quinta-feira, abril 28, 2011
Prosa do Absurdo
quinta-feira, fevereiro 17, 2011
Considerações Extemporâneas
CONSIDERAÇÕES EXTEMPORÂNEAS
(Se tem mais o que fazer, vai fazer
porque o texto vai ser muito longo...)
I - Preliminares
Mil e vinte textos. É muita coisa. Considerando que neste espaço há mais de dois milhões e meio de textos, mesmo assim, para um autor só é muita coisa. Voltei à escrita desde janeiro de 2005, o que dá seis anos e 170 textos por anos, mais ou menos 14 por mês. Isso é como escrever um dia sim e outro não. Um texto a cada dois dias é de fato muita prolixidade.
Eu cantaria a cidade, sua cor cinza, seu ar taciturno, sua gente indo e vindo, suas belezas e seus contrastes. Mas a poesia me arrasta para outra prosa e me arranca outros versos mais desatentos, os mais desapegados de mim, como se eu não fizessse nada, só estivesse aqui a servir de intermediário entre a inspiração e a composição.
Eu cantaria a estrada, mudar de paisagens. Outros rostos, outras cidades, as árvores pelo caminho, o por do sol ao longo da caminhada, os céus azuis e as nuvens propondo charadas em suas formas. As montanhas azuis ao longe, o verde, uma cachoeira a cantarolar bem ao lado de onde se passa, a fumaça que sai de um fogão a lenha de uma casa qualquer. Mas a poesia me traz de volta com seu ímpeto e me dita as palavras mais dissonantes entre o que se capta pelo olhar e o que se derrama na letra fria.
Eu cantaria essa razão suficiente para quebrar o silêncio, o motivo de toda essa inquietação, essas indagações todas, esse encanto diante dos mistérios, esse pasmar diante do ainda não conhecido e explorado, essa saudação respeitosa ao infinito, essa adoração a tudo o que ainda nem existe de belo. Mas a poesia me arranca do voo e me atira na terra, me faz murmurar entre trevas e andar sobre as pedras.
Eu cantaria a vida e os mistérios dela, todas as canções dos sonhos e suas cores, os sorrisos e o êxtase diante do romper de cada aurora a me invadir a retina, as brisas da tarde e o suspirar de cada anoitecer. Mas a poesia me cala e me obriga a olhar para dentro, me abre este abismo dentro do ser, me coloca diante do espelho, dita o próximo passo e insinua a próxima palavra. E me faz falar sempre de amor. Amor, do amor, meu amor, este único que tenho. E me faz nunca esquecer.
Daí que os versos são tristes e cinza. Daí que as palavras estão sempre em torno dessas tristezas, adornando essa solidão, ensaiando o grito contido. A palavra me obriga a viver. E viver é sentir tudo o que sinto.
Certo é, como me inspirou Cortázar, que entre viver e escrever não faço nenhuma distinção. O que vai na alma deito em palavras, o que dói dentro soa fora como dor que deve ser.
E me pergunto tanto como é que podia ser diferente. Sobre o que mais a poesia teria que dizer. Há os rascunhos de dois contos, umas três crônicas e há até mesmo algumas elucubrações filosófica para ser escritas, mas dormem no papel, porque o lirismo rebelde e sem freio não quer dizer outra coisa.
Escrevo quase que por osmose. O pensamento vira palavra, a palavra vira verso e o verso vira poema. E o poema vira tudo de cabeça para baixo e torno a dizer mais uma vez o que tanto já disse de tantas formas. E o poema não espera, tem pressa em dizer e quer dizer tudo. E diz sem paciência, mesmo sem ter tempo para dizer. Não para nem para descansar ou para pensar, pensou já é.
Então a poesia se faz prolífera e prolixa. Diz tudo outra vez buscando sempre uma outra forma de dizer. Repete, corta, acrescenta, lembra, esquece, negligencia e dá importância ao tudo e ao nada, dá importância só para o dizer.
Há cem poemas que grito pelo amor que perdi, e vou gritar ainda muito mais. Há muito mais de cem poemas que só quero dizer que quero amar, essa mulher e não outra, dessa forma ou melhor, nunca menor ou pior. Só nesse amor é que qualquer poesia em mim vai se realizar. E ponto final.
II – Penetração
Mas estou aqui e é aqui que escrevo. Aqui despejo tudo o que penso e sinto todos os instantes de meus dias. É assim mesmo. Como se não houvesse mais o que fazer ou como se eu não soubesse fazer outra coisa. Como se eu não pudesse mais viver se não fizesse isso.
Aqui é um lugar aprazível, confortável mesmo. Mas ao mesmo tempo estranho e engraçado. Aqui é o lugar onde sou acusado de ser poeta.
Aqui é o lugar em que achamos que somos e podemos ser poetas. E, diga-se, nunca foi tão fácil escrever, ou melhor dizendo, postar seus escritos à vontade, como se eles fossem assim tão importantes para o resto insensível da humanidade. Dessa facilidade, garantida pela impessoalidade do mundo virtual, advém o sentimento de que podemos tudo. Somos deuses solitários de nossos universos apartados, extremamente separados pela arrogância do arvorar-se divinos. E somos humanos, demasiado humanos. E padecemos, hoje, de agorafobia. O outro é apenas o que se interpõe entre o que somos e o outro que criamos em nossas mal fundamentadas expectativas.
O meio em que nos comunicamos não dá margem para a crítica, ainda que construtiva e bem intencionada. O meio em que produzimos nossos maravilhosos textos está povoado de gente despreparada para o convívio intelectual (ou poético-literário), que está aqui para satisfazer alguma necessidade excusa ou resolver no local menos apropriado as carências que não foram resolvidas no real.
Acontece que a vida é real e a realidade é para ser vivenciada. O mundo não espera parado a gente amarrar os sapatos, o tempo corre, sempre com sua seta apontando para o que vem. A vida não espera a gente aprender e ensina a cada momento a todos sem distinção, os atentos e os distraídos.
Sim. Eu acho que todo mundo tem o direito de escrever-dizer o que quiser a liberdade garantida para isso. Sim. Eu acho que todo mundo pode se expressar segundo suas capacidades e possibilidades, segundo suas crenças e convicções, segundo suas ilusões e anseios. Creio mesmo que todo mundo precisa sair do silêncio na hora de sair e soltar seu grito.
Só não aceito transformarem aquilo que nos é tão caro em no mínimo estrume para o futuro.
“Diga-me o que lê e te direi o que és capaz de produzir. Se fisicamente somos o que comemos, intelectualmente somos o que lemos.” Tirei essa frase de um livro que estou lendo e ela soou como uma bofetada.
Em Retratos da Leitura no Brasil vi que a nossa média de leitura é de 4,9 livros por ano, sendo que há países em que essa média é de 10 livros por ano. Isso sem falar nos títulos que são lidos. Mas isso são estatísticas e considerações sobre elas que poderei explorar em outro texto, depois de terminada a minha pesquisa. Gasta-se mais tempo vendo televisão do que lendo livros, isso sem esquecer que a programação que nos empurram pode ser classificada como puro lixo. Nem é preciso citar exemplos.
Não há, de minha parte, intenção alguma de elitizar o conhecimento, o acesso a ele ou o modo como o obtemos. Tenho imenso prazer em ver que as pessoas estão lendo nos ônibus e nos trens e que a internet tenha possibilitado o ingresso de tantos à capacidade democática de expressão. E possibilitando maior facilidade na obtenção de informação ou mesmo de formação, se é que há esta. Preocupa-me apenas a qualidade do que comemos, porque a quantidade e variedade temos de monte.
Triste povo que não tem uma boa escola, que não é apenas o lugar onde adquirimos conhecimento, mas sim onde temos a oportundidade de compartilhar tanto o conhecimento obtido quanto a convivência com o outro que também exerce a mesma oportunidade.
Sou apenas um entre tantos. A poesia que tento aqui escrever está em permanente construção e reconstrução. Estou aqui simplesmente para dividir meus textos com quem se dispõe a ler. E leio tanta gente, mais do que se pode imaginar. Estou aqui somente para compartilhar, com quem possa chamar de meu igual, essa inquietação lírica sobre o que nem somos capazes ainda de definir. Estou aqui para dizer e digo.
Foi num dia qualquer de minha vida que me demorei a digerir um pedaço de verso de Álvaro de Campos em “A Hora Absurda” que me soou estranhamente encantador: “...e a hora é de assombros e toda ela escombros dela.” E nunca mais deixei de ficar encantado.
III – Orgasmo
Mesmo que eu goste de verdade de muitos deles, sei que mil e vinte textos é muita coisa para se escrever impunemente. E nem todos vão ser tão bons assim, alguns até muito ruins. E tenho até alguns que me são verdadeiramente caros que muita gente não leu. Estão lá atrás no tempo em que empilhei todas estas páginas. “Brinca a Vida”, “Errando Poesia”, “Agora Fico Só” e a tentativa de conto “Revelação” são alguns deles.
Estou sempre ensaiando descansar essa escrivaninha e descansar dela. Talvez descansar os outros de minhas palavras. E ler mais a literatura que me falta, assim como a poesia e a filosofia. Conversar com aqueles que trilharam o caminho bem antes e que trilharam muito bem. E revisar e repassar esses meus tantos textos. Aprender a ler e aprender a escrever é minha maior meta. O que é necessário e indispensável.
Não porque o que a gente vai escrever a partir disso seja algo mais bonito para mostrar para os outros, ou galgar os degraus de uma certa fama, granjear elogios e cultivar vaidades. Mas porque tenho que dizer o que vai lá de insistente dessa coisa que chamamos poesia.
Agora só falo desse amor. Um amor que vou querer para todo o sempre e sei que vou querer. E sei mais, que nunca vou deixar de querer. Porque foi minha poesia mal ajambrada e derramada sem nenhum cuidado que me chamou a atenção para essa forma de amar e me disse que isso sim é que amor. Nem que ele seja só meu, que só eu o sinta, já terá valido a pena tê-lo sentido, porque depois disso eu me construí dois dedinhos melhor, eu me tornei melhor do que posso ser, tudo isso só por causa desse amor.
Amor o que nos falta. Amor fundamentado e consentido, amor sentido como tudo o que não entendemos, mas que não é por isso que vamos deixar de querer. Porque se não sei o que é, pelo menos sei também o que não é.
Não que eu não tenha tido outros amores na vida, ou outras experiências de amor. Amores tão grandes quanto este, tão bons e até melhores. Mas é que este Amor aconteceu num momento da vida em que eu achava que nunca mais ia ter. Quando eu não acreditava mais que podia acontecer.
É isso tudo que não quero que me peçam um dia para jogar fora ou esquecer.
É disso que tenta falar a minha vã poesia. E nunca vai se cansar de dizer.
E mesmo que um dia eu não diga mais, vai ser este Amor que ainda me fará querer tanto escrever. Que ninguém leia, ou lendo não se importe. Pois isso ainda é pouco motivo para eu deixar de dizer.
Postado no Recanto das Letras:
http://recantodasletras.uol.com.br/prosapoetica/2796788
terça-feira, dezembro 07, 2010
Rescaldo II
Ridículo ficar imaginando que o telefone vai tocar. Ou que ao ligar o computador vai ter um email. Uma carta, isso é o pior. Esperar uma carta. Uma mensagem no celular.
E já imaginei coisa ainda pior, que a encontraria me esperando a porta, ou mesmo dentro do apartamento. Ou ainda sentada num banco do parque a minha espera, para conversar, dar notícias. Espantosamente ridículo. E digo que imaginar isso é o pior porque tenho a plena certeza de que isso nunca vai mesmo acontecer.
Não preciso adivinhar as coisas, esse esforço é inútil, as palavras estão ditas, os recados estão dados, as decisões tomadas. “Segue teu caminho” e “Eu não quero amar você”. Que mais quero ainda ouvir ou saber? Que mais ainda penso em fazer?
As férias começam com a promessa das horas de todos os dias a correrem vazias e eu chego ao extremo de pensar na heresia de que seria melhor eu estar trabalhando, andando estrada afora, quanto mais longe e cansativo melhor. Tanto melhor que fosse como foi dias atrás, semana atrás de semana, que nem deu para pensar em mim mesmo e nessas coisas todas.
O que tortura é parar aqui e ter tempo para mim mesmo este nada que sempre sobra depois dos equívocos de parte a parte, cuja culpa sempre tenho a sensação de ser somente minha ou de ter que carregar sozinho.
A ilusão é um tormento, promete coisas que a realidade nunca vai proporcionar.
Tenho o péssimo costume de respeitar a decisão dos outros, mesmo quando não foi claramente dita e mesmo em prejuízo do meu próprio bem estar. E fico de mãos atadas, pois sei que qualquer iniciativa minha vai ser vista como invasão. Ou como insistência em que de mim não se quer mais.
Saio dos desenlaces sempre com nada, sempre à deriva, sempre com um enorme sentimento de culpa e com a sensação de que não resta mesmo nada a fazer. Então não faço, mesmo que queira muito e saiba o que poderia ou deveria fazer, em respeito a quem não quer mais, eu me calo e me entrego a essa autocomiseração de me fazer triste e solitário, certo de que o amor sorri para mim como que de brincadeira.
Assim vou me entregando até me acostumar com essa espécie de solidão imputada pelas circunstâncias. Elimino minha vontade, desfaço-me facilmente dos desejos.
Vou aceitando a máxima por mim mesmo inventada que melhor do que precisar de pouco é precisar de nada.
Nada eu tenho, nada eu quero, nada eu penso, nada mais a dizer...
terça-feira, novembro 30, 2010
Rescaldo I
Acordei assim, meio com um ar blazé, ou o vulgo cara de entojo para comigo mesmo diante do espelho. Assomado de um desacorçôo que não sei de onde vem. Quer dizer, sei, mas não sei como. Um entojo, uma má vontade de administrar as coisas, certas coisas, com o passar do tempo, esperando o tempo passar para ver se tudo melhora por decurso de prazo.
É aí que eu penso nessa merda toda de ficar racionalizando o irracional do que nem é tão concreto assim, puramente abstrato. Complicado? Pois é. É assim que é.
Não gosto destes períodos de sai ano e entra ano. Nada demais isso, nenhum trauma, nenhuma lembrança ruim. Nada disso. Não gosto simplesmente do espírito de alienação que toma conta de todos, como se passar de trinta e um de dezembro de um ano que morre para o primeiro de janeiro de outro ano que nasce fosse a solução para tudo o que não resolvemos nos trezentos e sessenta e cinco dias precedentes. Se me pego fazendo isso, fico puto comigo mesmo.
Ora, talvez esteja tentando fazer um balanço, e isso também é típico dessas épocas. Depois do balanço uma lista de propósitos com um leve disfarce de planejamento do futuro, porque o futuro vai ser melhor.
Quer saber? Foda-se o futuro e o presente. E o passado que morra também se quiser, porque dele já peguei o que precisava e só o que precisava.
Mas tá! Fico pensando no que passou, o que fiz esses dias todos e esses anos. Sinto um cheiro de repetição no ar, vindo de uma acomodação absurda. A vida tem sido muito confortável, previsível, protocolar.
Escrevi demais e abusei demais da poesia, até sangrar os piores dos melhores versos e vice versa, os melhores dos piores versos.
Se olhar tudo que escrevi, uns trinta, cinqüenta poemas atrás, talvez mais, foi essa choradeira com as palavras por um amor que se realizava e ia tão bem, mas depois descambou para o infortúnio de nem as súplicas das palavras adiantarem de nada. Daí eu me sentir mendigando a atenção de quem parece não querer me ver nem pintado, não saber de mim e nem dar o ar da graça, para um “oi, como vai?”.
Assim eu entendo o entojo. Sou eu mesmo cansado de mim mesmo. Tudo isso nem é diferente de qualquer coisa que seja que eu já não tenha feito ou pela qual não tenha passado. Tudo de novo, de novo do mesmo jeito.
Eu não desisto das coisas tão facilmente. Não sou tolo o suficiente para desistir. Mas deixo as coisas desistirem de mim. São as coisas que perdem o significado e eu, insistente, que demoro a perceber. Ainda agora nem imagino o significado que as coisas tem.
Eu amo ainda. O mesmo amor, só que carregado dos equívocos de parte a parte, de todos os ônus que parecem pesar tanto sobre mim. Amor e equívocos, assim se vai fazendo da vida essa aventura desinteressante.
O que eu quero então? Emoção! Quero diante de mim e de meu olhar um olhar que aceite os desafios por piores que eles possam parecer. Mas não tenho mais o poder de fazer esse amor dizer e significar a outro o que diz e significa para mim.
Então aceito o silêncio. E aprendo a aceitar mais. E aprendo um silêncio insustentável, que pouco depois vai ser muito difícil de quebrar. Depois de tudo não vou ser mais eu mesmo, serei eu acrescido dos equívocos dos quais a vida se faz mais rica e do que se aprende mais do que com os acertos.
E, diga-se de passagem, o que eu aprendo, nunca esqueço.
sexta-feira, abril 16, 2010
16/04/2010 - 00:21
Agora parece que estamos os dois lá naquele “fim de todas as coisas”. Parece que se passou um século, dois. Parece que há atrás de nós toda uma era. E o que se foi não volta mais. Triste, não? Triste não.
Um inventário de todos os momentos, dos melhores momentos, seria um tanto inútil, para não dizer sem sentido. Porque paira no ar a impressão de que todos os momentos não foram mais do que simples ensaios para a vivência do presente, única parte do tempo em que nos reconhecemos incompletos tanto para o passado quanto para o futuro. E o que fomos ou fizemos ou não, no passado, faremos ou seremos ou não, no futuro. Mas o que dizer sobre o que somos? Não dizemos nada, queremos ser sempre aquele que fomos ou aquele que seremos e nunca o que somos realmente.
Isso tudo para falar de história, da nossa história. Olhar para os tão conhecidos e já vividos momentos e rir deles com gosto. Ou para falar do que há por vir, que queremos tanto prever e não somos capazes.
E eu me sinto cada vez mais incapaz de dizer qualquer coisa que valha sobre qualquer coisa que importe. Carrego na vida todas as boas lembranças da vida, no entanto não isentas de suas emendas e remendos, ou um parafuso faltando, uma peça solta aqui ou ali, alguma coisa sobrando em alguma parte ou faltando em outra.
Tivemos amigos (ou ainda temos?) e eles parecem que não nos tem. Mudamos imperceptivelmente e eles nada mudaram, são os mesmos e nós somos os mesmos numa versão mais aprimorada, aprendendo com erros e acertos, rindo das desgraças e mesmo lamentando pequenas alegrias paradoxalmente.
O tempo nos leva adiante, sempre. Crescemos, envelhecemos, perdemos coisas pelo caminho e não encontramos nunca mais o que nem sabíamos que procurávamos tanto. Mas amadurecemos aquelas coisas exatas as quais não se vende nem se empresta, muito menos se aluga, amadurecemos aquelas coisas que compartilhamos sempre.
Queria dizer mais, sempre. Ter em mãos uma fórmula ou uma receita. Mas essa coisa de felicidade e satisfação não cabe em lugares pequenos, motivo pelo qual temos de nos fazer grandes para as poucas coisas grandes da vida ou para as muitas coisas pequenas que realmente importam.
Eu posso me gabar de dizer diante de muita coisa que eu sabia que muita coisa seria assim mesmo. Não adivinhei e nem sei ao certo se pressenti. O saber muitas vezes não se explica com palavras, mas sim com uma certa dose de silêncio.
Deveria dizer, se pudesse, então, aquieta sua alma e sinta o cheiro e o sabor desse silêncio interior. Se acha que foi fundo consigo mesma, vá mais fundo ainda para ver o que é bom.
Na verdade, acho essa vida medíocre demais para demasiada preocupação, e curta para tantos planos. Acho o mundo ridiculamente plausível demais para ser pensado em demasia. Aliás, acho que pensamos demais, somos por demais “intelectuais” que não percebem que basta um buraco na terra e um pouco de água para cultivar uma porção considerável de beleza.
Abdico de ser este ser que pensa para ser este ser que sente que pensa. Porque não creio em absolutamente nada que me cheire a mofo, não creio em nada que vá um pouco mais além do que imaginamos poder descrever em nossos intelectuais devaneios. Nosso discurso que constrói um mundo possível e uma realidade plausível destrói desastrosamente a beleza de as coisas serem exatamente o que são.
Por que este discurso para você? Eu não sei, sou o cara que não sabe. Sou o cara que sente, embora muitas vezes nem saiba o que sente.
Talvez para dizer a você para trocar o olhar ou o espelho, ou talvez os dois a um só tempo. Para dizer que leio ainda suas coisas paradas no tempo, aquele tempo que já foi. Para dizer que as águias já vieram nos resgatar no fim de todas as coisas e que talvez tenhamos um absurdo receio de viver cada recomeço, sem as coisas todas que nos atrapalham continuar caminhando. Ou voar com a devida e insustentável leveza.
Sejamos leves, então. E sejamos os mesmos, que já deu certo e vai dar mesmo. Mas sejamos rápidos, que o tempo desconhece nossa paciência e capacidade de esperar.
Porque daqui a dez anos, vou estar velho demais para dizer as coisas e você velha demais para ouvir.
domingo, julho 26, 2009
Já está escrito!
Terá sido o brilho dos olhos. Talvez a luz do sorriso. Os cabelos emoldurando toda a beleza do rosto. O jeito de olhar. Ou um certo modo de sorrir. Pode ser que seja a perfeição das mãos. A pele limpa e clara, suave, muito suave, macia aos olhos, talvez doce para o toque. A força das pernas, quem sabe? A cintura perfeita, os ombros que encaixam um lindo pescoço. Uma certa elegância nos braços? Ou a voz? Talvez a voz... a postura no andar, pode ser a postura ao estar parada? Não dá para saber, talvez tudo como um todo e uma riqueza em cada detalhe, ou a combinação de ricos detalhes em tudo como um todo. As costas nuas, se eu as visse nuas agora, como de bailarina em pose. Os pés de menina num corpo de mulher. Um corpo de mulher...
Uma menina num corpo de mulher, uma mulher com jeito de menina, a alegria de viver, o sorriso amplo sempre aberto, olhos brilhantes, jeito faceiro de me olhar, que não esqueço, um modo suave de piscar, sedutora, querendo aprender a seduzir com a inocência de quem sabe sentir mas ainda não sabe que sente o que sente.
Terá sido mesmo obra do destino que brinca com a história de nossas vidas, que nos coloca uma hora perto e outra longe, que nos aproxima de novo sem que possamos ficar próximos, que nos faz encarar um ao outro tendo que disfarçar que seria inevitável não resistir desviar o olhar. Seria obra do destino nos fazer viver em terras distantes e vagar em navios e mares distintos, para depois dar-se o encontro num mesmo porto, naquele dia frio e chuvoso, que seria tão triste se não tivesse sido tão importante.
Ou terá sido um capricho do acaso, que quando resolve caprichar não economiza nas cenas mais lindas que pode arranjar para arrancar dois seres de seus caminhos desencontrados para os colocar na mesma estrada, na mesma sala, no mesmo quarto daquela casa na mesma rua de nossas infâncias, onde ainda tínhamos o sabor de nossos quintais e o cheiro das fogueiras das festas tradicionais, na mesma rua onde nunca imagináramos onde nossos passos iriam nos levar e onde nosso caminhar iria nos trazer.
Ou ainda terá sido obra de um deus travesso a escolher quem atingir com suas setas envenenadas do mais doce veneno que existe, tão doce que quem tem não quer perder e quem não tem não vê o dia em que possa ter. Aquele veneno que quando se tem se vive e quando se perde morre-se um pouco.
Terá sido por obra de algum feitiço que venha a existir quando existe fogo nos olhos e um arder dentro do peito, quando sucumbimos com a falta de sono e fome, quando pensamos só naquilo que sabemos o que é sem precisar dizer o nome.
Terá sido por isso e por tudo talvez, talvez por nada, por simplesmente ter que ser porque assim teria sido desde todo o sempre. De tal modo que por ele é que passamos a existir, sendo que sem ele nada do que somos poderia existir e nada do que queremos faria sentido acontecer.
Terá sido por causa desse silêncio de perguntas que nunca ousamos fazer, por temer a resposta que há ou não haver a resposta, mas que uma coragem insana irrompe do peito num grito inevitável como o trovão das tempestades a bradar dos céus a tudo o que há na terra para que ouça de uma vez que eu te amo tanto e não sei o que terá sido esse amar que não me interessa saber senão sentir que é esse amar que por falta de melhor nome todos os poetas haverão de cantar e chamar pelo simples, singelo e terno nome de Amor.
21/07/2009 – 03:00
segunda-feira, julho 20, 2009
Vida Minha
Vida minha, eu perderia de novo todos os amores, e mesmo isso não seria em vão. Só para aprender sobre os amores que vem e vão, só para estar atento quando esse amor tivesse vindo, se eu soubesse que viria, ah, vida minha, não teria nada mais por fazer, a não ser sentar num canto qualquer de todos os meus dias, e ficar olhando a estrada, o céu, a lua e as estrelas, o nascer e o por do sol, e mesmo debaixo da mais forte chuva, porque saberia que você viria, vida minha, e que a partir disso, viver valeria muito a pena.
sábado, julho 18, 2009
Amor, meu grande amor!
Amor, meu grande amor! Repartiu-se entre nós exata metade para cada um e foi tentar ser amor para qualquer um, por qualquer coisa, qualquer ilusão, desencontro e desencantos; amor semente que foi no tempo brotar tão a tempo, esse fogo crescendo, incendiando bem devagar, até nos queimar em febre e nos arrancar soluços, nos deixar exaustos de saudade, tanta saudade de tudo o que nem tivemos ainda, por falta de tempo.
Amor, meu grande amor! Esse amor silêncio, sussurro tão bem escondido bem lá dentro do peito, esse amor sombra a nos seguir aonde quer que fôssemos, esse amor espera, esperado, esse amor desesperado de nunca se revelar revelando-se bem no romper desse silêncio, nessa noite à distância tornando próximos passado e presente, misturando tudo dentro da gente, tão de repente que parece que foi sempre.
Amor, meu grande amor! Nascido de repente bem na nossa frente e a gente de olhos fechados e o coração distraído, amor subtraído de nossos passos, um amor de antanho, de tão bem antes que percebêssemos ser amor, grande amor que nunca nos deixou assim tão afastados, que nos manteve próximos mesmo nos desencontros, marcando hora e lugar de vir e chegar bem a tempo de nos encontrar nesse grito, no ecoar de nossa poesia insistente.
Amor, meu grande amor! Amor para ser sentido agora, enquanto o tempo haverá de fazer eu aprender, aos poucos e bem devagar, sua pele, seu cheiro, suas mãos, dentro desse abraço, seus olhos e seus lábios, toda essa tanta luz de seu sorriso, como se fora do tempo, de todo o tempo tudo tivesse nascido ali exatamente naquele momento.
Amor, meu grande amor, para eu aprender seu gosto, para nunca mais esquecer.
quarta-feira, julho 01, 2009
Rascunho de poema
Não era só meu, e nem sei se tinha sido um dia meu, amor ridículo e impossível, impraticável, amor inimaginável. Empoeirado numa sala de museu aquele amor, ah, amor, vi também que ele era teu.
quarta-feira, junho 24, 2009
Um dia...
Um dia esquecerei rostos. Um dia apagarei caminhos e não deixarei rastros. Um dia se apagarão em mim as lembranças, todas. Um dia irão se desfazer prováveis destinos e possíveis desatinos. Um dia, amor, não haverá mais o que amar e nem porque amar. Um dia será tarde, tão tarde, que restará apenas essa sensação de ainda nem ter vivido.
Insatisfação. A angústia que brota na pele como uma certeza de que a única coisa que verdadeiramente angustia é viver.
Amor por tudo e por todos, por qualquer coisa e qualquer um, por que não diz logo o que quer de mim? Poesia gritando em mim, por que não silencia e me deixa de uma vez por todas em paz?
Desejo de ser comum, o mais reles dos seres comuns que rastejam sobre a terra. Sem anseios e sonhos, sem expectativas, sem possibilidades. Ser apenas, só ser. Ser da maneira mais econômica de emoções e sofrimentos, ser pleno de esquecimentos.
Como o por do sol que nada te pede, apenas repete insistentemente o seu espetáculo cotidiano...
Como o vento suave que nunca vai a lugar algum e está sempre voltando...
Ou como o tempo que tem como única ocupação passar.
Um dia as palavras ainda não concebidas brotarão de um descuido meu.
Um dia os poemas não serão mais escritos, mas escreverão tudo o que ainda não pude dizer.
Um dia esse amor se apresentará em chamas, inevitável.
Um dia as emoções hão de explodir em mim como a parir um outro universo.
E não saberei mais o que fazer, o que ser, o que sentir, o que imaginar.
sexta-feira, junho 12, 2009
Se não dormes...
Não! Eu não vou cantar essa solidão e essa tristeza como se fossem um poema de Chico Buarque... porque isto é aquela coisa já impregnada nas paredes do apartamento, um tapete de cacos de vidro!
Nada é assim tão sério. Eu tinha tanto por fazer e fazer por querer mais do que precisar, mas essa apatia me tira para dançar sua marcha fúnebre, tenho que ir dormir embalado ao som de mais esse réquiem. Ora dane-se!
Então é o quê? É só trabalhar, ganhar dinheiro e pagar as contas, perder vinte quilos, parar de fumar, beber menos, estudar não sei o que para o que nem sei, diminuir ainda mais a quota já precária de prazer, não dá para ser feliz porque a felicidade não existe, não se pode ter prazer porque o prazer é uma ignomínia: substantivo feminino, afronta pública, desonra, injúria, degradação moral, humilhação, vergonha, opróbrio... e para ser franco, eu queria ser um franco-atirador.
E já chega! Tudo chega a um estado tão estranho de normalidade a ponto de a gente não se importar com nada. Está muito na moda não se importar com nada. Até fingir que é dor a dor que deveras sente...
E despeja-se tudo nesses jogos de palavras, incessantes, desinteressantes, que afinal ninguém mesmo vai ler e, se o fizer, muito difícil que vá se importar.
Banalização, do adjetivo banal: vulgar, corriqueiro, trivial, fútil, frívolo... banalização de todos os sentimentos, de todos os pensamentos e conceitos, de toda ideia que se pode ter da realidade, banalização do desejo de desejar, do amor e da paixão, toda a nossa vida expressa em planilhas de cálculo visualizada em gráficos coloridos, estatísticas, receitas, requisitos básicos para atestado de normalidade, certificados de adequação, enquadramento, ajustes, aceitação! Enquanto isso...
Os sonhos se dissipam... o que era mesmo aquela tal esperança? Vou lá eu saber daquela tal esperança? Que sobre ela escrevam um tanto mais de livros somente para as árvores terem morrido em vão.
O último poema de amor hei de escrever na areia de uma praia...
segunda-feira, maio 11, 2009
Contingência
Talvez eu aprenda a escrever algo que preste... um dia. Talvez aprenda a desenhar e a pintar. Talvez um dia eu seja doutor, para falar do que não tenho certeza para quem não entende lá muito bem e tudo fique elas por elas, o palavrório unido às caras de conteúdo, aos hipócritas meneios de cabeça de quem finge entender o que nem ouviu direito. Talvez eu me dê satisfeito um dia com essa mediocridade que parece ser necessária para se conviver com o homem, esse animal irracional e irmão do infortúnio. Mas essa noite não! Só essa noite não.
Olhei em volta tudo o que me rodeia no tempo e no espaço, limitado por essas paredes e descrito pelas lembranças do que não esqueço. Eu queria só não aprender mais nada, saber metade do que sei, não me importar nem com um décimo do que me importo. Ser um pária que pudesse viver em paz sem ninguém a vomitar em meus ouvidos verdades mal digeridas. Sem que ninguém me cagasse seus conselhos de como a vida seria melhor se eu fizesse tudo de outro jeito, sem ao menos me perguntar se não era esse o jeito que faço do jeito que sempre quis fazer e fiz.
As últimas quarenta e oito horas eu saí à rua só para comprar cigarros. E tirei fotos do prédio em que moro, do parque, da árvore. Talvez eu aprenda a fazer fotografias boas um dia, a ponto de fotografar apenas o que meus olhos querem ver, o que cabe num olhar, o que vale a pena caber num olhar.
Mais uns dois ou três finais de semana desses e eu poderei dizer que aprendi o que é solidão. Mas tenho a vaga idéia de que estava certo que a solidão verdadeira consiste em não ter para onde ir e nem para onde voltar. Eu que não queria me esconder atrás desta tela, tendo que usá-la como janela.
Acho um pouco culpa minha. Eu me calei. Ninguém mais me lê, vê meus desenhos, nem ouve a minha voz. Vou andar por aí me apresentando como um vaso, adequado para enfeitar certos ambientes, minha casa, minha rua, sua casa, minha mesa de trabalho, a mesa de um bar... a solidão deve ser olhar para o espelho e não ver mais ninguém. É seu nome apagado dos monumentos erigidos a certos momentos que se passou com as pessoas, mais as pessoas não visitam mais esses monumentos. É seu nome apagado das histórias mais corriqueiras.
A solidão é um túmulo no qual mais ninguém vai colocar flores. É um nome esquecido e um retrato esmaecido. É a mentira escrita no epitáfio: “saudade dos teus...”
Ter que ser forte e carregar tudo isso aonde quer que vá, sua bagagem, sua carga, sua sina, seu destino desafortunado.
É ouvir uma música de seu tempo de quinze, dezesseis anos, e sentir uma indescritível saudade da sensação tola de se sentir apaixonado. E ter a certeza de que aquilo passou e nunca mais vai acontecer.
É de ter de ouvir de algum energúmeno que toda a filosofia se resume em um autor, ou em um livro, que toda a poesia se resume num poema e que toda a música se resume em algo que alguém fez hoje depois de todo mundo ter feito. É ouvir de um imbecil qualquer que bebe, fuma e cheira que toda a vida se resume numa única frase ou numa única palavra: fracasso, somos todos fracassados.
Eu não choro lágrimas de sangue, não padeço de medos pueris nem me entrego a covardias bem fundamentadas. Não me iludo com esperança, essa invenção platônica e cristã. Sei que os dias passam sendo o que são e que a realidade ou é o que percebo dela, o que invento ou o que quero ver, inventar e perceber. Contingência. Nisso eu acredito. Mas mesmo isso não me impede de tentar tornar a vida algo menos chato, menos obrigatório, menos burocrático e protocolar.
Cada vez mais difícil, com tanta coisa e tanta gente para atrapalhar.
quinta-feira, abril 16, 2009
16 de abril de 2009 - 23:57
Acho que esgotei tudo o que tinha para dizer para você e de você. E quando a gente chega nesse ponto não significa que se conhece demais ou que tudo ficou previsível. Muito pelo contrário, tudo ficou pleno, e de tão completo que vem a ser, qualquer coisa que se acrescente vai ser mero acidente. Mas acho que ainda cabem alguns elogios, ainda que saiam acidentalmente e mesmo que você nem precise ouvir, não importa, porque a questão é que eu preciso dizer e vou precisar sempre.
Então esse ponto é uma espécie de cume, no qual se chega e não se tem mais para onde ir. A não ser descer para subir novamente, pelo simples prazer de reconhecer tudo que se conhece ou prestar mais atenção a detalhes que porventura tenham passado despercebidos.
Não sou mais capaz de imaginar a minha vida sem você. Isso não tem e nem teria o menor sentido. Nada de rotina ou coisas vulgares do cotidiano, trata-se do prazer de uma convivência que se torna imprescindível e indispensável. E que se sabe a priori que não tem razão de isso ser de outro jeito.
Sim, eis que temos de arcar com o ônus de não precisar solenemente começar uma conversa, porque parece que a conversa sempre continua, aumentadas de suas atualizações e repetidas de temas que voltam sempre com uma abordagem nova, oriundas do amadurecimento.
Assim sendo, digo que quem passou por sua vida e não pegou uma carona é um completo imbecil, quem virou com você uma madrugada ou outra, ou conversou mais de três ou quatro horas (ou seis ou sete), quem foi mais de uma vez com você ao cinema ou à praia, quem andou com você à noite, encimado por um céu enluarado as ruas do Centro, a Paulista ou a Augusta, quem com você deu boas risadas, quem fez isso ou um pouco mais e não quer mais disso, deve ser alguém que não gosta lá muito de se sentir bem.
Pena que encerro minha mania de tecer loas a você, por simples falta de palavras, até que se invente um jeito novo de dizer as mesmas coisas boas, ou o que é melhor, até que eu seja capaz de descrever de outro modo tudo isso que sei somente sentir como um dos poucos e maiores prazeres que tenho para justificar que vale a pena estar vivo, acordar todo dia e ir encher todas as lajes necessárias para uma boa quantidade de papéis coloridos no fim do mês. Ou de descrever essa absoluta falta de temor de se perder na vida, de se distanciar, pelo simples motivo de se ter para onde voltar. Ou de nunca se sentir distante.
Considero tudo dito e sentido como se fosse um rascunho a lápis, sempre ali a espera de preenchermos com nossos lápis de cor, um quadro para cada momento e um momento prá lá de especial para cada quadro.
quinta-feira, abril 09, 2009
Indo ou voltando?
Tenho estado tanto tempo longe de casa, que quando aqui chego, parece que há uma necessidade de se fazer tudo. E fiz tanto toda a semana para os outros que parece que nada foi feito para mim. Então bate essa sensação de inutilidade. Como se eu fosse capaz de fazer tudo quanto quero do tempo que me resta. Acusam-me de descaso os livros. E sei que não lerei filosofia, que me obrigaria a pensar. Mas lerei com certeza poesia, que me aguça sempre a capacidade de sentir. E entre sentir e pensar, sempre me perco, e demoro depois para reencontrar o caminho.
O silêncio da madrugada é só meu, e não de todos vocês que dormem e o perdem. Impressão de que tenho pressa, que tarde da noite assim pensamentos e sentimentos se confundem e se atropelam. Eu queria escrever sobre isso, mas me dou ao luxo de estar cansado das palavras que mais escondem de mim do que mostram. Queria elaborar mais o que pôr aqui, pensar, estudar, concatenar com algo de plausível. Porém, não me dou a esse luxo. Despejo aqui o que não sei se serei mais capaz de elaborar.
Falar o quê? O que dizer? E para que tudo isso, afinal? Atingir a quem e de que modo? Racionalizando o que sente e não sentindo o que racionaliza. Leva-me isto a um cigarro a mais e uma caneca de café na varanda., no silêncio da madrugada, quando nada em mim dorme, quando em mim qualquer coisa que haja resiste e custa a dormir.
Leio dos outros tudo o que gosto de ler e custo a entender. A correria do dia-a-dia prejudica até meu poder de concentração e meu entendimento das coisas vindas de fora.
Tanto tempo fora do apartamento, quando aqui volto tenho todo o apartamento dentro de mim...
Os mesmos temas, solidão e tristeza, falta de perspectiva, o estar preso a essas coisas que se tem que fazer, buscando no mínimo das coisas um mínimo de prazer.
Dá para entender? Não? Talvez fosse melhor que eu fizesse um desenho. Haveria nesse quadro uma estrada a desaparecer no horizonte e alta no céu uma lua cheia como a de hoje. E, no meio disso tudo, uma silhueta do que bem que poderia ser eu, de tal modo com tanta falta de nitidez, que ninguém saberia se estou indo ou voltando.
Lá longe de mim mesmo
Esse algo está sempre a tomar conta de minhas ações... quis ser gentil e delicado, não parecer grosseiro.
Não sei se amo você, não sei o que sei, nem sei o que sinto. Seria orgulho ferido... Não, esse orgulho é um monstro ferido numa floresta de descontentamento. E nesse alheamento eu me sinto triste porque só e só porque triste. Porque a alegria de quando em vez a gente sempre tem com quem compartilhar, dividir. Mas a tristeza não. Na tristeza estamos sempre sós.
Aliás, nem sempre sei a quem me refiro quando estou escrevendo a palavra "você".
O cair da noite na estrada, a lua crescente, uma catarse. Aquele tipo de busca que só pode ocorrer nesse alheamento, nesse distanciamento consentido de tudo que nem se é. Eu gostaria de encontrá-la para pedir perdão. Eu a deixei para casar com outra, e isso tudo foi tão pueril, como tinha que ser no tempo da puerilidade. Foi pueril e inconseqüente. Não queria que reatasse uma possível amizade perdida, que falasse comigo, que tentasse gostar de mim outra vez. Não pediria nada disso. Eu queria só o seu perdão. Não que eu me roa de remorsos, ou de culpa. Só a consciência de ter feito algo a alguém que esse alguém não mereceu. Não pediria perdão por aquele moço de seus vinte e três anos que, afinal, mal sabia o que queria da vida, mesmo lidando com coisas tão sérias. Pediria perdão por esse homem de hoje, que tem a consciência de que há coisas que uma vez feitas, jamais podem ser desfeitas, por coisas que quebramos pelo caminho ou perdemos, e que nunca mais poderemos consertar ou encontrar.
Não há desejo tão forte que possa materializar ou tornar possíveis os beijos que nunca mais nos demos. Não há magia para trazer-nos uma felicidade que nem sequer perdemos.
Eu quero ser escritor. Não sabia disso aos dezesseis, ou dezessete anos. Nem aos vinte e três. Sei apenas que todas as decisões que tomei anteriormente me afastaram disso que, afinal, eu nem sabia. Posso realizar isso em cinco ou dez anos (ou nunca realizar), mas devo saber se estou fazendo agora algo para isso acontecer. Nisso se encaixa todas as profissões, ou realizações, cientista, astronauta, astrônomo, médico, advogado, professor, artista. Posso tornar-me escritor aos sessenta anos e viver escrevendo mais uns vinte e produzir uma obra magnífica. Mas não estou fazendo nada agora para isso acontecer. A questão é olhar daqui para frente ou olhar de lá da frente para trás. E entender que tudo tarda quando nada se faz. Ou tudo é sempre tarde quando pouco se quer.
Não há fingimento que justifique permanecer no conforto e na comodidade que nos arranje sempre as melhores desculpas para não sermos o que queremos.
Somente essas palavras inúteis que estão sempre parecendo ser a racionalização do que não é assim tão racional. E esse é problema disto tudo que sofremos, racionalizarmos o sofrimento, a passagem por isto que temos que passar, como se isso fosse pintar de outras cores mais aceitáveis, como se transformássemos o instante real num capítulo de novela em que sabemos já antecipadamente um final feliz.
Em cada palavra e em cada página parece que tudo foi resolvido porque vivido ou vivido, logo resolvido. Mentira. Mais pura ilusão. Há muito ainda que se viver. Há que se descobrir que muitas coisas não podem e nunca serão resolvidas.
Ponto final.
06/04/2009 – 01:40 – Fernandópolis
quinta-feira, março 26, 2009
De olhos bem fechados
Devia estar fazendo as malas, já que estar de partida virou meu ofício e não estar aqui é a minha profissão. E tem de ser uma força esse descomprometimento com tudo o que se deseja, tudo o que seria tão simples se não fosse tão improvável. Aquele se entrega à estrada paga o pedágio de não ter uma vida sentimental. As pessoas que vou conhecendo pelo caminho até tentam estabelecer um contato mais duradouro. Mas eu sei que quando meus olhos estiverem vislumbrando as mesmas paisagens passando rápidas, elas estarão esquecidas.
Vendo meu tempo a troco de pagar as reles contas de tudo que adquiri que, afinal, me faz ser exatamente a mesma pessoa desprovida que sempre venho sendo. E de tanto que não tenho não sei o que me falta...
Falta talvez um roçar n'alguma pequena e insignificante emoção, o realizar, ainda que efêmero, de um mísero desejo. Falta lutar ainda para não esquecer o gosto de ter prazer. E o que sobra é sempre esse asco no fim do dia, essa monotonia torturante de as coisas teimarem em se repetir, numa repetição fortemente consolidada em rotina, penosa e inaceitável rotina.
Como devem estar os trens indo de um lugar a outro na Europa? E o vento na África? Que clima faz agora no bem longe daqui? Que roupa levo na mala para esse amanhã que ameaça chegar? Será que me darei bem com a comida do futuro? E o que tem do outro lado desse muro? Quanto mais há que se despertar para suportar essa percepção consciente?
“Que mais para o amor? Palavras? Só as escritas. Bastam as palavras escritas para um poema, sua música toda interior. Quando muito uns pianíssimos sutis. Ah, tão sutis, que não sabes nunca se os estás ouvindo ou só pensando neles.”
Os livros, os papéis e lápis, os poemas para serem lidos ou escritos, os romances, a próxima paixão que não acontece nunca, aquele gozo de satisfação por ter sido capaz de deixar tanto para trás, isso e muito mais, esperam entre a partida e o retorno, para depois não saber o que esperar. Esperam uma suspensão nesse ritmo não por mim a mim mesmo imposto, esperam o próximo duvidoso momento. E falam de coisas tão antigas que chamamos pelo nome de esperança, essa desgraçada que é a última que morre, mas morre. Falam de coisas da infância tão impalpáveis, meus potes de tinta, meus papéis coloridos, minha imaginação irrefreada e ilimitada, minha criatividade sem cercas de arame farpado... e de minhas histórias de amor, de meus sonhos de moleque.
Olha só o que veio nos fazer esse abrir de olhos... perder tudo o que fazíamos existir fora da gente de olhos fechados, bem fechados!
segunda-feira, março 16, 2009
Save me!
Você bebe e fuma demais. Sabe disso. Precisa emagrecer, fazer exercícios, levar uma vida mais disciplinada, dormir bem, comer bem etc e tal. Mas o que você precisar fazer mesmo, de verdade, é descobrir um motivo para ser melhor.
Em volta as pessoas vão se destruindo aos poucos e você não pode fazer coisa alguma. Essa maldita impotência das palavras e esse completo descaso com o bom exemplo.
Mais uma pista que vai além da inquietação: um filósofo pode encontrar mil motivos para não viver. Um poeta não... para ele basta um único lírico motivo para continuar a viver, para insistir, para teimar até o fim. E quando esse fim chega, se é que chega, há de se entender Pessoa: "...Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo." Então, cada dia que se descortina para mim, tenho essas "palavras de pórtico" a me guiarem num turbilhão de tantas palavras tão estranhas a respeito de absolutamente tudo, isso para não falar das ações.
Não aceitar a fala fácil, o julgamento mais rápido e aparentemente preciso, ir além do que se diz para o que se quer dizer realmente, julgar não julgando, usar qualquer julgamento como princípio do que não se deve fazer primeiro.
Sim! Sou mais feliz do que aquele cara que dorme na rua? Sou mais aceitável porque sociável, do que aquele cara "esquisito" que não se mistura a nossas gracinhas e não se afeta com os nossos gracejos? Estou mais distante da imperfeição do que aquele que consegue disfarçar menos do que eu?
Aceito meus erros, "homo temeratus", meu medo é minha medida, e me mostro onde mais me escondo. Não sei o que fazer da vida, como você, não sei o que fazer de nada, como você. Eu tento no mínimo racionalizar toda essa insanidade e sabe o que acontece? Perco a noção de sanidade e me pergunto: eu saberia se tivesse enlouquecido?
Os olhares de fora não bastam. As palavras de outros não ajudam. A luz que ilumina a casa vizinha não ilumina a minha. O próximo passo é meu, e pertence ao caminho que eu trilho. E se alguém me segue vai se cansar logo. A vida tem muito de sentir e sentir é algo instransferível e inexprimível. A não ser que se deixe falar o eu-lírico...
Ah, esses ajuntamentos de poemas que tanto leio, e os que escrevo, nada ainda disseram se amanhã vai chover ou fazer sol, se me alegrará o coração um sorriso inesperado, uma mão no ombro, um beijo na boca, um abraço apertado ou um pouco de calor nas minhas noites vazias, um fazer-se companhia, nada disseram se haverá paz nesse próximo dia. Nada disseram e parece que eu já sabia de tudo. Ah, quanto se sofre por um olhar que não se tem! É como saber que há tanta luz e não escapar da escuridão. É aquele silêncio que se faz depois que tudo se silencia.
E, inexorável, o tempo passando, bem aos poucos ensinando tudo quanto não se vai saber nunca, ensinando que não se vai saber, simplesmente não saber.
sábado, fevereiro 21, 2009
Preciso me alimentar
Quero viver minha vida de fora para dentro. Tudo tem que ser exatamente como eu consigo perceber. Ou sentir ou imaginar, pouco importa o que é tudo isso aqui dentro, realidade ou ilusão, quando a dor que imagino dói de verdade.
Eu não acredito em estabilidade, a vida é feita de crises e conflitos. Não acredito em energia, equilíbrio, essa besteira imensa de "lado espiritual", a alma ou o que valha, vida depois da morte, providência, não acredito em planos. Mas sei que tudo não é só material. Eu diria humildemente que meu corpo é matéria, o hardware, e que o que não é corpo é a mente, o pensamento, a imaginação, a representação ou sei lá o que, o software. E software é o que eu xingo e hardware é o que eu chuto.
Meu DVD de músicas antigas atesta que o tempo passou, trago na coleção de coisas que junto a prova de que fui criança, adolescente e que essas coisas envelheceram comigo. O que eu tenho de novo já é tão mais velho do que qualquer novidade que possam me apresentar.
Ou talvez eu não tente mais explicar, essa é a questão. Eu permaneço em pé com a teimosia e a fúria de um revoltado, com a garra de um guerrilheiro, e não sei disso. Talvez eu nunca tenha de verdade perdido a tranquilidade, e talvez eu seja mesmo forte. Mas só eu posso saber o cansaço que isso dá, o quanto custa manter tudo isso, os poucos lucros e os grandes prejuízos por ser assim e de me manter assim.
Eu tenho muito o que fazer. Já pensei tudo, já disse tudo. Agora tenho que fazer. Quase posso dizer que também não acredito mais em sonhos. Eu não vou endurecer meu coração, nunca. Eu nunca vou querer perder a emoção de estar vivo e viver a cada instante. Mas não me fio em esperanças, essas ilusões de que todas as coisas podem ser exatamente o que elas não são.
Então não tenho e nunca terei nenhuma mensagem de vida, lição de vida, eu também estou aprendendo e só posso falar do que consigo aprender. Não alimento esperanças em mim e nem alimentarei as esperanças de ninguém.
Sinto o peso de ser transparente como sou, ainda que confuso e hesitante, de ser sincero, ainda que me engane, que seja passional e impaciente. O que preciso aprender de uma vez por todas é fazer e aceitar o absoluto silêncio.
Que me julguem mais inteligente e interessante do que eu realmente posso ser, mais amigo e companheiro, eu direi sempre que sou só isso, que é sempre bem menos do que julgam ou imaginam. Isso que vêem em mim é o máximo a que posso chegar...
Agora preciso voltar a ler e escrever poesia, tenho dois blogs para alimentar. Preciso ler toda a literatura que não li ainda, toda a mitologia, que há ainda um outro blog para alimentar. Eu estou vazio de alguma coisa em mim e preciso alimentar de qualquer forma o que quer que seja este estar no mundo.
Eu preciso me alimentar. E meu alimento só eu sei preparar.
quarta-feira, fevereiro 18, 2009
Os planos...
Estantes bem fornidas de livros. Os de poesia aguardando mais um sarau ou dois. Literatura, contos e romances, a fila de leitura devidamente organizada para até dezembro de 2011. Nenhuma linha sequer de poesia foi para o papel há muito tempo. Meu único prazer tem sido procurar um prazer que me satisfaça.
Comte_Sponville: o pior é ser só. Sem Deus. Sem amigos. Sem amor.
Tinha que estar dormindo, já dormindo. A rotina tem horários que nem sempre combinam com os meus.
Vai ficando cada vez mais difícil dizer foda-se a tudo isso. Eu ainda me importo com quase tudo com o que não queria me importar. Longos dias sem um olhar, uma carícia, um abraço, um beijo; alguém ao lado para dizer com toda a ilusão de uma paixão: vamos lá, em frente, temos um ao outro.
Comprei mais uns quatro livros, três revistas, carreguei o celular e o bilhete único, comprei um despertador (para despertar de quê? de meus sonhos?), uma capa nova para o celular. Comprei tudo o que se pode comprar e tudo aquilo de que se precisa realmente, para tornar a vida uma farsa um pouco mais convincente.
Tenho amigos, eles estão por aí, de vez em quando por aqui. Mas me aborrece muito mais todas essas páginas em branco que tenho por escrever. Ainda...
segunda-feira, fevereiro 09, 2009
Malditos Gregos
Mas essas palavras que Hermes pscicopompo carrega aos quatro ventos, ventura, aventura e desventuras, se eu fizesse silêncio seria provavelmente bem mais feliz, mas o fogo das palavras arde em mim como no sonho oráculo de Hécuba.
Isaac Newton não conheceu mulher e nem o amor, não teve amigos, de sua solidão saiu a óptica, a mecânica clássica, a certeza de que tudo se atrai diretamente proporcional ao produto das massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância. Mas teve que ser eu a cunhar a frase QUAL É A DISTÂNCIA DE TUA PROXIMIDADE? Vou estudar matemática porque me aborrece esquecer tudo que soube. E vou estudar gramática porque me aborrece não dizer isso dentro das boas regras da sintaxe. Continuarei com a literatura, para entrar em outros mundos fugindo do meu, um tanto quanto. E poesia, para sonhar um pouco os sonhos dos outros e talvez neles descobrir meus sonhos. E a mitologia, sei lá por que, sei lá para que, por Zeus, Atená que me vele, as Musas que me inspirem, um princípio de manthéia ou uma manía. Malditos gregos, não tinham nada mais para fazer quando inventaram a filosofia?
E não farei mais nada daí em diante. Terei sempre a ansiedade de voltar para casa, de estar em casa, de ver tão pouca gente que nem lembrarei que no mundo há seis bilhões e meio de pessoas, mais ou menos.
Talvez dormir mais, não prestar atenção nas fases da Lua, não perder tantos olhares para luzes de estrelas mortas.
A juventude é feita de proximidades. A velhice de distâncias. O meio disso é um e outro, um ou outro. É ver tudo como quem olha de cima. É saber tudo como quem já viu tudo e não se espanta, não se abate, mas percebe que sofre, porque isso tudo dói de uma dor da qual desaprendemos pouco a pouco não mais reclamar.

