segunda-feira, fevereiro 02, 2009

02/02/1962 quarto 22

Cinco horas da manhã e coloquei o despertador para as cinco e meia. Para que mesmo o despertador? Ah! Para trabalhar amanhã, quer dizer, hoje, ou melhor dizendo, daqui a bem pouco...
Chegou o computador, quarta-feira passada, ligado aqui quase um mês depois que o pedi. Veio um que tinha um defeito, pedi a troca, a troca demorou, virou um presente a mim mesmo de aniversário, ou quase isso.
Um convite irrecusável para ir ao cinema, assistir O Curioso Caso de Benjamin Button. Chego em casa e cadê o sono que estava aqui? Não foi o gato que comeu, ele está dormindo. Caso curioso mesmo, nascer velho e morrer bebê, ir desaprendendo as coisas. Em vez de cultivar lembranças, próprio de quem viveu muito, estar à mercê dos esquecimentos. Bastante apropriado para a véspera de meu aniversário. Pois eu sinto que começo a me entregar aos esquecimentos, que são de longe melhores do que as lembranças, pelo menos algumas delas, ou talvez todas elas, não sei...
Reza a lenda que nasci no quarto número 22 da Santa Casa de Timburi, no dia 02 de fevereiro de 1962, às 11:15. Quarto filho de um farmacêutico e de uma dona de casa. Seis vieram depois de mim, três naturais e três adotados. Também reza a lenda que nasci engolindo o líquido amniótico, sem forças para romper a bolsa, tendo sido salvo pelo beijo necessário da Irmã Lúcia, que foi pelo gesto homenageada tendo seu nome emprestado à irmã que veio depois de mim.
Eu queria ser astronauta, a Lua já estava nos meus planos, a minha primeira grande paixão. Descobri que não dava para ser. Resolvi ser astrônomo, já que não dava para ir à Lua, eu saberia tudo dela. Descobri que tinha que fazer Física e depois pós-graduação em Astronomia. Ficou só essa paixão por Selene (a Lua) e pelas estrelas, os mistérios do céu, do universo. Um ano de Direito, um de História, dois semestres de Mecânica de Precisão (a matemática outra vez), três anos de Filosofia, este curso concluído, dando-me o título de Bacharel. Entre uma coisa e outra, desenho, poesia, entalhe em madeira, pintura (um ou dois quadros, perdidos), não necessariamente nessa mesma ordem. Hoje a poesia tem feito um certo silêncio e as folhas de papel teimam em permanecer em branco...
Não sei se na verdade me sinto velho para tanta coisa, meu caso também não deixa de ser curioso. Talvez muita coisa tenha acabado para mim e eu tenha que aceitar isso. Tenho uns planos secretos, se não derem certo pelo menos ninguém vai saber.
Não dormir muito talvez seja a melhor forma de viver mais, pelo menos mais horas do dia.
Eu pensava ainda ontem, domingo, as tardes tão iguais de dias tão banais, a pontualidade da matraca do vendedor de biju, e aquilo tudo que eu não fiz e tanto quis, os dias do calendário escoando da folhinha pendurada n'alguma parte da vida. Esse silêncio de um dia amanhecendo... e eu contando o tempo que falta para eu não me importar mais com o tempo. Não ter mais tempo para nada, absolutamente nada.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Três poemas e uma divagação

A NÉVOA

Do lado de dentro dos seus olhos
Para fora a pretensa visão
E entre seus olhos e tudo

Além da pretensa visão
A névoa...

Como um véu a encobrir as coisas
Preservando segredos
Prejudicando toda nitidez
E gerando incertezas
A névoa...

Entre o que você vive
E o que você sonha
A névoa


O IMPOSSÍVEL CARINHO

Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
- Eu soubesse repor -
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância!

Manuel Bandeira

TOCANDO EM FRENTE

É preciso amor pra poder pulsar,
É preciso paz pra poder sorrir,
É preciso a chuva para florir.

Renato Teixeira

O primeiro é meu, se assim se pode dizer. Os outros dois está dito de quem são.
Não chegou meu computador. Eu o teria há dias em casa, mas não chegou. Teria feito muito com ele, mas não chegou. Última semana de férias, semana que vem estou na estrada de novo, e já a 700 km daqui, simplesmente odeio essa distância: qual é a distância de sua proximidade? Ninguém responde.
Eu só queria pulsar, sorrir e florir... mas vai que daí é pedir muito. Então é por isso que não quero contar-te o meu desejo. Entre o que eu quero e o que eu tenho, a névoa...
Bom que arrumei a casa toda. Deu raiva de tanto que ficou arrumada. A certa altura, na iminência de um grito, os olhos do gato pousados sobre mim, dizendo por uma telepatia que não se explica: você não está sozinho, eu estou aqui! Então somos só eu e você, amarelo peludo! A gente até que se diverte e se entende. Acho que prestamos muito bem para o currículo um do outro, ou para a biografia.
O amor também não bateu nessa porta. A mulher da minha vida talvez tenha passado por aqui, talvez não, nem chegou, não cruzamos os olhares, talvez amemos um ao outro e não sabemos, todo mundo sabe, nós não. Isso é até bonito, mas não muito funcional. Ela vinha caminhando e na metade do caminho encontrou outro. Bom para ela...
Eu? Ora, eu vou tocando em frente, apesar do impossível carinho. E tropeçando e errando o caminho, por causa da névoa.


quinta-feira, dezembro 25, 2008

Nix

É noite... e a noite se alastrará para o dia e tomará conta dele com seu silêncio e sua escuridão, com toda sua solidão.
À noite é que foram feitos o Universo, a luz e as estrelas. À noite é que surgiu a vida. Tudo aconteceu primeiro à noite. O primeiro olhar para si mesmo, homem que se torna homem e se apodera do mundo e toma para si a natureza. Ato tão vil como esse, só poderia acontecer mesmo à noite. À noite o primeiro nascimento, a primeira morte, o primeiro olhar de amor e o de ódio, o primeiro grito assustado, a primeira sensação de medo, geradora de todos os medos subsequentes.
É noite! É noite sempre em meu peito, onde a noite nasceu e parece estar até hoje. Gostamos da luz, mas somos filhos da noite. Nela nasceu nossos deuses, nosso deus, nossos santos, e nossos heróis, nossas histórias tiradas de uma certa imaginação, que também só pode ter surgido à noite.
A noite, a grande criadora. Tudo dela sai e tudo a ela volta.
Minha solidão e minha tristeza, meu silêncio, filhos meus e da noite, minha amante.

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Das coisas que se diz...

Das coisas que se diz... serão das coisas que um dia se fará? Sabe lá... o que é morrer de sede em frente ao mar! Só eu sei as esquinas por que passei... vontade de escrever sabe lá o que dá nisso de ficar de citação, o que chamam intertextualidade, que significa os textos de outrem invadindo seu modo de pensar. Pensar que tudo é tão pouco, e tão sem importância, o significado de tudo significando nada, nada, nada.
Sexta-feira é o dia mais amaldiçoado para os solteiros pós casados e para os solteiros que ainda não se amarraram. Sim, é isso mesmo. A vida tão confortável e cômoda de ter alguém em casa ou ter aonde ir e para quem ir. Faz falta.
Quanto tempo sem um cafuné, um chamego, um carinho e uma carícia, uma transa, um dormir juntinho. Aí você olha em volta e vê as pessoas fazendo míserias por causa disso, se arrebentando mesmo, sem um quase nada por quase nada de ninguém que as olha e vê: esmola afetiva. Os mendigos afetivos disfarçam-se de exigentes, não encontrei a pessoa certa.
Certo é que não sou há muito tempo a pessoa certa de ninguém...
Muito mais para dizer. Mas uma espécie de festa me aguarda agora. Sexta-feira, sabe-se como é, todos os gatos são pardos, todas as emoções são escassas, toda felicidade é tão parca.
Chega. A noite é uma criança e eu sou muito velho para ela.

quinta-feira, novembro 27, 2008

Santos

Mercado Municipal de Santos em eu sexagésimo aniversário. E nós ali atendendo os possíveis novos mutuários, no mezanino, fazendo inscrições. Misto de trabalho e prazer, de dever e lazer, pena que a vida toda não seja sempre assim, tudo na vida não ser assim.
Nos boxes do mercado, que passou por uma reforma, algumas oficinas com crianças, arte, ballet, karatê, capoeira. De repente, tenho a impressão qaue tenho uma tremenda saudade de trabalhar com crianças. Fiquei olhando aquilo e percebi que é algo que nunca deveria ter deixado de fazer. Eu até trabalharia mesmo que não fosse em troca daqueles míseros papéis coloridos. Para dizer a verdade, eu gostaria de trabalhar com a criança de qualquer idade, dos oito aos oitenta anos, com a criança que cada um de nós não poderia de jeito nenhum deixar morrer. Prontas para conhecer o mundo, sempre, as crianças são muito atentas e curiosas, interessam-se por tudo, querem saber de tudo e fazer duzentas mil coisas ao mesmo tempo. E o que é melhor, as crianças usam e abusam do sorriso.
O cheiro do mar, ó mar salgado, quanto do teu sal... a brisa na praia, pessoas dispostas como que sempre de férias. 
O Porto, imensos navios de carga, gigantescos armazéns, milhares de containers, a gente sabe que existem essas coisas grandes, mas ainda se impressiona quando as vê. Como as crianças.
Eu descubro de súbito, como me ocorre, que não sirvo para ficar um tempo só no mesmo lugar. Num mesmo lugar sou sempre o mesmo e cada vez mais velho. Andando de lá para cá e de cá para lá, parece que tudo se renova, que sou sempre outro.
Movimento e mudança. A vida quando acha de estar parada, escolhe sempre a pior cena, o capítulo mais difícil e o final mais triste.
No meio da alegria, morreu de felicidade. Queria que dissessem isso de mim um dia.


quarta-feira, novembro 19, 2008

Quem diabos quer saber quem sou?

Que este amor não me cegue nem me siga
Hilda Hilst

Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua de estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida.

Às voltas com minha salada preferida: dialética com poética, sem retórica. Tudo começou esta tarde, quando fuçava minha gaveta no trabalho e encontrei o poema acima. Difícil não se ver nele, difícil não ver nele muita gente. E não é assim tão difícil perceber uma certa síntese de tudo que se quis falar sobre o tema. Mesmo as boas literaturas, às vezes, perdem para os poemas, arrisco dizer.
Eu tenho um celular que encurta a distância com as pessoas. Gosto de mensagens, abuso delas demais, uso-as muitas vezes como uma conversa e, sem perceber, não consigo parar. Eu tento não perturbar ninguém com mensagens (não juro!), mas não consigo resistir.
Morte e saudade... seria isso o que mais assusta? Então comecemos pelo mais difícil, a saudade, já que a morte é o limite, é o que nos define. Os deuses são imortais porque não existem. E nós morreremos porque existimos.
Muita coisa no trabalho esta semana, este mês, este final de ano. Viagens, aquela coisa de sair daqui e ir ali, bem longe, e voltar aqui. E eu padeço de saudades antecipadas que ninguém entende. Já lidei bem com isso antes, quando viajava até mais do que hoje. Colocava tudo numa gaveta etiquetada com o nome comprido de “sentimentos pendentes para se experimentar depois de... depois!". E tocava o barco, mais o da empresa do que o meu, não desfazia a mala e nem abria janelas nos quartos de hotéis. Levava algumas manias a passeio.
Uma vez por dia precisava ouvir uma voz familiar ao telefone...”chegou bem? Aqui está tudo bem! As crianças vão bem! Então tá, deixa eu ir agora! Comprei um carro com os dólares...!
Agora não lido bem com isso de partir. Uma parte minha quer ir (sempre) e outra quer ficar. Juntando as duas não dá certo, porque as duas juntas nunca querem nada.
Reza a lenda que não se morre de saudade. Não se morre disso. Não. Disso não se morre...
Saudade daqueles emails: isto é passado. Saudade de ser escritor: isto é futuro. Saudade de ser outra coisa: isto é presente. Ser outra coisa...
Viagens. Férias adiadas para o ano que vem. Muito trabalho, um pouco de dinheiro, decidi comprar um lap-top. Ser outra coisa...

Quem sou eu?

Aquele que passava por ali (podia ser qualquer outro, mas era eu): entra pra turma, precisamos de um enfeite naquele canto da mesa, um figurante para nossas aventuras, segura o copo como quem está brindando, sorria, diga umas coisas engraçadas. Agora dá licença que vamos fazer uma foto!

Aquele que foi dormir pai, marido, chefe de família, cunhado, genro, tio... e acordou entre assustado e perdido um apartamento, dia três de março de dois mil e cinco, um projeto de filósofo, um poeta a fortiori, mais por necessidade do que por talento, eu e vinte caixa de livros, minha velha poltrona preta, meus discos e meu aparelho de som, os móveis tirados de uma garagem, “ele deve estar bem, só pode estar bem, claro que está bem, ele não reclama, é forte, sensato, teimoso, tranqüilo...

Um menino aprisionado no corpo deste senhor entrado em anos, que perdeu seus brinquedos pelo caminho, uma das jóias mais preciosas do orfanato.

Um sujeito incrivelmente espetacular com dois ouvidos a ouvir “conversar” gente que tem duas ou três bocas...

O cara do piano... não o que toca. O que afina? Não! O cara que carrega o piano.

... mais uma foto, vem um pouquinho mais para trás... da câmera.

Esse monte de rascunho, eu diria estudos, como os artistas, ou esboços, mas isto seria muito.

Um cara culto, de muita leitura, que domina vários assuntos, um verdadeiro intelectual, muito inteligente, tão inteligente que já não é mais capaz de ser imbecil o suficiente para ganhar dinheiro.

Quem sou eu? Pode parecer uma pergunta destinada a auferir elogios. Mas não. Necessidade de saber o seu lugar na fila das migalhas (Exagero! Exagero?), ou saber como posso ser visto por quem me olha de fora, ou de longe, já que de perto ninguém é normal, saber como podem me analisar de modo a balancear adjetivos e substantivos.

Quem sou eu? Quem diabos quer saber?

sexta-feira, outubro 24, 2008

Ainda

Ainda tem essas reticências que se espalham por meus escritos...
Ainda tem a Lua no céu, grande, linda e brilhante, mágica, misteriosa, envolvente...
Ainda tem essa brisa na varanda, um café à noite, um passeio no frio, uma sopa quente...
Ainda tem aquelas crianças que cresceram comigo e brincam com a criança que nunca deixarei de ser...
Ainda tem aquelas lágrimas que rolam despercebidas no meio de uma cena emocionante...
Ainda tem uma saudade do que foi e do que nem ainda é, às vezes até do que é e continua sendo...
Ainda tem um cheiro de terra, uma chuva fina, desenhos nas nuvens, um céu por trás de tudo...
Ainda tem aquela vontade que não se arvora vontade mas tem vontade de se arvorar...
Ainda tem aqueles sonhos esquecidos, lembrados sempre diante das ondas do mar...
Ainda tem uma certeza de que fui o que não acho mais que sou mas que sei que serei sempre...
Ainda tem essa confusão diante do tempo, misturando o presente do passado no futuro do pretérito, tudo tão perfeito, às vezes imperfeito e, quando muito, mais-que perfeito...
Ainda tem esses três pontinhos que coloco depois de tudo que sinto...

Viagens e Devaneios

Estava agora há pouco jantando e bebendo com amigos do trabalho. Mais bebendo do que jantando, tudo bem, está tudo bem, aqui faz um calor de trinta e nove graus e são sete ou oito da noite, de dia fez muito mais e estávamos sob o teto de zinco de uma quadra de esportes, das oito às dezessete. Água, muita água, refrigerante e cigarros, muitos cigarros.
Batatais, cidade que tem uma catedral que é uma quase réplica da Basílica de São Pedro, em Roma, no Vaticano, em escala um oitavo menor. Não tenho fotos, não, nao tenho fotos... e uma praça com as árvores podadas a la Edward Scissorhands! Já disse que não tenho fotos!!!
O que me traz aqui a esta cidade, meus caros, é a pura necessidade do vil metal. Na mesa do bar fico maravilhado com uma Yamaha estradeira, a estrada ainda precisa me conhecer assim, só eu e ela e uma moto, dessas grandes, o vento na cara, a barba por fazer, o cabelo por pentear, o banho por tomar numa próxima cachoeira e um futuro inteiro ainda por se traçar, como as linhas amarelas e brancas da estrada, cheias ou tracejadas, tanto faz, para se voar no tempo qualquer ultrapassagem é permitida.
De súbito, como que pego de tocaia, percebo que elas vieram: tristeza e solidão.
Conto a uma amiga que não durmo bem há uns meses e que isso não é insônia. Porque insônia é querer dormir e não ser capaz. E eu quero sempre não dormir. E quando durmo não descanso, acordo mais arrebentado do que antes quando achava que estava deveras cansado. Hein?! Eu me canso até descansando.
Ela diz: "você não encontra prazer nas coisas, ou não tem encontrado". Eureka! Reiventemos a roda!!! E que ela seja redonda e que rode e que nos guie por essa viagem. Eu não encontro prazer...
Vinte e três horas agora, eu aqui na frente da tela luminosa... é aqui que encontro prazer?!
Calor de uns trinta e cinco graus... eu não sei onde tem prazer!
Não preciso de dinheiro, guarde o seu! Não preciso de carro, vou a pé ou de ônibus (trem é preferível), não preciso de casa própria, cartões de crédito, crédito, talões de cheque, roupa ou sapatos novos, não preciso de uma máquina de lavar ou de um forno microondas, de um armário novo de cozinha, de um guarda roupa mais resistente, nem de outra cama ou de outro colchão. Não preciso de Moët Chandon (cidra serve), Guiness (bavária tá bom), não tomo whisky, não quero um celular novo, não preciso enfim que meu nome seja inserido no rol da fama dos medíocres insatisfeitos que ostentam seu sorriso de plástico e que saem bem em toda foto... não preciso, não preciso, não preciso!
Preciso de amor: amar e ser amado. Básico assim, essa coisa básica cada vez mais complicada.
E que essas perdidas noites de sono não tenham sido assim em vão!

quarta-feira, outubro 15, 2008

Ela virá...

Ela virá. Provavelmente virá. Trará seus olhos, sua boca, suas mãos e seu corpo. Trará até aqui seu corpo de curvas sinuosas e de formas generosas. Trará o irresistível toque de suas mãos. Trará toda a maciez de sua pele. O pitoresco de suas histórias e o seu jeito singelo e atirado de ver as coisas. Trará esse pouco caso de lidar com intimidade compartilhada. Não fará nenhuma pergunta, não oferecerá nenhuma resposta. Não acrescentará nenhuma reflexão sobre essa distância no tempo e no espaço e os efeitos que supostamente provoca.
Ela virá como se nunca tivesse ido. E chegará como se eu nunca tivesse ficado aqui, imerso em minhas reflexões sobre a distância no tempo e no espaço e sobre todos os efeitos que certamente provoca. Ela virá como se tivesse onisciência, como se soubesse que sou feito de incapacidades, feito de uma tola força que me obriga a uma insuportável espera. Ela virá como se o tempo tivesse em mim só o efeito de passar simplesmente e não o de me transformar.
Ela virá para as coisas que imagina que deixou no lugar. Para as mesmas coisas. E vai querer encontra-las no mesmo lugar em que deixou, e do mesmo modo, e as mesmas coisas.
Ela virá e não tocará nesse vazio. Não iluminará essa escuridão. Não trará o fogo necessário para o frio de todas as noites, as passadas e as vindouras. Não quebrará com música e poesia esse insuportável silêncio. E não me olhará nos olhos. Não prestará atenção ao mínimo sussurro que soe como um grito, não se importará com a dor que afinal é alheia, alheia a ela, a todos e a tudo.
Ela virá e não sentirá o peso de minha tristeza. Não saberá em que canto da casa escondi essa vontade de chorar. Não saberá me sentir absorto e perdido em pensamentos naquela sacada, olhando o céu por detrás dos prédios, uma lua alta e brilhante no céu. Não me verá desfazendo-me aos poucos, entregando-me à inevitabilidade disso a que chamam destino. Ela virá e não saberá em que parte da história entra, em que ato dessa ópera bufa. Terá perdido sua deixa e não será capaz de improvisar.
Entrará péla porta errada. Sairá pela janela errada. Deitará na cama errada. Tentará ainda ser amada pela pessoa errada.
Ela virá e não encontrará ninguém em casa. Virá e não mais me encontrará.
Vai estranhar um outro brilho em meus olhos. Um outro perfume que se alastra em minhas lembranças. Não vai entender meus pensamentos distantes e suspensos no tempo e no espaço, anulando de vez toda distância. Não vai entender uma outra presença que não a dela e nem um coração não se agitar não por ela. Não vai entender que meu coração quando grita não ama e quando se cala não se engana. E não saberá mais não ser o que nunca quis ser e temerá que tudo seja assim. Não saberá mais nada de mim. Se soubesse talvez não viria.
Mas a verdade é que ela virá e nada nem ninguém a impedirá de vir...
Nem me afastará dela e nem mudará a verdade da incerteza de meus sentimentos.
Nada me tirará dessa inútil e tola espera que deixo viver em mim mesmo sem querer.
Estou só no fim de todas as coisas e nada nem ninguém virá me salvar.
Até só restar ela... e mais ninguém!

quarta-feira, outubro 08, 2008

Ponto Crítico

A solidão e a tristeza não são mais minhas amigas... ah, deixa disso! essas linguagens poéticas, esse linguajar tonitroante e randômico, essas voltas em torno de nada para dizer nada sobre tudo... (quem fui que me deu essa bronca?)
A verdade é que não estou achando mais graça nenhuma nessa coisa de solidão e tristeza. E no momento não preciso de nenhum poeta tão filho da puta como eu para dizer como isso é. Preciso apenas de uma palavra: foda!
Quando você chega a um ponto crítico de sua vida, ou a um ponto em que seu espírito crítico já versou sobre tudo, não há mais volta. Há um enorme abismo entre este mundo aqui e o mundo de lá que você almeja, anseia, sei lá o quê (parece que nem as palavras querem mais ser minhas amigas...), enfim, este mundo que você já digeriu e o outro mais além que se apresenta como um banquete de iguarias totalmente novas, desconhecidas, nunca dantes experimentadas. Então tem que haver entre esses mundos uma ponte sobre o abismo. Isso: uma ponte sobre o abismo. Ou você a constrói ou usa as que estão construídas. Uma corda entre dois pontos, uma ponte de corda, ou de concreto ou ferro. Então você chega desse outro lado e o que acontece? Nada... você olha para trás e sente saudade daquele velho mundo que era tão confortável, conhecido, onde você estava tranquilo e acomodado. O novo assusta, mesmo quando ele nem se apresentou ainda.
Vou fazer o quê daqui para frente? Pontes que me levam de nenhum lugar a lugar algum. Eis o dilema das palavras e das imagens. Toda a realidade é mais filha da puta do que eu posso ser.
Chega de brincar de ter sentimentos. Dói estar sozinho e incomoda ser assolado pela tristeza. Um dia desses como hoje, frio e propenso a todo tipo de romantismo, aí temos o calor da pipoca e uma tela brilhante na frente. Covardes que somos!
Então, que faço? Resolvo que serei mais solitário que a solidão e mais triste que a tristeza. Quero apagar na história todos os registros de minha passagem. Quero não precisar de nada e nem de ninguém. Aceito os fatos, assimilo os fatos, adapto-me aos fatos. Não vai aparecer ninguém por essa rua vazia.
E ensaio meus próximos passos além do abismo. Não sei quem ou o que morre em mim. Tampouco sei quem ou o que vai nascer.
Estou atravessando minha ponte de cordas sobre o imenso abismo...

terça-feira, setembro 30, 2008

Sarau, dor nas costas e um gravador...

As frases que me escapam dos pensamentos agora aprisiono num gravador. Isso também cansa. Logo volto à precariedade de esquecer e tentar lembrar, dos bloquinhos de papel e canetas, tudo dentro da minha providencial mochila. Mas o gravador ainda tenta me conquistar...
Rabugento... tudo sou nessas tardes tão iguais, e mesmas noites, dias que amanhecem sem novidade, mesmo silêncio, mesmas perguntas, as mesmas renitentes dúvidas sobre o que nem quero mesmo saber.
Um sarau no sábado. É boa a companhia dos poetas. E engraçado é que nenhum deles te chama de "pseudo-poeta". Ali, você é poeta e pronto. Os poetas não morrem de velhice, mas quase que morrem de dor nas costas, morrem por um espirro... se não, inflamam os músculos. Um poeta no hospital não serve para nada, nem sabe sentir dor, fica olhando a dor dos outros e comparando com a sua.
Comecei a semana com essa dor... e vi que tenho que rever toda a poesia e todos os meus olhares sobre todas as coisas, e meus olhares novos para coisas novas.
Preciso morrer do jeito que sou e que me sabem, para nascer outro que não sabem e eu poder ser à vontade, com toda a liberdade.
Ah! Meus livros na estante... estou a ponto de dar um motivo para vocês existirem.

quarta-feira, setembro 17, 2008

Outra reflexão urbana

É bom estar de volta em casa, de volta a esta tão polêmica odiada e amada cidade. Um pouco de frio – sinto falta da garoa -, um quê de anonimato em meio à multidão, aqueles mesmos rostos desfilando suas histórias intangíveis, desafio maior para qualquer tipo de imaginação. Aqui posso me sentir sozinho à vontade, rodeado de gente.
A segunda-feira tem um ar de porre, de ressaca, de humor alterado. Pelo menos é o dia em que ponho para fora todo o lixo, o lixo de todo o fim de semana, quando não o lixo da semana toda. E é dia de devolver os filmes à locadora. Segunda-feira é sempre o começo de nada.
A noite tem um céu nublado. Saio à rua, vou à locadora, os filmes. A noite parece silenciosa em respeito a minha passagem. Eu pareço flutuar em vez de andar. As ruas do bairro parecem me conhecer mais do que eu a elas. As luzes dos postes esboçam um sorriso irônico, como se olhassem quem já tivesse morrido e teimasse em andar por ali.
Vejo um Ford 1930 estacionado em frente ao mercado, placa de Mauá, DJL 1930. Parece posto ali de propósito, não para ser visto com meus olhos, mas com a imaginação. Para me causar estranheza. O passado materializado num automóvel, insinuando como que uma espécie de resistência diante do futuro, ainda que este me pareça um tanto incerto.
Sentada na calçada, a mulher que recolhe latas de alumínio faz palavras cruzadas. Atravesso a rua no cruzamento, e o Ford 1930 ainda olha para mim, com cara de sorrir ironicamente...
O bairro convive comigo há pouco mais de vinte anos. Conheço cada calçada, cada buraco no asfalto e cada árvore. As árvores parecem jazer sufocadas, envoltas de tanto cimento. Com o pensamento, imaginando, vou tirando todo este cimento das calçadas, o asfalto das ruas, os muros e as grades das casas e dos prédios, tanto ferro e tanto vidro, tanta pedra em cativeiro, as árvores não têm mais a terra.
Na porta da locadora, um Porsche de quinhentos mil reais. O dono dele e eu somos sócios dos mesmos filmes.
Volto pelo mesmo caminho que vim, o contrário de uma subida é uma descida. Ainda vou arrancando ferro e cimento, asfalto, as guias e as sarjetas. Eu preciso de terra...
A luz acesa da sala, por um segundo imaginei que você estivesse aqui, que tinha vindo... ensaio diálogos que vou inventando, para depois esquecer. Imagino cenas que nunca vou viver.
Aquele violão adormecido no canto do quarto, quatrocentos livros na estante, os filmes, as pastas de desenho, os rascunhos de poemas que nem sei mais quando vou digitar... isso tudo sou eu, que não sei como usar.
E essas palavras... esse tic-tac incessante no cérebro. Escreve, escreve! Escreve e não vive, assim está bom... porque se vivesse, não escreveria.
Seriam nossos desejos esses sonhos incompletos, pedaços de sonhos que juntos fariam uma história de verdade? Nossos sonhos seriam desses desejos repletos?
Pseudo-poeta é puta que o pariu... “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é...”
Não é minha vocação ser pequeno demais para caber em suas ilusões racionalistas. E nem grande demais para lhe cobrir com minha sombra. Eu e você: a diferença entre nós é que você pensa que sabe o que é e eu sei que não sou. A sua vida não é nem uma saga, nada tem de glorioso ou heróico. E minha vida não é uma nota de rodapé. A sua vida é tão igual a minha e a minha tão igual a sua. A sua história é nada e a minha não é tudo. São só histórias... histórias que não modificam em nada o curso causal da contingência fenomênica de que se compõe a (des) ordenação do universo.
Ensaio discursos, profiro e escrevo discursos, imagino discursos que se referem a essas nossas ilusões, a nossas máscaras, nossas fantasias, às nossas hipóteses existenciais e às nossas incertezas mais cruciais.
Vê? É noite e há silêncio. Estamos sós do lado de cá do que podemos chamar de realidade, que é o avesso dessa dança da precisão do acaso. Vê? Nossa solidão é cumulada de uma tristeza latejante, que estranhamente brota dessa estranha saudade de tudo aquilo que não somos.

Uma reflexão urbana

Eu sabia que quando ela descesse as escadas tudo o que eu tinha para dizer ia ficar encalacrado na garganta. E o silêncio que ia se fazer iria perdurar até o fim de meus dias, ainda que eu o quebrasse antes, e esse silêncio seria triste como mil mortes nesta única e miserável vida.
De qualquer modo, era uma noite dessas que não se desperdiça impunemente, mas não sei dizer sobre essa noite em toda sua importância e realiza-la em toda sua necessidade. O que não me impede de senti-la e vive-la. Ou mesmo imagina-la em sonhos tantas vezes quanto quiser.
E me comporto como se guardasse um segredo inconfessável de coisas que são só minhas para mim. Enquanto isso, parece que de propósito o resto da humanidade se comporta como se vivesse dentro da mais absoluta normalidade. E eu tendo que conviver com essa ridícula sensação de que tudo tarda ou de que já é muito tarde para tudo, sequer para pensar no que tarda. Esses sentimentos com ares de excessivamente pueril, essa sentimentalidade fora de moda. E esse jeito de amar que parece não ter mais lugar neste mundo.
Eu ali com vontade de mandar tudo à merda. De esquecer que tenho sido há muito temo uma ilha que todos conhecem o nome, mas não sabem como é e nem onde fica. Eu que não consto no mapa do mundo de todas as outras pessoas.
Esse silêncio uma arma, faca de dois gumes, esse silêncio que faz bem a todo mundo e tão mal para mim.
Ela subiu as escadas e desapareceu na escuridão da noite. Deixou um pouco mais de silêncio dentro de mim.
De repente, estou em casa, a garganta seca e a cabeça doendo, os olhos inchados de sono, debruçado na sacada olhando ninguém dobrar aquela esquina, tocar o interfone, subir as escadas do prédio, inundar a sala com um sorriso e iluminar a tarde com alguma presença.
Então imagino cenas. Ela dobra a esquina, pára ao lado daquele poste e me vê olhando-a chegar. Os olhares se fixam por um instante, ínfimo, e conversam mais do que se poderia fazer com todas as palavras, e dizem o que estas não ousam dizer.
Ela sobe e entra no apartamento como quem vem a este mundo ao nascer, como se fosse a primeira vez, e, ao entrar, tudo nasce e renasce com ela, por ela e para ela. Fazemos silêncio e esse silêncio faz justiça a tudo aquilo que as palavras, por serem por demais precárias, não são capazes de expressar.
Amo você desde sempre, ainda que tenha descoberto isso ainda ontem, tão tarde para se dizer como se deve, tão tarde que isso é assim mais um transtorno do que uma alegria. Aquilo que a paixão trazia ontem, hoje não traz mais. Sou tão antigo como as pedras mais antigas. Todo esse arrebatamento, esse êxtase, toda essa saudade com sua inseparável melancolia, são coisas que parece que ninguém mais sabe que ainda se sente ou que ninguém mais sabe sentir.
Há um sonho que sempre tenho, recorrente, em que ela chega em casa e estou dormindo (ou dormitando numa tarde quente), sonhando estar sonhando este sonho. Então ela me vela o sono e, como que dentro do sonho, ou fora dele, me acorda com um leve toque de sua mão. Desperto, eu não sei nunca em que sonho estou, tudo assim tão sonhado, tão feito só de sonhos, mesmo o que tem um quê de parecer real.
Mas tudo isso é poesia de má qualidade, que não serve para nada. Lembra algo que li: “...a poesia, toda a poesia, todo pensamento poético é uma fraude. Ou melhor: uma armadilha, e uma das mais temíveis.”
E esses discursos interiores mais me atormentam do que tranqüilizam. E nada do que eu possa imaginar ou desejar muito muda isso. Olho em volta e estou sempre só, à mercê dos relógios que me dizem o quanto as coisas demoram tanto.
Esse sonho dentro do sonho, do qual acordo com a sensação de que ainda estou sonhando, é tudo o que tenho e o que mais demora em ser o que é. Ninguém dobra a esquina, sobe as escadas, ninguém me vela o sono, me olha nos olhos ou acorda com um leve toque. E isso, eu sei, não é sonho, mas vai ser assim para sempre.

quinta-feira, setembro 04, 2008

Taubaté, setembro de 2008

Faz umas quatro ou cinco semanas que tenho vindo a Taubaté, a trabalho. Perto de São Paulo, mas ainda assim muito longe de onde queria mesmo ir, para longe, por uns tempos ou pela vida toda, sei lá. Chamo carinhosamente de Taubatexas, porque aqui é quente, mesmo na lua crescente, é quente.
A estrada, velha e conhecida estrada, zomba de minha disposição atual para enfrentá-la. Não sou mais o mesmo, não sou mais jovem, meus sonhos foram atualizados, alguns eliminados, outros acrescidos que são estranhos demais para quem parece estar cansado de viver, mesmo sem perceber isso ou mesmo tendo que fazer um tremendo esforço para perceber.
Fora de casa, a rotina a que nos entregamos é só uma rotina estrangeira, só isso e nada mais. Mas continua a ser rotina. Longe de casa eu posso perceber que me sinto sufocado, afastado de tudo o que me dá, por assim dizer, uma certa segurança.
E os sentimentos... esses são implacáveis. No estrangeiro elevam-se a décima potência os mesmos costumeiros sentimentos: a solidão e a tristeza e a saudade.
Saudade... tem gente levando muito pouco a sério esse sentimento, essa palavra, que tem esse nome e me leva a outras coisas que ainda não ouso pronunciar o nome. Chico... a saudade é o revés de um parto... a saudade dói latejada... a saudade é o pior tormento... etc etc etc.
E eu, laconicamente, absurdamente atormentado por essas coisas todas lindas que nunca existirão, essas coisas das quais me fogem o nome.
Porque nem mesmo eu mais ouso ter um nome. Só essa fome que chamo saudade, só essa dor que só dói pela distância, só esse silêncio a que me obrigo sem saber por quê e que me atormenta e devora com o tempo a passar, inexoravelmente, sem que eu escolha, do qual não posso fugir e nem fingir, trazendo sempre tudo o que não posso evitar.
Isso: preciso voltar para minha casa e para meu corpo, minha vida e minhas máscaras.
E preciso descobrir urgentemente onde deixei guardada aquela velha tranquilidade...
Mas tenho ainda a estrada pela frente, sempre ela, minha sina e meu destino, minha maldição!

quarta-feira, setembro 03, 2008

Ah, bom!

Eu acho que sei que é isso. Essa vida que não sei para que serve. Meu corpo torto indo de uma cidade para outra, levado por essas estradas, impiedosamente. Raízes? Não sei de raízes... tenho na memória uma coleção de rostos que temo esquecer. Minha casa vai ser sempre onde estou e, desse modo, vai ser em lugar algum. Aliás, parece que o mundo todo, todas as estradas e todas as cidades são lugar algum. Parece que não não há nenhum lugar em que eu (minha alma?) descanse devidamente.
Todos os lugares parecem (deveriam ser) como quartos de hotéis vagabundos: uma cama, um chuveiro e, quando muito, um aparelho de televisão, dispensável, totalmente dispensável o aparelho de televisão. Na bagagem, roupas, papéis e livros. Você pode levar a tristeza e a solidão para passear em outras paisagens, mas elas não se tornam coisa melhor... E se, aliada a elas a saudade de tudo aquilo que tanto quis e nunca fiz, completam esse quadro, um dia de nuvens sombrias e silêncios, de reflexões inúteis e de imprestáveis conclusões, você vê apenas que tudo o que se fez foi sentir o tempo passar, sem nada de interessante, uma loucura que seja, uma aventura excitante, um novo desafio, sem um outro olhar revelador sobre as mesmas coisas: só a voracidade do tempo a nos consumir.
É complicado amar e parece que ser amado é impossível. Prazer por sua própria rapidez e acuidade de sentido é tudo o que de mais superficial pode haver no que consideramos prazer, esse sentimento tido como impróprio e impuro, não natural e repugnante. Quem nos disse isso em nome de que seita dogma de que deus de que porcaria de paraíso?
Viver é administrar precariedades? Quantos livros mais de Kundera terei que ler para entender isso? Ou quanto tempo mais vou ter que viver para saber que nunca vou entender isso?
A lógica da felicidade (essa lenda) é excluir-se das possibilidades de felicidade, porque esta tem sua cara verdadeira oculta sob a máscara das impossibilidades. Será que é melhor "não querer" para não se decepcionar por não se ter o que se quer? Responda-me quem for capaz, enquanto eu vou seguindo justificando esse meu querer nada.
O que é que escondo tanto de mim mesmo a ponto de nem ousar imaginar como é o que sinto que sinto se é que sinto? Essa estranha e torturante capacidade de não chamar as coisas por seus nomes.
Eu amo e acho isso ridículo, como se eu não tivesse mais esse direito, ou como se não combinasse mais com o que sou, como se eu nem tivesse mais essa necessidade. Amo você e protejo você disso (pelo menos tento), protegendo talvez a mim mesmo. Enquanto isso, resta-me pairar entre esses tantos vazios, entre o querer e o não querer, entre o poder e o não poder querer e até mesmo entre o querer e o não querer querer.

terça-feira, setembro 02, 2008

Hein?!

Meu silêncio tem um quê de grito que não ouço por estar sempre assim tão atento...
Minha tristeza tem essa mania de se disfarçar em meus tolos risos.
Minha solidão ronda mesas e companhias nunca escolhidas.
Meu futuro brinca de não existir e meu passado é um espelho,
E essa saudade faz de conta que não é nada... mentirosa, e me engana!
Eu finjo que estou bem e não tenho nenhum talento para isso.
Aos prantos minto que não choro e que desconheço o desespero.
Essas distâncias... essas distâncias me aproximam de tudo!

domingo, agosto 10, 2008

Primeiro

Primeiro foi o dia...
Brilhou sem eu pedir!
Com um sol de viver
Depois foi a noite...
Caiu sem eu perceber!
Com uma lua de chorar
Agora é você
Brilhando como o dia
Linda como uma lua da noite
Entra na minha vida
Sem eu perceber
E fica aqui dentro
Sem eu pedir
Como um sol de viver
Como uma lua de chorar...

De um tempinho atrás, esses pensamentos soltos, tanta coisa que a nada se prende, essa desejável liberdade indesejável de ser e estar só, inventando "você" para preencher um vazio do qual se desconhece o tamanho. Tão pouco de tanto para dizer, além do medo de dizê-lo e a capacidade de calar as coisas mais importantes.

sábado, junho 14, 2008

Ah, esse amor...

Eu amo e amo este amor e não outro. Amo uma mulher com este amor e não outra com outro porque sei assim que este amor é este. Ah, este amor que me faz tonto desperdiçar meu tempo a ocupar-me deste amor e não de outro. Amasse outra com outro amor não sei se seria ainda este amor. Ah, esse amor que ocupa os pensamentos com essas questões e não outras. Ah, esse amor...

Este amor que não escrevo mais em árvores, na areia da praia, e nem em papéis que espalharia na bagunça de tantos papéis, só para perderem-se mesmo, os papéis e o amor, este amor, e a idéia dele, a certeza dele, o medo de ele não ser o que não é num futuro que não sei se vem, ou ter sido o que foi num passado nem tão remoto assim do qual não esqueço. Este amor que me consome os dias, espalha-se em cada minuto do viver, aparece em cada poema que ainda ouso escrever, este amor que não me quer crer, que se afasta de mim. Ah, esse amor...

Este amor é feito de proximidades e distâncias, de lembranças e de saudade, de brincar de faz de conta, de pequenas alegrias passageiras e de grandes tristezas duradouras, de momentos de solidão tão inevitáveis, este amor é feito de um medo de ser uma dessas coisas lindas que nunca existirão. Ah, esse amor...

Este amor é feito de confundir-me por inteiro, até não saber o que sinto e como sinto, faz-me confundir delícia com delírio, um gesto de carinho por todo carinho que não se tem em momentos de insustentável carência. Esta carência e este amor. Ah, esse amor...

Este amor me ludibria, me põe indeciso entre amar quem está próximo ou esperar quem está distante, me põe contra todas as paredes, me deixa na beira de sempre mais um abismo, este amor me causa cisma, me obriga a enamorar-me da lua, a suspirar por mais uma estrela que antes não tinha visto, me torna melancólico a ponto de passear sozinho à noite, a espelhar lágrimas em poças d’água, este amor me faz perambular por aí recitando em pensamentos poemas que esquecerei de escrever, talvez os mais bonitos, como seria este que escrevo, se não tivesse esquecido todo o resto, toda a sua forma, toda a sua cor, toda a sua beleza, toda sua delicadeza. Este amor me consome. Ah, esse amor...

A cada momento eu sei e tudo que sei é deste amor. Este amor que eu temo virar um dia aquele amor, aquele do qual se fala quando não é mais este, este aqui que sobre o qual um dia ainda direi que era tudo o que eu tinha antes de virar aquele. Ah, aquele amor...

quinta-feira, junho 05, 2008

Noite de chuva, sonhos e trovões

Está bem! Eu minto. Não aos outros, mas a mim mesmo. Tudo por causa da teimosia, sou teimoso até comigo mesmo.
Acabei de jantar ovos com bacon, mais umas doses de pinga que eram suas, sei que tenho outra garrafa igual e cheia, que será também minha, se demorar para vir tomar posse dela. Eu prometo e descumpro. Eu minto.
Esse blog não está fechado para balanço (nem nunca estará), muito menos eu. Estamos todos abertos para balanço. Saldos e rescaldos, tanto faz, parece que sei tudo o que sobra sempre, essas coisas repetitivas.
Led Zeppelin no DVD, um livro sobre a Terra e o Universo, da National Geographic, um gato que pensa que páginas virando são brinquedo, eu com os últimos posts impressos, pensando de onde é que se tira tanta besteira. Os romantismos fora de moda, pensando em estar apaixonado por você. Seria tudo de bom, a melhor coisa que poderia acontecer (não fosse esse maldito tempo verbal), mas dei para desconfiar em tudo o que há e pode haver de melhor...
A guitarra de Jimmy Page, a voz de Robert Plant, mas o que me agita é a bateria de John Bonhan, o mais feio deles, portanto o único que tem como obrigação ser talentoso, muito talentoso, o mesmo que se dá com John Paul Jones (não que os outros não sejam talentosos, mas são bonitos.). E neste exato instante começa Stairway to Heaven e eu posso saber nesse momento que The Songs Remains the Same... meus sonhos que não se vendem na feira, minhas esperanças de sobra que, por sobrarem, são sempre jogadas fora.
Agora há pouco cerveja com os amigos, eu, o Coringa, o que se encaixa em qualquer baralho, unanimidade local, nacional, internacional, quando só o que eu queria é um presente barato no dia dos namorados...”Dear lady can you hear the wind blow...” e tudo isso me dá uma inadvertida saudade de você. Você que não está aqui agora, que não vai poder estar sempre que eu queira ou precise, você que tem suas estradas e seus sonhos, suas ilusões que serão no final das contas tão diferentes dos meus ao mesmo tempo que tão parecidos...

It’s late! O que foi feito dele? alguém sabe? Dizem que foi visto por aí, a barba e o cabelo compridos, uma mochila às costas, dois ou três livros na mão, a expressão de quem andou muito mas ainda não se cansou. A mesma expressão estranha no olhar, como o de quem quer ver. Dizem que se deixou de vez levar pelo chamado das estradas, pelas distâncias tantas ainda não percorridas, deixou-se enlevar pelo canto de todas as distâncias, pelo sussurrar do desconhecido. Dizem simplesmente que saiu por aí. Tomou direção norte, ou quem sabe qual? Falou em Bolívia ou Peru, falou num mar chamado Mediterrâneo, em não morrer antes de vê-lo, antes de nele molhar os pés, falou em navios, balões, um trem na Sibéria, o Delta do Okavango, falou de aventuras contra o pouco que oferece o protocolar dia-a-dia, essa mediocridade do passar das horas, falou em uma revolta contra o tempo e a hora de ditar-lhe as regras em vez de submeter-se a elas. Meu tempo é meu! Eu sou o Senhor do Tempo! Foi o que ouviram dizer que disse.
Dizem que enlouqueceu... mas há quem ache que antes é que era louco, e que agora assumiu todo o risco provável da lucidez. Outros contam que morreu, mas dizem que abandonou a morte para a busca incansável de um pouco de vida. Estava morto antes, agora é que resolveu viver. Tudo nele mudou, mas os olhos são os mesmos: só que mais enigmáticos e desafiadores... na verdade, nunca o olharam de verdade nos olhos.
Não lamenta o que deixou, anseia pelo que vai encontrar. Nunca teve nada, porque sempre quis tudo.
Anda a conversar com gente simples que nada conheceu além do rio de sua própria aldeia, que não sabem que língua falavam no tempo de Adão, que não consideram melhor um certo Aristóteles do que alguém com quem se divide um dedo de prosa ou umas tragadas de fumo de corda, umas duas ou três doses de pinga.
Mas insistem em afirmar que ficou louco. Dizem que ouviram dizer que segue rumo ao horizonte para pegar um pôr-do-sol com a mão. E que a vida pode lhe tirar tudo, menos essa vontade de seguir em frente.
Dizem ainda que é um atormentado. Dizem que falou com Deus, outros dizem que esqueceu de Deus. Dizem que é atormentado por causa da tristeza e da solidão, que se desencantou com o amor, com a idéia de felicidade. Mas contam que ele sempre diz que felicidade é não precisar de nada e que amar é não pedir nada em troca. Que melhor do que precisar de pouco é precisar de nada. Diz isso e um monte de outras tolices. É um louco! É o que dizem.
Dizem que ouve vozes. Que ouviu a voz do vento, o silêncio das madrugadas, o clamor de coisas novas nunca antes experimentadas. E saiu por aí.
Dizem que escreve os pedaços dessa história e os pendura nos troncos das árvores, coloca entre as pedras do caminho, deixa nos bancos das praças e das igrejas, põe nas caixas do correio nas casas onde viu alguém sorrir, ou alguém triste demais, onde viu alguém chorar sozinho, sem um ombro para confortar. Ou simplesmente lança esses papéis no ar em dias de grandes ventanias. Crê que não somos a história toda, mas somente pedaços dela. Pedaços tão pequenos que precisam gritar para existir.
Para alguns está certo. Para outros é um infeliz. Para uns tantos é apenas um espelho a refletir o que sentimos quando esquecemos de sentir: saudade.
Saudade no medo de toda liberdade ser só uma estrada, a vida uma mera escolha e tudo mais um sonho. Saudade de cada dia que faz um amanhã.
É tarde. Dorme sob a luz da lua, sua senhora soberana. Sonha com a vida que há ali no fim da rua, no fim da dor, no fim de todas as coisas. E sabe que tudo só pode ser se for para ser no fim de todas as coisas...

De repente acordo com o estrondo imenso de um trovão, são três horas da manhã. Chove muito lá fora. Essas palavras presas na garganta serpentearam pelo pensamento. A noite é mais solitária quando fria e chuvosa. Nisso tudo sinto saudade de você. E me sinto mais sozinho do que sou de fato. E mais triste. O sol trará um calor chamado realidade. E, com ele, essa estrada que não escolhi. E vontade de transformar todos os sonhos em verdade.

terça-feira, junho 03, 2008

Pedido de desculpas

O que acontece de verdade é que acho que não estou a fim de escrever. Há dias que nada do que escrevo é algo de que goste, nem prosa, nem poesia, nem muito menos essas coisas aqui. A procura de um verso ou de uma frase que seja, que incendeie a mente de inspiração, tudo que resulta é esse silêncio, essa frieza, esse vazio. Ou talvez dizer algo sobre essa incapacidade de dizer:

Uma noite fria e vazia, andar em silêncio sem ter alguém do lado, uma garoa leve a fazer espelhos de luz na calçada, os pensamentos arredios procurando disfarçar toda a tristeza. Caminhar como quem flutua na cadência da própria respiração. A solidão de passos que não sabem aonde vão. Diante de uma cena com uma paisagem assim, o que se tem para dizer ou é muito pouco ou é quase nada.

Mas tudo é fruto dessa tristeza que dura, que anda a envenenar-me por dentro, bem aos poucos. Mata tudo que tenho e tudo que quero e mata até o que não tenho. E o que ainda poderia vir a ter.
Melhor fechar tudo para um balanço até segunda ordem. A começar por este blog. E a terminar por mim mesmo.