quinta-feira, junho 28, 2007

Cartas e telefonemas

Semanas a fio, ao sair do metrô e subir suas escadas, cortar caminho por dentro do parque, caminhando por entre as árvores, já penso na caixa de correio do prédio. Dia após dia examino a correspondência, a procura de uma carta com aquela letra tão conhecida, meu nome escrito de um lado, do outro o nome dela, nome que se refere a uma pessoa, pessoa que não me sai do pensamento. Não veio nenhuma carta.
Não me aborreço. Ela não tinha dito que seria de outra forma. Mas nada me impede de esperar, e todas as esperanças tem que ser como são, essas coisas tolas que cultivamos no pomar das contingências.
Nos falamos por telefone, quinzenalmente. E semanalmente, dependendo das necessidades. E é caro. Mesmo a vinte e cinco centavos por minuto, fica caro. Mesmo porque tem muitos minutos em uma hora e meia ou duas de conversa. Mas falar ao telefone, ainda que seja muito bom, não é a mesma coisa. Conversa à distância, ouvir a voz e não ver a boca que a emite. Além disso, o telefone é o engodo, faz de conta que aproxima, mas distancia, este lá e cá, estar à mercê da distância, o telefone faz você querer muito mais o que está longe com a ilusão de que está perto. E tem sempre a razão que quer ser rápida na resposta, mais rápida do que o sentimento de ouvir ao longe uma voz familiar que sai da boca de uma mulher que se ama. A razão toma a frente de tantos outros sentimentos e luta contra todas as sensações. E a razão à distância é muito mais danosa, porque não se vale do olhar, do olfato, do tato. Então ela, a razão, impera e coloca todo o sentimento no calabouço do castelo da distância. E não cuida nem da saudade, mistura as palavras, escolhe-as, seleciona-as, faz com que passem todas por seu crivo. Uma pequena parcela do tempo custa vinte e cinco centavos, a razão tem pressa e pensa no amanhã. A razão me consome as palavras, me faz esquecer que eu levaria menos de três segundos para dizer “eu te amo”.
Escrevo cartas. Gosto de escrever cartas. A razão interfere apenas na grafia das palavras, na sintaxe dos períodos. E descuida do sentimento. A razão é burra, fria e insensível. Ainda bem. Gosto de escrever cartas, porque sempre é no silêncio e na solidão, na intimidade que não reconhece distâncias no tempo ou no espaço. E o papel marcado pela tinta tem o poder de levar junto muito do que nem se ousou sonhar dizer, leva uma parte do que se é e do que se sente, leva muito de poesia que paira ali sorrateira, e no distraído ato de escrever se derrama: eu te amo.
A saudade é um pouco de tudo isso, esses passos na escada, esse atalho pelo parque, a busca fiel na caixa de correspondência, essa capacidade de não se aborrecer, e nem de se entregar, essa necessidade de encher folhas e folhas de papel, que vão lacradas e protegidas em sua intimidade num envelope que leva um selo, que ao sair de minhas mãos passa de mãos em mãos a procura de suas mãos, de seus olhos que reconhecerão a letra, que entenderão as palavras, que saberão quem é que fala.
A carta. Eu derramei as palavras que transbordam. Toquei e marquei a tinta o papel que você toca. E sofri o que você lê. Encerrei no envelope toda a saudade exatamente do jeito que ela é, essa dor aguçada pelo avançar das horas na madrugada, esse silêncio e esse vazio no apartamento. Os passos na escada, o olhar por entre árvores do parque, a caixa de correspondência que não me fala de você. E algo em mim que nunca se aborrece e nem desiste de querer saber.
Algo em mim que não me deixa esquecer que todas as cartas dizem eu te amo.
Eu te amo. Noventa centavos por dez páginas que viajam setecentos quilômetros.

sexta-feira, junho 22, 2007

Saudade no devido lugar

Meu espectro foi passear no último fim de semana. O mar continua o mesmo, fiel e leal, roçando a areia sob os meus pés, atirando-se em minha direção desmanchado em espumas brancas, com sua maravilhosa sonata de uma nota só. Eu viajaria para bem mais distante, por mar, mas ainda não sei inventar um cais. O mar sempre me impõe silêncio e respeito, torna-me pequeno, frágil e indefeso. Se meu filho estivesse lá comigo, aí sim, esse grande mar ia ver só.
Uns bebem demais, falam demais, outros cansados, outros ainda arrastam para debaixo de um céu de estrelas brilhantes as mesmas neuroses, trazem-nas na bagagem. Não sei ao certo se tentam recuperar algo que perderam ou talvez algo que ainda nem conquistaram. Felizmente uns trazem violão e criança, que nos lembra sempre que há ainda muito que explorar no mundo, nós não sabemos nada. Desenhos na areia e pombos, o horizonte é um limite para a visão, mas ao mesmo tempo um convite para ir muito mais além. No fim das contas foi muito bom, mas precisamos aprender a nos levar de verdade diante do mar.
Sótão do Carlos é o mais novo link que coloquei aqui. O autor é protagonista de uma história de amor muito bela. Pelo menos inusitada e sem precedentes. Ele era muito mais garoto do que agora e apaixonado por minha irmã, que ainda escolhia o homem ideal, sei lá, procurava entre os sapos algum que virasse príncipe, quem sabe, um homem menos igual a todos os outros. Quando ela terminou com o último namorado, ele, que é nissei, estava no Japão. Mandou-lhe uma carta pedindo-a em namoro já com noivado e casamento. Veio depois uma procuração dele para o pai, para casar-se com minha irmã, ele lá e ela aqui. Casada, ela teve o maior trabalho para entrar naquele país. Entrou, foi trabalhar numa montadora. Estão lá já uns oito anos, têm uma filha, nascida lá, mas na certidão consta filha de estrangeiros no país. Bárbara Victoria diz que ama o Brasil que não conhece. Eles três planejam voltar no final desse ano ou no começo do outro. Sorte que eu não tenho muitos motivos para invejar quem ama à distância e por cartas. Eu sei bem como é isso.
Esses últimos quatro meses demoraram uma eternidade para passar, e eu os senti como se cumprisse uma pena no inferno. Agora estou a um pouco mais de uma semana do tão sonhado mês de julho, férias escolares, assolado por uma inquietante expectativa, uma espécie de angústia preliminar por um futuro tão ali próximo, permeado de contingências: ou ela vem ou ela não vem. Senti todas as saudades do mundo, todas a que podia e as que não podia sentir. Repassei na lembrança cada momento com ela, cada palavra, cada gesto e cada olhar, como que para torná-los eternos. Isso foi bom, porque transformou tudo em presença, de certo modo ela não foi de todo embora, ficou dela um muito aqui comigo. Ao inferno com os rótulos que me poriam agora, dizendo que sou romântico, isso não é ser romântico, isso é amor, e já cansei de dizer que não sei senti-lo de outra forma. Uma voz conhecida ao telefone distante, vestígios dela por toda parte em meu apartamento, em minha vida, em meu ser. E, de repente, a mais completa ausência de medo. Um amor a deslizar num mar, aqui um cais, lá um porto distante, inventando naus e caravelas, nada no mar é distante, só maior do que nós.
Por sentir amor assim, não de outro jeito, lamento que não exista receita, nem manual de procedimentos. Em tantas conversas sobre relacionamentos, tenho a impressão que daqui a pouco as pessoas procurarão por amor como quem preenche uma ficha de emprego, passa por um teste e uma entrevista, depois um período de experiência, com chances de admissão. Senão é a demissão e voltar aos anúncios classificados. Bobagem. Navegar nesse mar tão grande! Nós traçamos a rota, mas não comandamos o vento.
Meu primeiro amor foi à primeira vista, o que era típico de minha época. Então tive que conhecer a moça, ficar amigo dela, desvendar as pontas de seus segredos e preferências, fazer com que gostasse de me ver e de conversar comigo. Na distração dessas sensações excitantes estava plantada a semente da paixão. E tudo isso sem receita, ou manual de instruções. Sendo a pessoa que éramos, apaixonávamos pelo que a outra pessoa era. O resultado era uma estranha e quase perfeita média aritmética de duas paixões, cujo final da equação era amor. Hoje procuram amor de hp em punho, com cálculos e projeções. Não existe nada mais horrível do que um amor previsível, sem o encanto de pequenas surpresas, sem o êxtase de novas descobertas. Lastimavelmente, os que não estão cegos e surdos estão mortos.
Meu espectro trouxe do último passeio uma linda vista do mar, de um horizonte, de um cais e de um porto. De velas enfunadas, de um vento sem controle, de um navegar sem pressa nem ansiedade. Meu espectro trouxe do último passeio um azul de céu que me cobre de tranqüilidade.
E colocou no seu devido lugar toda a saudade.

segunda-feira, junho 04, 2007

Coisas à toa de nada à toa

Nós gostamos de sopa. E a sopa faz parte de nossa história. Na praça da alimentação da faculdade, sempre tomávamos aquelas de copinho, práticas e rápidas. Até um dia eu precisar estrear o meu novo jogo de panelas, que veio inclusive com uma panela de pressão. Já falei tanto desses quase cinco litros de sopa que deixamos só um fundo de panela, talvez um litro ou um pouco menos. Semana passada foi o frio e a proximidade que nos levou a mais uma sopa tomada ali na Av. Ipiranga. Ela é o tipo de amiga que quando nos encontramos não nos perguntamos como vão as coisas, a gente já vai falando delas, como se tudo fosse apenas o próximo capitulo. Nos já sabemos a história, porque fomos nós que a fizemos. Depois tive que agüentar o olhar de ciúmes de outras amigas do trabalho a quem eu disse que ela tinha tornado minha vida melhor naquele dia.
Você é daqueles que não tem uma, pelo menos uma, amiga assim? Então pode continuar a se lamentar em posts darks em blogs idem. Lamentação e tagarelice, até quando não nos livramos disso? Tagarelar e lamentar é matar todo pensamento e em cada pensamento qualquer poesia.
Estamos a planejar mais uma festa. E a impressão que tenho é que os amigos vão ficando antigos e distantes e precisam de festas para se encontrarem. Para aquelas coisas do tipo perguntar como você está, o que está fazendo, como vai a vida. Amigos, esses seres que nunca se entendem, precisam saber que não precisam de festa para se encontrarem, mas sim de um encontro no qual cada vez é uma festa. Nada melhor que um bom papo e uma pizza meia aliche e meia palmito com mussarela, num final de domingo. Sim eu sei, estou lendo Cortázar demais, o sexto livro dele que leio, Todos os Fogos o Fogo, oito magníficos contos, dando idéia de como queria escrever se soubesse escrever. E ver o mundo pela ótica cortazariana tem lá suas vantagens e suas coisas interessantes, e suas desvantagens, embora todas sejam aproveitáveis. Então meti numa roupagem de conto de Cortázar todas as festas que já fizemos, e talvez todas as que ainda vamos fazer. Um novo olhar para as pessoas e as coisas como elas são ou não são, vontade de entender essa realidade, mesmo que pareça sempre absurda. E nunca me surpreende o desfile dos personagens.
O telefonema de quinta me deixou com a sensação de que a conversa foi boa, e ao mesmo tempo difícil. Foi uma grande besteira mandar uma comprida carta lamentando que a saudade era muita e a distância difícil, para ela se colocar tão próxima lembrando que tudo isso já conversamos. Eu tenho sorte com as coisas inusitadas. E, de certa forma, uma propensão para estar sempre em meio a coisas inusitadas. Não bastava somente realizar o sonho de morar sozinho só depois de casado (no caso, com separação), agora tenho uma namorada que mora longe, bem longe, e ter que administrar isso me faz fazer umas besteiras aqui e ali. No fundo, não queria estar apaixonado assim. Mas no limite, não queria estar apaixonado de outra forma. E eu não vivo no fundo, mas sim no limite. Corro o risco de ela ser a mulher da minha vida, para sempre. Mesmo que não fique comigo. Mas se ficar, terei que ser o homem da vida dela. Simples assim. Amor não é outra coisa senão amor. Nós é que ficamos inventando adereços, enfeites aqui e ali, penduricalhos para o amor, contingências. E o amor não parece ser contingente, o amor tem sempre o jeito de ser fulminante, sempre aquilo de inusitado que vem depois das simples paixões.
Volto a pensar nos meus medos mais conhecidos, justamente aqueles que não tenho e nunca tive. Não tenho medo de ficar sozinho, de morar sozinho, de não encontrar uma pessoa e resolver ser apaixonado por todas as pessoas, de olhar para trás e dizer que se pudesse faria tudo de novo. Paira, no horizonte, apenas um velho medo de meus medos desconhecidos.
Outro dia pensei na velhice, que no meu caso já se avizinha. Quem lá vai estar comigo para um chá ou um vinho, um passeio pelo parque, para falar de livros, de poesia e literatura e até mesmo de filosofia, jogar xadrez, para falar de pintura, falar da vida, dos velhos tempos e dos novos, do tempo que se foi e do que vem? Quem vai estar lá comigo para atestar a passagem do tempo? Eu não faço a mínima idéia. E nem preciso fazer.
Peço apenas aos que quiserem isso que não envelheçam muito, porque eu estarei cada vez mais jovem.

quarta-feira, maio 23, 2007

Prosa do labirinto

Persegue-me essa estranha mania de escrever cartas. Um rascunho de poema para hoje à noite: “Em tudo que falo penso tão triste, sentindo tão duro sê-lo...”, o que vem daí não se pode saber, as idéias são cozinhadas num caldeirão no fundo da mente, cento e cinqüenta poemas e nenhum livro. Falando em livro, um passeio na tarde chuvosa do almoço me fez entrar mais uma vez em mais um sebo, mais dois Cortazar para a coleção: “Bestiário”, que li e não tinha, e “Todos os Fogos o Fogo”. A noite cai como uma tempestade de escuridão e faz frio lá fora, e o frio parece que a tudo entristece, ou pelo menos silencia. As pessoas estão sempre a se recolher em si mesmas.
Vou mexer com papéis de desenho. Organizá-los em suas pastas, conforme tamanho e tipo. Toda a criatividade supõe um trabalho material anterior, e não sei que trabalho vem depois, tudo flui rotineiro e impetuoso, dizer as coisas é senti-las antes de dizê-las, para senti-las depois de ditas, tudo novo de novo, os círculos incessantes de tantos pensamentos insistentes.
A solidão no frio sempre parece mais palpável, parece pesar como o ar que se nos corta, sufoca e aflige, joga-nos no chão, deixa-nos como mortos.
Estranhas decisões, não telefonar mais, não escrever, não mandar e-mail, escandalizar a outra pessoa com a auto-indiferença, para que se note a indiferença que lhe causa, sabe-se lá por que motivo, ou a indiferença que se sofre. Nem tudo precisa ter motivo, como se fosse agrilhoado em relação de causa e efeito.
Saber o que fazer com a tristeza não a ameniza e nem a elimina. Torna-a real apenas, torna-a presente, e faz com que faça parte da vida, ao menos de momentos cruciais e inevitáveis.
E quando a arte não se manifesta em inspiração, como ontem foi, tem de haver o trabalho pesado, preparar folhas e folhas de papel, uma certa desordem organizada de tudo que é necessário para pôr para fora o que vem da imaginação, tanto significado tem papéis e rascunhos, pincéis e tintas espalhados pela casa. E houve de sair aquele poema a soar tão estranho quanto começou enquanto mote, em duas partes, prometendo que se alonga. Eu sei o que é isso, sempre me ocorre quando leio Cortázar, as palavras sempre deslocadas no lugar certo, as personagens sempre como pano de fundo de uma realidade à beira do absurdo, como se não fossem assim tão importantes, do mesmo modo que não somos também nada importantes.
Ainda a chuva, ainda essa luta interna por perder-se de caminhos tão conhecidos. Dizer que só é mais uma máscara. O que pode garantir que não seja isso o meu próprio rosto, estupefato por ver-se nesse espelho partido, assustado em não se reconhecer? E pensar que esses sinais se manifestam sorrateiramente, por tudo que sai pelas mãos, vindo não sei de onde, sai das mãos escrevendo, rabiscando, pintando, não pensando, não ligando para nenhuma lógica, razão nenhuma, não se importando com qualquer sentido que faça qualquer coisa, não se dando conta de que estamos a todo tempo inventando o possível dessas realidades que precisamos viver, e buscar outras realidades, verdades, certezas, um rosto no espelho.
Flutuar enquanto anda, quase poder ver através das coisas, quase um estado de ver todo o tempo transcorrer sem as limitações de passado e futuro, tudo de longe, num incompreensível presente. Capacidades nossas humanas tão aquém de tamanha percepção. Estado de esquecimento que qualquer um almejaria, melhor que isso, um estado de alheamento diante de todas as coisas, um nada, vazio, escuridão. E silêncio. Nada que justifique o medo. Nada que justifique não viver. A fuga de todas as fugas, não ter para onde fugir, não ter nem a fuga, nem sua justificação ou necessidade.
Solução possível para o eterno paradoxo, a inexistência da verdade é já uma verdade, a de que qualquer verdade pode não ser verdade, a verdade sendo o que não é pode existir, mas não é o que parece ser.
Manhã fria e chuvosa, até tão tarde ontem à noite e logo cedo hoje de manhã a impressão de que o que há é somente esse labirinto.
Eu já vi esse corredor antes.

segunda-feira, maio 21, 2007

Um monte de coisa tudo junto

Um monte de coisa tudo junto. Assim mesmo que escrevo: uma carta depois de um telefonema, antes disso, no sábado, presente na mudança de uma amiga para o Cento, bem aqui perto do trabalho. Uma alegria indescritível. Meus desenhos no final de semana, pincéis e tintas, finalmente, a leitura de mais um livro do Cortázar, “Os prêmios”, ainda as idéias de Comte-Sponville, um texto do Gonçalo Palácios, e quase li Nietzsche, para uma breve e futura investida contra os Adoradores de Nietzsche, ou Devotos, ou dos bebês-chorões que têm medo do Bicho-Papão de fartos bigodes, ele, sempre ele, Friedrich Wilhelm Nietzsche. Ai que medo! Quanta fé tem esse povo para temer perde-la?
Então do começo, o Bicho-Papão Bigodudo. Costume que tenho de ler alguns blogs de que gosto, e o impulso que não contive de um comentário, uma resposta ao comentário, eu o vilão atacando a presa indefesa, eu o perseguidor, o “ensinador” de coisas fáceis. Penso que um blog aberto a comentários parece um convite a dizer alguma coisa. Se me enganei e ofendi o autor, que ele desconsidere a intromissão primeira e permita essa segunda (e última, se for o caso), somente para esclarecer esse ponto. A minha resposta a resposta ao meu comentário seria mais ou menos essa, que redigi e resolvi manter no meu próprio campo nessa batalha ingênua de fazer de conta que todos temos conteúdo:

A devoção está na escolha do nome: Nietzsche parece tão profundo que não vou descer tanto e tão elevado que nunca vou me elevar tanto. Sou ninguém...
É difícil falar de filosofia, com filósofos. A gente sempre parece arrogante.
Somos todos platônicos? Academicamente platônicos? Tudo tão distante lá em cima e nós diante da impossível e irrealizável ascese.
O amor pode ser difícil, sim. Isso quer dizer que não pode ser fácil?
Ou é um Amor-em-Si tão inatingível? Não poderia existir também o oposto de tudo o que sente sobre o amor?
Uma pessoa boa demais para mim... todas parecem. E isso é tão bom!
Sobre os pensadores, grandes e pequenos, eu diria para sentirmo-nos grandes com os grandes e pequenos com os pequenos. Mas isso poderia parecer mais uma frase arrogante metida a ensinar alguma coisa a alguém, sempre. E eu só queria conversar.
No reino dos sentimentos ilógicos, acaso também não examinei a questão?

Fui buscar, então, no texto de Gonçalo Palácios, a fundamentação excelente para a crítica ao academicismo. Que leiam o livro “Como fazer Filosofia sem Ser Grego, estar Morto ou ser Gênio”. Três anos de estudos de filosofia e uma única vez um professor pediu para abrir um livro, escolher um trecho, um tema e dizer o que pensamos do que estava escrito. O autor era Kant, e o livro, a famigerada e temida “Crítica da Razão Pura”. Escolhi o trecho e disse o que achava. Excelente exercício de pensamento. O professor era o Robinson, a quem ainda não agradeci essa oportunidade inédita. De resto, sempre pediram para expressar o que o filósofo em questão dizia. Papagaios repetidores é o que fomos formados, graduados em comentários de comentaristas de fulano de tal, isso é o que somos. Faço uma exceção ainda à melhor de nossas professoras, a Glória, que sempre soube recortar temas e vários autores e sempre privilegiou o que ela chamava de “problematização” do texto em questão. Glória só existe uma. E ela não tem e nunca teve medo do Bicho-Papão Bigodudo, e nem Devoção.
Sábado, ex-moradora de Poá, atual moradora do Centro, tão perto de tudo. Depois de sua mudança, vindo da direção do Teatro Municipal para a Praça Patriarca, pisando o Viaduto do Chá, lembrei-me de uma noite ter passeado com ela por essa paisagem, da qual ela disse que gostava muito. Agora ela mora ali do lado, pode usufruir dela à vontade. E eu sou um tonto que, apesar de não ter demonstrado, fiquei mais feliz com a felicidade dela, do que com a minha própria. Eu só não sei por que não se desmonta uma cama para subir três andares.
O livro de Cortazar, “Os Prêmios”, várias pessoas ganham numa loteria uma viagem de barco. Alguma coisa pode acontecer, porque o suspense insinua-se em cada linha. Cortazar une a construção excelente dos personagens, numa trama sempre insólita. Leiam o “Jogo da Amarelinha”, “As Armas Secretas”, “Bestiário”, “Prosa do Observatório” e o simpático “História de Cronópios e Famas”. Cortázar é um contista imprescindível.
Acho que ela não vem para as férias. No último telefonema, no domingo, disse isso e me deixou com todas as pulgas atrás da orelha. Algo na resposta inquietou-me. As palavras têm um significado bastante específico aos apaixonados, pena que não seja assim com os filósofos e pretensos filósofos, que sempre buscam o significado exato que as palavras não têm. Ou que teriam se não tivessem o significado que têm. Ela disse que talvez não dê para vir, se ficar de dependência em alguma matéria, tiver que estudar, e tudo o mais. Não foi isso que eu perguntei. Bastava ela dizer que quer muito vir, mas teme problemas que a impeçam. Estudante muito aplicada e disciplinada. Eu fico imaginando como interrompe suas leituras para comer alguma coisa, ir ao banheiro, dormir, tomar banho. Se é que interrompe. Essa é minha birra da filosofia tornada obscura e intangível, precisamos deixar de viver para filosofar, não podemos ser normais, somos seres que pairam num plano inconcebível. Tudo o mais de corriqueiro na vida serve para atrapalhar: viver, ter prazer, amar alguém, sentir saudade, pensar em outra coisa. Então não vou ter nunca essa disciplina. Nunca vou ser filósofo. Gosto de desperdiçar bastante o meu tempo, comigo mesmo. E com alguma coisa em volta. Odeio simplesmente esse temor acadêmico, esse terror "comentariológico", essa absurda ignorância a que nos reduz os mestres e professores doutores em filosofia. Não há nada mais absurdamente besta do que escrever para ninguém entender. Ai que medo! Estamos fadados à miséria do mundo sensível, nunca atingiremos o absoluto do mundo inteligível. Que merda que somos. Que merda fazem de nós.
Enfim, que faltou dizer? Quanto medo temos, de tudo, de nós mesmos! Quão rasteiros somos, como precisamos sempre de um Guru que nos diga Rá, Ba, Tá, Foda-se. Nosso mantra devia ser Ai! Ai! Ai! Ai! O mantra do medo.
Sobre amor e felicidade, essas coisas que não existem, tanto que sempre nos parece preciso inventa-las, assim como inventamos deus. Por medo da escuridão e do nada, nos inventamos sóis, e preenchemos nosso vazio com algo tão mais pobre do que o vazio. (Obrigado, Comte-Sponville, não sou seu devoto, mas você escreve como um cara que toma uma cerveja comigo e tem um papo muito bom).
Platão sabia sobre essa necessidade de inventar as coisas de que precisamos, para sairmos desse "buraco-caverna escuro e vazio”. Inventou um mundo inacessível, para que somente os puros do logos pudessem atingir. E Nietzsche, se não tivesse ficado doente e tivesse comido a Lou Salomé, será que escreveria tão bons aforismos?
Dou minha cara a tapa. Mas nunca ofereço a outra face. Não sou mais cristão.

terça-feira, maio 15, 2007

Ataraxia

Estava agora olhando para as construções do Páteo do Colégio, onde fomos parar naquele nosso passeio no Centro. Da janela do escritório, minha prisão domiciliar, ou melhor dizendo, laboral. Fui dormir ontem tarde, muito tarde. Na cama, no escuro, pensei nos papéis enrolados ao lado da estante. E nos pincéis e tintas guardados no armário. Do lado, a prancheta desarmada. Amanhã à noite vou pintar. Há dias atrás, lendo e lendo muito, tomando notas, percebi que minha criatividade adormeceu. Ontem quis acordá-la. Eu a acordarei hoje à noite. As cores no papel branco, a mente esvaziada de tudo: ataraxia.
Ataraxia. Mesmo antes de conhecer essa palavra, sempre soube buscar uma certa ausência de preocupações. Ser nada diante de tudo em volta.
Coleciono os grandes pintores, livro que vem com o jornal de domingo. Van Gogh, Cézane, Da Vinci, Monet, Goya e Picasso, os seis livros que me perturbam o sono. E coleciono meus próprios desenhos, que vez por outra saem das pastas. Gosto muito desse movimento que agora me possui, esse ir e vir e nunca saber onde se está. Ataraxia, ausência de preocupações, a mente vazia, o nada, nossa essência, buscar o deserto, para nele se encontrar.
O mundo é muito rápido e muito fugaz. Violento. O mundo tem tudo o que não precisamos precisar, labirinto onde nos perdemos. O mundo é barulhento. O silêncio é onde nascem minhas mais importantes inquietações. Tagarelice, preste atenção à sua volta, que tudo é só tagarelice. Ninguém sabe de mim, ninguém sabe de você, ninguém sabe de ninguém. Precisamos aprender o silêncio para aprender a palavra que realmente importa, na hora que importa.
Por trás dos prédios há um céu, há terra embaixo do asfalto, há vida lá fora, lá fora de nós mesmos, há muita vida. Há vida a não ser isso tudo que nos disseram que é vida. Mas não vou arriscar, não é simplesmente ir morar no campo ou na praia, uma casa na montanha, há vida nas veias, correndo e pulsando a despeito de todas as vicissitudes humanas. Não vou arriscar, não é a plenitude de tudo quanto é material, bens de consumo e estados do ser. Há muito mais vida e a vida não pode ser só isso.
Meus passos flutuam pelas ruas, meus olhos devoram pessoas, meu olhar alimenta-se de olhares estranhos. E tão familiares... E nada me é tão familiar. Estranhamente.
Acordei hoje e estou vivo. Escolha minha. Ausência de esperanças e temores: desespero. É bom não crer em nada, nada esperar e nada temer. Falsas todas as crenças e esperanças, infundados todos os temores. Vazio e escuridão, silêncio e solidão: labirinto.
Asas de Ícaro, nem tão perto do sol, nem tão perto do mar, nas alturas. Só o vôo. Voar.
Ausência de preocupações. A vida segue seu curso e não somos donos do vento, o tempo nos precede e nos perpassa. O tempo nos consome devora a tempo de nos consumirmos e sermos devorados. Tudo além não passa de uma noite escura. E silenciosa.
Tudo a tempo, a seu tempo.
Ataraxia.

quinta-feira, maio 10, 2007

O bode na sala

O pobre homem chegou desesperado diante do guru, contando exasperado seu dilema. “Sou muito infeliz, minha mulher não me entende, meus filhos são desonestos e minhas filhas não são virtuosas. Minha família só me visita para brigar comigo, minha vida é um inferno”. Pacientemente, o guru perguntou-lhe se ele tinha um bode. “Um bode? Tenho, mas por que...” “Coloque o bode na sala”, disse-lhe o guru, “e volte daqui um mês”. Depois de um mês volta o homem exasperado: “aquele bode comeu todo o sofá, as cortinas, sujou o tapete, não agüento o cheiro dele mais”. E o guru: “tire o bode da sala!”
Essa piada infame e sem graça ocorreu-me de novo, dia desses, enquanto eu fumava na janela do quarto, observando o parque. Lá adiante pastavam meus bodes, calma e tranqüilamente. De vez em quando vou dar uma volta pelo parque e encontro com eles, encontro sempre amigável, eles me reconhecem, afago-lhes o pelo sujo, como se fossem animais de estimação. Os bodes pastam no parque perto de casa.
Todo santo dia olho a caixa do correio. Nenhuma carta para mim. Olhei ontem, olho hoje e vou olhar amanhã. Não espero nenhuma carta. Acho que espero que me escrevam. Um dia eu juro que levo aquele monte de correspondência que ninguém recolhe, lá para o meu apartamento, separo e coloco debaixo das respectivas portas. Para saber que a caixa está vazia ou para ver uma carta para mim. Espero que me escrevam uma carta.
Eu achava que o desespero era um substantivo que nomeava uma coisa negativa. Comte-Sponville me disse que não. Desesperar é não esperar, e quem não espera não tem o que temer, não tem a expectativa de se frustrar. Filósofos materialistas franceses! Ensinou-me, então, que não é mal viver sem esperança e sem temor. Mas não terminei o livro, quando terminar, conto mais coisa. Estou entre o Desespero e a Beatitude. Brilhante tratado.
Tem um papa aqui do lado do meu trabalho. Peguei um metrô cheio de devotos e padres. E o livro na minha mão. Bem no trecho: “Pascal ateu. Imaginar sua grandeza, liberto de seus penduricalhos! Que mestre teria sido! O desespero tê-lo-ia curado de sua tristeza e de sua ira molestas. Ele teria perdoado aos homens a inexistência de Deus, em vez de torturá-los com seu temor. E a esperança, como uma esponja de vinagre... A aposta é um suplício. Alguém já viu um jogador feliz? A esperança é o mal deles. Os padres são insuportáveis com suas promessas. Por quem nos tomam? Mercadores de esperança, mercadores de ilusões... ‘O contrário de desesperar é crer’, diz Kierkegaard. Pode-se inverter: o contrário de crer é desesperar.” Os devotos e os padres iam descer no Paraíso. Fechei o livro, não dá para ler no metrô lotado, não tem espaço para um livro aberto, quando se está de pé.
Desci na São Bento, com toda a “segurança” do mundo. Para trabalhar e o papa não me ver.
Trinity, obrigado pela música “Vai”. Os bodes passeiam no parque, pastando. Tem uma garrafa de vodka para você na geladeira. E eu consegui escrever um post curto.

quarta-feira, maio 02, 2007

Sem inspiração

Dizer que venho sempre aqui para dizer nada.
O que é o mesmo que mostrar a nulidade da vida de às vezes quase sempre. Minha mesa de trabalho (a de casa, porque a chamo assim) é o retrato do maior desnorteamento a que estou entregue. De um lado uma pilha de livros, do outro uma pilha de papéis, no meio sempre uma prancheta com papéis para uma idéia nova, mesmo as mais furtivas, os papéis para um desenho e os lápis e canetas. Tudo ali, como se a inspiração viesse sempre quando se quisesse, do nada. E a dura descoberta de que a inspiração vem sempre de algo bem dentro de nós. Nosso arcabouço de leituras do mundo e da realidade. Um feriado inteiro e nada veio. Quatro dias em casa e as únicas idéias aproveitáveis foram lavar e secar e passar roupa, ir ao mercado, depois dormir um pouco. Dar um descanso para a mente que parece querer mesmo só isso: descanso.
Olhar em volta e ver que o tempo passou, que envelheci, que meus sonhos ficaram embotados, meus passos erráticos me levaram a estranhos caminhos, até aqui, onde estou diante do nada, nada que sou e nada que construí.
Não sou artista, desenhista ou pintor, não sou poeta, escritor, nem filósofo e nem projeto de filósofo. Sou esse personagem estranho perdido entre papéis e livros.Agora o que fazer?
Ler os livros e acariciar os papéis com as canetas, numa incompreensível teimosia. Falta luz num túnel que também falta. Falta um norte nesse deserto infinito.
Durante toda a vida há essa especialização horrenda, a de não-ser. E não sendo, segue-se querendo ser menos ainda. Haveria férias para esse mundo. Não quero ser bem informado, saber o que anda passando pela TV, o que deu nos jornais, não quero saber nem a previsão para o tempo de amanhã. Será sempre uma grata surpresa passar calor ou frio, tomar chuva. Não dá para acompanhar a programação do mundo, do lado de cá da janela do escritório.
A verdade é que eu odeio trabalhar. Se há quem goste e crê mesmo que isso dignifica o homem, que trabalhe por mim.
Também acho que vivemos um mundo de faz de conta e nele vamos enganando e sendo enganados. Faz de conta que lutamos por um mundo bem melhor. Pegue o seu crachá ali adiante e vai fazer de conta nesse teatro grotesco. Somos todos felizes e esperançosos, teremos nossa recompensa no céu, a vida é bela, tudo vai acabar bem. Façamos isso, então, nesse horrendo faz de conta.
Sabe o que me importa desse mundo, muitas vezes? Nada! O que o papa veio fazer no Brasil? O que fez ou que está fazendo George Bush? Como anda a guerra no oriente médio? Qual o ministério atual do Lula? Como anda a democracia na América Latina? Será que a China vai mesmo dominar o mundo? Qual é a última do nosso glorioso prefeito? Blá Blá Blá!
Eu já vejo toda a realidade de que necessito pelos olhos de terceiros. Quero a ver a de que não necessito, pelos meus próprios olhos. E necessitar dela.
Vivemos a era da imposição de conhecimento e informação. E é por isso é que somos medidos. Não tenho argumentos para criticar isso e, na falta deles, uso da minha mais fina rabugice: enfiem todo esse mundo no cu.
Agora entendo porque Wittgenstein foi viver numa cabana de pescador em Galway, na costa irlandesa, um pouco antes do fim de sua vida.
E onde ele mandaria a gente enfiar o mundo com todo o conhecimento e a informação nele contidas.

sexta-feira, abril 27, 2007

Platonismos platônicos

Eu te amo porque não sei fazer outra coisa.
E não há nada que eu faça sem que pense em você, sem que considere que sua existência e a minha se encontram e reencontram em algum lugar no tempo e no espaço. Quando se desencontram no espaço, recorrem ao tempo, com o recurso da reminiscência, esse receptáculo das lembranças que nos levam a proferir quase sempre a palavra saudade.
Se me perguntassem agora sobre o que sinto por você, não sei se a resposta seria mais poética ou mais filosófica. Mas eu acho que não teria que pensar muito.
Eu diria que eu tenho necessidade de ser uma pessoa melhor, com você. Está certo! A frase nem é tão original assim, Jack Nicholson disse a Helen Hunt em “Melhor é Impossível”. Mas a frase é bastante apropriada, porque é a melhor maneira de tentar descrever um sentimento que se poderia reputar indescritível.

Não falemos, aqui, de relacionamentos perfeitos, os quais não existem. Relacionamentos perfeitos seriam algo que só poderia ocorrer entre duas ou mais pessoas perfeitas, que também não existem. Que ótimo! Sem ironia, isso é mesmo ótimo. É perfeito poder concluir que as pessoas não são perfeitas. E que, imperfeitos, somos pessoas.
Nada de pessimismo nisso tudo. Só a constatação de que somos, no fundo, todos platônicos. Nossas buscas, ainda hoje, nos levam ao mundo ideal de Platão. Rejeitamos nossas sensações, pelos mais variados motivos, e buscamos o ideal. A idéia de perfeição é platônica. Assim como a idéia de justiça, bem, amor, felicidade, deus. E a idéia de rejeitar nossas sensações, e o deleite de poder ter essas sensações, é por demais cristã, o que é pior.
Quando alguém diz “felicidade não existe”, ao contrário de ir contra a concepção platônica acima referida, só faz corroborar essa concepção. Afirmar a inexistência da felicidade é, antes, afirmar a impossibilidade de atingí-la. Porque uma afirmação dessa esconde em seus meandros várias outras pequenas definições, tais como “felicidade não existe, o que existe são momentos felizes”, “o amor não existe”, o mesmo que se poderia dizer da justiça, do bem, a virtude, da perfeição, e por aí vai. Nega-se aquilo que não se tem certeza de atingir.
Afirmar, e acreditar nisso, que a felicidade não existe, é colocá-la como meta, e como uma meta difícil ou mesmo impossível de se atingir. E esse nem é um “bom platonismo”, é o platonismo para o povo, presente que ganhamos do cristianismo, na formação de nossa consciência. Cristianismo que diz para aceitarmos aqui nossas precariedades para ganhar nosso prêmio no além. E o além é o maior dos motivos de nossas insatisfações.
O resultado disso tudo são pessoas insatisfeitas, porque não sabem nem se relacionar com o mundo sensível e nem com o inteligível. Pairam suspensos nesse limbo, entre o céu e o inferno, agradecidos pela invenção do meio-ermo chamado purgatório.
Porque somos todos pecadores. Tudo o que somos, desejamos e pensamos é pecado. Ou seja, nós nunca atingiremos a perfeição. E nos nunca seremos felizes.
Então eu digo, esqueça a felicidade e viva. Ame, e ame intensamente, sem pensar no amor. Goze, sem pensar que perde o paraíso, que se afasta de deus, mas goze sobretudo sabendo que se aproxima de si mesmo.

Quer fazer alguma coisa, vá lá e faça. Não quer fazer, não faça. E arque com todas as conseqüências.

Eu amo você porque não sei fazer outra coisa. Porque é o que eu quero fazer, sem a preocupação de precisar, para tanto, encontrar desculpas ou justificativas para isso. Eu amo você porque você é a melhor pessoa que me cruzou o caminho, com suas qualidades e defeitos, com suas limitações, com suas indas e vindas, com suas quedas e seus vôos, com sua vida. Eu amo você exatamente do jeito que você é.
O romantismo é um platonismo? Pode ser. Mas é parmenídico e heraclitiano achar que as coisas ou são ou não são e que estão em eterno devir. Foi Platão que errou no parricídio de Parmênides? Ou em tirar a média aritmética dessas duas concepções aparentemente antagônicas, para construir sua própria concepção do mundo. Nada disso. O devir de Heráclito descortina o caráter irrefutável do mundo sensível. E o uno e imutável de Parmênides nos dão a idéia da essência das coisas. Platão colou dos dois e o cristianismo o interpretou a seu modo.
Mas não preciso de tanto “filosofismo” para dizer uma coisa como “eu amo você porque não sei fazer outra coisa”, basta que eu saiba que esse é a melhor forma de sentir uma coisa como essa, e que não pode haver outra. Basta dizer que não quero de outra forma, que é assim mesmo que as coisas se apresentam, sem ser uma forma de impasse para o pensamento ou para o sentimento.
Se uma linguagem filosófica me coloca distante da consciência disso, pelo menos uma linguagem poética me colocaria menos distante, que é a mesma coisa de dizer mais próximo, como queiram.
O amor e a filosofia, e a felicidade deles advindas, não são, portanto, valores absolutos que atingimos com uma séria e custosa ascese. Não são tão absolutos a ponto de pairar no absurdo de uma altitude inatingível por nossa razão ou nosso ser. Mesmo porque são tudo aquilo que se nos apresenta no dia a dia, de maneira tão mais simples do que imaginamos, sobretudo esse tal de amor e essa tal felicidade. Talvez a filosofia demande um pouco mais de dedicação e trabalho. Mas também não é um arcabouço de verdades inatingíveis.
Então, eu te amo porque é exatamente essa a coisa que quero fazer. Porque você é a melhor pessoa que apareceu exatamente nesse momento. Uma pessoa que minha pessoa soube estar bem ao seu lado e cogita ainda querer ser uma pessoa melhor do que se possa, do que se é.
Isso acontece, às vezes, de a gente estar distraidamente muito atento às aparentemente pequenas coisas que podem tornar essa vida melhor.
Eu te amo porque você tornou minha vida melhor.

segunda-feira, abril 23, 2007

O blog e a agorafobia

Engraçada essa vida de brincar de blog, de postar em blogs. Somos todos escritores (ou filósofos) e nenhum de nós é uma coisa ou outra. Imagino, agora, quanta coisa se coloca na rede, esse imaginário imaginado de pessoas conhecidas e anônimas, essa necessidade de sair do anonimato, permanecendo nele, com segurança e convicção. Quem sou, o que eu penso, o que desejo. Isso tudo de todo mundo está por aí, tão bem espalhado e declarado. E continuamos anônimos, ilhados.
Gosto da imagem do náufrago e já falei muito dessa imagem. Estamos cada qual a seu modo, ilhados diante dessa “janela” brilhante para o mundo, vendo e falando de tudo com todos, mas solitários. Náufragos.
Uma agorafobia muito bem fundamentada. Vejam só!
Eu não tenho medo do mundo, eu o enfrento com minhas palavras, eu tenho um blog e digo o que eu quero, sem censura, sem medo. Porra nenhuma! Eu me escondo atrás de uma janela de luz, mágica, como um náufrago numa ilha onde só cabe um: eu mesmo.
Mas estou falando mesmo de mim, ou o que eu acho que é falar de mim, construindo uma representação para outro, e muito longe de ser capaz de tirar minha “última máscara”. E se eu não me encaro, eu me mascaro. Por mais que eu conheça todas as minhas máscaras, isso nunca significa que eu não esteja envergando uma, sempre!
Tenho lido alguns blogs por aí. E, neles, as pessoas falam de um mundo, de um mundo grande e abrangente, mas pequeno suficiente para caber umas duas ou três vezes na rede virtual. Quer dizer, a rede é maior que o mundo. Mesmo assim, tantos mundos não cabem na rede.
Pois a rede, com seus blogueiros e afins, os usuários de internet (e afins), também cria um mundo. Aliás, muitos mundos, talvez uns dois ou três para cada pessoa.
Percebo que há um mundo de que não faço parte. Lendo muitos desses blogs, mapeando os mais variados interesses, vejo que todos eles parecem ter assunto, quando falam dos eventos desse mundo próximo do real em que tentamos viver. Os escritores virtuais sempre estão a fazer referências aos eventos desse mundo. Eu prefiro o mergulho interior, mesmo quando falo desse mundo, ou do que acho que seja esse mundo.
E, nesses meus mergulhos, o que escrevo quase não tem nomes, a não ser de pessoas que conheço e das que queria conhecer, dos assuntos que sao mais meus do que dos que vao ler. Quase não tem eventos sobre os quais muita gente tem conhecimento. Estou há três anos sem TV, o que me dá a inconveniência de não ter visto os últimos filmes, única coisa que me faz falta. Mas, por outro lado, isso me proporciona a devida desinformação a respeito de quase tudo. Não leio jornal e nem revistas noticiosas. O mito da informação não faz mais efeito sobre a minha reles pessoa. Uma promotora de telemarketing, a serviço de um grande jornal, quis, um dia me vender uma assinatura. E ficou estupefata com esse meu estilo de vida: “Como você vive sem nenhuma informação?” E eu, devolvendo: “E você, como vive com tanta informação?” Não há fome maior e pior do que não poder se nutrir de tudo que se quer.
É necessário que nunca se confunda “informação” com “sabedoria”, ainda que seja aceitável que não se pode encontrar ninguém que seja sábio sem qualquer tipo de informação. Dependendo dos interesses, muitas das informações não passam por um suposto exigível filtro. Então eu sei que, na atualidade, a informação tem lá seu peso, sua importância. Mas também devo saber que algumas informações não têm importância nenhuma. Na verdade, conheço muita gente bem informada que não é culta. Colecionam informação sem nenhum senso crítico e, desse modo, passam adiante como que para estarem conectados no mundo.
Conectado”. A palavra da atualidade é essa. Temos milhões de pessoas conectadas com o mundo e desconectadas de si mesmo, do outro. Senão vejamos, bastava dar uma olhada nos orkuts, alguns blogs, msn, e-mails, para perceber como as pessoas enchem a caixa de mensagem de tantos outros, deixando encher a sua, e mesmo assim esvaziam-se. Isso mesmo, somos uma geração vazia. Não tem nada mais irritante do que aqueles e-mails repassados, geralmente com aqueles pps entendiantes, verdadeiros “livros de auto-ajuda” on line. Ou senão aqueles sobre ajuda a pessoas doentes, geralmente crianças. Faz-se caridade do lado de cá da tela. Emocionam-se, acham um absurdo atrocidades. Mas ninguém vai à praça pública.
Somos a geração da agorafobia. O espaço público, aberto, de convivência cara a cara, há muito, perdeu o prestígio. Somos a geração do interesse à distância. Melhor modo de dizer isso, é que somos a geração da distância. Inventamos e aperfeiçoamos todos os intrumentos para aproximação com o outro, mas seu uso causou estranhamente o efeito contrário de o uso desses instrumentos estabelecer e favorecer a distância, esse afastamento entre as pessoas.
Eu passo oito horas por dia trancado dentro de um escritório, o que não é minha cara. E pensando e fazendo coisas que não faria em outro lugar e das quais nem gosto tanto. Se ninguém medir o grau de prazer nas atividades profissionais, podia-se exigir que se colocasse um item na CLT sobre insalubridade. Uma indenização por parte das empresas aos funcionários aos quais ela causa insatisfação, estresse e infelicidade.
No entanto, sei que há um mundo lá fora. As pessoas saem, bebem, conversam, se divertem, dançam, cantam, fazem academia, vão ao cinema ou ao teatro ou ainda a um concerto, visitam amigos, parentes ou aquelas que simplesmente ainda gostam de andar a pé por algumas avenidas e parques, essa coisa rara que é gostar de passear.
E tem gente que vai para casa, conversa com seu cônjuge, com seus filhos, cuida de seu cão ou gato, passarinho ou peixe ou das plantas. E encontra prazer e satisfação em suas ilhas, onde naufragamos, de uma forma ou outra. Pessoas que tocam a vida, vivem e se relacionam com a vida da melhor maneira que puderem.
Como grande parte do dia é tomada pelas atividades profissionais insalubres, salvo aqueles poucos que fazem o que gostam, resta às pessoas a noite, que é quando é possível encontrar aqueles que não se escondem por trás dessa tela brilhante. À noite as pessoas são tudo aquilo que é mais próximo de uma busca do que de uma fuga.
Dá um trabalho conviver com as pessoas à noite, nos bares e festas, salões dançantes, salas de cinema e de teatro ou simplesmente passeando pela cidade. Mas é um trabalho para o qual dedicaria muito mais horas do meu dia, se fosse possível, e dispensaria o adicional de insalubridade.

segunda-feira, abril 16, 2007

Para não dizer que não falei das rampas...

Para não dizer que não falei das rampas... FELIZ ANIVERSÁRIO!
No vigésimo sexto aniversário de Trinity, o que dizer? Bem, eu me arranjo bem com isso. Ou não, mas amigo é para essas coisas...
Blogueira velha, nada como homenagear você com um post, tomara que seja lindo e te arranque aqueles gritinhos, ou pelo menos um sorriso de satisfação. Tenho aqui até uma fonte nova, a Verdana, corpo 13, fazendo-me mudar da minha preferida Trebuchet MS, corpo 14.
Poderia dizer que ela sempre foi assim, fazendo-me mudar, mesmo que eu não queira, como aquele dia em que eu descia da rampa com a maior cara de sono, com a vontade maior ainda de ir para casa. Fez-me voltar para a sala de aula, uma aula do professor alemão, incompreensível e inaudível, e para a leitura de uma “carta-manifesto” ao coordenador do curso. Esta última nem sei se adiantou alguma coisa, mas a primeira adiantou a melhor e maior amizade de todos os tempos. E é assim que me lembro dela, essa amizade, a maior e a melhor de todos os tempos.
Estava com ela na última sexta-feira, dia 13, na Gruta. Eu tomava cerveja e ela fanta, encheu a cara de fanta, só para me dar trabalho. Antes, comemos no Bar do Estadão, eu um sanduíche de pernil e ela alguma coisa que não tenha bicho morto. Depois ela foi para o noitão de cinema e eu para casa.
Nossa conversa nem foi longa, nem ficamos muito tempo juntos, nem abrangeu todos os assuntos, somente os atuais, ou os mais atuais. Mas não precisa! Um diante do outro, não precisa nem conversar, carregamos todas as histórias e todas elas ali estavam. Basta uma palavra e podemos sacar qualquer uma dessas histórias, porque as carregamos durante esse tempo todo, assumimos a missão de mantê-las vivas, por mais que elas morram, manter viva a lembrança delas, a certeza de que se viveu, e intensamente, cada uma delas.
Nos até já nos trocamos o “insulto” de nos declarar melhor amigo um do outro. Eu continuo não arredando pé dessa posição de destaque, que venham os usurpadores e tentem ser melhores, que me arranquem o título, por uns tempos. Só um melhor amigo poderia mesmo até perder o título de melhor amigo. E continuar sendo. E nunca deixar de ser.
Das rampas para as mesas da praça de alimentação da UniJudas, tomando aquelas deliciosas sopas de copo. Até o dia em que vi que era necessário compartilhar uma sopa de verdade, sopa de panela, para estrear meu fogão, meu jogo de panelas, a panela de pressão, sopa de legumes, não lembro se havia alguma carne. Uma noite e cinco litros de sopa. Sobrou um pouco na panela, um pouco menos de um litro. A desavisada, na padaria, queria comprar mortadela, enquanto eu comprava pão para comer com a sopa, e eu quase a deixei comprar. Primeira pessoa que dormiu em minha casa e foi expulsa da cama com os pés. A primeira pessoa que nunca me deixou sozinho, a despeito de seus personagens e sempre novos filmes e aventuras, nunca me deixou sozinho.
Eu relia no final de semana passada a vasta correspondência on-line, e-mail, que trocamos ao longo desses anos. Ali estava toda uma história. E paramos, não por não ter mais o que dizer ou por termos dito tudo, mas porque encontramos outro modo de dizer. Carregar nossa história e marcamos encontro delas onde quer que for. Como sexta na Gruta. Cara a cara, já somos toda a história. Mesmo com os ciclos e os círculos que se fecham e os que se abrem, somos toda a história.
E parece que somos os “donos” dessa história. E somos mesmo. Cinco saraus de poesia, que seria de mim sem os saraus e a poesia? E, quando nós dois éramos mais jovens, três ou dois anos mais jovem, as madrugadas que passamos acordados. Criando não a história de nosso mundo, mas um nosso mundo para contar a sua história.
Ela tomava coca-cola no primeiro ano. Duas garrafinhas que enchiam o mesmo copo. Que vergonha! Não demorou para ser apresentada à vodka, e foi a única pessoa a ter em casa uma garrafa cativa de vodka, que ninguém bebia, a não ser com sua expressa autorização.
Portadora de meu epitáfio e encarregada da gargalhada de despedida em meu funeral. Companheira de batalhas travadas no silêncio e na solidão, que me guardou os meus mais valorosos segredos, sem o saber, porque não sabia que eram segredos, que soube dizer qualquer coisa quando fosse preciso e calar quando fosse necessário. E que em troca me fez Tântalo, e fez ainda gostar muito dessa “maldição”. Quer dizer, gostar às vezes sim, às vezes não.
É sempre alegre sofrer com ela todo o sofrimento que vale a pena. E sempre é uma tristeza caso não consiga se alegrar com ela as mais excitantes alegrias, por tudo e por nada, por muito e por pouco.
A cara dela é já um sorriso. Sempre. Muito raro ver suas lágrimas, ainda que elas existam, privilégio para poucos. Cara feia nunca fez, falar mal de ninguém nunca falou, mesmo quando podia ou tinha que falar, nunca falou.
Consegue, numa mesa de bar, conversar com você e com outras trinta e oito pessoas, ao mesmo tempo. e falar mais alto que todos, ser ouvida.
Levou o avô na colação de grau, acredita que sua Brasília vai andar um dia e até queria que eu viajasse com ela, vejam se pode uma coisa dessa.
Quer ser médica e filósofa, vai morar no Centro dentro em breve (oba!), trabalha na polícia (podem crer nisso!).
Vinte e seis anos de vida, virando a mesa com sutileza e paciência.
Escreve bem para caramba, essa mulher!
E ela deve, pelos deuses, ter algum defeito. Se descobrirem me contem. Me contem à toa que não vou acreditar mesmo.
E eu sou prolixo, tanta coisa para dizer, digo pouco.
Mas carrego com ela, nossa história.
Um grande beijo, Trinity.
Um grande beijo, Mulher!

segunda-feira, abril 09, 2007

O ócio produtivo

Dizem que o ócio produtivo dá origem a grandes obras, mas para mim ócio é ócio e só produz mesmo o que ele é e não deixa de ser: ócio e mais ócio. Essa vontade de fazer mais que o nada que já se faz, de não existir, que não ter que existir, com tudo o que o fato de existir exige: cumprir as obrigações que a existência exige. Arre!
A prancheta de desenho reclama um carinho, os papéis jazem intocados e brancos (ou creme), ansiosos por uma roçada qualquer que lhes dê cores e formas, ou outros papéis que anseiam por uma palavra ou uma frase, um mote de mais um poema.
Sem falar nos livros com suas capas como se fossem caras fechadas, que sorriem quando os abro, e folheio meio à toa, para fecha-los de novo, sua capa e sua cara, para ficarem resmungando na estante ou sobre a mesa ou no banco ao lado da poltrona, amaldiçoando minha falta de ânimo, minha apatia que de vez em quando me assola.
Mas até que eu leio, escrevo e desenho, mais do que poderia e mesmo até mais do que deveria. E o espírito criativo não se esgota, não acredito que se esgote, ele se renova com o uso, como aquelas baterias recarregáveis. Ele se renova com a própria renovação.
Mas então qual é o problema? O problema é um momento depois do outro, um dia após o outro, que não são tão iguais quanto queríamos. É essa inconstância do real, sempre pronta a não satisfazer nossas necessidades. É sempre tudo dando tão “certo” não ao nosso modo, mas ao modo da realidade, que é tudo dando certo como deve ser. O problema é que a realidade, assim como a vida, não é boa nem ruim, a realidade, assim como a vida, apenas é.

O ano passado eu, como muitos, estava saturado por ter de ir todo dia à universidade, de pegar uma aula boa entre duas ruins, quando não o contrário, o que era pior, ou de ter que ler o que não queria tanto, fazer provas, preocupar-me com as notas semestrais e a média, ouvir aulas, tomar notas, ter a minha própria insatisfação que lidar com a insatisfação alheia, às vezes por motivos não tão maiores que os meus, menores até, mas uma unha encravada em meu dedo do pé é um mal menor do que um câncer no cérebro de outro, só que a unha encravada está em meu pé. Tudo isso passou, graduei-me, graduamo-nos todos, somos bacharéis. Alguns seguiram estudando, já engatando um mestrado, outros foram dar aula, viraram professores. Eu voltei para casa, para o meu plano “A”, descansar da maratona de três anos de estudo, para fazer o que quiser, até mesmo ler filosofia. Resolvi que um bom projeto de mestrado podia ser feito em dois anos, pelo menos. Conseguido isso, mais uns três anos para um doutorado, no mínimo, daria mais uns cinco anos de estudo, pelo menos de estudo na “servidão acadêmica”. Achei que ia ser fácil. Participaria de alguns grupos de estudos. Mas não, os horários dos grupos de estudos não contemplam um sujeito que teve que alienar sua mão-de-obra para seu próprio sustento, posto que meu progenitor não mais vive e, se vivesse, por mais que quisesse e fizesse gosto disso, não teria condições de sustentar esse meu luxo. E minha mãe, viúva dele, não é uma viúva alegre que tenha casado com um fazendeiro rico, que poderia querer e fazer gosto de me sustentar esse luxo, acrescentado de outros, para os quais eu convenceria com minha retórica que são necessários muitos recursos. Assim, para se ganhar dinheiro precisa gastar dinheiro de antemão. Assim é que corroboro minha humilde tese de que a realidade apenas é.
Pensei que poderia até freqüentar umas aulas na universidade, nas salas dos meus colegas que ainda ficaram por lá. Mas andando pela universidade, senti-me um fantasma, ouvindo ecos pelas paredes que diziam que um ciclo se fechou, que a fila anda, que a seta do tempo anda só para frente. Não vi ninguém e quem me viu não me notou. Já foi o seu tempo, diriam, se pudessem. Haverão sempre de perguntar o que farei agora, como se fosse a coisa mais impossível fazer alguma coisa depois da graduação. Haverão de perguntar se estou lendo, para ficarem espantados com uma lista de quatro ou cinco livros que já li, ou mais, de filosofia, literatura ou poesia, como se fosse mentira, conversa de pescador, como se fosse um absurdo sem tamanho eu ser um leitor voraz.
Tempos bicudos! Depois da graduação vem a legião estrangeira, a “aridez de dez desertos”, essa quebra de ritmo, essa indefinição, esse estar por sua própria conta, esse abandono no silêncio de todas as suas dúvidas. A não ser que você se entregue de imediato ao jogo entojado das iniciações científicas, colóquios e simpózios, uma luta inglória por bolsas, porque, enfim, meu progenitor não vive e a viúva dele não casou com aquele fazendeiro rico. Nada contra a academia. Mas também nada a favor. A academia, como a realidade, não é boa nem ruim, a academia é, e é o que é, não outra coisa. Se quer criticá-la ou mesmo zombar dela, faça primeiro o jogo dela, para depois fazer o seu.
Eu vou ser filósofo, mas resolvi que antes disso quero mesmo ser escritor. Seu campo de estudo é mais atraente e convidativo, a rua, a cidade, a noite, as madrugadas, os sentimentos. Seus objetos são as pessoas, seu escritório e fonte de inspiração, mais do que uma sala de aula, é o bar. Aliás, falando em bar, tenho mantido uma certa proximidade com a universidade. Mais propriamente com o bar nas suas proximidades. Só não é o mesmo bar porque mudou de ponto. Mas são os mesmos donos, os mesmos fregueses, agora com mais espaço. Lá não tem como me sentir um fantasma. Sou bem recebido e reconhecido, mesmo agora que sou bacharel. É indescritível a sensação de estar nesse ambiente, o tilintar dos copos, o corpo suado das garrafas, o burburinho das gentes, o abafado de tanta fumaça de cigarro, gente chegando, gente saindo, gente procurando gente, querendo passar o tempo, fazer amizades, conhecer pessoas, conseguir um pouco de sexo, matar o tempo que nos mata, fingir que essa é a melhor maneira de se gozar o verdadeiro ócio. E é mesmo.
Quem é sábio e não tem nada que fazer, vai fazer esse nada no bar.

quinta-feira, abril 05, 2007

Amor e Felicidade, Ilusão e Desilusão

A ilusão tem sempre o poder de tornar nossa vida mais suportável. Mas sempre será por meio de um gasto enorme de nossas energias vitais. Presente como uma promessa de prazer, felicidade ou durabilidade, quando se revela decepcionante, temos a desilusão. Parecem pares de opostos, mas são a mesma coisa, são sinônimos mais do que antônimos, porque fazem parte da vida, uma mesma vida, que nos traz os sonhos a que almejamos e a decepção diante da impossibilidade de realizá-los todos.
Nada há mais decepcionante do que ouvir de alguém que o amor não existe, que a felicidade não existe. Serão sempre estas expressões de quem teve uma decepção amorosa, ou talvez de quem tenha grandiosos sonhos de felicidade que não cabem dentro do âmbito da realidade, do realizável.
Seria o mesmo que eu dizer que o dinheiro não existe, porque não o tenho, ou o tenho não suficientemente. Ou porque não lido bem com ele. Em matéria de dinheiro, tenho um rol de decepções muito grande. O dinheiro, para mim, tem sido, há muito tempo, aquela relação entre débito e crédito, contemplada em meus extratos bancários. E sempre mais débito do que crédito. É fictício, irreal, a não ser por algumas vezes em que tenho nas mãos aqueles bonitos papéis coloridos e aqueles pedaços circulares de metal com belas gravações, coisas essas que desaparecem logo, sempre quando quero trocar por alguma coisa, de preferência alguma coisa que me dê satisfação.
“Eu não amo e não sou amado, logo o amor não existe”. Essa é a lógica dos desiludidos, que confundem o amor com alguma espécie de sentimento mais inferior, geralmente dirigido a uma pessoa ou a uma coisa, sentimento esse esgotável e corruptível, quase que descartável.
“Na vida não há felicidade, há somente momentos felizes”. Outra máxima daqueles que se entregam à derrota mesmo antes de iniciar o combate. Momentos felizes é um interessante recorte que se pode fazer de toda uma vida, mas a escolha desses momentos pode parecer um tanto arbitrária e descuidada. O momento do nascimento, é um momento feliz? Vai depender do parto. A festa do primeiro aniversário, quem se lembra? A não ser por relatos e fotos, quem tem dessa primeira festa uma boa lembrança. Começar a falar? Ora, a fala traz seus problemas, porque traz também, junto com o domínio desse dom, o fato de não ser compreendido, pedir e receber um não, perguntar e não ter resposta. Continua difícil o recorte. Entrar na escola. Os colegas, os livros, a professora, os cadernos, lápis e caneta, aprender coisas novas, expandir os horizontes. Mas têm as aulas e as lições, as provas e as notas.
O nascimento de um filho. Com certeza um grande momento feliz. Principalmente para quem curte bebês e brincar com crianças. Mas elas crescem e viram adolescentes e, para muitos, o fruto daquele momento tão feliz vira fonte de muitos aborrecimentos.
Mas não era sobre tudo isso que queria falar. Queria falar de amor e felicidade e a conseqüente ilusão e desilusão. Todas essas coisas tão parte da vida. Falta então, em vez de dizer amor e felicidade não existem, dizer se vivemos ou não, com direito a todas essas coisas que vêm no pacote.
Não seria um tédio se todos fossem plenamente satisfeitos? Que restaria buscar na vida? Como passar esse tempo que na verdade nos aproxima da morte? Convém não confundirmos satisfação com felicidade, embora podemos conceber que alguém esteja satisfeito mas não feliz, mas não o contrário.
Essa plenitude, quanto ao amor e a felicidade, é o sentimento mais platônico que se conhece. E, por mais que neguemos ou tentemos disfarçar, pode-se dizer não que somos platônicos, mas que Platão é que conseguiu definir bem como é que somos.
Pois é a vida que é a felicidade. Acordar vivo, mais um dia, e perseguir o sentido disso tudo. Amar a vida e sentir-se feliz por estar vivo não é alienação, comodismo ou resignação. É, antes de tudo, aceitar o fato de que a vida aí está para ser vivida, com todas as suas potencialidades.
No mais, um pouco de ilusão e um bocado de amor não mata ninguém. Pelo contrário, faz com que nos sintamos vivos.

terça-feira, abril 03, 2007

E-mail a uma jovem poeta

Porque, no fundo, todos sabemos desenhar e escrever. Basta descobrirmos quando é que esquecemos.
(íntegra de um e-mail a uma amiga, que me pediu para dizer o que acha de uns poemas que escreveu)

Julie

Prepare-se para ler muito! Mas muito mesmo!!!
Já faz dois meses que completei 45 anos de idade, com aquela festinha na Gruta, que contou com sua honrosa presença. E devo dizer, também, que você foi a única que levou presente. Aliás, do que me desejou naquela “conchinha” surpresa, que eu não consegui abrir, posso dizer que já me aconteceu tudo nesses dois meses que se passaram, fora o que já vinha acontecendo antes.
E não reclame do tempo que levei para lhe escrever estas linhas, são só dois meses, ou sessenta dias, como queira, tempo suficientemente curto para um desocupado como eu, tanto livre das mazelas e vaidades acadêmicas. No começo do ano que vem, você vai entender o que estou dizendo, se bem que você tem TCC para fazer, o que dá a possibilidade de aproveitar o mesmo tema para um mestrado. De minha parte, estou apressadíssimo. Meu mestrado será daqui uns dois anos, 2009, portanto. E doutorado só depois de mais três anos, lá pelo ano de 2012, ou 2013 (um belo número, aliás!). Não vou esconder que tenho lido mais do que na graduação, mas vou lhe poupar da lista dos títulos, talvez não, li quatro livros de Cortázar, três de Voltaire, um do Michel Onfray, três de André Comte-Sponville (iniciei hoje a leitura do quarto), um de Camus, um de Umberto Eco, um de Carl Sagan e um de Van Gogh. Na mira para próximas leituras estão Graciliano Ramos, outro de Umberto Eco, um de José Saramago, além de Baudelaire, Walt Whithman e não sei mais o que. Nem vislumbre de tema para um projeto de tese para mestrado. Eu quero ler, tá? Só isso, ler, ler e reler tudo que não deu tempo de ler. Minha estante está em festa, nunca se sentiu tão prestigiada.
Mas não foi para lhe fazer inveja que eu lhe escrevi.
Vai ser difícil eu ir tanto aí na UniJudas, talvez eu vá na quinta, que é véspera de feriado. No grupo Nietzsche está impraticável eu ir, já que no meu trabalho vivemos tempos bicudos. Prefiro ser um pouco burro do que desempregado, sabe como é, na minha idade, só sendo poeta ou professor de filosofia, duas coisas para as quais eu não tenho o menor talento.
Escrevi para falar de poesia. Sim, que li seus poemas. Isso depois de reler alguns dos meus e escrever outros, que a poesia andava de mim meio descuidada. Tomou-me, entretanto, de assalto certa noite, e desandei a escrever, à caneta em folha de papel almaço, que ficam uns tempos curtindo numa pasta, até que eu os digite e ponha aos olhos do grande público. Ora bolas! Grande esse público! Já tenho dois para o próximo concurso de poesia da dita UniJudas, e devo caprichar, porque desconfio que este ano a concorrência vai ser feroz, feroz e grande.
Sim, escrevi para dizer que finalmente li as suas “quase todas tentativas de escrever poesia” E sim, para trocarmos mais idéias e termos mais assunto em nossas conversas.
Bom, agora devo evitar qualquer tom “professoral”, que seria de longe, como de fato é, detestável.
Depois disso que eu conseguir dizer, se é que vou conseguir, leia “Cartas a um Jovem Poeta” de Rainer Maria Rilke. Se eu tiver em arquivo, mando anexado neste. Não sei, porque estou em casa em meu micro sem internet, eu aqui sem televisão (ainda bem, porque senão eu não tinha lido tanto). Eu, quando me sinto sem inspiração ou uma porcaria de um reles escrevinhador, leio esse texto do Rilke. E outros poetas, é claro.
(Claro que não consegui anexar, então mandei a primeira carta na íntegra, em outro e-mail. Minha relação com computadores é satisfatória, do tipo dá para sentir falta da máquina de escrever - mentira!!!)
Será mesmo que o poeta só escreve quando está angustiado ou o poeta é um arauto da angústia? Quando está ansioso ou triste, apaixonado? Eu quando estou com meu amor no cômodo do lado, se me ponho a escrever, falo da saudade que dela me separa por dois cômodos e dois segundos que levo para ir ao seu encontro. O poeta é assim, quando lida com esses sentimentos, tristeza, angústia, paixões não realizadas, é para ressaltar seus opostos, dizer que sabe que eles existem e devem ser almejados.
No mais, o que me toca realmente em poesia são mesmo os maravilhosos jogos de palavras. Um poeta nunca diz nada que seja comum, reles, vulgar e superficial. Um poeta, mesmo falando de coisas comuns, tem o dom de dizê-las de maneira profunda, tocante e pungente. Nada de dizer “acordei feliz e está um lindo dia”. Um poeta diz “queria acordar feliz num dia que fosse o mais lindo da vida”. Não se contenta com pouco, um alvorecer ou um pôr-do-sol. Ele quer o mundo, toda a realidade, e também a fantasia, ou tudo o que lhe possibilitar a imaginação.
Dizia Fernando Pessoa que o poeta é um fingidor: “finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”. E Manoel de Barros, mais matreiro, diz que “o que eu não invento é falso”.

Interessante que tenho em minhas mãos poemas seus de 2004 a 2007. Dá para ter uma idéia de “evolução”, se é que se pode falar assim. Ou dá para ver como os mesmos temas são vistos de maneira diferente. E, acredite, é difícil não amadurecer escrevendo.
Voltei a escrever em janeiro de 2005 e este meu primeiro poema do retorno ninguém leu e nem vai ler, pelo menos por ora. Não gosto dele, acho-o pueril, pouco profundo, uma choradeira desgrenhada, péssimo. Mas fui eu quem o escreveu. Foi algo de mim que o fez nascer. E, diga-se de passagem, tem coisas que nunca jogo fora. E depois outros vêm na mesma esteira, e eu querendo escrever e descontente com o que escrevo, mas escrevendo, escrevendo, escrevendo. Até que, algo que saiu de mim toca em mim... Pronto! Aí a coisa foi e foi, e você sabe o resto da história.
Não vou julgar nem analisar seus poemas, vou falar deles como se quisesse neles falar de você, do que você passa, do que consigo sentir e perceber que você passa. Posso julgar os meus, porque agora entendo o que queria dizer antes e não conseguia e agora creio que consigo. Faça isso com você, com seus poemas, com sua vontade de escrever. Pergunte-se (aqui me aproveito da sacada genial do Rilke) se você vive sem isso. Se a resposta for sim, faça outra coisa. Se for não, faça isso mesmo: escreva!
Se eu quisesse ser poeta, estaria fadada ao anomimato...” Já estamos, minha cara, já estamos fadados ao anomimato. Quem lhe disse que esse eu que eu sou e que todos conhecem é o mesmo eu que escreve os poemas? Sempre sóbria? Pois embriague-se de si mesma, desça ao inferno, ande o caminho de dois desertos, suba ao céu, penetre uma profunda caverna. Saia de si e não esqueça quem você é. Aquiete-se, aquiete sua voz, sua alma, seu corpo, mergulhe no vazio e afunde-se no silêncio. As palavras todas estão lá, a espera. “O gosto das minhas palavras ditas e não ditas me torturam e sufocam...
Só que escrever não cura nada. Quem se cura é normal e quem é normal se escraviza, se limita, se anula. Forjamos nossas palavras na ansiedade de dizê-las.
Que tal “rasgar os lábios, arranhar a pele, arrancar os cabelos, só para chamar a sua atenção”? E depois de tudo, dizer: “Queridos bandidos, eu tenho chances de morrer sozinha, histérica e amargurada, mas morrerei vingada.”
Coração de plástico. Mantenha distância, ou... seja rápido!” “Você me viu demais, agora não vai me enxergar.” “Você sabe que hoje em dia vive-se mal, sorrir dói...”
Onde estavam essas palavras a não ser no mais profundo silêncio? E de onde acha que tiro as minhas senão do medo imenso de nunca mais ouví-las? (Ou talvez de um parque ao lado de casa, escondidas sob tantas folhas mortas, espreitando meus passos).
Você vai ver logo mais (nas aulas de Estética) que nós não inventamos a linguagem, porque ela nos perpassa, ela que nos inventou. Assim como se pode dizer que não criamos as palavras, mas elas que nos criam. Não somos capazes de dizer em palavras o que somos (ou desejamos ou sentimos), mas a palavra é que, insinuando-se por meio de nós, atreve-se a dizer o que somos, desejamos ou sentimos, isso sem muito êxito, já que o que somos, nenhuma palavra consegue descrever. O mais belo verso não passa de um arremedo do mais reles sentimento que temos de nós próprios, esse indescritível, intangível. Assim, toda a poesia é um arremedo.
Tenha esperança, ainda que ela seja “um lixo que gostamos de acumular”. Mas não se fie muito nela, e sim no seu oposto, o desespero, esse sim, capaz de nos fazer vislumbrar qualquer lampejo de esperança. Então seja desesperada. Fique desesperada sempre. Desesperada de amor, de beleza, de lirismo, de sonhos e de imaginação. Entregue-se ao desespero e sobreviva a ele. Entregue-se ao desespero de estar suspensa sempre entre duas imensidões absolutas: o céu e o mar, você e o outro, a vida e a morte.
Porque o poeta “troca a boca por um dedo, divide angústias e alegrias, com ninguém, a não ser com ele mesmo.” E mesmo assim, o outro que lê se sente tocado e se contamina com as angústias e alegrias divididas, porque expressadas, ligadas às suas próprias angústias e alegrias.
O eu do poeta não fala a ninguém, a não ser com o eu completamente distraído e absorto do outro, o que lê, e que se vê no que lê, como que se num mundo que foi recriado para o deleite de quem puder, de quem quiser.
Eu não tenho culpa por morrer de saudade, eu preciso matar essa tarde...” E todo poeta precisa matar para deixar nascer, o dia, a tarde, a noite, a vida, o amor, a morte, a angústia, a saudade.
Então sonha, como quem “não quer pensar sobre o que se trata e só quer ser deixada para se perder nisso tudo e se acabar em tal pessoa, para ser acordada quando for a hora de partir...” Sonha como se fosse permitido, melhor, como se fosse exigível. Mais fácil do que mudar o mundo é mudar sua visão sobre ele. Com mais acuidade, com mais interesse e curiosidade, perplexidade. Mais fácil do que mudar as pessoas em sua volta, é mudar sua relação com elas. E pronto! Tudo está mudado, para ser mudado outra vez e de novo se e quando for preciso. Solte-se como se fosse vela ao vento, isso sim é ser forte. Além do além do mar existe outro mar e o que é preciso é navegar.
Talvez vá com este a carta de Rilke ao jovem poeta. Ele diz:”(...) Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga que não é bastante poeta para extrair suas riquezas.

Será que haveria uma receita para escrever? E para escrever bem? Seria uma outra receita com outros ingredientes? Foi escrito algum manual de instruções para jovens poetas, poetas iniciantes e interessados? Acho que não. Então eu escreveria um manual com umas poucas frases: dentro do seu crânio há um cérebro, use-o. Dentro do seu ser há sentimentos, sinta-os. Há algo além da dura realidade, sonhe. E sobre a verdade há um provérbio chinês que diz que há três verdades: a minha, a sua e a verdadeira. Procure!
Claro que você já domina satisfatoriamente essas regras, ainda que não tenha percebido.
Um aluno de jornalismo entrevistou-me após o último concurso da UniJudas e perguntou-me qual a dica que eu daria a ele, porque ele gostava também de escrever. Dica, eu?! Bem, disse-lhe, leia, leia muito, leia mais e mais, nunca pare de ler. Leia livros, leia o mundo, leia a realidade a sua volta, preste atenção nas pessoas, converse bastante, leia mais ainda do que já leu, interesse-se por vários assuntos e, sobretudo, não deixe de cultivar uma boa dose de sensibilidade. E mais ainda: nunca perca o dom de se emocionar, mesmo com as coisas mais singelas da vida. Uma dose também de bom humor é aconselhável. Ria bastante. Goste de gente, goste da noite, goste de árvores, de gatos e de cachorros, divirta-se com as crianças e como uma criança. E, o que é mais importante, não importando a idade que você tenha, nunca deixe de ter em casa algum brinquedo. E brinque com ele. Goste também de lápis de cor, mesmo que você ache que não saiba desenhar (porque todo mundo sabe, só desaprende quando cresce). Não tenha vergonha de ser carinhoso, tenha muitos amigos, abrace as pessoas, com vontade, e não perca a oportunidade de dar uns bons beijos, sejam eles de paixão ou de amizade. Nunca tenha vergonha de dizer eu te amo. Goste de silêncio e de caminhadas, de preferência nos parques, mas pode ser numa rua que você goste da cidade. Saiba ficar triste com a tristeza alheia, para se alegrar com a felicidade dos outros. Diga “parabéns” e muito obrigado. E não pense que isso tem que ser feito porque foi escrito em algum livro de auto-ajuda, faça como quem gosta e gostará de fazer em pouco tempo.
Aliás, não assista a programas ruins na televisão, não veja maus filmes, não deixe que lhe falem mal de ninguém, não se esconda, apareça, vá a festas, visite os amigos, telefone, mande e-mail ou carta até. Pense sempre em ser uma pessoa melhor do que é e as pessoas boas estarão do seu lado e, as não tão boas, irão se afastar naturalmente.
Goste de janelas ou de sacadas, se tiver uma, olhe a lua,as estrelas, não passe um ano sem ver o mar, um dia sem olhar o céu. Não deixe de contemplar um dia de chuva. Aprenda a reparar nas folhas que caíram no chão, observe, quando puder, o vôo dos pássaros. Goste de música, se puder, toque um instrumento, mesmo que não seja um “virtuose”, toque um instrumento só por gostar do som. E cante, mesmo desafinado, cante. Tire um cochilo numa tarde de folga, ou uma hora que seja da semana para fazer “nada”, absolutamente nada. Ande descalço onde e quando puder, pise a terra, toque terra. Quando for dormir, esvazie a mente. Ela é auto-carregável e estará cheia no dia seguinte. Não passe um mês sem ver quadros ou esculturas, sem ver um filme, sem ler um poema ou um romance. Por fim, goste de si mesmo como se você fosse seu próprio amante. E ame, que, tirando saudade e algumas desilusões, não há mais nenhuma contra-indicação.
Leia gibi, goste de ver mapas, fique embasbacado com distâncias astronômicas e perplexo diante da velocidade da luz.
E tenha em casa sempre papel e lápis e muitas garrafas. Somos todos náufragos nessa ilha deserta. Escreva sempre uma mensagem e jogue no mar. Numa outra ilha, alguém também náufrago, vai precisar.
Agora chega de escrever, que vou eu cá do meu lado tentar ser melhor do que tudo o que falo.
Guardo seus rascunhos junto com os meus, com o mesmo carinho e cuidado.
Falemos de nossos rascunhos, desses e dos próximos, sempre que quiser.

Em 02 de abril de 2007, exatamente dois meses depois de meu 45° aniversário.

Um beijo.

quinta-feira, março 29, 2007

Sobre Amor e Distância

Agora há uma enorme distância entre ela e eu, mais ou menos com seus efeitos amenizados por uma comunicação via e-mail, telefone e cartas. Isso mesmo, cartas, aquelas coisas que a gente escreve à mão e tem que ir por lá numa coisa que se chama correio. E a distância é um problema, não vou ser tão tolo a ponto de negar isso. Mas como todo problema, tem uma solução.
O que parece um problema insolúvel são as pessoas a minha volta, encarando essa distância como um problema maior do que já é, esmiuçando todas as nuances possíveis, escarafunchando o máximo possível, para um vaticínio irritante. Um namoro não sobrevive à distância. E eles insistem em dizer: “ela vai arrumar outro”. Ou em perguntar: “quando ela vem aqui?”, “você vai lá?”, “como vocês vão fazer?”, “como é que fica?” etc.
Quando eu era garoto, minha avó materna morava a uns quatrocentos quilômetros de distância. Na impossibilidade de empreender viagens rotineiras de visitas e telefonar, porque tanto eu quanto ela não tínhamos telefone, eu escrevia cartas. Eu devia então esquecer, “amigos”, que a mãe de minha mãe existia, porque afinal de contas, ela estava distante. Mas eu escrevia cartas. Contava como iam as coisas e pedia por notícias. Essas coisas antigas que quase não existem mais hoje em dia, a não ser nas camadas menos abastadas da sociedade. Mandar e receber notícias, ainda que no ritmo do envio e recebimento das cartas pelo correio, davam uma certa sensação de proximidade.
Minha irmã está há oito anos vivendo no Japão. Vez por outra nos encontramos no msn. Onze horas da manhã aqui e onze horas da noite lá. Conversamos até que me dê fome e nela sono, quando eu vou almoçar e ela dormir. Essa minha irmã nasceu quando eu tinha oito anos, foi adotada, quase levada de volta pela mãe dela, não fossem meus veementes protestos, que fizeram meu pai registrá-la no nome deles. Não deixei, a custo de muita choradeira, que levassem o “meu bebê”. Essa minha irmã é na verdade minha prima. Melhor dizer que essa minha irmã foi minha prima. E ela está a doze horas de avião daqui. Melhor seria esquecê-la, porquanto essa distância mais que parece intransponível. Mas nos falamos por msn.
Alguns de meus irmãos e irmãs moram em Osasco, minha mãe mora em Carapicuíba. Melhor nem lembrar que existem, porque afinal, apesar de estarem a um pulo de trem, há uma certa distância. Melhor não amá-los, melhor, então, há que se dizer, desistir de tudo na menor dor de barriga. Não é verdade, ou pelo menos a verdade do que querem e como querem que seja?
Distância. Conheço tanta gente que vive tão distante dos outros que estão cara a cara, ali do lado, na mesa ao lado, na sala ao lado, na casa ao lado, no apartamento ao lado. Ao lado e tão distante.
Então tudo o que ouço hoje é que o amor vai esfriar, que ela vai me esquecer, vai conhecer outra pessoa. Claro que ouço que isso pode acontecer comigo também. E tenho que ficar ouvindo essas “verdades absolutas” que passam ao largo de tudo o que desejo e de tudo o que eu penso.
Daqui a quinze anos, terei sessenta anos de idade. E sei que amarei a arte, tanto quanto amava aos dez anos de idade, quando vi a primeira reprodução de uma pintura a óleo. Enquanto a patuléia luta em vão em busca do amor eterno, eu percebo que o eterno da vida é tudo aquilo que se encontra entre dois eventos importantes da própria vida: o nascimento e a morte.
Poderia recorrer à expressão “amor à vida”, alegando ser esse o amor eterno tão buscado e almejado por todos. Mas não, não me arrisco. Eterna é a vida desde o momento que eu nasci até o momento em que morrerei, nada mais. E sobre felicidade sempre tenho a dizer duas coisas, que para mim são as mais importantes: primeiro, não sou feliz; e segundo, não sou infeliz.
Esse idealizado amor, esse amor que se pretende eterno, esse amor inimaginável, dizem, não existe. E não existe mesmo. Não vou recorrer aqui à idéia platônica de um amor em si. Limito-me a dizer apenas que existe amor. Que não confundamos o amor dirigido a uma pessoa, esse que muda, se engana, esfria e acaba. Sim, o amor por ela, por minha amada ora distante, também faz parte desse amor, dirigido a uma pessoa, que pode acabar. Ou não. Quem sabe ou saberá, quem poderá dizer? Contento-me em não saber o que é o amor, mas simplesmente saber que é amor. E saber que é amor o que agora sinto serve de lenitivo para o problema indiscutível da distância.
No mais, essa relação causa e efeito sem cuidar da conexão necessária, faz com que as pessoas emitam seus mais ridículos e não fundamentados palpites, obra do uso e do costume, do hábito, da repetição dos eventos.
Lembro agora um livro que preciso ler de novo, “O Amor nos Tempos do Cólera”, de Gabriel Garcia Márquez, em que a distância fez o amor não esfriar mas esquentar, a ponto de ele se realizar no fim das contas, aliás, somente quando ele era possível. No mais, sobre amor e vida, uma boa sugestão é lerem “Memórias de Minhas Putas Tristes”, do mesmo Garcia Márquez, e pensar um pouco sobre o assunto.
Posso dizer que amo tanto aquela mulher que ela tem até o direito de não me amar de volta.
Mas isso, definitivamente, o populacho não entende.
O populacho não tem avó nem mãe, prima que virou irmã adotiva.
O populacho não tem amor.

segunda-feira, março 26, 2007

Vendo o mundo pela janela

Devia dizer que a tristeza por vezes pega um avião e vai lá para outro lado do mundo, ou para um outro estado ou outra cidade, para de manhã bem cedo estar já do meu lado, traduzida nesse sentimento um tanto depressivo de estar entregue ao que chamamos rotina.
Todo dia a mesma coisa, esse disfarçar que vive, que o futuro está ali em frente e sorrindo, que amanhã vai ser melhor do que hoje, sem ter certeza de que o hoje é melhor do que o ontem. O diabo é que vivemos o momento que passa, pelo menos nos nossos desejos, sonhos e anseios.
Rotina. Todo dia a mesma coisa. Eu aqui o dia inteiro diante do computador, minha janela para um outro mundo que não esse, ou melhor, para tantos mundos que não esse. Mas o que tenho é esse mundo.
As coisas podiam ser diferentes. Mas elas nunca são diferentes. As coisas são o que são, e mesmo nós poderíamos ser diferentes, mas somos o que somos.
Esse sentimento de inutilidade. Diante da realidade, ficamos procurando sempre dar um sentido a tudo, e esse sentido tem que ser no mínimo útil.
E a rotina estabelecida há tanto por não sei quem diz sempre que se tem que trabalhar, ganhar a vida, ganhando o dinheiro necessário para isso, planejar o futuro, ter uma ambição na vida, sonhos e planos, uma meta que seja, um sentido, portanto, à completa noção de absurdo que nos suscita viver a vida.
E eu queria agora somente e tão somente ser um inútil. Não passar disso, não ter o mínimo de destreza para e vontade para direcionar meu pensamento ao desejo de algo. O que eu almejo é não almejar, o que eu preciso é não precisar, e o que quero é não querer.
Tudo seria fácil, mas não seria real. Real é essa incompletude, esse buscar insano de sabe-se lá o que.
Passou todo esse dia e passou vazio. Com a absurda consciência de que oito horas por dia por trinta anos ou mais de nossa vida, passamos enfurnados num escritório.
Vendo o mundo pela janela.

quinta-feira, março 22, 2007

Profecia (só para atualizar)

Eu tomava uma cerveja com uma amiga. Falávamos de tantas coisas como sempre, do trabalho, da vida, das pessoas. De nossas próprias vidas. Em comum tínhamos a solidão, os dois separados, contávamos nossas mazelas, a falta que faz uma pessoa na vida da gente. Foi quando ela me perguntou se eu achava que não ia aparecer ninguém na minha vida. De súbito, sem pestanejar, respondi que sim, que essa pessoa iria aparecer no dia vinte e dois de novembro de dois mil e seis. Isso seria, caso se concretizasse, uns nove meses depois. Depois disso, até mesmo eu achei graça do que disse, vinte e dois de novembro.
Esse dia chegou e escrevi um e-mail para uma outra amiga, cujo teor é mais ou menos o que se segue abaixo:

Um sonho no meio da noite quis se apresentar como profecia, acordei com a idéia na cabeça de que no vigésimo segundo dia do décimo primeiro mês do meu quadragésimo quarto ano de vida, eu encontraria a mulher da minha vida. Minha manhã foi normal e não devia ser no dia 22º-11º-44º, cuja soma dos algarismos resulta o mesmo que 22-11-2006, o dia em que aquele sonho tão doido pudesse se realizar.
Vou escrever um conto, no qual partes dessa carta terão de aparecer, porque rascunho o conto enquanto escrevo a carta.
Olhei pela sacada para ver o tempo, e vi uma mulher longe na rua de cima, não podia ser ela, não passaria assim tão longe. Esse encontro tinha que se dar cara a cara ou num esbarrão, que eu lhe derrubasse os livros, ou as compras, que a gente sorrisse e risse da situação, duas pessoas tão distraídas encontrarem-se para a vida inteira.
Mas aí eu estaria escolhendo a situação, e mesmo a mulher eu estaria escolhendo, quando ocorre que ela já podia ter aparecido, mas onde estaria, eu que ando mais distraído do que o normal para essas coisas.
Abri um livro no metrô e evitei olhar as pessoas, evitei olhar as mulheres, ela que me escolhesse. Mas no caminho de casa até o trabalho, não fui escolhido por nenhuma. Da estação à porta do prédio em que trabalho, não fui escolhido. Dentro do prédio também não. Cheguei no meio do dia e nada de a profecia se realizar. Eu que tinha aberto uma exceção para crer por um dia em profecias, principalmente aquelas sugeridas pelos sonhos, caí no ceticismo de novo. Mas o dia ainda não terminou, resolvi pensar em outra coisa, talvez na prova de sexta-feira, no que vou ter de ler de Nietzsche, Freud e Marx.
Então pensar outra coisa, como se outra coisa fosse uma coisa que não está na vida, entre tantas dessas coisas de que não gostamos e que não queremos, das quais estamos tão enjoados quase sem perceber, outra coisa como o aparecimento da mulher da minha vida. Acho que ela não é pontual, já devia ter vindo, dias desses qualquer, nesses três anos, os três melhores piores anos da minha vida. De tudo ocorrer assim em pares de opostos, de tudo acontecer assim em possibilidades dentro das impossibilidades ou vice e versa. Os melhores e os piores ao mesmo tempo, tudo ao mesmo tempo dando um cansaço insustentável, sem nenhuma leveza no ser.
Eu que queria voar, rastejo sobre a terra, queria desenhar e pintar e tenho que ler Kant. Queria que ele fosse vivo para ler o que escrevo. Queria que eles todos, os filósofos estivessem vivos e eu escreveria a eles sobre voar e rastejar, arrastar-se na vida sem saber aonde vai dar. E cansado.
Um Objeto Rastejante Não Identificado, melhor definição que recebi até hoje, por ser objeto, por rastejar e por não se identificar com nada ao mesmo tempo que se identifica com tudo.
Escrevo cartas, poemas, eu escrevo como se houvesse alguma verdade ou alguma verossimilhança da realidade com a verdade, alguma coisa muito além de todas as vicissitudes humanas.
A única realidade que me é palpável é que estou sozinho e aprendendo aos poucos e cada vez mais a viver assim. E sei que assim será.
Minha maior aventura é essa quietude, esse recolhimento, esse aprofundar-se para dentro de si mesmo, sem medo do que vou ver, só porque não sei se vou ver.
No quadragésimo quarto ano de minha vida, tudo para trás se dissipando e tudo a frente envolto em brumas.
E amanhã eu sei que nunca mais acreditarei em profecias, e nem em sonhos.

Pois foi ainda nesse dia, o vigésimo segundo dia do décimo primeiro mês do quadragésimo quarto ano de minha vida, às 19:40, quando ela chegou em casa e me disse que queria pedir uma coisa. Eu pedi foi uma pizza, a fome era danada, e conversamos sobre tudo o que estávamos acostumados. Eu, que tinha esquecido da bendita profecia, achei de lembrar dela. No fundo, bem que podia ser ela. Mas qual o quê, até que tinha pintado um clima, mas tudo ainda sem uma solução definitiva e favorável. Foi quando lembrei de perguntar o que ela ia querer pedir. Pois ela pediu para ficar uns tempos em minha casa. Uma fração de segundos foi necessária para que eu voltasse um ou dois anos no tempo e tentasse até vislumbrar o futuro que incluía nós dois dividindo o mesmo apartamento, quando voltei a mim para responder rapidamente: “Claro! Claro! Quando você vem?”. Ela me respondeu que na sexta-feira. Ela não veio na sexta, eu pensei que tudo fosse besteira, que tivesse se arrependido. Mas no sábado, quando voltava do trabalho, eis que ela me liga, pedindo ajuda para carregar as malas. Dei meia volta e resumo a história aqui para dizer que sim, ela veio e ficou alguns dias, depois foi passar as férias com a família, depois voltou de novo e depois voltou em definitivo, para terminar lá os estudos.
E que estamos namorando, começamos e continuamos. Mas o resto da história só mesmo no conto, que por ora já tem onze páginas e ameaça virar um romance. Quem sabe! Quem sabe meu romance vire um romance.

quarta-feira, março 21, 2007

Dimetilcloroizotiazolinona

Isto aqui nem é tão inédito, seguiu hoje numa carta para alguém que está distante e que me faz morrer aos poucos de saudade.

Sempre me impressionou a palavra paralelepípedo. Sempre gostei de palavras exóticas e compridas. Eu lia de tudo, quando garoto, de bula de remédio (meu pai era farmacêutico e as amostras grátis abundavam em casa) a embalagens de tudo quanto é produto. E somente na química é que se encontram os nomes mais compridos que existem, como o do título desse post, que é um componente de shampoo, que aliás não vejo mais.
Dei para escrever cartas, à mão, aquelas que a gente põe no envelope e vai postar no correio. E, devo dizer, é muito mais gostoso do que e-mail. Claro que não ter computador em casa ajuda. Mas limpei minha mesa, tenho agora à disposição meu estoque de papéis e canetas, e os envelopes, que gosto de chegar no correio com tudo pronto, já colado, para selar e mandar embora. Sempre acho como pôr uns anexos. Na última foram três desenhos. Eles vão lá matar a saudade dela e eu fico aqui morrendo de saudade.
Agora que me tornei leitor quase assíduo de Voltaire, vi uma crítica boa dos usos que sempre foram feitos da Palavra, no caso, da palavra da revelação divina. Por ela e por causa dela, matou-se, corrompeu-se, prevaricou-se e praticou-se por séculos inteiros a intolerância.
Os preconceitos instituídos têm o poder de virar lei, dogma, o caminho certo. Quem não cumpre é ímpio ou herege, o que dá no mesmo, já que o destino dos dois era sempre morrer na fogueira ou na tortura na roda.
E é pelos nossos preconceitos, e nunca pelos conceitos, que julgamos e condenamos as pessoas.
A palavra, como já disse, sempre teve o poder de me intrigar, aguçar a curiosidade. Gostava de redação no ginásio, e era bom nisso, por causa dessa curiosidade com as palavras. Sempre cultuei dicionários e gramáticas. As palavras, mágicas, mostravam como era o mundo, ou construíam mundos novos, ou podiam expressar nossas ações e nossos sentimentos, falavam do concreto e do abstrato com a mesma desenvoltura.
Bacharel em filosofia, foi na graduação que as palavras me atrapalharam um pouco. A filosofia e seus argumentos, a preocupação com a verdade, entender de uma forma exatamente aceitável o que tal autor quis dizer naquele texto, ou perder-se no embate de tantos comentadores. Não posso ler sozinho, é impossível ler sozinho um texto filosófico. A tradição vai sempre dizer que existe alguém que já fez isso melhor e mais do que eu. E seus comentários vão valer muito mais do que os meus. Em vez de entender o texto do autor propriamente dito, tenho que entender o texto do comentador daquele autor, ou seja, o que ele escreveu sobre o que entendeu sobre o autor.
Com uma dificuldade adicional: tudo isso está escrito em grego ou latim, em francês ou inglês e mesmo em alemão, dependendo do autor em questão.
A sugestão que eu poderia dar aqui, é que se criasse um órgão acadêmico que classificasse as traduções, tipo um INMETRO da tradução. E que as universidades fomentassem um intercâmbio entre os cursos de letras no sentido de montar um curso que fosse isso. Aí eu ia querer ler Kant e saberia que estava com uma boa tradução. Vão dizer que já existe isso e muitos professores até indicam quais são as melhores traduções. Mas não é só isso, crie-se esse órgão acadêmico e as editoras poderão continuar com seus “bons” tradutores a preços módicos, mas para quem quer fazer um mestrado e doutorado sem ter que aprender uma língua estrangeira, recorreria às traduções das obras dos autores com essa classificação. Seria como uma certificação ISO9002 para as traduções. Se você é um interessado em filosofia, ou estudante, pode até ler as obras traduzidas pelos bons tradutores, mas se quer ser um pesquisador, vai poder ler uma tradução certificada. Não seria chique?
O fato é que eu quero fazer mestrado e doutorado, mas não tenho tempo, dinheiro e paciência para aprender uma língua estrangeira. Não sou xenófobo, mas quero pensar e entender a filosofia em minha própria língua. Utopia, eu sei, mas sempre me vem a imagem de um nativo de nossa terra verde amarela ter que falar outra língua para prestar socorro a gringo em apuros em nossa própria terra: can I help you?
No entanto, como leio e escrevo poesia, sei que alguns jogos de palavras e algumas sutilezas lingüísticas até são de certo modo intraduzíveis. Para isso, teríamos uma tradução especializada, ou melhor, certificada. Dá para imaginar o mercado de trabalho que isso abriria aos que se interessam por dinheiro?
Mas não vou deixar de ser chato. A mulher que amo está há setecentos quilômetros de distância e nos comunicamos por telefone, e-mail e por carta. E eu me sinto o mais aventurado dos homens por falar essa nossa rica língua, pois termino as cartas e os e-mails dizendo “saudades”, “muitas saudades”, “saudades tamanhas” e, na última, “saudade com a consistência de um paralelepípedo”.
Imaginem que eu ia dizer I miss you!
Triste povo que não tem em seu vocabulário a palavra saudade.
Aliás, aproveito para dizer que padeço de saudade.

PS.: dimetilcloroizotiazolinona é um componente de shampoo. Mas acho que já disse isso.

quinta-feira, março 01, 2007

Sobre amigos e asas, ciclos e círculos

As pessoas se relacionam entre si pela interposição de distâncias, pequenas, médias ou grandes, no tempo e no espaço. E por afinidades ou falta delas, pela confluência ou conflito de interesses, por conveniência, falta do que fazer, pura e simplesmente passatempo. Talvez por falta de uma outra opção. “Já que não tem tu, vai tu mesmo!”. Mas até que desses acidentes pode brotar alguma amizade mais estreita, restando-nos selecionar os nomes associados às pessoas e aos seus atos, sua taxa de consideração e atenção. Não há nada mais simples e mais complicado do que uma boa amizade. Amigo, essa entidade tão metafísica que duvidamos por vezes que exista realmente.
De minha parte, fiz a catarse necessária. As rampas e as salas, as dependências todas da nossa já antiga universidade. E no bar, quando tive oportunidade de sentar-me numa mesa sozinho, num dia em quem não havia quase ninguém, e tomei minha cerveja catártica, olhando em volta os espaços vazios, mesas e cadeiras e copos, o chão, a rua toda, as mesas de bilhar. E fui preenchendo com as contingências de reminiscências ainda tão recentes, certo de que a maior das contingências é aquela que nos reserva o futuro. Não sei encarar o futuro sem olhar para o passado. Não sem uma necessária catarse. Para sair inteiro, despojado, sem mácula ou lacuna, sem nenhum tipo de dependência do que passa ou acaba, daquilo tudo que nunca mais vai ser o mesmo. A não ser eu mesmo, acrescido de tantas outras mesmices tão repetidas ao longo de três anos.
E, para me perguntar agora o que vai ser amanhã, basta olhar para o passado, quando não me perguntava o que vai ser do hoje. Solução de continuidade, avançar sempre sem se prender, sem criar expectativas arbitrárias e autoritárias que me levasse a crer que as coisas têm de ser de um modo e não de outro. Expectativas que me fixariam, exatamente quando mais preciso de mobilidade, de flexibilidade, de continuar uma jornada iniciada quase que ao acaso, por mero descuido, quase que sem querer. Sem querer é que não quero nada. Nada além do que eu tenha e possa ter, nada além do que eu seja e possa ser. Sei que há o desejo, mas esse gênio maligno prende-me muito pouco e, ao invés de ser inimigo do desejo, o desejo é meu brinquedo favorito, meu único e permanente amigo imaginário. Imaginação, isso mesmo, triste daquele que não tem imaginação. As ilusões são rascunhos do que somos e queremos, dependem de uma boa arte final. Esqueçamos os rótulos das coisas, para termos as coisas elas mesmas. Uma fotografia de um momento feliz não é o próprio momento. Então colecionemos os momentos eles mesmos, isso vale muito mais.
Eu preciso de muito pouco e isso é tudo o que tenho. A tranqüila consciência de que fiz, em tudo, a minha parte. Estive ali e disse a que vim. Só não sei se poderei dizer, ao sair, por que fui. Eu simplesmente vou. Eu preciso ir, preciso sair, preciso andar adiante, ser outro e eu mesmo a um só tempo. E essa incapacidade de jogar coisas fora, essa mania de colecionador, faz com que o acúmulo de tanto tenha que ser de um jeito a compactar tudo em pacotes bem menores. Eu lembro e esqueço com a mesma facilidade, para esquecer o que lembro e lembrar o que esqueço e, assim, perder quase nada pelo caminho.
Os três piores melhores anos da minha vida ou, como também gosto de poder dizer ao contrário, os três melhores piores anos de minha vida.
Não tenho espaço na bagagem para mágoas e rancores, nem saudades desnecessárias, mas somente para as imprescindíveis.
Um “ciclo” se fecha. Fecha-se um “círculo”. Fui mal compreendido quando proferi essas minhas frases de algum efeito, mais a mim mesmo do que para os outros. Não entenderam que um ciclo abre outro e que um círculo fechado está sempre circunscrito em um outro que se abre. Contém e está contido. A linguagem poético-filosófica tem o estranho poder de me trair um certo desprendimento, uma descolocação, um sacudir do pó das sandálias para seguir adiante. Uma necessidade de consideração para tudo quanto é pessoa, a ponto de não me afetar por acepções de qualquer ordem, um ódio afeito a hierarquias de qualquer natureza, um nivelamento sempre pelo meio, para colocar tudo e todos no meio e no meio de tudo e todos poder estar.
Daqui a três dias haverá a colação de grau de minha tão tumultuada graduação. Formado em filosofia sem nada saber dela, achando que tudo deve ser assim mesmo. Nenhuma idéia para um projeto de mestrado, muito menos doutorado, resta-me a eficiente administração do tempo que agora tenho não precisando freqüentar aulas e bares, nem me esforçar para agradar a gregos e troianos.
Tudo, talvez, como a tempestade de verão de agora há pouco, relâmpagos e trovões, o céu cinza e muita água abaixo. De repente o silêncio nas nuvens, o céu que se faz limpo e o ar mais fresco. Sentimento de bonança, exterior e interior.
Não sei para que serviu tudo ou para que servirá. Não me importa. A não ser a contabilidade acurada de quem eu era quando entrei e quem sou ao sair desse “ciclo-círculo”. Com tudo circunscrito. O que é para guardar e o que é para deixar de lado, o que tem que ficar para trás. E, principalmente, com tudo aquilo que se abre em mais um “ciclo”. Ou “círculo”. Certo de que sou o ponto móvel de minha existência. Vou aonde quero e posso. E faço o que quero e posso.
E, como diz meu poeta português preferido, “Amei e odiei como toda gente...”, e tudo foi assim instintivo, necessário, tudo foi o que tinha de ser.
Como portas e janelas, minhas imagens preferidas n’alguma metafísica de meus poemas, tudo se fecha e se abre. Ou melhor, em vez de altos e baixos, prefiro a imagem de pairar entre duas imensidões absolutas, o céu e o mar, o tempo e o espaço. Eu e o outro.
E não levarei na bagagem nada além do que possa carregar. Talvez tudo o que não tenha peso e não seja inútil. Vou andar, mas posso precisar correr. Vou rastejar pelo solo, mas posso precisar voar.
E tudo o que agora sei é tão simplesmente sobre asas.
Amigos todos são, porque meu nível de exigência é ínfimo e meu coração é grande como cada círculo que se abre.
E são todos livres para me quererem ou não, para lembrarem de mim ou me esquecerem.
Desde que também sejam dotados de asas...

(Para Trinity)