sexta-feira, abril 27, 2007

Platonismos platônicos

Eu te amo porque não sei fazer outra coisa.
E não há nada que eu faça sem que pense em você, sem que considere que sua existência e a minha se encontram e reencontram em algum lugar no tempo e no espaço. Quando se desencontram no espaço, recorrem ao tempo, com o recurso da reminiscência, esse receptáculo das lembranças que nos levam a proferir quase sempre a palavra saudade.
Se me perguntassem agora sobre o que sinto por você, não sei se a resposta seria mais poética ou mais filosófica. Mas eu acho que não teria que pensar muito.
Eu diria que eu tenho necessidade de ser uma pessoa melhor, com você. Está certo! A frase nem é tão original assim, Jack Nicholson disse a Helen Hunt em “Melhor é Impossível”. Mas a frase é bastante apropriada, porque é a melhor maneira de tentar descrever um sentimento que se poderia reputar indescritível.

Não falemos, aqui, de relacionamentos perfeitos, os quais não existem. Relacionamentos perfeitos seriam algo que só poderia ocorrer entre duas ou mais pessoas perfeitas, que também não existem. Que ótimo! Sem ironia, isso é mesmo ótimo. É perfeito poder concluir que as pessoas não são perfeitas. E que, imperfeitos, somos pessoas.
Nada de pessimismo nisso tudo. Só a constatação de que somos, no fundo, todos platônicos. Nossas buscas, ainda hoje, nos levam ao mundo ideal de Platão. Rejeitamos nossas sensações, pelos mais variados motivos, e buscamos o ideal. A idéia de perfeição é platônica. Assim como a idéia de justiça, bem, amor, felicidade, deus. E a idéia de rejeitar nossas sensações, e o deleite de poder ter essas sensações, é por demais cristã, o que é pior.
Quando alguém diz “felicidade não existe”, ao contrário de ir contra a concepção platônica acima referida, só faz corroborar essa concepção. Afirmar a inexistência da felicidade é, antes, afirmar a impossibilidade de atingí-la. Porque uma afirmação dessa esconde em seus meandros várias outras pequenas definições, tais como “felicidade não existe, o que existe são momentos felizes”, “o amor não existe”, o mesmo que se poderia dizer da justiça, do bem, a virtude, da perfeição, e por aí vai. Nega-se aquilo que não se tem certeza de atingir.
Afirmar, e acreditar nisso, que a felicidade não existe, é colocá-la como meta, e como uma meta difícil ou mesmo impossível de se atingir. E esse nem é um “bom platonismo”, é o platonismo para o povo, presente que ganhamos do cristianismo, na formação de nossa consciência. Cristianismo que diz para aceitarmos aqui nossas precariedades para ganhar nosso prêmio no além. E o além é o maior dos motivos de nossas insatisfações.
O resultado disso tudo são pessoas insatisfeitas, porque não sabem nem se relacionar com o mundo sensível e nem com o inteligível. Pairam suspensos nesse limbo, entre o céu e o inferno, agradecidos pela invenção do meio-ermo chamado purgatório.
Porque somos todos pecadores. Tudo o que somos, desejamos e pensamos é pecado. Ou seja, nós nunca atingiremos a perfeição. E nos nunca seremos felizes.
Então eu digo, esqueça a felicidade e viva. Ame, e ame intensamente, sem pensar no amor. Goze, sem pensar que perde o paraíso, que se afasta de deus, mas goze sobretudo sabendo que se aproxima de si mesmo.

Quer fazer alguma coisa, vá lá e faça. Não quer fazer, não faça. E arque com todas as conseqüências.

Eu amo você porque não sei fazer outra coisa. Porque é o que eu quero fazer, sem a preocupação de precisar, para tanto, encontrar desculpas ou justificativas para isso. Eu amo você porque você é a melhor pessoa que me cruzou o caminho, com suas qualidades e defeitos, com suas limitações, com suas indas e vindas, com suas quedas e seus vôos, com sua vida. Eu amo você exatamente do jeito que você é.
O romantismo é um platonismo? Pode ser. Mas é parmenídico e heraclitiano achar que as coisas ou são ou não são e que estão em eterno devir. Foi Platão que errou no parricídio de Parmênides? Ou em tirar a média aritmética dessas duas concepções aparentemente antagônicas, para construir sua própria concepção do mundo. Nada disso. O devir de Heráclito descortina o caráter irrefutável do mundo sensível. E o uno e imutável de Parmênides nos dão a idéia da essência das coisas. Platão colou dos dois e o cristianismo o interpretou a seu modo.
Mas não preciso de tanto “filosofismo” para dizer uma coisa como “eu amo você porque não sei fazer outra coisa”, basta que eu saiba que esse é a melhor forma de sentir uma coisa como essa, e que não pode haver outra. Basta dizer que não quero de outra forma, que é assim mesmo que as coisas se apresentam, sem ser uma forma de impasse para o pensamento ou para o sentimento.
Se uma linguagem filosófica me coloca distante da consciência disso, pelo menos uma linguagem poética me colocaria menos distante, que é a mesma coisa de dizer mais próximo, como queiram.
O amor e a filosofia, e a felicidade deles advindas, não são, portanto, valores absolutos que atingimos com uma séria e custosa ascese. Não são tão absolutos a ponto de pairar no absurdo de uma altitude inatingível por nossa razão ou nosso ser. Mesmo porque são tudo aquilo que se nos apresenta no dia a dia, de maneira tão mais simples do que imaginamos, sobretudo esse tal de amor e essa tal felicidade. Talvez a filosofia demande um pouco mais de dedicação e trabalho. Mas também não é um arcabouço de verdades inatingíveis.
Então, eu te amo porque é exatamente essa a coisa que quero fazer. Porque você é a melhor pessoa que apareceu exatamente nesse momento. Uma pessoa que minha pessoa soube estar bem ao seu lado e cogita ainda querer ser uma pessoa melhor do que se possa, do que se é.
Isso acontece, às vezes, de a gente estar distraidamente muito atento às aparentemente pequenas coisas que podem tornar essa vida melhor.
Eu te amo porque você tornou minha vida melhor.

segunda-feira, abril 23, 2007

O blog e a agorafobia

Engraçada essa vida de brincar de blog, de postar em blogs. Somos todos escritores (ou filósofos) e nenhum de nós é uma coisa ou outra. Imagino, agora, quanta coisa se coloca na rede, esse imaginário imaginado de pessoas conhecidas e anônimas, essa necessidade de sair do anonimato, permanecendo nele, com segurança e convicção. Quem sou, o que eu penso, o que desejo. Isso tudo de todo mundo está por aí, tão bem espalhado e declarado. E continuamos anônimos, ilhados.
Gosto da imagem do náufrago e já falei muito dessa imagem. Estamos cada qual a seu modo, ilhados diante dessa “janela” brilhante para o mundo, vendo e falando de tudo com todos, mas solitários. Náufragos.
Uma agorafobia muito bem fundamentada. Vejam só!
Eu não tenho medo do mundo, eu o enfrento com minhas palavras, eu tenho um blog e digo o que eu quero, sem censura, sem medo. Porra nenhuma! Eu me escondo atrás de uma janela de luz, mágica, como um náufrago numa ilha onde só cabe um: eu mesmo.
Mas estou falando mesmo de mim, ou o que eu acho que é falar de mim, construindo uma representação para outro, e muito longe de ser capaz de tirar minha “última máscara”. E se eu não me encaro, eu me mascaro. Por mais que eu conheça todas as minhas máscaras, isso nunca significa que eu não esteja envergando uma, sempre!
Tenho lido alguns blogs por aí. E, neles, as pessoas falam de um mundo, de um mundo grande e abrangente, mas pequeno suficiente para caber umas duas ou três vezes na rede virtual. Quer dizer, a rede é maior que o mundo. Mesmo assim, tantos mundos não cabem na rede.
Pois a rede, com seus blogueiros e afins, os usuários de internet (e afins), também cria um mundo. Aliás, muitos mundos, talvez uns dois ou três para cada pessoa.
Percebo que há um mundo de que não faço parte. Lendo muitos desses blogs, mapeando os mais variados interesses, vejo que todos eles parecem ter assunto, quando falam dos eventos desse mundo próximo do real em que tentamos viver. Os escritores virtuais sempre estão a fazer referências aos eventos desse mundo. Eu prefiro o mergulho interior, mesmo quando falo desse mundo, ou do que acho que seja esse mundo.
E, nesses meus mergulhos, o que escrevo quase não tem nomes, a não ser de pessoas que conheço e das que queria conhecer, dos assuntos que sao mais meus do que dos que vao ler. Quase não tem eventos sobre os quais muita gente tem conhecimento. Estou há três anos sem TV, o que me dá a inconveniência de não ter visto os últimos filmes, única coisa que me faz falta. Mas, por outro lado, isso me proporciona a devida desinformação a respeito de quase tudo. Não leio jornal e nem revistas noticiosas. O mito da informação não faz mais efeito sobre a minha reles pessoa. Uma promotora de telemarketing, a serviço de um grande jornal, quis, um dia me vender uma assinatura. E ficou estupefata com esse meu estilo de vida: “Como você vive sem nenhuma informação?” E eu, devolvendo: “E você, como vive com tanta informação?” Não há fome maior e pior do que não poder se nutrir de tudo que se quer.
É necessário que nunca se confunda “informação” com “sabedoria”, ainda que seja aceitável que não se pode encontrar ninguém que seja sábio sem qualquer tipo de informação. Dependendo dos interesses, muitas das informações não passam por um suposto exigível filtro. Então eu sei que, na atualidade, a informação tem lá seu peso, sua importância. Mas também devo saber que algumas informações não têm importância nenhuma. Na verdade, conheço muita gente bem informada que não é culta. Colecionam informação sem nenhum senso crítico e, desse modo, passam adiante como que para estarem conectados no mundo.
Conectado”. A palavra da atualidade é essa. Temos milhões de pessoas conectadas com o mundo e desconectadas de si mesmo, do outro. Senão vejamos, bastava dar uma olhada nos orkuts, alguns blogs, msn, e-mails, para perceber como as pessoas enchem a caixa de mensagem de tantos outros, deixando encher a sua, e mesmo assim esvaziam-se. Isso mesmo, somos uma geração vazia. Não tem nada mais irritante do que aqueles e-mails repassados, geralmente com aqueles pps entendiantes, verdadeiros “livros de auto-ajuda” on line. Ou senão aqueles sobre ajuda a pessoas doentes, geralmente crianças. Faz-se caridade do lado de cá da tela. Emocionam-se, acham um absurdo atrocidades. Mas ninguém vai à praça pública.
Somos a geração da agorafobia. O espaço público, aberto, de convivência cara a cara, há muito, perdeu o prestígio. Somos a geração do interesse à distância. Melhor modo de dizer isso, é que somos a geração da distância. Inventamos e aperfeiçoamos todos os intrumentos para aproximação com o outro, mas seu uso causou estranhamente o efeito contrário de o uso desses instrumentos estabelecer e favorecer a distância, esse afastamento entre as pessoas.
Eu passo oito horas por dia trancado dentro de um escritório, o que não é minha cara. E pensando e fazendo coisas que não faria em outro lugar e das quais nem gosto tanto. Se ninguém medir o grau de prazer nas atividades profissionais, podia-se exigir que se colocasse um item na CLT sobre insalubridade. Uma indenização por parte das empresas aos funcionários aos quais ela causa insatisfação, estresse e infelicidade.
No entanto, sei que há um mundo lá fora. As pessoas saem, bebem, conversam, se divertem, dançam, cantam, fazem academia, vão ao cinema ou ao teatro ou ainda a um concerto, visitam amigos, parentes ou aquelas que simplesmente ainda gostam de andar a pé por algumas avenidas e parques, essa coisa rara que é gostar de passear.
E tem gente que vai para casa, conversa com seu cônjuge, com seus filhos, cuida de seu cão ou gato, passarinho ou peixe ou das plantas. E encontra prazer e satisfação em suas ilhas, onde naufragamos, de uma forma ou outra. Pessoas que tocam a vida, vivem e se relacionam com a vida da melhor maneira que puderem.
Como grande parte do dia é tomada pelas atividades profissionais insalubres, salvo aqueles poucos que fazem o que gostam, resta às pessoas a noite, que é quando é possível encontrar aqueles que não se escondem por trás dessa tela brilhante. À noite as pessoas são tudo aquilo que é mais próximo de uma busca do que de uma fuga.
Dá um trabalho conviver com as pessoas à noite, nos bares e festas, salões dançantes, salas de cinema e de teatro ou simplesmente passeando pela cidade. Mas é um trabalho para o qual dedicaria muito mais horas do meu dia, se fosse possível, e dispensaria o adicional de insalubridade.

segunda-feira, abril 16, 2007

Para não dizer que não falei das rampas...

Para não dizer que não falei das rampas... FELIZ ANIVERSÁRIO!
No vigésimo sexto aniversário de Trinity, o que dizer? Bem, eu me arranjo bem com isso. Ou não, mas amigo é para essas coisas...
Blogueira velha, nada como homenagear você com um post, tomara que seja lindo e te arranque aqueles gritinhos, ou pelo menos um sorriso de satisfação. Tenho aqui até uma fonte nova, a Verdana, corpo 13, fazendo-me mudar da minha preferida Trebuchet MS, corpo 14.
Poderia dizer que ela sempre foi assim, fazendo-me mudar, mesmo que eu não queira, como aquele dia em que eu descia da rampa com a maior cara de sono, com a vontade maior ainda de ir para casa. Fez-me voltar para a sala de aula, uma aula do professor alemão, incompreensível e inaudível, e para a leitura de uma “carta-manifesto” ao coordenador do curso. Esta última nem sei se adiantou alguma coisa, mas a primeira adiantou a melhor e maior amizade de todos os tempos. E é assim que me lembro dela, essa amizade, a maior e a melhor de todos os tempos.
Estava com ela na última sexta-feira, dia 13, na Gruta. Eu tomava cerveja e ela fanta, encheu a cara de fanta, só para me dar trabalho. Antes, comemos no Bar do Estadão, eu um sanduíche de pernil e ela alguma coisa que não tenha bicho morto. Depois ela foi para o noitão de cinema e eu para casa.
Nossa conversa nem foi longa, nem ficamos muito tempo juntos, nem abrangeu todos os assuntos, somente os atuais, ou os mais atuais. Mas não precisa! Um diante do outro, não precisa nem conversar, carregamos todas as histórias e todas elas ali estavam. Basta uma palavra e podemos sacar qualquer uma dessas histórias, porque as carregamos durante esse tempo todo, assumimos a missão de mantê-las vivas, por mais que elas morram, manter viva a lembrança delas, a certeza de que se viveu, e intensamente, cada uma delas.
Nos até já nos trocamos o “insulto” de nos declarar melhor amigo um do outro. Eu continuo não arredando pé dessa posição de destaque, que venham os usurpadores e tentem ser melhores, que me arranquem o título, por uns tempos. Só um melhor amigo poderia mesmo até perder o título de melhor amigo. E continuar sendo. E nunca deixar de ser.
Das rampas para as mesas da praça de alimentação da UniJudas, tomando aquelas deliciosas sopas de copo. Até o dia em que vi que era necessário compartilhar uma sopa de verdade, sopa de panela, para estrear meu fogão, meu jogo de panelas, a panela de pressão, sopa de legumes, não lembro se havia alguma carne. Uma noite e cinco litros de sopa. Sobrou um pouco na panela, um pouco menos de um litro. A desavisada, na padaria, queria comprar mortadela, enquanto eu comprava pão para comer com a sopa, e eu quase a deixei comprar. Primeira pessoa que dormiu em minha casa e foi expulsa da cama com os pés. A primeira pessoa que nunca me deixou sozinho, a despeito de seus personagens e sempre novos filmes e aventuras, nunca me deixou sozinho.
Eu relia no final de semana passada a vasta correspondência on-line, e-mail, que trocamos ao longo desses anos. Ali estava toda uma história. E paramos, não por não ter mais o que dizer ou por termos dito tudo, mas porque encontramos outro modo de dizer. Carregar nossa história e marcamos encontro delas onde quer que for. Como sexta na Gruta. Cara a cara, já somos toda a história. Mesmo com os ciclos e os círculos que se fecham e os que se abrem, somos toda a história.
E parece que somos os “donos” dessa história. E somos mesmo. Cinco saraus de poesia, que seria de mim sem os saraus e a poesia? E, quando nós dois éramos mais jovens, três ou dois anos mais jovem, as madrugadas que passamos acordados. Criando não a história de nosso mundo, mas um nosso mundo para contar a sua história.
Ela tomava coca-cola no primeiro ano. Duas garrafinhas que enchiam o mesmo copo. Que vergonha! Não demorou para ser apresentada à vodka, e foi a única pessoa a ter em casa uma garrafa cativa de vodka, que ninguém bebia, a não ser com sua expressa autorização.
Portadora de meu epitáfio e encarregada da gargalhada de despedida em meu funeral. Companheira de batalhas travadas no silêncio e na solidão, que me guardou os meus mais valorosos segredos, sem o saber, porque não sabia que eram segredos, que soube dizer qualquer coisa quando fosse preciso e calar quando fosse necessário. E que em troca me fez Tântalo, e fez ainda gostar muito dessa “maldição”. Quer dizer, gostar às vezes sim, às vezes não.
É sempre alegre sofrer com ela todo o sofrimento que vale a pena. E sempre é uma tristeza caso não consiga se alegrar com ela as mais excitantes alegrias, por tudo e por nada, por muito e por pouco.
A cara dela é já um sorriso. Sempre. Muito raro ver suas lágrimas, ainda que elas existam, privilégio para poucos. Cara feia nunca fez, falar mal de ninguém nunca falou, mesmo quando podia ou tinha que falar, nunca falou.
Consegue, numa mesa de bar, conversar com você e com outras trinta e oito pessoas, ao mesmo tempo. e falar mais alto que todos, ser ouvida.
Levou o avô na colação de grau, acredita que sua Brasília vai andar um dia e até queria que eu viajasse com ela, vejam se pode uma coisa dessa.
Quer ser médica e filósofa, vai morar no Centro dentro em breve (oba!), trabalha na polícia (podem crer nisso!).
Vinte e seis anos de vida, virando a mesa com sutileza e paciência.
Escreve bem para caramba, essa mulher!
E ela deve, pelos deuses, ter algum defeito. Se descobrirem me contem. Me contem à toa que não vou acreditar mesmo.
E eu sou prolixo, tanta coisa para dizer, digo pouco.
Mas carrego com ela, nossa história.
Um grande beijo, Trinity.
Um grande beijo, Mulher!

segunda-feira, abril 09, 2007

O ócio produtivo

Dizem que o ócio produtivo dá origem a grandes obras, mas para mim ócio é ócio e só produz mesmo o que ele é e não deixa de ser: ócio e mais ócio. Essa vontade de fazer mais que o nada que já se faz, de não existir, que não ter que existir, com tudo o que o fato de existir exige: cumprir as obrigações que a existência exige. Arre!
A prancheta de desenho reclama um carinho, os papéis jazem intocados e brancos (ou creme), ansiosos por uma roçada qualquer que lhes dê cores e formas, ou outros papéis que anseiam por uma palavra ou uma frase, um mote de mais um poema.
Sem falar nos livros com suas capas como se fossem caras fechadas, que sorriem quando os abro, e folheio meio à toa, para fecha-los de novo, sua capa e sua cara, para ficarem resmungando na estante ou sobre a mesa ou no banco ao lado da poltrona, amaldiçoando minha falta de ânimo, minha apatia que de vez em quando me assola.
Mas até que eu leio, escrevo e desenho, mais do que poderia e mesmo até mais do que deveria. E o espírito criativo não se esgota, não acredito que se esgote, ele se renova com o uso, como aquelas baterias recarregáveis. Ele se renova com a própria renovação.
Mas então qual é o problema? O problema é um momento depois do outro, um dia após o outro, que não são tão iguais quanto queríamos. É essa inconstância do real, sempre pronta a não satisfazer nossas necessidades. É sempre tudo dando tão “certo” não ao nosso modo, mas ao modo da realidade, que é tudo dando certo como deve ser. O problema é que a realidade, assim como a vida, não é boa nem ruim, a realidade, assim como a vida, apenas é.

O ano passado eu, como muitos, estava saturado por ter de ir todo dia à universidade, de pegar uma aula boa entre duas ruins, quando não o contrário, o que era pior, ou de ter que ler o que não queria tanto, fazer provas, preocupar-me com as notas semestrais e a média, ouvir aulas, tomar notas, ter a minha própria insatisfação que lidar com a insatisfação alheia, às vezes por motivos não tão maiores que os meus, menores até, mas uma unha encravada em meu dedo do pé é um mal menor do que um câncer no cérebro de outro, só que a unha encravada está em meu pé. Tudo isso passou, graduei-me, graduamo-nos todos, somos bacharéis. Alguns seguiram estudando, já engatando um mestrado, outros foram dar aula, viraram professores. Eu voltei para casa, para o meu plano “A”, descansar da maratona de três anos de estudo, para fazer o que quiser, até mesmo ler filosofia. Resolvi que um bom projeto de mestrado podia ser feito em dois anos, pelo menos. Conseguido isso, mais uns três anos para um doutorado, no mínimo, daria mais uns cinco anos de estudo, pelo menos de estudo na “servidão acadêmica”. Achei que ia ser fácil. Participaria de alguns grupos de estudos. Mas não, os horários dos grupos de estudos não contemplam um sujeito que teve que alienar sua mão-de-obra para seu próprio sustento, posto que meu progenitor não mais vive e, se vivesse, por mais que quisesse e fizesse gosto disso, não teria condições de sustentar esse meu luxo. E minha mãe, viúva dele, não é uma viúva alegre que tenha casado com um fazendeiro rico, que poderia querer e fazer gosto de me sustentar esse luxo, acrescentado de outros, para os quais eu convenceria com minha retórica que são necessários muitos recursos. Assim, para se ganhar dinheiro precisa gastar dinheiro de antemão. Assim é que corroboro minha humilde tese de que a realidade apenas é.
Pensei que poderia até freqüentar umas aulas na universidade, nas salas dos meus colegas que ainda ficaram por lá. Mas andando pela universidade, senti-me um fantasma, ouvindo ecos pelas paredes que diziam que um ciclo se fechou, que a fila anda, que a seta do tempo anda só para frente. Não vi ninguém e quem me viu não me notou. Já foi o seu tempo, diriam, se pudessem. Haverão sempre de perguntar o que farei agora, como se fosse a coisa mais impossível fazer alguma coisa depois da graduação. Haverão de perguntar se estou lendo, para ficarem espantados com uma lista de quatro ou cinco livros que já li, ou mais, de filosofia, literatura ou poesia, como se fosse mentira, conversa de pescador, como se fosse um absurdo sem tamanho eu ser um leitor voraz.
Tempos bicudos! Depois da graduação vem a legião estrangeira, a “aridez de dez desertos”, essa quebra de ritmo, essa indefinição, esse estar por sua própria conta, esse abandono no silêncio de todas as suas dúvidas. A não ser que você se entregue de imediato ao jogo entojado das iniciações científicas, colóquios e simpózios, uma luta inglória por bolsas, porque, enfim, meu progenitor não vive e a viúva dele não casou com aquele fazendeiro rico. Nada contra a academia. Mas também nada a favor. A academia, como a realidade, não é boa nem ruim, a academia é, e é o que é, não outra coisa. Se quer criticá-la ou mesmo zombar dela, faça primeiro o jogo dela, para depois fazer o seu.
Eu vou ser filósofo, mas resolvi que antes disso quero mesmo ser escritor. Seu campo de estudo é mais atraente e convidativo, a rua, a cidade, a noite, as madrugadas, os sentimentos. Seus objetos são as pessoas, seu escritório e fonte de inspiração, mais do que uma sala de aula, é o bar. Aliás, falando em bar, tenho mantido uma certa proximidade com a universidade. Mais propriamente com o bar nas suas proximidades. Só não é o mesmo bar porque mudou de ponto. Mas são os mesmos donos, os mesmos fregueses, agora com mais espaço. Lá não tem como me sentir um fantasma. Sou bem recebido e reconhecido, mesmo agora que sou bacharel. É indescritível a sensação de estar nesse ambiente, o tilintar dos copos, o corpo suado das garrafas, o burburinho das gentes, o abafado de tanta fumaça de cigarro, gente chegando, gente saindo, gente procurando gente, querendo passar o tempo, fazer amizades, conhecer pessoas, conseguir um pouco de sexo, matar o tempo que nos mata, fingir que essa é a melhor maneira de se gozar o verdadeiro ócio. E é mesmo.
Quem é sábio e não tem nada que fazer, vai fazer esse nada no bar.

quinta-feira, abril 05, 2007

Amor e Felicidade, Ilusão e Desilusão

A ilusão tem sempre o poder de tornar nossa vida mais suportável. Mas sempre será por meio de um gasto enorme de nossas energias vitais. Presente como uma promessa de prazer, felicidade ou durabilidade, quando se revela decepcionante, temos a desilusão. Parecem pares de opostos, mas são a mesma coisa, são sinônimos mais do que antônimos, porque fazem parte da vida, uma mesma vida, que nos traz os sonhos a que almejamos e a decepção diante da impossibilidade de realizá-los todos.
Nada há mais decepcionante do que ouvir de alguém que o amor não existe, que a felicidade não existe. Serão sempre estas expressões de quem teve uma decepção amorosa, ou talvez de quem tenha grandiosos sonhos de felicidade que não cabem dentro do âmbito da realidade, do realizável.
Seria o mesmo que eu dizer que o dinheiro não existe, porque não o tenho, ou o tenho não suficientemente. Ou porque não lido bem com ele. Em matéria de dinheiro, tenho um rol de decepções muito grande. O dinheiro, para mim, tem sido, há muito tempo, aquela relação entre débito e crédito, contemplada em meus extratos bancários. E sempre mais débito do que crédito. É fictício, irreal, a não ser por algumas vezes em que tenho nas mãos aqueles bonitos papéis coloridos e aqueles pedaços circulares de metal com belas gravações, coisas essas que desaparecem logo, sempre quando quero trocar por alguma coisa, de preferência alguma coisa que me dê satisfação.
“Eu não amo e não sou amado, logo o amor não existe”. Essa é a lógica dos desiludidos, que confundem o amor com alguma espécie de sentimento mais inferior, geralmente dirigido a uma pessoa ou a uma coisa, sentimento esse esgotável e corruptível, quase que descartável.
“Na vida não há felicidade, há somente momentos felizes”. Outra máxima daqueles que se entregam à derrota mesmo antes de iniciar o combate. Momentos felizes é um interessante recorte que se pode fazer de toda uma vida, mas a escolha desses momentos pode parecer um tanto arbitrária e descuidada. O momento do nascimento, é um momento feliz? Vai depender do parto. A festa do primeiro aniversário, quem se lembra? A não ser por relatos e fotos, quem tem dessa primeira festa uma boa lembrança. Começar a falar? Ora, a fala traz seus problemas, porque traz também, junto com o domínio desse dom, o fato de não ser compreendido, pedir e receber um não, perguntar e não ter resposta. Continua difícil o recorte. Entrar na escola. Os colegas, os livros, a professora, os cadernos, lápis e caneta, aprender coisas novas, expandir os horizontes. Mas têm as aulas e as lições, as provas e as notas.
O nascimento de um filho. Com certeza um grande momento feliz. Principalmente para quem curte bebês e brincar com crianças. Mas elas crescem e viram adolescentes e, para muitos, o fruto daquele momento tão feliz vira fonte de muitos aborrecimentos.
Mas não era sobre tudo isso que queria falar. Queria falar de amor e felicidade e a conseqüente ilusão e desilusão. Todas essas coisas tão parte da vida. Falta então, em vez de dizer amor e felicidade não existem, dizer se vivemos ou não, com direito a todas essas coisas que vêm no pacote.
Não seria um tédio se todos fossem plenamente satisfeitos? Que restaria buscar na vida? Como passar esse tempo que na verdade nos aproxima da morte? Convém não confundirmos satisfação com felicidade, embora podemos conceber que alguém esteja satisfeito mas não feliz, mas não o contrário.
Essa plenitude, quanto ao amor e a felicidade, é o sentimento mais platônico que se conhece. E, por mais que neguemos ou tentemos disfarçar, pode-se dizer não que somos platônicos, mas que Platão é que conseguiu definir bem como é que somos.
Pois é a vida que é a felicidade. Acordar vivo, mais um dia, e perseguir o sentido disso tudo. Amar a vida e sentir-se feliz por estar vivo não é alienação, comodismo ou resignação. É, antes de tudo, aceitar o fato de que a vida aí está para ser vivida, com todas as suas potencialidades.
No mais, um pouco de ilusão e um bocado de amor não mata ninguém. Pelo contrário, faz com que nos sintamos vivos.

terça-feira, abril 03, 2007

E-mail a uma jovem poeta

Porque, no fundo, todos sabemos desenhar e escrever. Basta descobrirmos quando é que esquecemos.
(íntegra de um e-mail a uma amiga, que me pediu para dizer o que acha de uns poemas que escreveu)

Julie

Prepare-se para ler muito! Mas muito mesmo!!!
Já faz dois meses que completei 45 anos de idade, com aquela festinha na Gruta, que contou com sua honrosa presença. E devo dizer, também, que você foi a única que levou presente. Aliás, do que me desejou naquela “conchinha” surpresa, que eu não consegui abrir, posso dizer que já me aconteceu tudo nesses dois meses que se passaram, fora o que já vinha acontecendo antes.
E não reclame do tempo que levei para lhe escrever estas linhas, são só dois meses, ou sessenta dias, como queira, tempo suficientemente curto para um desocupado como eu, tanto livre das mazelas e vaidades acadêmicas. No começo do ano que vem, você vai entender o que estou dizendo, se bem que você tem TCC para fazer, o que dá a possibilidade de aproveitar o mesmo tema para um mestrado. De minha parte, estou apressadíssimo. Meu mestrado será daqui uns dois anos, 2009, portanto. E doutorado só depois de mais três anos, lá pelo ano de 2012, ou 2013 (um belo número, aliás!). Não vou esconder que tenho lido mais do que na graduação, mas vou lhe poupar da lista dos títulos, talvez não, li quatro livros de Cortázar, três de Voltaire, um do Michel Onfray, três de André Comte-Sponville (iniciei hoje a leitura do quarto), um de Camus, um de Umberto Eco, um de Carl Sagan e um de Van Gogh. Na mira para próximas leituras estão Graciliano Ramos, outro de Umberto Eco, um de José Saramago, além de Baudelaire, Walt Whithman e não sei mais o que. Nem vislumbre de tema para um projeto de tese para mestrado. Eu quero ler, tá? Só isso, ler, ler e reler tudo que não deu tempo de ler. Minha estante está em festa, nunca se sentiu tão prestigiada.
Mas não foi para lhe fazer inveja que eu lhe escrevi.
Vai ser difícil eu ir tanto aí na UniJudas, talvez eu vá na quinta, que é véspera de feriado. No grupo Nietzsche está impraticável eu ir, já que no meu trabalho vivemos tempos bicudos. Prefiro ser um pouco burro do que desempregado, sabe como é, na minha idade, só sendo poeta ou professor de filosofia, duas coisas para as quais eu não tenho o menor talento.
Escrevi para falar de poesia. Sim, que li seus poemas. Isso depois de reler alguns dos meus e escrever outros, que a poesia andava de mim meio descuidada. Tomou-me, entretanto, de assalto certa noite, e desandei a escrever, à caneta em folha de papel almaço, que ficam uns tempos curtindo numa pasta, até que eu os digite e ponha aos olhos do grande público. Ora bolas! Grande esse público! Já tenho dois para o próximo concurso de poesia da dita UniJudas, e devo caprichar, porque desconfio que este ano a concorrência vai ser feroz, feroz e grande.
Sim, escrevi para dizer que finalmente li as suas “quase todas tentativas de escrever poesia” E sim, para trocarmos mais idéias e termos mais assunto em nossas conversas.
Bom, agora devo evitar qualquer tom “professoral”, que seria de longe, como de fato é, detestável.
Depois disso que eu conseguir dizer, se é que vou conseguir, leia “Cartas a um Jovem Poeta” de Rainer Maria Rilke. Se eu tiver em arquivo, mando anexado neste. Não sei, porque estou em casa em meu micro sem internet, eu aqui sem televisão (ainda bem, porque senão eu não tinha lido tanto). Eu, quando me sinto sem inspiração ou uma porcaria de um reles escrevinhador, leio esse texto do Rilke. E outros poetas, é claro.
(Claro que não consegui anexar, então mandei a primeira carta na íntegra, em outro e-mail. Minha relação com computadores é satisfatória, do tipo dá para sentir falta da máquina de escrever - mentira!!!)
Será mesmo que o poeta só escreve quando está angustiado ou o poeta é um arauto da angústia? Quando está ansioso ou triste, apaixonado? Eu quando estou com meu amor no cômodo do lado, se me ponho a escrever, falo da saudade que dela me separa por dois cômodos e dois segundos que levo para ir ao seu encontro. O poeta é assim, quando lida com esses sentimentos, tristeza, angústia, paixões não realizadas, é para ressaltar seus opostos, dizer que sabe que eles existem e devem ser almejados.
No mais, o que me toca realmente em poesia são mesmo os maravilhosos jogos de palavras. Um poeta nunca diz nada que seja comum, reles, vulgar e superficial. Um poeta, mesmo falando de coisas comuns, tem o dom de dizê-las de maneira profunda, tocante e pungente. Nada de dizer “acordei feliz e está um lindo dia”. Um poeta diz “queria acordar feliz num dia que fosse o mais lindo da vida”. Não se contenta com pouco, um alvorecer ou um pôr-do-sol. Ele quer o mundo, toda a realidade, e também a fantasia, ou tudo o que lhe possibilitar a imaginação.
Dizia Fernando Pessoa que o poeta é um fingidor: “finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”. E Manoel de Barros, mais matreiro, diz que “o que eu não invento é falso”.

Interessante que tenho em minhas mãos poemas seus de 2004 a 2007. Dá para ter uma idéia de “evolução”, se é que se pode falar assim. Ou dá para ver como os mesmos temas são vistos de maneira diferente. E, acredite, é difícil não amadurecer escrevendo.
Voltei a escrever em janeiro de 2005 e este meu primeiro poema do retorno ninguém leu e nem vai ler, pelo menos por ora. Não gosto dele, acho-o pueril, pouco profundo, uma choradeira desgrenhada, péssimo. Mas fui eu quem o escreveu. Foi algo de mim que o fez nascer. E, diga-se de passagem, tem coisas que nunca jogo fora. E depois outros vêm na mesma esteira, e eu querendo escrever e descontente com o que escrevo, mas escrevendo, escrevendo, escrevendo. Até que, algo que saiu de mim toca em mim... Pronto! Aí a coisa foi e foi, e você sabe o resto da história.
Não vou julgar nem analisar seus poemas, vou falar deles como se quisesse neles falar de você, do que você passa, do que consigo sentir e perceber que você passa. Posso julgar os meus, porque agora entendo o que queria dizer antes e não conseguia e agora creio que consigo. Faça isso com você, com seus poemas, com sua vontade de escrever. Pergunte-se (aqui me aproveito da sacada genial do Rilke) se você vive sem isso. Se a resposta for sim, faça outra coisa. Se for não, faça isso mesmo: escreva!
Se eu quisesse ser poeta, estaria fadada ao anomimato...” Já estamos, minha cara, já estamos fadados ao anomimato. Quem lhe disse que esse eu que eu sou e que todos conhecem é o mesmo eu que escreve os poemas? Sempre sóbria? Pois embriague-se de si mesma, desça ao inferno, ande o caminho de dois desertos, suba ao céu, penetre uma profunda caverna. Saia de si e não esqueça quem você é. Aquiete-se, aquiete sua voz, sua alma, seu corpo, mergulhe no vazio e afunde-se no silêncio. As palavras todas estão lá, a espera. “O gosto das minhas palavras ditas e não ditas me torturam e sufocam...
Só que escrever não cura nada. Quem se cura é normal e quem é normal se escraviza, se limita, se anula. Forjamos nossas palavras na ansiedade de dizê-las.
Que tal “rasgar os lábios, arranhar a pele, arrancar os cabelos, só para chamar a sua atenção”? E depois de tudo, dizer: “Queridos bandidos, eu tenho chances de morrer sozinha, histérica e amargurada, mas morrerei vingada.”
Coração de plástico. Mantenha distância, ou... seja rápido!” “Você me viu demais, agora não vai me enxergar.” “Você sabe que hoje em dia vive-se mal, sorrir dói...”
Onde estavam essas palavras a não ser no mais profundo silêncio? E de onde acha que tiro as minhas senão do medo imenso de nunca mais ouví-las? (Ou talvez de um parque ao lado de casa, escondidas sob tantas folhas mortas, espreitando meus passos).
Você vai ver logo mais (nas aulas de Estética) que nós não inventamos a linguagem, porque ela nos perpassa, ela que nos inventou. Assim como se pode dizer que não criamos as palavras, mas elas que nos criam. Não somos capazes de dizer em palavras o que somos (ou desejamos ou sentimos), mas a palavra é que, insinuando-se por meio de nós, atreve-se a dizer o que somos, desejamos ou sentimos, isso sem muito êxito, já que o que somos, nenhuma palavra consegue descrever. O mais belo verso não passa de um arremedo do mais reles sentimento que temos de nós próprios, esse indescritível, intangível. Assim, toda a poesia é um arremedo.
Tenha esperança, ainda que ela seja “um lixo que gostamos de acumular”. Mas não se fie muito nela, e sim no seu oposto, o desespero, esse sim, capaz de nos fazer vislumbrar qualquer lampejo de esperança. Então seja desesperada. Fique desesperada sempre. Desesperada de amor, de beleza, de lirismo, de sonhos e de imaginação. Entregue-se ao desespero e sobreviva a ele. Entregue-se ao desespero de estar suspensa sempre entre duas imensidões absolutas: o céu e o mar, você e o outro, a vida e a morte.
Porque o poeta “troca a boca por um dedo, divide angústias e alegrias, com ninguém, a não ser com ele mesmo.” E mesmo assim, o outro que lê se sente tocado e se contamina com as angústias e alegrias divididas, porque expressadas, ligadas às suas próprias angústias e alegrias.
O eu do poeta não fala a ninguém, a não ser com o eu completamente distraído e absorto do outro, o que lê, e que se vê no que lê, como que se num mundo que foi recriado para o deleite de quem puder, de quem quiser.
Eu não tenho culpa por morrer de saudade, eu preciso matar essa tarde...” E todo poeta precisa matar para deixar nascer, o dia, a tarde, a noite, a vida, o amor, a morte, a angústia, a saudade.
Então sonha, como quem “não quer pensar sobre o que se trata e só quer ser deixada para se perder nisso tudo e se acabar em tal pessoa, para ser acordada quando for a hora de partir...” Sonha como se fosse permitido, melhor, como se fosse exigível. Mais fácil do que mudar o mundo é mudar sua visão sobre ele. Com mais acuidade, com mais interesse e curiosidade, perplexidade. Mais fácil do que mudar as pessoas em sua volta, é mudar sua relação com elas. E pronto! Tudo está mudado, para ser mudado outra vez e de novo se e quando for preciso. Solte-se como se fosse vela ao vento, isso sim é ser forte. Além do além do mar existe outro mar e o que é preciso é navegar.
Talvez vá com este a carta de Rilke ao jovem poeta. Ele diz:”(...) Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga que não é bastante poeta para extrair suas riquezas.

Será que haveria uma receita para escrever? E para escrever bem? Seria uma outra receita com outros ingredientes? Foi escrito algum manual de instruções para jovens poetas, poetas iniciantes e interessados? Acho que não. Então eu escreveria um manual com umas poucas frases: dentro do seu crânio há um cérebro, use-o. Dentro do seu ser há sentimentos, sinta-os. Há algo além da dura realidade, sonhe. E sobre a verdade há um provérbio chinês que diz que há três verdades: a minha, a sua e a verdadeira. Procure!
Claro que você já domina satisfatoriamente essas regras, ainda que não tenha percebido.
Um aluno de jornalismo entrevistou-me após o último concurso da UniJudas e perguntou-me qual a dica que eu daria a ele, porque ele gostava também de escrever. Dica, eu?! Bem, disse-lhe, leia, leia muito, leia mais e mais, nunca pare de ler. Leia livros, leia o mundo, leia a realidade a sua volta, preste atenção nas pessoas, converse bastante, leia mais ainda do que já leu, interesse-se por vários assuntos e, sobretudo, não deixe de cultivar uma boa dose de sensibilidade. E mais ainda: nunca perca o dom de se emocionar, mesmo com as coisas mais singelas da vida. Uma dose também de bom humor é aconselhável. Ria bastante. Goste de gente, goste da noite, goste de árvores, de gatos e de cachorros, divirta-se com as crianças e como uma criança. E, o que é mais importante, não importando a idade que você tenha, nunca deixe de ter em casa algum brinquedo. E brinque com ele. Goste também de lápis de cor, mesmo que você ache que não saiba desenhar (porque todo mundo sabe, só desaprende quando cresce). Não tenha vergonha de ser carinhoso, tenha muitos amigos, abrace as pessoas, com vontade, e não perca a oportunidade de dar uns bons beijos, sejam eles de paixão ou de amizade. Nunca tenha vergonha de dizer eu te amo. Goste de silêncio e de caminhadas, de preferência nos parques, mas pode ser numa rua que você goste da cidade. Saiba ficar triste com a tristeza alheia, para se alegrar com a felicidade dos outros. Diga “parabéns” e muito obrigado. E não pense que isso tem que ser feito porque foi escrito em algum livro de auto-ajuda, faça como quem gosta e gostará de fazer em pouco tempo.
Aliás, não assista a programas ruins na televisão, não veja maus filmes, não deixe que lhe falem mal de ninguém, não se esconda, apareça, vá a festas, visite os amigos, telefone, mande e-mail ou carta até. Pense sempre em ser uma pessoa melhor do que é e as pessoas boas estarão do seu lado e, as não tão boas, irão se afastar naturalmente.
Goste de janelas ou de sacadas, se tiver uma, olhe a lua,as estrelas, não passe um ano sem ver o mar, um dia sem olhar o céu. Não deixe de contemplar um dia de chuva. Aprenda a reparar nas folhas que caíram no chão, observe, quando puder, o vôo dos pássaros. Goste de música, se puder, toque um instrumento, mesmo que não seja um “virtuose”, toque um instrumento só por gostar do som. E cante, mesmo desafinado, cante. Tire um cochilo numa tarde de folga, ou uma hora que seja da semana para fazer “nada”, absolutamente nada. Ande descalço onde e quando puder, pise a terra, toque terra. Quando for dormir, esvazie a mente. Ela é auto-carregável e estará cheia no dia seguinte. Não passe um mês sem ver quadros ou esculturas, sem ver um filme, sem ler um poema ou um romance. Por fim, goste de si mesmo como se você fosse seu próprio amante. E ame, que, tirando saudade e algumas desilusões, não há mais nenhuma contra-indicação.
Leia gibi, goste de ver mapas, fique embasbacado com distâncias astronômicas e perplexo diante da velocidade da luz.
E tenha em casa sempre papel e lápis e muitas garrafas. Somos todos náufragos nessa ilha deserta. Escreva sempre uma mensagem e jogue no mar. Numa outra ilha, alguém também náufrago, vai precisar.
Agora chega de escrever, que vou eu cá do meu lado tentar ser melhor do que tudo o que falo.
Guardo seus rascunhos junto com os meus, com o mesmo carinho e cuidado.
Falemos de nossos rascunhos, desses e dos próximos, sempre que quiser.

Em 02 de abril de 2007, exatamente dois meses depois de meu 45° aniversário.

Um beijo.

quinta-feira, março 29, 2007

Sobre Amor e Distância

Agora há uma enorme distância entre ela e eu, mais ou menos com seus efeitos amenizados por uma comunicação via e-mail, telefone e cartas. Isso mesmo, cartas, aquelas coisas que a gente escreve à mão e tem que ir por lá numa coisa que se chama correio. E a distância é um problema, não vou ser tão tolo a ponto de negar isso. Mas como todo problema, tem uma solução.
O que parece um problema insolúvel são as pessoas a minha volta, encarando essa distância como um problema maior do que já é, esmiuçando todas as nuances possíveis, escarafunchando o máximo possível, para um vaticínio irritante. Um namoro não sobrevive à distância. E eles insistem em dizer: “ela vai arrumar outro”. Ou em perguntar: “quando ela vem aqui?”, “você vai lá?”, “como vocês vão fazer?”, “como é que fica?” etc.
Quando eu era garoto, minha avó materna morava a uns quatrocentos quilômetros de distância. Na impossibilidade de empreender viagens rotineiras de visitas e telefonar, porque tanto eu quanto ela não tínhamos telefone, eu escrevia cartas. Eu devia então esquecer, “amigos”, que a mãe de minha mãe existia, porque afinal de contas, ela estava distante. Mas eu escrevia cartas. Contava como iam as coisas e pedia por notícias. Essas coisas antigas que quase não existem mais hoje em dia, a não ser nas camadas menos abastadas da sociedade. Mandar e receber notícias, ainda que no ritmo do envio e recebimento das cartas pelo correio, davam uma certa sensação de proximidade.
Minha irmã está há oito anos vivendo no Japão. Vez por outra nos encontramos no msn. Onze horas da manhã aqui e onze horas da noite lá. Conversamos até que me dê fome e nela sono, quando eu vou almoçar e ela dormir. Essa minha irmã nasceu quando eu tinha oito anos, foi adotada, quase levada de volta pela mãe dela, não fossem meus veementes protestos, que fizeram meu pai registrá-la no nome deles. Não deixei, a custo de muita choradeira, que levassem o “meu bebê”. Essa minha irmã é na verdade minha prima. Melhor dizer que essa minha irmã foi minha prima. E ela está a doze horas de avião daqui. Melhor seria esquecê-la, porquanto essa distância mais que parece intransponível. Mas nos falamos por msn.
Alguns de meus irmãos e irmãs moram em Osasco, minha mãe mora em Carapicuíba. Melhor nem lembrar que existem, porque afinal, apesar de estarem a um pulo de trem, há uma certa distância. Melhor não amá-los, melhor, então, há que se dizer, desistir de tudo na menor dor de barriga. Não é verdade, ou pelo menos a verdade do que querem e como querem que seja?
Distância. Conheço tanta gente que vive tão distante dos outros que estão cara a cara, ali do lado, na mesa ao lado, na sala ao lado, na casa ao lado, no apartamento ao lado. Ao lado e tão distante.
Então tudo o que ouço hoje é que o amor vai esfriar, que ela vai me esquecer, vai conhecer outra pessoa. Claro que ouço que isso pode acontecer comigo também. E tenho que ficar ouvindo essas “verdades absolutas” que passam ao largo de tudo o que desejo e de tudo o que eu penso.
Daqui a quinze anos, terei sessenta anos de idade. E sei que amarei a arte, tanto quanto amava aos dez anos de idade, quando vi a primeira reprodução de uma pintura a óleo. Enquanto a patuléia luta em vão em busca do amor eterno, eu percebo que o eterno da vida é tudo aquilo que se encontra entre dois eventos importantes da própria vida: o nascimento e a morte.
Poderia recorrer à expressão “amor à vida”, alegando ser esse o amor eterno tão buscado e almejado por todos. Mas não, não me arrisco. Eterna é a vida desde o momento que eu nasci até o momento em que morrerei, nada mais. E sobre felicidade sempre tenho a dizer duas coisas, que para mim são as mais importantes: primeiro, não sou feliz; e segundo, não sou infeliz.
Esse idealizado amor, esse amor que se pretende eterno, esse amor inimaginável, dizem, não existe. E não existe mesmo. Não vou recorrer aqui à idéia platônica de um amor em si. Limito-me a dizer apenas que existe amor. Que não confundamos o amor dirigido a uma pessoa, esse que muda, se engana, esfria e acaba. Sim, o amor por ela, por minha amada ora distante, também faz parte desse amor, dirigido a uma pessoa, que pode acabar. Ou não. Quem sabe ou saberá, quem poderá dizer? Contento-me em não saber o que é o amor, mas simplesmente saber que é amor. E saber que é amor o que agora sinto serve de lenitivo para o problema indiscutível da distância.
No mais, essa relação causa e efeito sem cuidar da conexão necessária, faz com que as pessoas emitam seus mais ridículos e não fundamentados palpites, obra do uso e do costume, do hábito, da repetição dos eventos.
Lembro agora um livro que preciso ler de novo, “O Amor nos Tempos do Cólera”, de Gabriel Garcia Márquez, em que a distância fez o amor não esfriar mas esquentar, a ponto de ele se realizar no fim das contas, aliás, somente quando ele era possível. No mais, sobre amor e vida, uma boa sugestão é lerem “Memórias de Minhas Putas Tristes”, do mesmo Garcia Márquez, e pensar um pouco sobre o assunto.
Posso dizer que amo tanto aquela mulher que ela tem até o direito de não me amar de volta.
Mas isso, definitivamente, o populacho não entende.
O populacho não tem avó nem mãe, prima que virou irmã adotiva.
O populacho não tem amor.

segunda-feira, março 26, 2007

Vendo o mundo pela janela

Devia dizer que a tristeza por vezes pega um avião e vai lá para outro lado do mundo, ou para um outro estado ou outra cidade, para de manhã bem cedo estar já do meu lado, traduzida nesse sentimento um tanto depressivo de estar entregue ao que chamamos rotina.
Todo dia a mesma coisa, esse disfarçar que vive, que o futuro está ali em frente e sorrindo, que amanhã vai ser melhor do que hoje, sem ter certeza de que o hoje é melhor do que o ontem. O diabo é que vivemos o momento que passa, pelo menos nos nossos desejos, sonhos e anseios.
Rotina. Todo dia a mesma coisa. Eu aqui o dia inteiro diante do computador, minha janela para um outro mundo que não esse, ou melhor, para tantos mundos que não esse. Mas o que tenho é esse mundo.
As coisas podiam ser diferentes. Mas elas nunca são diferentes. As coisas são o que são, e mesmo nós poderíamos ser diferentes, mas somos o que somos.
Esse sentimento de inutilidade. Diante da realidade, ficamos procurando sempre dar um sentido a tudo, e esse sentido tem que ser no mínimo útil.
E a rotina estabelecida há tanto por não sei quem diz sempre que se tem que trabalhar, ganhar a vida, ganhando o dinheiro necessário para isso, planejar o futuro, ter uma ambição na vida, sonhos e planos, uma meta que seja, um sentido, portanto, à completa noção de absurdo que nos suscita viver a vida.
E eu queria agora somente e tão somente ser um inútil. Não passar disso, não ter o mínimo de destreza para e vontade para direcionar meu pensamento ao desejo de algo. O que eu almejo é não almejar, o que eu preciso é não precisar, e o que quero é não querer.
Tudo seria fácil, mas não seria real. Real é essa incompletude, esse buscar insano de sabe-se lá o que.
Passou todo esse dia e passou vazio. Com a absurda consciência de que oito horas por dia por trinta anos ou mais de nossa vida, passamos enfurnados num escritório.
Vendo o mundo pela janela.

quinta-feira, março 22, 2007

Profecia (só para atualizar)

Eu tomava uma cerveja com uma amiga. Falávamos de tantas coisas como sempre, do trabalho, da vida, das pessoas. De nossas próprias vidas. Em comum tínhamos a solidão, os dois separados, contávamos nossas mazelas, a falta que faz uma pessoa na vida da gente. Foi quando ela me perguntou se eu achava que não ia aparecer ninguém na minha vida. De súbito, sem pestanejar, respondi que sim, que essa pessoa iria aparecer no dia vinte e dois de novembro de dois mil e seis. Isso seria, caso se concretizasse, uns nove meses depois. Depois disso, até mesmo eu achei graça do que disse, vinte e dois de novembro.
Esse dia chegou e escrevi um e-mail para uma outra amiga, cujo teor é mais ou menos o que se segue abaixo:

Um sonho no meio da noite quis se apresentar como profecia, acordei com a idéia na cabeça de que no vigésimo segundo dia do décimo primeiro mês do meu quadragésimo quarto ano de vida, eu encontraria a mulher da minha vida. Minha manhã foi normal e não devia ser no dia 22º-11º-44º, cuja soma dos algarismos resulta o mesmo que 22-11-2006, o dia em que aquele sonho tão doido pudesse se realizar.
Vou escrever um conto, no qual partes dessa carta terão de aparecer, porque rascunho o conto enquanto escrevo a carta.
Olhei pela sacada para ver o tempo, e vi uma mulher longe na rua de cima, não podia ser ela, não passaria assim tão longe. Esse encontro tinha que se dar cara a cara ou num esbarrão, que eu lhe derrubasse os livros, ou as compras, que a gente sorrisse e risse da situação, duas pessoas tão distraídas encontrarem-se para a vida inteira.
Mas aí eu estaria escolhendo a situação, e mesmo a mulher eu estaria escolhendo, quando ocorre que ela já podia ter aparecido, mas onde estaria, eu que ando mais distraído do que o normal para essas coisas.
Abri um livro no metrô e evitei olhar as pessoas, evitei olhar as mulheres, ela que me escolhesse. Mas no caminho de casa até o trabalho, não fui escolhido por nenhuma. Da estação à porta do prédio em que trabalho, não fui escolhido. Dentro do prédio também não. Cheguei no meio do dia e nada de a profecia se realizar. Eu que tinha aberto uma exceção para crer por um dia em profecias, principalmente aquelas sugeridas pelos sonhos, caí no ceticismo de novo. Mas o dia ainda não terminou, resolvi pensar em outra coisa, talvez na prova de sexta-feira, no que vou ter de ler de Nietzsche, Freud e Marx.
Então pensar outra coisa, como se outra coisa fosse uma coisa que não está na vida, entre tantas dessas coisas de que não gostamos e que não queremos, das quais estamos tão enjoados quase sem perceber, outra coisa como o aparecimento da mulher da minha vida. Acho que ela não é pontual, já devia ter vindo, dias desses qualquer, nesses três anos, os três melhores piores anos da minha vida. De tudo ocorrer assim em pares de opostos, de tudo acontecer assim em possibilidades dentro das impossibilidades ou vice e versa. Os melhores e os piores ao mesmo tempo, tudo ao mesmo tempo dando um cansaço insustentável, sem nenhuma leveza no ser.
Eu que queria voar, rastejo sobre a terra, queria desenhar e pintar e tenho que ler Kant. Queria que ele fosse vivo para ler o que escrevo. Queria que eles todos, os filósofos estivessem vivos e eu escreveria a eles sobre voar e rastejar, arrastar-se na vida sem saber aonde vai dar. E cansado.
Um Objeto Rastejante Não Identificado, melhor definição que recebi até hoje, por ser objeto, por rastejar e por não se identificar com nada ao mesmo tempo que se identifica com tudo.
Escrevo cartas, poemas, eu escrevo como se houvesse alguma verdade ou alguma verossimilhança da realidade com a verdade, alguma coisa muito além de todas as vicissitudes humanas.
A única realidade que me é palpável é que estou sozinho e aprendendo aos poucos e cada vez mais a viver assim. E sei que assim será.
Minha maior aventura é essa quietude, esse recolhimento, esse aprofundar-se para dentro de si mesmo, sem medo do que vou ver, só porque não sei se vou ver.
No quadragésimo quarto ano de minha vida, tudo para trás se dissipando e tudo a frente envolto em brumas.
E amanhã eu sei que nunca mais acreditarei em profecias, e nem em sonhos.

Pois foi ainda nesse dia, o vigésimo segundo dia do décimo primeiro mês do quadragésimo quarto ano de minha vida, às 19:40, quando ela chegou em casa e me disse que queria pedir uma coisa. Eu pedi foi uma pizza, a fome era danada, e conversamos sobre tudo o que estávamos acostumados. Eu, que tinha esquecido da bendita profecia, achei de lembrar dela. No fundo, bem que podia ser ela. Mas qual o quê, até que tinha pintado um clima, mas tudo ainda sem uma solução definitiva e favorável. Foi quando lembrei de perguntar o que ela ia querer pedir. Pois ela pediu para ficar uns tempos em minha casa. Uma fração de segundos foi necessária para que eu voltasse um ou dois anos no tempo e tentasse até vislumbrar o futuro que incluía nós dois dividindo o mesmo apartamento, quando voltei a mim para responder rapidamente: “Claro! Claro! Quando você vem?”. Ela me respondeu que na sexta-feira. Ela não veio na sexta, eu pensei que tudo fosse besteira, que tivesse se arrependido. Mas no sábado, quando voltava do trabalho, eis que ela me liga, pedindo ajuda para carregar as malas. Dei meia volta e resumo a história aqui para dizer que sim, ela veio e ficou alguns dias, depois foi passar as férias com a família, depois voltou de novo e depois voltou em definitivo, para terminar lá os estudos.
E que estamos namorando, começamos e continuamos. Mas o resto da história só mesmo no conto, que por ora já tem onze páginas e ameaça virar um romance. Quem sabe! Quem sabe meu romance vire um romance.

quarta-feira, março 21, 2007

Dimetilcloroizotiazolinona

Isto aqui nem é tão inédito, seguiu hoje numa carta para alguém que está distante e que me faz morrer aos poucos de saudade.

Sempre me impressionou a palavra paralelepípedo. Sempre gostei de palavras exóticas e compridas. Eu lia de tudo, quando garoto, de bula de remédio (meu pai era farmacêutico e as amostras grátis abundavam em casa) a embalagens de tudo quanto é produto. E somente na química é que se encontram os nomes mais compridos que existem, como o do título desse post, que é um componente de shampoo, que aliás não vejo mais.
Dei para escrever cartas, à mão, aquelas que a gente põe no envelope e vai postar no correio. E, devo dizer, é muito mais gostoso do que e-mail. Claro que não ter computador em casa ajuda. Mas limpei minha mesa, tenho agora à disposição meu estoque de papéis e canetas, e os envelopes, que gosto de chegar no correio com tudo pronto, já colado, para selar e mandar embora. Sempre acho como pôr uns anexos. Na última foram três desenhos. Eles vão lá matar a saudade dela e eu fico aqui morrendo de saudade.
Agora que me tornei leitor quase assíduo de Voltaire, vi uma crítica boa dos usos que sempre foram feitos da Palavra, no caso, da palavra da revelação divina. Por ela e por causa dela, matou-se, corrompeu-se, prevaricou-se e praticou-se por séculos inteiros a intolerância.
Os preconceitos instituídos têm o poder de virar lei, dogma, o caminho certo. Quem não cumpre é ímpio ou herege, o que dá no mesmo, já que o destino dos dois era sempre morrer na fogueira ou na tortura na roda.
E é pelos nossos preconceitos, e nunca pelos conceitos, que julgamos e condenamos as pessoas.
A palavra, como já disse, sempre teve o poder de me intrigar, aguçar a curiosidade. Gostava de redação no ginásio, e era bom nisso, por causa dessa curiosidade com as palavras. Sempre cultuei dicionários e gramáticas. As palavras, mágicas, mostravam como era o mundo, ou construíam mundos novos, ou podiam expressar nossas ações e nossos sentimentos, falavam do concreto e do abstrato com a mesma desenvoltura.
Bacharel em filosofia, foi na graduação que as palavras me atrapalharam um pouco. A filosofia e seus argumentos, a preocupação com a verdade, entender de uma forma exatamente aceitável o que tal autor quis dizer naquele texto, ou perder-se no embate de tantos comentadores. Não posso ler sozinho, é impossível ler sozinho um texto filosófico. A tradição vai sempre dizer que existe alguém que já fez isso melhor e mais do que eu. E seus comentários vão valer muito mais do que os meus. Em vez de entender o texto do autor propriamente dito, tenho que entender o texto do comentador daquele autor, ou seja, o que ele escreveu sobre o que entendeu sobre o autor.
Com uma dificuldade adicional: tudo isso está escrito em grego ou latim, em francês ou inglês e mesmo em alemão, dependendo do autor em questão.
A sugestão que eu poderia dar aqui, é que se criasse um órgão acadêmico que classificasse as traduções, tipo um INMETRO da tradução. E que as universidades fomentassem um intercâmbio entre os cursos de letras no sentido de montar um curso que fosse isso. Aí eu ia querer ler Kant e saberia que estava com uma boa tradução. Vão dizer que já existe isso e muitos professores até indicam quais são as melhores traduções. Mas não é só isso, crie-se esse órgão acadêmico e as editoras poderão continuar com seus “bons” tradutores a preços módicos, mas para quem quer fazer um mestrado e doutorado sem ter que aprender uma língua estrangeira, recorreria às traduções das obras dos autores com essa classificação. Seria como uma certificação ISO9002 para as traduções. Se você é um interessado em filosofia, ou estudante, pode até ler as obras traduzidas pelos bons tradutores, mas se quer ser um pesquisador, vai poder ler uma tradução certificada. Não seria chique?
O fato é que eu quero fazer mestrado e doutorado, mas não tenho tempo, dinheiro e paciência para aprender uma língua estrangeira. Não sou xenófobo, mas quero pensar e entender a filosofia em minha própria língua. Utopia, eu sei, mas sempre me vem a imagem de um nativo de nossa terra verde amarela ter que falar outra língua para prestar socorro a gringo em apuros em nossa própria terra: can I help you?
No entanto, como leio e escrevo poesia, sei que alguns jogos de palavras e algumas sutilezas lingüísticas até são de certo modo intraduzíveis. Para isso, teríamos uma tradução especializada, ou melhor, certificada. Dá para imaginar o mercado de trabalho que isso abriria aos que se interessam por dinheiro?
Mas não vou deixar de ser chato. A mulher que amo está há setecentos quilômetros de distância e nos comunicamos por telefone, e-mail e por carta. E eu me sinto o mais aventurado dos homens por falar essa nossa rica língua, pois termino as cartas e os e-mails dizendo “saudades”, “muitas saudades”, “saudades tamanhas” e, na última, “saudade com a consistência de um paralelepípedo”.
Imaginem que eu ia dizer I miss you!
Triste povo que não tem em seu vocabulário a palavra saudade.
Aliás, aproveito para dizer que padeço de saudade.

PS.: dimetilcloroizotiazolinona é um componente de shampoo. Mas acho que já disse isso.

quinta-feira, março 01, 2007

Sobre amigos e asas, ciclos e círculos

As pessoas se relacionam entre si pela interposição de distâncias, pequenas, médias ou grandes, no tempo e no espaço. E por afinidades ou falta delas, pela confluência ou conflito de interesses, por conveniência, falta do que fazer, pura e simplesmente passatempo. Talvez por falta de uma outra opção. “Já que não tem tu, vai tu mesmo!”. Mas até que desses acidentes pode brotar alguma amizade mais estreita, restando-nos selecionar os nomes associados às pessoas e aos seus atos, sua taxa de consideração e atenção. Não há nada mais simples e mais complicado do que uma boa amizade. Amigo, essa entidade tão metafísica que duvidamos por vezes que exista realmente.
De minha parte, fiz a catarse necessária. As rampas e as salas, as dependências todas da nossa já antiga universidade. E no bar, quando tive oportunidade de sentar-me numa mesa sozinho, num dia em quem não havia quase ninguém, e tomei minha cerveja catártica, olhando em volta os espaços vazios, mesas e cadeiras e copos, o chão, a rua toda, as mesas de bilhar. E fui preenchendo com as contingências de reminiscências ainda tão recentes, certo de que a maior das contingências é aquela que nos reserva o futuro. Não sei encarar o futuro sem olhar para o passado. Não sem uma necessária catarse. Para sair inteiro, despojado, sem mácula ou lacuna, sem nenhum tipo de dependência do que passa ou acaba, daquilo tudo que nunca mais vai ser o mesmo. A não ser eu mesmo, acrescido de tantas outras mesmices tão repetidas ao longo de três anos.
E, para me perguntar agora o que vai ser amanhã, basta olhar para o passado, quando não me perguntava o que vai ser do hoje. Solução de continuidade, avançar sempre sem se prender, sem criar expectativas arbitrárias e autoritárias que me levasse a crer que as coisas têm de ser de um modo e não de outro. Expectativas que me fixariam, exatamente quando mais preciso de mobilidade, de flexibilidade, de continuar uma jornada iniciada quase que ao acaso, por mero descuido, quase que sem querer. Sem querer é que não quero nada. Nada além do que eu tenha e possa ter, nada além do que eu seja e possa ser. Sei que há o desejo, mas esse gênio maligno prende-me muito pouco e, ao invés de ser inimigo do desejo, o desejo é meu brinquedo favorito, meu único e permanente amigo imaginário. Imaginação, isso mesmo, triste daquele que não tem imaginação. As ilusões são rascunhos do que somos e queremos, dependem de uma boa arte final. Esqueçamos os rótulos das coisas, para termos as coisas elas mesmas. Uma fotografia de um momento feliz não é o próprio momento. Então colecionemos os momentos eles mesmos, isso vale muito mais.
Eu preciso de muito pouco e isso é tudo o que tenho. A tranqüila consciência de que fiz, em tudo, a minha parte. Estive ali e disse a que vim. Só não sei se poderei dizer, ao sair, por que fui. Eu simplesmente vou. Eu preciso ir, preciso sair, preciso andar adiante, ser outro e eu mesmo a um só tempo. E essa incapacidade de jogar coisas fora, essa mania de colecionador, faz com que o acúmulo de tanto tenha que ser de um jeito a compactar tudo em pacotes bem menores. Eu lembro e esqueço com a mesma facilidade, para esquecer o que lembro e lembrar o que esqueço e, assim, perder quase nada pelo caminho.
Os três piores melhores anos da minha vida ou, como também gosto de poder dizer ao contrário, os três melhores piores anos de minha vida.
Não tenho espaço na bagagem para mágoas e rancores, nem saudades desnecessárias, mas somente para as imprescindíveis.
Um “ciclo” se fecha. Fecha-se um “círculo”. Fui mal compreendido quando proferi essas minhas frases de algum efeito, mais a mim mesmo do que para os outros. Não entenderam que um ciclo abre outro e que um círculo fechado está sempre circunscrito em um outro que se abre. Contém e está contido. A linguagem poético-filosófica tem o estranho poder de me trair um certo desprendimento, uma descolocação, um sacudir do pó das sandálias para seguir adiante. Uma necessidade de consideração para tudo quanto é pessoa, a ponto de não me afetar por acepções de qualquer ordem, um ódio afeito a hierarquias de qualquer natureza, um nivelamento sempre pelo meio, para colocar tudo e todos no meio e no meio de tudo e todos poder estar.
Daqui a três dias haverá a colação de grau de minha tão tumultuada graduação. Formado em filosofia sem nada saber dela, achando que tudo deve ser assim mesmo. Nenhuma idéia para um projeto de mestrado, muito menos doutorado, resta-me a eficiente administração do tempo que agora tenho não precisando freqüentar aulas e bares, nem me esforçar para agradar a gregos e troianos.
Tudo, talvez, como a tempestade de verão de agora há pouco, relâmpagos e trovões, o céu cinza e muita água abaixo. De repente o silêncio nas nuvens, o céu que se faz limpo e o ar mais fresco. Sentimento de bonança, exterior e interior.
Não sei para que serviu tudo ou para que servirá. Não me importa. A não ser a contabilidade acurada de quem eu era quando entrei e quem sou ao sair desse “ciclo-círculo”. Com tudo circunscrito. O que é para guardar e o que é para deixar de lado, o que tem que ficar para trás. E, principalmente, com tudo aquilo que se abre em mais um “ciclo”. Ou “círculo”. Certo de que sou o ponto móvel de minha existência. Vou aonde quero e posso. E faço o que quero e posso.
E, como diz meu poeta português preferido, “Amei e odiei como toda gente...”, e tudo foi assim instintivo, necessário, tudo foi o que tinha de ser.
Como portas e janelas, minhas imagens preferidas n’alguma metafísica de meus poemas, tudo se fecha e se abre. Ou melhor, em vez de altos e baixos, prefiro a imagem de pairar entre duas imensidões absolutas, o céu e o mar, o tempo e o espaço. Eu e o outro.
E não levarei na bagagem nada além do que possa carregar. Talvez tudo o que não tenha peso e não seja inútil. Vou andar, mas posso precisar correr. Vou rastejar pelo solo, mas posso precisar voar.
E tudo o que agora sei é tão simplesmente sobre asas.
Amigos todos são, porque meu nível de exigência é ínfimo e meu coração é grande como cada círculo que se abre.
E são todos livres para me quererem ou não, para lembrarem de mim ou me esquecerem.
Desde que também sejam dotados de asas...

(Para Trinity)


quarta-feira, outubro 25, 2006

Para ver se há vida lá fora

De novo a partir de uma conversa com essa amiga (já vira uma comparsa), citada no post anterior, vou descobrir que me pego dizendo muitas coisas que antes não dizia nem por decreto. Que estou apaixonado quando estou apaixonado, que estou sofrendo quando sofro e por aí vai. Medo terrível de estar entregue a um indesejável racionalismo.
Mas esse sentimento a que chamamos, por falta de outro nome, de amor, nada tem de racional. Nem preciso pedir a ajuda de Camões para corroborar minha afirmação, sinto na pele as conseqüências dessa irracionalidade do amor.
Mas voltemos à conversa. Na qual, relato minha última peripécia. Ter em casa a mulher que eu amo, deprimida, chorando, com dor de cabeça. Fico feliz por ter procurado refúgio em minha reles morada, junto a minha tão mais reles pessoa.
As providências são simples. Desço à farmácia para comprar um remédio para a dor de cabeça. Ligo para a pizzaria para uma meia calabresa meia mussarela. Tudo pronto, sentamos, comemos. Recorro ao meu repertório para conversar desconversando. Conto histórias, as minhas de infância e adolescência. Arranco um primeiro esboço de sorriso. Falo de minha vida, sempre da maneira mais jocosa, o que é típico de minha família. Mais um sorriso, acrescido da participação dela na conversa.
Seu rosto começa a iluminar-se. Estava antes com cara de quem havia morrido. Mas ilumina-se. Eu me lembro que a tinha abraçado para consolar, beijado a testa, as mãos. Agora ela está sentada na cadeira em frente a poltrona em que estou sentado. Tem umas músicas para um fundo musical, apropriado para minhas reminiscências. Falo da vida um pouco mais, dos filhos, de cachorro, de gato, de minha primeira namorada, meu primeiro chute na bunda, um ano para esquecer, até que minha imagem no espelho mandou-me deixar de frescura e ir viver a vida. Essa imagem nunca mais falou comigo. Podia falar agora.
“Sinto que a amo mais do que possa imaginar.” Amo um amor em meio a tantas dificuldades, tantos obstáculos e impossibilidades. Amo alguém que ainda não tem condições de ver, sentir, pesar e medir, cheirar, vislumbrar esse amor. Então ela gosta de mim e não consegue entender porque fica em paz ao meu lado e esquece do mundo, da mesma forma com que eu simplesmente destruo tudo em volta para existir só ela e eu naquele momento que queria fosse eterno. Mas é só enquanto dura. Ela gosta de mim. Não me ama.
Um dia ela vai embora. Eu fico aqui esperando aquela imagem do espelho dizer-me para deixar de frescura e ir viver a vida.
Eu vou ter que olhar pela janela muito tempo, para ver se há vida lá fora.

quinta-feira, outubro 19, 2006

Solidão Renitente

Solidão, esse tema renitente.
Trinity, em seu “Catástrofe Psicológica”, põe tudo de pernas pro ar, fazendo-me prestar mais atenção do que de costume a esse sentimento, de uma forma que não sei se quero e que não fiz até agora simplesmente por não querer. Ainda bem que derramou em poesia, uma língua que eu entendo, quer dizer, acho que entendo.
Eu falei em tantos poemas manuscritos, ainda não digitados, guardados para curtirem no tempo e assumirem uma forma mais eloqüente de um desespero que se quer sob controle ou de um descontrole que se quer na maior tranqüilidade.
Meus termos são “palavras cansadas”, “folhas mortas”, “um trem que vai e outro que vem... e não me leva pra nunca mais”, “silêncio”, e ainda ontem um poema em plena sala de aula vai me sair assim:

Vai, leva seu corpo
E me deixa morto
Nesse meu lugar que é o chão
E nessa vida que é solidão


Única coisa que lucro disso é um título para um próximo livro, “Folhas Mortas”, alusão a algumas andanças no meu conhecido Central Park, em que pensar na solidão sempre foi a praxe de perder-se entre troncos e pensamentos. A pisar as folhas mortas. Às quais ninguém contempla ou pelas quais ninguém vela.
Mas agora o que me intriga é saber que solidão é essa que minha querida amiga fala em seu post, que eu ainda não conhecia nela e, muito provavelmente, nem em mim. Abriu a Caixa de Pandora. Essa nossa amiga solidão saiu com uma outra cara, vestida de outra forma. Eu não tinha pensado nisso. Justamente nós que sabíamos lidar com o que queríamos da solidão e lutar contra o que não queríamos. Minha amiga pega essas duas coisas e joga num mesmo caldeirão e cozinha em fogo alto até a fervura. Agora resta-me digerir esse caldo.
A caça diária, a busca, a procura incessante por um pouco de algo em alguém que nos quebre essa sensação de que a solidão vai ser para sempre, inevitavelmente. E também essa sensação de não ser percebido pelos outros, não ser levado em conta, não considerado em seus sentimentos. "Esse aí está bem sem ninguém, porque ele não tem ninguém". Um paralogismo mais do que absurdo.
Olhar em volta e todo mundo ser assim tão normal. Normal em seus namoros, em seus beijos, em mãos juntas, abraçadinhos e você por seu turno dando-se conta de que ninguém lhe percebe o mínimo. Gostam de mim. Que desgostem então, esse sentimento é muito mais verdadeiro e coerente. Que me olhem e não me vejam, que eu fale e não me escutem, que eu escreva poemas e ninguém leia, que eu ame tanto e ninguém saiba, por não ter mais que saber.
Um dia, deveria ter contado antes para minha solitária amiga, uma visita à casa de um amigo com nossos amigos que ela tanto conhece e sabe quem é. A esposa desse amigo perguntava a todos se tinham arrumado namorada. Engraçado que não perguntava para mim. Namorada não combina mais comigo. Amar não faz mais parte do meu rol de sentimentos. Estar apaixonado deve ser uma coisa estranhável. Deve ser isso que a esposa de meu amigo via então em mim. Ou sabia a resposta. Seria como perguntar a um doente crônico se ele está bem.
A solidão será essa doença crônica e incurável.
Tem também um telefone em cima da mesa que nunca toca, nem por engano. E um silêncio enorme na sacada, diante do olhar indiferente das estrelas. E uma recusa em falar sozinho, nem que seja pra me distrair. E tem umas horas em que você é um ponto estático no espaço e o tempo não é linear a suceder-se em passado, presente e futuro, mas é alguma coisa toda em torno de você. Quando tudo acontece de uma só vez e tudo só pode ser sentido de um único modo.
Isso é a solidão. Só não sei se estou cansado dela. Por não saber se posso me cansar da única coisa que tenho. Não sei se posso nem me cansar...
Isso também é solidão.

terça-feira, julho 18, 2006

Maya

Sinto falta de toda uma vida. Estou preso no passado. Todos os seres humanos sonham com o futuro negando-o. Porque o futuro é contingente. Só o passado nos parece real, completo e acabado, resumido em nossas fotografias, ou em nossas parcas reminiscências. O presente é dúvida, ilusão talvez, ahimsa, a tríplice ilusão: a ilusão física, a ilusão psíquica e a ilusão psicológica. O futuro é esperança pura, somente. E nossa fé no futuro é tão pouco fundamentada, tanto quanto nossa certeza sobre existirmos.
Sinto falta dos quintais para lavar, da minha cachorra que acompanhava todo esse trabalho, das malcriações diárias de meus filhos, e de todas as suas coisas, sua vida, sua cara, sua presença, a sensação de que parte de mim está neles e neles parte de mim também está. Pode ser que seja um outro tipo de fé sem fundamento, mas não falo de certezas, mas sim falo de sentimentos. Sinto falta de acompanhado não ter companhia.
Sinto falta até de meus cds, que parte da vida foi necessária para juntar e um momento apenas para me apartar deles. Sinto falta de um mundo em que me iludi que era feliz. Sinto falta dessa e de todas as ilusões. E a realidade me ensina aos poucos e tão dolorosamente. E não há ninguém para quem eu possa contar que sofro por tão pouco. Não há ninguém que me ouça o que não sou mais capaz de calar.
Ganhei de presente da realidade algo que se pode chamar de liberdade. Mas o preço foi a solidão, como aqui nessas linhas, em que não sei quem me lê, quem diria o que, quem sentiria a mesma coisa, exatamente do mesmo jeito. Com a liberdade a solidão e com a solidão a tristeza, mas não como um sofrimento inútil e digno de pena, uma tristeza de existir olhando para as coisas certas do modo como elas devem ser olhadas.
Em minhas noites mal dormidas, o passado, o presente e o futuro se alternam, em sonhos, pessoas ainda sem rostos, como deve ser todo mundo sem todas as suas máscaras. Enigmáticos, esses sonhos não resolvem nada, complicam o que deveria ser simples, enchem de angústia cada nova pergunta sobre o tudo e o nada, sobre o vazio e o silêncio, sobre essa solidão mais existencial do que real.
O mais perto que chegamos da ilusão é a alienação, que cultivamos até pelo menos o fim da adolescência, quem não tiver a sorte de cultivar só até aí. Começamos a ser adultos quando despertamos para o real? Acho que não, porque ninguém desperta para o real tão facilmente. Mas começamos a ser adultos quando paramos de nos iludir, quando a alienação não faz mais nenhum sentido. Então começamos a saber e, o que é pior, a querer saber. O conhecimento traz o sofrimento, o conhecimento traz a relação indubitável e inevitável com a nossa subjetividade. O conhecimento só não traz respostas, paradoxalmente, traz perguntas e com elas as dúvidas.
E eu sou quem aqui? Um náufrago numa ilha perdida, distante, que atira mensagens em garrafas, para um futuro incerto. Tenho comigo somente o presente inútil e o passado, eterno e renitente. Uma realidade que se resume em si mesma, como uma esperança infundada, alguém achar umas das garrafas e saber que estou vivo. Mas resgatado, o que me aguarda não é o futuro, mas um novo presente, sempre o presente, essa ilusão de tudo ser real.
Sempre o tempo que nos intriga, ou o estar à mercê do tempo que nos devora aos poucos.
Falta-me ponto de apoio na consciência, ou o discernimento de uma mudança de estado de consciência. O tempo não existe e a ilusão deve ser superada na busca do Si-Próprio.
Resta a nós, pobres mortais, a ilusão do ser, de ser, a ulusão da realidade, do amor e da felicidade.
A ilusão de que o que digo é uma verdade.
E a ilusão de alguém crer em mim.

terça-feira, maio 23, 2006

O riso mais triste que já vi...

Passado o grande alvoroço das movimentações e agitações que assolaram esta que é a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo, resta esperar baixar a poeira que ainda esvoaça, o sangue escorrer com a chuva para os bueiros, há que se perguntar o que resta. Resta esse ranço de medo, essa prontidão perene diante do que, afinal de contas, nos parece inevitável.
Agora nos monitoram os posts nos blogs? As mensagens na internet? Os telefonemas aos amigos? Os passos na noite escura?
O Grande Irmão espreita com seus olhos eternamente abertos e ouvidos atentos. Somos todos suspeitos? Somos confrades daqueles que estão encerrados em suas celas e, no entanto, tão mais livres do que nós? Somos presa de nosso medo e escravos de nossa apatia? Que fizemos? Que sindicato pensou em fazer uma manifestação em repúdio à violência e à falta de segurança, diante de algo que aconteceu, mas que não podia e nem devia acontecer? Que grupo de estudantes foi às ruas pacificamente gritar que a população precisa pensar sua história no decorrer das mazelas políticas, da incompetência e do descaso? Não para criar mais confusão, mas para criar em si mesmo e nos outros esclarecimentos. Que sociedade é essa que somos que abdicou de pensar?
Nos trancaremos em casa, colocaremos grades nas portas e janelas, blindagem nos carros, muitos irão querer andar armados, não sairemos mais à noite, tão bela hora do dia, porque estamos presos em nossa própria apatia e alienação.
Nós só queremos paz e tranqüilidade, nossa cervejinha toda sexta-feira e nosso futebol no domingo, nossa novela na TV e algum noticiário sobre coisas trágicas que acontecem, felizmente, distante de nós. Nós só queremos pegar o metrô cheio para o trabalho e não reclamar, aboletarmo-nos nos ônibus também cheios e reclamar menos ainda, eleger nossos representantes políticos sempre mais ricos do que nós que por nós muito poucos dentre tantos trabalham e trabalham honestamente.
Fazemos piadas. Sobre a desgraça e a tragédia, sobre a incerteza de ser uma nação rica, sobre as fraquezas e falta de caráter de nossos políticos, sobre a morte em cada esquina, sobre o falível e sofrível sistema de ensino. E vamos aos bares reclamar nossa falta de sorte. Bem que podíamos ser os Estados Unidos ou a Inglaterra. Por que não somos a Alemanha ou a França? Ou bem que podíamos ter sido colonizados pela Holanda. Nós somos nossa maior piada.
Mas agora tudo vai passar no grande recesso julino, vamos ser hexacampeões do mundo e ostentar mais este título tão inútil como essas minhas pobres e meras palavras. Pão e circo com pinga e cerveja. E futebol. Sugiro dois carnavais, um sempre em fevereiro e outro em novembro, precisamos de mais circo, muito mais do que pão.
Sei que agora mães atônitas de pessoas que ostentavam fardas, ou não, velam, inconsoláveis, covas de cemitérios. Um pedaço tão pequeno de chumbo ou sei lá o que é mais do que suficiente para por fim ao trabalho esmerado e demorado da natureza. E a vida não vale nada quando entre lágrimas essas mães perguntam-se: por quê? E filhos perguntarão por seus pais e suas mães que desapareceram numa segunda-feira qualquer de um mês qualquer, numa hora qualquer, e estarão órfãos não só dele, mas órfãos de dias vindouros, órfãos de porvir. E odiarão mais os que estão encarcerados, tão mais livres do que nós, e esse ódio alimentará o ódio contrário e nada haverá que pare de alimentar o ódio que alimenta o ódio. E tudo tendo paradoxalmente iniciado por um pretenso e alegado amor, a visita filial no indulto do dia das mães, essas que quando pariram seus filhos e quando os geraram teria havido ainda amor?
Mas há a copa do mundo... seremos hexacampeões. E sempre tem carnaval, ninguém atrapalha o carnaval. E nem a novela para algum horário extraordinário para informar que a realidade está se tornando a nossa pior novela.
E depois de tudo tem o horário eleitoral gratuito, quando grudaremos nossos olhos na tela para rirmos das piadas sobre o que deveria ser sério e para alimentar nossas próximas piadas.
E rimos tanto que não percebemos que rimos de nós mesmos.
E é triste, o riso mais triste que já vi.

sexta-feira, abril 28, 2006

Mercedes Sosa

Central Park, 25/04/2006 – 22:20

Não à Universidade! Para casa trazendo relíquias do passado... acompanhavam-me Mercedes Sosa, Martinho da Vila e Gadamer. Mercedes foi a primeira a falar-cantar e eu tinha a certeza de nada mais fazer de útil, estudar para uma prova me por a prova e nada em mim, nada prova que seguirei adiante sem essa carga, sem esse peso na alma que me trouxe até aqui. Chacarera de las Piedras, Cantor de Oficio, Duerme Negrito, Antíguos Dueños de las Flechas, Los Hermanos – La Carta, a carta que ora o nada arranca do nada de mim, e Mercedes cantará quarenta músicas e me perderei a recordar três discos que tive e que recuperei hoje quase por acaso. Por acaso tudo o que me ocorre por ora é por mero acaso... terão sentido minha falta por ventura? Pouco importa, se já me é o bastante a falta que faço a mim mesmo. Ky Chororo, Gracias a la Vida Volver a los 17 numa Cancion con Todos e com ninguno, com ninguno...
Em casa me aguardavam todas as mulheres desenhadas que nasceram de mim, a mirar-me com seus olhos azuis, verdes e castanhos, a mirar-me mesmo sem os olhos. E eu desenhando mais ilusões entre paredes tão brancas, uma lágrima que cai na caneca de alumínio cheia de coca-cola, a me dar a noção do fundo de todas as canecas onde afundo aos poucos o pouco de vida que fica para ser vivida, que me resta dia a dia. Onde eu possa afundar a insignificância de ser o que nunca deveria ter sido.
Violeta Parra, bailarina de águas transparentes... e nós tristes como a areia do deserto... Gracias a la Vida, me dio dos luceros, que cuando los abro perfecto distingo lo negro del blanco e en alto cielo su fondo estrellado... su fondo estrellado, a me invadir as sacadas da alma, a iluminar-me as entranhas tão ressequidas pela falta de um tão pouco de amor... Gracias a la Vida por tão pouco de quase nada, quase nada! Hans-Georg Gadamer calado e fechado sobre a mesa, eu hoje não sei que jogo joga o jogo em que perdi tudo e mais um pouco, Destino, Moiras, Erínias em minha noite sem Musas, e demônios trazendo mensagem dos deuses: não há mais esperança!
Resta agora somente ecos do passado distante, morto e insepulto, que me assombra todas as noites, me rouba o sono, me traz pesadelos e sonhos enigmáticos, que me tira a paz de estar só e em silêncio, e arranca um grito imenso saído de todas as minhas profundezas.
Volver a los 17 después de vivir un siclo, é como decifrar signos sin ser sabido competente, volver a ser de repente tan frágil como un segundo, volver a sentir profundo como un niño frente a Dios... como un niño, como un niño, como un niño! Lo que puede el sentimiento no lo ha podido el saber... hasta el feroz animal susurra su dulce trino!
Mercedes de meus dias mais queridos, aonde foste te esconder de mim? Bendita a alma que não quis mais teus discos para eu os querer de volta para mim! E me trouxeste um misto de alegrias e tristezas, tudo a um só tempo, num mesmo frágil segundo, uma precariedade tão humana de uma fragilidade imensa diante da inexorabilidade do destino, o fado a que estamos fadados. Um tempo que passa por nós e através de nós, que passa a despeito de nós todos, apesar de cada um de nós.
A esta hora exactamente hay un niño el la calle... minha rua de outrora tão universo, meus idos dias tão distantes, tudo nunca será como antes... os sons que ecoavam no estúdio onde eu desenhava um futuro que nunca iria mesmo acontecer. E agora estou bem aqui nesse futuro que não aconteceu, esperando por um outro futuro que também não irá acontecer. Ah! O tempo, essa invenção nossa sobre a eternidade.
Tudo é inútil. Tudo o que fizemos, fazemos, tudo o que faremos. Tudo o que dissemos, dizemos ou diremos. Tudo o que pensamos e pensaremos é tão inútil sobre um dia amanhecer sempre o mesmo e eu nunca outro. Nunca outro... eu mesmo!
Gracias a la Vida que me ha dado tanto, me ha dado la marcha de mis pies cansados con ellos anduve ciudades y charcos, playas y desiertos montañas y llanos y la casa tuya tu calle y tu patio... o quintal de todas as indiferenças, tão vazio de todos os brinquedos e fantasias, tão sepulto no tempo, tão vazio de um vazio a ser percorrido com olhos molhados e cansados, de olhares atormentados por outras estranhas escuridões e nunca percorridas imensidões.
Não há volta e nem eterno retorno. Nada volta quando a criança morta em mim visita todos os lugares da infância, todos os sorrisos e palavras tolas, todas as vãs esperanças de amanhãs e manhãs de um sol sempre vermelho nos desenhos, todos os pensamentos sobre a vida ser uma doce e eterna brincadeira de um brinquedo que se quebra, afinal das contas, se quebra e se desgasta, perde a cor ou uma de suas peças, amassa, enruga, e a brincadeira dentro de si perde todo o fôlego só porque este se acaba, de o amor ser uma chama que nunca se apaga. Uma chama que nunca se acaba!
Eis que palavras nunca antes proferidas querem hoje me visitar e não tenho um tapete à porta e no forno nenhuma torta. Água ardente nas entranhas, essas palavras são tão estranhas, vindas de onde é que eu não sei?
Violin de Becho... Jo tengo tantos hermanos... e um silêncio profundo em mim há tanto tempo vazio de música.palavras me visitam e tenho medo do que me revelam, medo do nome do medo, de me cair esta última máscara, que me desnudará o rosto, marcado pelo desespero de nenhuma expressão que seja vida e verdade e vontade e força e um passo adiante. Só um passo adiante de cada vez, um a cada dia, um dia de cada vez, eu queria viver um dia de cada vez, não todos que se acumulam na memória do meu coração.
Uma pausa para respirar... esse ar pestilento que vem de dentro, emoções ofegantes, paredes brancas, árvore na janela, uma samambaia que toca o chão, um olhar que toca o céu, um saber tanto de solidão, um olhar atônito para tudo o que não sou eu, não sou eu... uma pausa para uma ressurreição, uma pausa!
Quem me ouvirá agora na calada da noite um último grito? Quem me verá deitado no chão de minha impaciência com tudo? Quem me criará a angústia quando ficar órfã de mim? Quem cuidará de meus tão pobres sonhos? A quem importará tantos papéis nos quais escrevi meu nome com letras de sangue? E quem saberá de mim, que ocupo tanto meu tempo com todo esse não ser? Quem será capaz de ler em tantas páginas sangradas tudo o que tenho de mais morto em mim? Quem saberá que faltou um gesto a mais de carinho? Um gesto tão pequeno... tão pequeno! Quem se importará com a paixão que se perde sem razão justamente no fim da razão de tanta paixão?
Não posso achar do passado nada além de meus velhos discos, meus livros tão lidos, tão velhos quanto meus dias, tão presentes comigo e silenciosos, com tanto para dizer. Nada mais posso encontrar além de paisagens transmutadas, agora estranhas, tão estranhas, onde outrora corria um menino tão livre dessas realidades impossíveis.
Aonde foram todas aquelas pessoas de antigas festas em minha casa? E agora o que falta em mim é festa? Daremos uma festa para ninguém vir... para ninguém sorrir, para ninguém se divertir. E chamaremos essa festa Vida. Minha casa vazia de portas abertas e em mim todas as janelas fechadas, por estarem todos a dormir, a sorrir, a conversar e a cantar... e tudo é assim tão falso e superficial, tão postiço na máscara de cada um. E eu vejo tudo isso por estarem todos a andarem de mãos dadas e aos beijos, abraçados e enamorados e serem tão infelizes, tão infelizes! E vejo todos estarem enamorados, mas não de mim, não de mim, não tanto assim. Então era para eu ser feliz. E o que eu vejo é todos estarem tão ocupados em fugir de sua solidão tão menor do que a minha.
Disfarcemos toda essa festa interior, que todo dia é dia de tristeza. Todo dia há de nascer uma dor nova que apagará um velho sorriso e cansará essa já tão exausta vontade de viver.
Não parou o tempo para esse lamento e serei posto a prova, mesmo com toda a trova, com toda coisa não nova, mesmo com tudo que esqueço e não esqueço, o tempo passa e não espera a dor passar, mas passa por ela e a deixa doer.
Mercedes! Trinta e seis canções e faltam seis... e que será de mim quando se calar de vez toda a música que há em mim?
E eu não sou menos inútil do que essa noite a esmo, do que todos os dias até agora. Não sou menos inútil do que eu penso, do que consigo ser, do que sei que consigo ser. Um mundo inútil a nossa volta é o que temos, que não nos completa e não satisfaz.
E eu sei agora porque rasguei todos os desenhos, só não sei porque os faço. Criar é tão falso como viver, uma vida que você não sabe real, o que cria nela não sabe de onde sai. E nada sei dos poemas e nem eles nada sabem de mim. Nos encontramos ante o espaço vazio existente entre o pensamento e o papel e passamos dias nos estranhando, até sermos capazes de ler um ao outro. E o que em mim os poemas lêem é o que neles não consigo escrever. E tudo o que escrevo é exatamente tudo o que não fui capaz de ler neles.
Uma pausa para pensamentos distantes que demoram a vir... há que se andar pela sala de um lado para outro, há que se buscar na janela e na sacada no silêncio um resquício do que nunca se disse e nem vai dizer, porque é pura intuição e vivência, que quando se diz, vira somente experiência. Empobrece-se em palavras. Essas palavras que vieram de tão longe, quando dei por mim, estavam aqui a fazer choça de mim e vieram para ficar, mas não se revelam assim tão facilmente. Elas se escondem nos labirinto de todas as minhas dúvidas e inquietações. E eu não sei o que vim dizer aqui, não sei o que há para dizer, nem sei se é para se dizer. Sou assim a morada lúgubre e pobre de tantos desses pensamentos misteriosos, que se revelam aos poucos e tão intensamente sob o efeito de uma dor fulminante. Os pensamentos me doem... traze-los só se doer.
Si se calla el cantor calla la vida, porque la vida misma es todo un canto... se eu pudesse calar o canto, calaria a vida, mas um canto de vida há sempre de transbordar mesmo que eu não queira ou não saiba, mesmo que eu não sinta.
Os pensamentos chegam a doer quando chegam! E quando chegam os pensamentos, a luz acaba coincidentemente. E à luz de velas minha energia é a vapor. E o torpor é um outro modo de sentir a mesma dor.
E o sono me garante que se apaga a luz desses pensamentos. Já não sei onde comecei e como cheguei até aqui. Minhas estradas não têem meio, apenas começo e fim.
E meus caminhos não têem direção, somente passos na escuridão...
... às vezes há a luz de uma vela.

Madrugada: 00:21

PS.: a luz voltou, mas não me trouxe nada de novo, a luz do amanhã também não me trará.

Si se calla el cantor calla la vida
porque la vida misma es todo un canto.
Si se calla el cantor muere de espanto
la esperanza, la luz y la alegría.
Si se calla el cantor se quedan solos
los humildes gorriones de los diarios.
Los obreros del puerto se persignan,
quien habrá de luchar por sus salarios.
Que ha de ser de la vida si el que canta,
no levanta su voz en las tribunas,
por el que sufre, por el que no hay ninguna razón
que lo condene a andar sin manta.

Si se calla el cantor muere la rosa,
de que sirve la rosa sin el canto.
Debe el canto ser luz sobre los campos,
iluminando siempre a los de abajo.
Que no calle el cantor porque el silencio,
cobarde apaña la maldad que oprime.
No saben los cantores de agachadas,
no callarán jamás de frente al crimen.

Que se levanten todas las banderas,
cuando el cantor se plante con su grito,
que mil guitarras desangren en la noche,
una inmortal canción al infinito.

Si se calla el cantor... calla la vida.

terça-feira, abril 25, 2006

Eu me calo...

Eu me calo e as palavras transbordam outras formas, de qualquer modo esvaem-se de mim, incontidas, incontroláveis. Eu me calo diante da inutilidade de meus dias e de minha parca e pobre história, tão mal contada, mal vivida, mal começada e mal acabada. Eu me calo e o que sobra é somente esse tão conhecido silêncio. E o que mais eu queria? Talvez mais silêncio.
Ah! Essa brincadeira de viver. Não dá mais para brincar, saio da brincadeira, carrancudo e aborrecido. Todo mundo se diverte, menos eu. Todo mundo tem brinquedo e eu tenho que inventar brinquedos e brincadeiras na fantasia. Meu único brinquedo é a imaginação. Meu único alento e esperança, minha fuga e minha ilusão. Minha mais garantida alienação. Eu tinha um milhão de outras coisas práticas para fazer exatamente agora, mas estou aqui à mercê da imaginação, criando um mundo que sei que nunca vai existir a não ser em minha mente, um mundo que vai se realizar apenas em mim.
E meus devaneios encontram sempre devaneios companheiros e eles bebem e se divertem, se iludem e se aniquilam, num extermínio necessário e inevitável. Minha tristeza está sempre a dançar com outra tristeza, ou a passear todas essas madrugadas solitárias, onde tudo o que tenho é apenas mais silêncio, absoluto como o tempo, inescapável como parece ser a realidade.
E eu não ouvia quem gritava ao meu lado, nunca. Por preferir sempre a letra fria, a escrita despojada e despejada de emoções. Estou acostumado a ouvir o silêncio e os sons não fazem muito sentido. Se falam comigo meus olhos procuram olhos numa forma de contato entre almas, sons e palavras interiores, pensamentos e sentimentos. Para mim, tudo o que está fora vale menos do que tudo o que está dentro.
Então eu me calo, meu amigo, porque estou cansado de minhas palavras e de meus pensamentos, desse retrato meu pendurado todo dia nesse espelho que não está fora, mas dentro de mim. Cansado desse eu que não anda, não corre, não busca, não quer, só aceita o que der e vier, o que me dão, o que me sobra, o que nem preciso.
Eu vejo o amor fazer das suas por todos os lados, minha companheira de batalha. E de que adiantam agora nossas espadas, se essa luta de morte não se faz com essas armas? E com que armas se farão? Eu risco cinco ou seis nomes da minha vida e de repente não tenho amor nenhum. Você não risca apenas um e não tem amor nenhum. De que somos feitos, de alguma espécie de maldição? Filhos da noite, netos do silêncio. Criaturas de um mundo que subsiste ao lado desse sem que se perceba. Quantos mundos criamos e destruímos sem que escapemos desses dois eventos cruciais da vida, o nascimento e a morte? O que vai te fazer desistir para que eu aprenda a desistir também e viver apenas com essa visão de corpos sem vida numa batalha insana por manter-se vivo? Por que continuamos, se o que nos aguarda é o nada de nada de nada?
Já se perguntou sobre o que falar, meu amigo? E sobre o que calar? Nunca ninguém perguntou o que cala em si mesmo. E agora nem sei, porque silêncio e esquecimento andam juntos e eu os sigo a esmo para o mais ermo de mim mesmo. E o mais ermo de mim mesmo fica aqui tão próximo e eu não sei onde é.
Só não se cala uma certa poesia em mim. Incipiente. E insipiente. E eu vou aprendendo com ela exatamente o que ela não ensina. Mas sim o que arranco dela, o que dela se perde para mim, o que dela escapa e não me escapa nessa acuidade ávida e necessária. Eu aprendo o que ela não me diz porque é o que ouço dela.
Mas eu me disfarço e tudo o que viram de mim até aqui sempre foi um arremedo de mim. Nunca quiseram e nem vão querer a verdade, sobre nada e sobre ninguém. Nunca vão querer nada além de mentiras confortáveis e sorrisos postiços em olhares castos. Ninguém cuida do monstro que cria, mas o expõe no monte ao bel prazer de deuses mitológicos, escatológicos, e demônios devoradores de almas.
Eu fui exposto e alimentado pelo orvalho da noite, nutrido pela luz das estrelas e embalado pelas canções das Musas. Fui protegido pelo seio da terra, criado no oco das árvores, escondido em densas florestas. E nunca vi meu próprio rosto. Mas somente essas máscaras que me escondem a realidade. Como essas palavras que me escondem a verdade.
Como essa verdade que me esconde a vida.