisa que é vazia. Coisas que não se disse, que não se pensou, coisas que não se sentiu. E esse vazio em mim quer sempre se fazer angústia e desespero, quer se cercar de um medo tão horrível de esse dia chegar tão igual a todos os outros. Tão igual a todos esses que tenho tido, em que estou só porque triste e triste porque só
Meus dedos temem as teclas do telefone e sua voz ao longe é só mais uma dor na certeza de que isso é amor, tanto quanto eu queria saber que é amor o que sinto tão mais perto aqui. Seja como for, é amor, e como assim o é, é fome que mata aos poucos a cada dia. E é isso e tudo o mais que poder ser traduzido numa única e inegável palavra: saudade.
Dou por mim que o sentimentalismo é uma coisa ridícula e todo e qualquer sentimento só serve para isso mesmo, para nos tornar ridículos. Dou por mim que todos parecem se ocupar de sonhos, enquanto eu me ocupo de não dormir, eu me ocupo em não desistir nunca.
Até que seja finalmente vencido pelo cansaço. E durma. E desista.
Assim sei que saio ileso na batalha do passar das horas dos dias dessa absurda espera, compondo-me de tanta coisa vazia, alimentando-me de nada recheado de nada e temperado com nada, até que chegar o dia em que a espera terá que findar e, findada a espera, eu possa me deleitar como todo o vazio de tanta coisa que juntei.
E ser vencido pelo cansaço. E desistir. E dormir.
De 02/05/2008 – 00:47
Agora que já é tão tarde, não sei onde foram parar meus pensamentos, aqueles que eu tinha bem aqui perto ainda agora, que eu tanto acalentava mas que voaram pela janela e devem habitar agora a distante terra do esquecimento.
Se me aguçam os sentidos, ouço clamores que vêm daqui de dentro, que saem desse silêncio que tenho que fazer. Tic-tac é a música do tempo que passa a devorar-me, enquanto o que sei e tenho de tudo é só essa demora para tudo ficar um pouco, só um pouco, melhor.
Essa solidão só não é mais verdadeira por causa do desfile de pessoas que por aqui faço passar, pensando nelas e esquecendo de mim, importando-me com elas como que para esquecer de mim. Sempre esquecendo.
As outras pessoas são tudo o que devem ser. são tristes e mesquinhas, egoístas, egocêntricas, medrosas, desatentas e desatenciosas, incompreensíveis e insuportáveis. Mas o que importa mesmo nisso tudo é que elas são as “outras pessoas”. E, nisso, eu sou para as outras pessoas a outra pessoa. Sou outro. Que se dane, pois, esse e qualquer dilema ontológico e que cada um leve a passear sua crise existencial aonde quiser. A minha, um pouco conhecida e um tanto domesticada, levo sempre a andar entre as árvores do parque, dou-lhe bastante estrada para conhecer as distâncias, vou leva-la para a beira do rio, farei com que contemple horizontes, crepúsculos e luares. Porque ela é só minha e não divido com ninguém.
E ensaio uma certa devoção a uma certa misantropia. E se não consigo adora-la é por pura teimosia. Sempre acho que as outras pessoas se não estão a debochar de mim estão a me desafiar provocativamente. Eu bem que posso aceitar a contenda e no próximo baile de espelhos trocar-lhes as máscaras ou tira-las de vez. A verdade é uma caixa vazia em que vamos amontoando nossas mentiras.
O que me cansa é tanta conversa fiada que faz o tempo passar e nos consumir ainda mais. E também essa fuga que sempre travestida de busca, esse auto-aniquilamento fazendo as vezes de vida. O que me cansa é todo mundo depositar seu lixo em minha porta, suas excrescências em meus ouvidos. O que de fato me esgota é esse “AI-AI-AI-NHÉM-NHEM-NHEM” ad aeternum das outras pessoas que sempre esquecem de perceber que sou também uma pessoa.
De 20/05/2005 – 01:05
Mis uma rodada de cerveja! Vamos conversar. Abaixe o volume da música ou desligue o som, a TV, desliguem esse olhar viciado sobre as mesmas coisas. Vamos conversar. Afinal, a linguagem foi o maior investimento humano em evolução para ser desperdiçada assim tão à toa. Não me mostrem fotos, vamos aos fatos, vamos confiar na precariedade da memória, que sabe sempre guardar o que realmente importa.
Abandonemos os subterfúgios da convivência, deixemos de lado a covardia da conveniência, vamos nos encontrar porque gostamos uns dos outros, ficar satisfeitos porque já se tem um amigo, alguém com quem goste de estar, alguém em quem não se deixa de pensar.
Se não é para ser assim, deixem-me seguir rumo aos meus abismos, não se preocupem com o fundo do poço (que afinal é meu). E, sobretudo não alterem em nada a pintura de minha vida, não aliviem o peso de minha solidão, não interfiram com as causas e consequências dos momentos contingentes de minha realidade. Não provoquem sem motivo minha tristeza, ela sabe me atormentar sozinha, sem a ajuda de ninguém. Minha solidão e tristeza vão bem. Obrigado!
Não me venham em casa com nada na bagagem, não me apareçam de mãos vazias. Tragam sempre um sorriso, uma palavra nova e bela, uma história tocante e bela, sobre um sonho ou uma esperança, tragam-me nem que for a ilusão de uma quimera. Tragam-me carinho e consideração. O resto todo eu tenho. E tenho de graça, muito mais a dar do que imaginam. Não pensem que me agradam trazendo um anel de ouro para o meu tesouro de pedras. Dispenso suas pérolas, sou um colecionador de conchas que apanhei na areia de cada praia que meus pés pisaram para olhar o por-do-sol.
Chega de conversa! Vamos conversar de verdade. Falar de outras coisas que não as mesmas, que nossos problemas já fazem aniversários. Vamos fazer outras coisas, vamos ser outra coisa. Querer alguma coisa, querer buscar mais do que fugir. Não há lugar no mundo onde possamos esconder nossa tanta miséria.
A natureza fez me assim, parecer versado em vicissitudes humanas. E fez isso parecer menos um dom do que uma maldição.
Entrem em minha casa como quem entra num templo. Tirem os sapatos, as amarras, as roupas, deixem porta afora seus medos e preconceitos, seus dogmas, suas verdades infalíveis, sua visão carcomida de um mundo convencional. Abandonem tudo em prol do silêncio e deixem a escuridão apoderar-se de tudo.
Então nasçamos de novo, a cada instante, a cada morte a que somos submetidos em todo o momento que passa, nasçamos bem a tempo de não morrermos à toa.
E não se enganem. Tudo aqui é sagrado. E tudo ter um ar de profano. Tudo aqui é mundano. Aqui é meu mundo e eu sou só humano.
(Deixem-me ser rabugento quando quiser...)
sexta-feira, maio 02, 2008
É triste isso...
É triste tudo isso se parecer com um deserto. Dias e dias sem comer e sem beber e só areia por todo lado, silêncio e calor, nenhuma brisa, nenhuma sombra. Impressão de que se morre no próximo instante. Triste isso se parecer com uma cela de prisão, solitária, fria e escura, inexpugnável. Não saber se é dia ou noite, manhã ou tarde, se chove ou faz sol, se passa um trem ao longe ou apita um barco que se aproxima do cais. Não saber se é janeiro ou dezembro, verão ou inverno.
Esquecer de súbito o cheiro das flores e suas cores, não sentir a terra sob os pés, ou a grama roçar-lhe os passos. Não se recordar mais do ultimo regaço, ou mãos que tocam e os abraços, não ter molhados os lábios de um último beijo perdido no tempo. O próprio pensamento ser a única coisa que se ouve. Ou a respiração, enquanto respira. Dormir um sono sem sonhos, acordar sem ter descansado, não ter prazer de existir.
É triste isso se parecer com a realidade e sua verdade inescapável, nua e crua. Com os passos que nunca mais vou dar na rua, com olhares inúteis que nunca mais vislumbrarão a luz da lua.
É triste isso parecer que vem de dentro para fora, não o contrário, vem de dentro do peito, de onde não se pode de jeito algum extirpar. Triste não haver nada que acalme o descompasso do coração, essa ânsia, essa agonia, essa vontade de ter asas na beira do abismo.
É triste isso doer tanto de uma dor que remédio nenhum cura ou ao menos mitiga. Triste ser como uma doença, um vício, uma mania. É triste sendo uma dor demorar tanto em ser tão ruim, que nada faz aprender, da qual não se pode esquecer, nem se livrar, porque se pára de doer, há de doer na lembrança de que doeu.
É triste não poder falar disso com ninguém, partilhar, dividir o fardo para carregar. Triste isso ser um segredo íntimo, um sentimento aparentemente ínfimo. Triste isso ser como a solidão na hora da morte. Tão triste isso ser intenso e profundo como um soneto de Camões.
Triste isso ser tudo que é. Triste isso ser amor.
domingo, abril 20, 2008
Ser menos
O grande silêncio alimentado anos a fio se rompe, como que de repente. A gente se torna menos quieto. Depois de uma olhada no espelho, deixar de velar armas e usar as armas, vestir a armadura, empunhar a espada e partir para a guerra. Ninguém vai me dar o que eu não tomar, mesmo que seja um direito meu. Tudo bem. Preparemos a guerra. Nunca fui mesmo de levar desaforos para casa, de aturar a choradeira de adultos que se fazem crianças por quase tudo ou às vezes tanto por nada: por medo, medo da solidão, do dia que vem sem trazer um futuro, medo de não ser amado, e principalmente o grande medo de não conseguir mais se esconder atrás de uma mesma máscara, aquela que cansa e não engana mais ninguém.
Então tá! Olha aí o que eu acho de tudo. Saí de meu olhar no espelho não sem medo, mas conhecendo melhor meus medos antigos e aprendendo a conhecer os medos novos. Eu também estou sozinho e não sei se vai acontecer de alguém me amar para o resto da vida. Além disso, que não é pouco, dinheiro não é meu forte, sexo se vende na esquina só para quem se atreve a comprar e felicidade, bem, essa palavra não faz parte de minha busca. Já disse: sobre fecilidade duas coisas, não sou feliz, não sou infeliz.
Só que agora acabou aquela quietude compreensiva com relação a tudo o que me cheira um probleminha tão pequeno ser tão grande para quem gosta de sofrer e só isso.
Sofro, mas não gosto. Calo sobre essas coisas, como calei até agora, mas não consigo mais.
Venham para o campo de batalha, hipócritas, com suas muletas, eu tenho duas pernas e estou armado.
Não vim a esse mundo para agradar a ninguém.
quarta-feira, abril 16, 2008
Feliz Tudo
De todo modo, tenho a dizer em primeiro lugar que você deve dar um jeito nessa sua vida, afinal você não tem mais vinte e seis anos.
Continuo não sabendo o que gosto em você, de tanto de coisas que há que gosto. Talvez mais fácil dizer uma ou duas coisas que não gosto, duas: quando você desaparece e quando teima comigo.
Bom, mas disfarcemos que é seu aniversário, não pensemos e nem falemos nisso. Falemos então de outras coisas, falemos de você, de quão maravilhosa é, coisas assim que se faz só no dia no nosso aniversário. Tentar falar de algo tão bom que seja inesquecível. É difícil. Arrisco dizer que quando estou triste, penso nela e tudo muda. Se estou com ela então, para um passeio nas ruas da cidade, uma sopa em algum lugar, um cinema ou uma ótima conversa, aí nem sei o que é tristeza. Gosto de tudo nela há muito tempo. E sempre me sinto na obrigação de fazer esses posts-depoimentos, como se fosse o aniversário dela.
Gosto de suas brincadeiras e histórias, seu modo de ver as coisas e falar sobre as coisas, sua relação sui generis com as pessoas, seu modo de estar no mundo com o ar mais desencanado da vida, como se tudo não fosse nada, como se tudo fosse um enorme parque de diversões, as coisas e o mundo, esses brinquedos grandes em que a gente sempre vai, chamado cinema, faculdade, av Paulista ou Augusta, esses prédios sempre nos escondendo a lua cheia.
Mais o que mais gosto mesmo é de fazer parte da vida dela. É legal que ela não seja aquela colega da faculdade, aquela mina que eu conheci quando cursei filosofia. Tirei a sorte grande de conhecê-la. E agradeço as rampas por isso.
Podia falar muito mais, só que eu também não tenho mais vinte e sete anos, nem quarenta e cinco. Aprendi a fazer segredo de algumas coisas boas da vida, para serem um pouco só minhas, ainda que divida com muita gente.Feliz aniversário? Coisa nenhuma. Feliz tudo, até mesmo no dia do seu aniversário. E eu, como presente, fico devendo um post melhor.
Pretérito imperfeito
Meu pai andava de bicicleta, meu irmão dançava ao som de funk, minhas irmãs cantavam as músicas do radio, minha mãe contava histórias de nascimentos, dava um motivo de a gente estar no mundo. Em casa sempre tinha cães e gatos, teve até pombos, todo mundo tocava violão.
E eu trago tudo isso como um tesouro muito bem protegido.
O que há hoje é os olhos estarem cansados e os olhares perdidos na imensidão, o peso no ar da incerteza de se ter vivido.
Há hoje somente a saudade.
Ninguém sabia o que o outro pensava, mas só o que dizia. E o que devia ser feito, primeiro a gente sentia. E a gente ria dos tombos de bicicleta, dos “foras” das namoradas, só se entristecia de verdade quando acabava o assunto. A gente tinha assunto, vivia o assunto, a gente era o assunto. A gente criava e o assunto nunca acabava. A gente sentava na calçada, brincava de noite na rua, namorava no portão, fazia baile todo sábado, se via todo dia.
Meu pai sentava na ponta da mesa e era Natal. Suas histórias eram piadas, suas piadas eram histórias. Na sua carteira a foto de uma mulatinha bonita que era a minha mãe. Toda semana tinha carne moída e purê de batata. E minha mãe fazia doces. E todo dia café com pão, quase sempre tinha bolo. Todo domingo tinha frango e macarrão.
Um tempo em que havia quintais. Tinha festa junina e quermesse, futebol na rua, tinha os amigos que eram amigos dos amigos, tinha alegria de viver.
Tudo isso eu trouxe à mente com o cheiro da Dama da Noite. Seu cheiro dá uma saudade tamanha daquelas noites.
E hoje, tão longe daquilo tudo, sinto que aprendo cada vez mais, ao passar dos anos, a odiar esse pretérito imperfeito.
Senso comum do homem comum
O Homem Comum, cheio de rancor e ressentimento, mata o poeta, mata o homem que em mim pensa, mata o que faz arte. Assim, a poesia jaz em algum calabouço do ser, as cores esvaem-se na escuridão e pensamentos perdem-se em indescritíveis labirintos. E é isso a morte.
O Homem Comum não me perdoa as ousadias, os vôos tresloucados, os devaneios, e essa vontade de muito mais.
Ele me queria com os pés no chão e a cara enfiada num buraco. Queria ser, desse modo, senhor de todos os meus medos e guia de todos os meus passos. Sopraria em minha boca suas próprias palavras, poria diante de mim qualquer coisa que não fosse uma visão minha, enganaria meus desejos e iludiria minhas convicções. O Homem Comum não suporta a traição. Ele é dono de todos os relógios, não admite quem quer que seja não viver a mercê do tempo. E, no mais, ele odeia segredos. Porque em algum segredo pode morar a verdade de uma pessoa.
Poesia... por que tanto silêncio dentro de mim? Tristeza, onde nasceste para eu lutar contra ti desde o início? Aonde ir perder-me? Onde pousar do inútil vôo? Onde um porto? Aonde chegar indo a lugar nenhum? Onde o fim do fim de tudo o que vejo em meus espelhos? Não há luz no vazio e nem vozes no silêncio. Essa escuridão é a certeza de mais nenhuma aurora. Essa hora se demora a doer tão forte, tudo o que há são esquecimentos...
(That’s enough! I don’t wanna to lose this feeling!)
Há quem imagine que é fome ficar algumas horas sem comer. Minha tristeza é como a fome de quem não come há dias. E esquece o que é a ponto de trata-la por outro nome. E a fome que me vai por dentro não é falta de alimento, mas o esquecimento do que ele é.
Por trás de copos e garrafas de bebida, a semana inteira, todos os dias, vi tanto todos os rostos conhecidos. e por trás de suas histórias a minha, tão quieta e acuada num canto, calada num silêncio que não pode nunca se quebrar sob o risco de se tornar em palavras vazias, mais vazias do que podem achar que são.
Ousaria dizer que tanta gente parece estar a um escorregão da felicidade — ou do disso mais se aproxime —, enquanto tive que descer a todos os infernos e de lá retornar, conhecer todos os abismos e desertos. Qualquer unha encravada traz uma dor maior do que a que trago no peito, dia após dia, há tanto tempo.
O jeito é seguir em frente, em minha briga contra o Homem Comum, contra seus convencionalismos, sua visão de mundo, seu senso comum. Não deixar que me dite conceitos prontos para tornarem-se preconceitos, não deixar que me dite moda e modismos, convicções estranhas e espúrias ideologias. Lutar contra o Homem Comum não é ser “revoltadinho”, “rebeldezinho”, ou um ser, como dizem, amargo. Lutar contra o Homem Comum é não mentir nunca a si mesmo e nem aos outros, encarar o real de frente, o que é deveras muito difícil, ter a mente aberta para com tudo quanto possa parecer facilmente aceitável. Um outro olhar para todas as coisas, dentro e fora de você. E nos espelhos, o difícil ato de estar sempre diante do espelho.
terça-feira, abril 15, 2008
Noturnas
sexta-feira, março 28, 2008
Um grito
A saudade é o silêncio do amor. A dor é o silêncio do prazer. A morte é o silêncio da criação.
Vivo. Mergulhado nesse líquido. Encerrado nessa bolsa. Primeira força para sair. Primeiro ar dos pulmões: um grito.

