sexta-feira, março 28, 2008

Um grito

A escuridão é o silêncio das imagens. Essa lágrima contida é sempre o silêncio de todas as alegrias. Esses pequenos temores são o silêncio das grandes coragens. Esses suores o silêncio de incompreensíveis inquietações. Essas ilusões são somente a realidade que faz silêncio para nos enganar. Ou para nos encerrar em seus ardis. O vazio nada mais é do que o silêncio das visões. Essa vontade de nada é o silêncio da ação. Fosse todo branco o papel, seria o silêncio da inspiração. Nos labirintos da mente esconde-se o silêncio da imaginação. Pequena dor no peito é só silêncio do coração. Essa indiferença é o silêncio de todas as paixões. As noites insones são o silêncio dos sonhos. Um olhar perdido para todas as distâncias é o silêncio da vontade. Asas recolhidas são o silêncio da liberdade. E tudo assim tão quieto é somente o silêncio da felicidade.
A saudade é o silêncio do amor. A dor é o silêncio do prazer. A morte é o silêncio da criação.
Vivo. Mergulhado nesse líquido. Encerrado nessa bolsa. Primeira força para sair. Primeiro ar dos pulmões: um grito.

quarta-feira, março 26, 2008

Van Helsing

Eu tentava lembrar onde tinha escrito uma coisa que cabia aqui, anotações de monte jogadas em tantos papéis e pastas, essas inutilidades de hoje em dia, encontrei numa pasta em que tinha etiquetado como “diário de uma tese de mestrado”. E estava lá começando com epistemologia, continuando com uma tentativa de algo em torno de estética, com o atraso todo que tem a minha leitura de literatura, os livros de Umberto Eco esperando para um dia serem lidos. E agora tentando pensar o ateísmo, algo que me levará inevitavelmente a Nietzsche. E já tentando pensar o que vem depois. A poesia há de se vingar de mim. Ou serei linchado um dia por todas as mulheres que desenhei.
“Meu apartamento, meu casulo, útero, bunker...” eu ia escrevendo assim e por aí vai alguém tentando entender a solidão, defender-se dela, o absurdo de se travar uma batalha contando com o exército de uma única pessoa.
E os vampiros em volta, reclamando a falta de sangue, fugindo enquanto estamos buscando, fugindo talvez da luz, quando nós somos capazes de viver mesmo na escuridão. E quem disse que a escuridão é de todo negativa? A escuridão é o silêncio das imagens.
Falta de espelhos e mergulhos interiores. Falta de asas e coragem para um grande vôo. Falta de madrugadas ou passeios noturnos pela cidade, falta de devoção para com o desaforamento da lua cheia, linda e bela lá no alto do céu.
Minha tristeza chega a esquecer-se da sua própria razão de ser, para estar a preocupar-se com a tristeza alheia. E assim minha tristeza fica ainda mais triste do que já é.
As pessoas me parecem tristes por tão pouco. Talvez um outro olhar para as mesmas coisas, um mesmo olhar para outras coisas, sei lá, um olhar apenas.
Os vampiros se ressentem de falta de vida, um coração no peito, alguma emoção além da fome de sangue. Devem invejar todos aqueles que têm sangue correndo pelas veias, que têm vida.
Paciência! Paciência com as pessoas e com as coisas. Paciência com tudo quanto achamos que existe.
Muito bom precisarem de mim. Mas também preciso de alguém. Alguém que me conheça e reconheça. Alguém para continuar as histórias largadas na metade pelo adiantado da hora nos dias anteriores. Continuar de onde se parou. Como se nunca tivesse parado.
Bobagem! Podia apagar tudo o que escrevi anteriormente e as pessoas não saberem essas coisas desconexas não faria falta nenhuma. Mas sou teimoso em minha teimosia teimosa e publico mesmo assim.
Ou talvez acordar um dia Van Helsing e resolver esses problemas todos.

segunda-feira, março 10, 2008

Xeque-mate em três lances

Eu vou lhes dizer uma coisa, prováveis e parcos leitores meus, as palavras continuam a me trair. Pelo menos em intensidade. Difícil decifrar estados interiores. Por isso o silêncio, o não ter assunto, o não falar tanto. Por isso uma certa falta de empolgação para esses nossos inúteis olhares para as coisas da realidade. Enfim, nem sempre é muito bom olhar para a realidade, nem sempre vantajoso, e nem sempre é um êxtase, nem sempre é arrebatador. Por vezes é um olhar para as coisas nuas e cruas, como são e não como deviam ser, como queríamos que fosse.
Não pensem agora que sei o que sinto e escondo. Nada disso. Posso calar muita coisa, mas esconder não escondo. A questão é que não sei mesmo. Olho para dentro e não vejo nada. Seria fácil se entendêssemos todos os já aludidos estados interiores. Se algo não tivesse bem, a gente ia lá e mexia alguma coisa, trocava alguma peça, ligava um fio solto. Não somos máquinas. Esse é o limite do transcendente que aceito como plausível.

Não é minha vez de jogar, a jogada tem que vir de lá. Fico então esperando o menor sinal, coisas ditas no que as palavras não dizem. Para entender tudo o que se passou recentemente, objeto de minha mais completa compenetração, de minhas elucubrações mentais e emocionais, minhas perguntas com interesse na resposta que mais me agrade, que se revele o que eu espero, senão de pirraça torno a não esperar mais nada.
E de lá, tão distante, num inédito e raro e-mail longo, vem um ínfimo sinal num pronome possessivo muito bem utilizado, encalacrado no meio de uma frase aparentemente sem nenhuma outra intenção a não ser simpática. Ela me pergunta “Como estão os meus dois sararás?” (o grifo é meu). Meu gato conquistador presta-me um grande favor. Mas não devo reputar isso a um ato falho dela, a não ser que eu repasse na mente de novo toda a sua estada em casa nos vinte nove dias entre os últimos dois meses.
Uma doce saudade torna mais leve essa tristeza que se impõe por causa da ausência dela. Não posso ser dado a esperanças, porque essa palavra já não pode mais existir no meu vocabulário. Esse jogo vai ficando cada vez mais intricado.
Ela tinha um bispo ameaçando o meu rei, moveu a rainha para uma posição excelente. Se eu não souber jogar, vai ser xeque-mate em três lances.

quinta-feira, março 06, 2008

Meditabundo

O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...

São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.

São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.

(Fernando Pessoa, 5-9-1933)


Meditabundo (adjetivo)
1-Que medita, mergulhado em profundos pensamentos; cogitabundo. 2-Derivação: por extensão de sentido.
moralmente abatido; cabisbaixo, melancólico


Dura madrugada cujo silêncio nada quebra. Nem mesmo algum sono vem para tirar-me desse tormento.
É nessas horas que uma opressiva tristeza vem esmagar-me n’algo que chamaria de alma se eu cresse que a tivesse ou talvez algo esmagado por dentro que por esse nome chamar pudesse. E tendo crido chamaria a isso uma prece a alguém inexistente que em momentos absurdos como esse por mim velasse, que se comprazesse talvez d’alguma dor que depois de tanto sentir, dela meu corpo esquece.
E seria tudo isso um amontoado de frases com duvidoso e precário efeito poético (lírico, portanto) se verdadeiro e real não fosse. Então, em madrugadas insones como essa, eu derramaria de uma vez todos os versos de minha tristeza, se eu os soubesse, esvaziar-me-ia de dentro daquilo que não tem nome de tudo o que sem vir me entristece e emudece.
E, se eu pudesse, dormiria. E se dormisse, era para esquecer tudo o que disse.
Mas não. Desperto como estou, os pensamentos insistem em buscar bem lá no fundo de não sei onde as lágrimas que nada lavam quando pelo rosto me descem, que fossem tantas o suficiente para que inundassem a casa toda, que eu não escapasse e nelas me afogasse.
Sei porém que não tarda o dia que já amanhece, e eu, vivo, hei de me arrastar por todas as horas inevitáveis que me trarão de volta a essa.

quarta-feira, março 05, 2008

Luz amarela

São simples às vezes os caminhos da vida, tão simples que são quase nada.
Caminhar à noite pelas ruas do bairro, as calçadas iluminadas pela luz amarela dos postes. A noite já querendo entregar-se ao silêncio, e eu também, ao silêncio e a ela, como sempre. Meus passos me conhecem, sabem aonde me levar.
E meus pensamentos a entabular prosa e poesia que esquecerei se não escrever, terceiro dia do terceiro mês de mais um ano, sinto que acabou o recesso.
Agora o que resta para o resto da vida é este excesso de tudo quanto não quis, não quis ter, não quis pensar, sentir, não quis fazer. E nem mesmo quis querer.
Mas o quê? Sei lá... vai saber. Esse retrospecto de anos passados, eu até aqui um quase nada de tudo que achei que queria querer, hoje quero apenas esquecer. Isso! Queria ser feito mais de esquecimentos do que de lembranças. Não que a vida doa, que seja ruim, ou que atormente ou me apavore, nada disso, mas também sei sentir a cada dia em que vivo o quanto é tão perigoso viver. E por vezes tão banal. Com a agravante de que a vida vai ser mesmo somente esta, esta e nenhuma outra, nenhuma chance mais, nenhuma outra alternativa, tudo o que se tem e acontece, é somente nesta vida uma só.
Paciência, então, com as coisas todas. Mesmo com esse ar noturno iluminado de luz amarela, que me deixa ainda mais contemplativo, taciturno, eu diria, mais que isso, meditabundo.
Porque, se é só uma vida, tudo pode parecer desperdício. Dá para entender agora os que acreditam que a vida vai além. Querem perpetuar um estado precário de felicidade aqui, atingindo lá no além um estado de felicidade plena. Ou talvez se resignarem com o sofrimento daqui por causa de uma promessa de felicidade num além desse mundo. E nada disso me serve, pois sei que olhar as coisas como elas devem ser é garantia de uma certa capacidade de se entristecer tanto cá como lá. Então, paciência. Essa aceitação da imanência da vida que só o passar do tempo traz, vem com a idade, maldita coleção de coisas que forma a experiência. Não tem como pensar de outra forma, o mundo só pode ser percebido sensivelmente. Além disso, só a imaginação, o desejo, os sonhos, as ilusões.
E se é para ser feliz assim é exatamente isso o que me entristece. Ninguém vai ser feliz se não for nesta vida. A outra, bem, a outra pode não vir. Então eu me torno menos triste por isso. Meu olhar para as coisas todas do mundo e da vida é como se fosse sempre um último, às vezes único, olhar. Basta olhar.
Luz amarela dos postes iluminando a calçada.

A Saudade

A saudade, quando se torna meu refúgio
Ela é meu lar, é onde vivo, onde durmo
Onde quero morrer
É o ar que respiro
E o sangue que me corre pelas veias
Quando a saudade é tudo o que vivo
Sei que ela é tudo em que vou morrer
A saudade, esse mar adentro
Um mar que sei dentro de teus olhos
Pleno de todas as distâncias
De sentir tua falta sei que és tu
Meu provável último momento de vida
Um mar nos olhos em que quero me perder
Na saudade de um derradeiro momento
Última pessoa que me verá
E a última que quero ver

03/03/2008 – 22:25

Eternidade

Você se vai e o silêncio que deixa em tudo é um silêncio em tudo que deixa em mim. Maior que o do mundo, um silêncio de estar taciturno, completamente sem respostas pela simples ausência de perguntas. Silêncio de um olhar perdido para as mesmas imensidões e outras novas, sempre novas, dentro e fora tudo é tão imenso e nós tão pequenos. Silêncio de sentir-se tão pequeno.
Eternidade: esse segundo que acaba de passar, tão difícil de perceber.

Noite em claro

Sei que vou passar mesmo a noite em claro. E nem sei quanta vida pode haver nessas poucas linhas. Ou se as palavras são suficientes para expressar o que ainda há de vida.
Estou mais perto do velho do que do menino. E o que há de jovem em mim está nas canções que gosto de ouvir. E isto nunca vai morrer.
Hoje entendo melhor o que antes não entendia naqueles que viveram tanto parecer somente resignação e o fato de não ser somente isso.
Sei que o que é muito mais que amor não pode ainda ser chamado por esse nome. E que meu coração não está frio e nem endurecido. Meu coração está quieto como quem sabe a hora de gritar. Como quem sabe que ainda não é hora.
Só entende de distâncias quem ousa entregar-se a proximidades. Só entende de silêncios quem pode escolher a hora de gritar. Entende de madrugadas quem é capaz de ficar sem dormir. O contrário de tudo pode ser o certo: não haveria luz se não houvesse a escuridão.
Mas agora haverão de não entender meu silêncio. E esse meu olhar taciturno para o vazio será sempre confundido com tristeza. Mas será somente quietude que me traz essa incompreensível paz para o coração. Que sabe que é mais que amor isso que não tem mais nome, que não cabe em tão poucas e pobres palavras. E se meu coração ensaia o grito, tem que saber a hora de gritar. E a hora de calar, para ser um tudo em meio a quietude.
Eu sou daqueles que pouco se importa com o fato de que se mede o tempo. Que é capaz de imaginar que trinta dias é o mesmo que um ano. E que seis meses demora só uma semana para passar.
Assim a vida não é ínfima, mesmo que também não seja eterna, a vida é o que se vive no tempo em que se é capaz de viver. Intensamente.

03/03/2008 – 03:45

Um mar sem fim

Pode-se dizer tudo sobre uma noite que cai fria e chuvosa. As nuvens escuras movendo-se no céu por detrás dos prédios, uma festa a que não convidaram nem a lua, e nem as estrelas. O frio traz o silêncio, e o silêncio faz olhar para dentro, irremediavelmente, faz buscar tudo dentro. Algum calor...
A minha vida inteira dispensei muita alegria a quem quer que seja ao meu redor, facilmente, espontaneamente. Suscitei o riso que morria, abri olhos para outros e novos horizontes, cantei esperanças esquecidas, nunca recusei nenhum abraço a quem sofria, mesmo à toa, sem motivo algum, ofereci minha mão para carregar fardos que nem eram meus, por qualquer um me embrenhei em intrincados labirintos, sustei o passo, saí do caminho, voltei atrás.
Não encontro mais, agora, essas alegrias dispensadas. Parece que foram desperdiçadas. Nada tenho de volta. Mal sabia que se esgotariam. Nada sei mais daquela mágica capacidade de facilmente estar tão alegre, por tudo, e mesmo por nada. Por ser, talvez, qualquer coisa que valha no absurdo desse mundo, por estar de olhos abertos sempre que um novo raiar de sol descortina a possibilidade de mais um dia, um dia novo, um outro dia.
Tudo o que se pode dizer de uma noite dessa é que ela é essencialmente triste. Triste, só isso, e nada mais. E a tristeza tem lá das suas, faz das suas, esconde-se de todos e tem que achar por bem invariavelmente me pegar sempre que estou sozinho. Não há como mostrá-la, falar dela. Ela conhece meus desertos e meus silêncios, meus momentos de delírio e todas as minhas fraquezas. Meus sonhos são domínio dela, ela conhece meus mais íntimos pensamentos. É de lá que ela nasce. E sabe sempre a que horas deve vir. E sempre me pega distraído. Sempre que ela vem é quando estou mais desprevenido.
Tem que ser numa noite como essa, fria e chuvosa, da qual é impossível fugir.
Minha vida inteira fugindo da tristeza... tendo sempre com ela um encontro marcado no inesperado da hora mais imprópria.
De nada adianta uma idéia de destino, uma sina, uma senda, uma saga, um objetivo e planos, compromisso com o futuro improvável e incerto, de nada adianta esse amontoado ajuntado ao longo dos anos de tolas esperanças infundadas. É só essa vida que tenho, e suas escolhas, sem outra chance ou alternativa, sem conserto, sem remédio, sem descanso, sem pouso em qualquer porto seguro... só a imensidão de um mar diante de mim, um mar sem fim.

29/01/2008 – 19:59 / 01/02/2008 – 02:30

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Merecido castigo

As bicicletas não rodam mais no parque. As crianças viraram adultos insatisfeitos. O mundo de aventuras transformou-se numa realidade onde o que vale é o corre-corre. Os sonhos viraram estórias estranhas, fizeram um remake bem vagabundo de todos os mais belos sonhos que se pode ter. Não tem mais pote de ouro no fim do arco-íris, nem luz no fim do túnel. As mais belas palavras tornaram-se um balbuciar ininteligível sobre coisa alguma.
Enormes edifícios erguem-se onde havia sublimes mundos de quintais, pedra e asfalto cobrem os rios mortos. Colocaram flores de plástico em todos os vasos de minha vida. Cimentaram todos os bosques de nossa infância, puseram calçamento na areia das praias. Cobrimos tudo com paredes, janelas e portas para nos escondermos de qualquer coisa passível de nos ser próxima. Estamos encerrados em nossas prisões com as portas abertas, temos medo de sair, temos medo de voar, tudo não passa de uma canção no escuro.
A fumaça maculou o azul do céu, luzes artificiais ofuscam a luz das estrelas. Cidades invadem campos, lixo invade enseadas, sombras de prédios imensos são os melhores protetores solar.
Procuro amor em cada esquina, em cada beco escuro sem saída, o amor escoa pelo esgoto, vontade de viver, uma quimera, vontade de viver com hora marcada, entrar e sair, cinco ou seis dias por semana, na solidão de minha casa uma imagem incógnita em cada espelho parece ser eu. Procuro amor em cada olhar atormentado, e só há esgares no lugar de sorrisos. Em cada rosto uma história desfeita, mal contada, mal assimilada, mal vivida. Toda poesia é somente esse inquebrável silêncio a pairar entre as pessoas.
O que move tudo parece ser a tristeza, o que torna tudo possível é só melancolia, esses nossos medos tolos. O sofrimento se impõe como dádiva, um favor dos céus, um capricho da natureza. A dúvida é nosso melhor tempero, mesmo sobre aquilo que não se pergunta nem num momento de insanidade.
Não são lamentos por tempos idos e nem falsas esperanças de algum porvir. É bem menos que isso, é tudo ser bem menos que isso.
É somente vida, nosso mais merecido castigo.

Entre o céu e a terra

Com o coração entre o céu e a terra: ela vem! Esse amor que é tão fácil de negar, da boca para fora. Da boca para dentro nem tanto. Ela vem me trazer tudo de volta, ou não, trazer de novo tudo à tona. Vou tentar disfarçar a indisfarçável euforia. Tentar para quê? E por quê? Como? Onde vou esconder essa imensidão de sentimentos? Vai transbordar pelos olhos. E por cada poro vai me escapar um pouco de luz da imensa alegria interior. Incontrolável.
Ela vem e nem sabe que me traz tudo o que levou tão sem perceber, quase que sem querer, eu diria (diria?), eu diria que não devia ter dito que nunca mais ia dizer eu te amo. Não vou dizer. Talvez nem seja preciso. Não! Não vou dizer, não vou dizer o que de qualquer forma eu digo, mesmo sem perceber, mesmo pensando que sempre é sem querer.
Um frio na boca do estômago. Ela vem como se nada tivesse acontecido. Eu também me comporto assim, como se nada tivesse acontecido. Foi só a distância. Foi só toda essa saudade. A boca por que me apaixonei, desde a primeira vez que vi, a boca que me engoliu toda a vontade de fugir, de não mais querer, de não mais ser qualquer coisa. A boca que me devorou a vida, inteira. A boca que devorou todos os meus mais sublimes pensamentos.
A noite, também uma boca que me engole, não será mais tão vazia e silenciosa, haverá trovões em meu peito, haverá dança de luzes de todas as estrelas, haverá paz, uma paz tão indescritível, tão difícil de ser sem ela.
E sei também que haverá muita falta de paz, que amar não passa de travar consigo mesmo a mais cruenta de todas as guerras.
Toco sua boca toda noite em sonhos tão deliciosos. Tocarei suas delícias em sonhos que se tem quando preciso não dormir. Sei que todas as horas serão eternas, todas as noites suaves, sei que estarei como que morto para esse mundo que não me abarca, para todo o desejo que em mim não se aplaca, desejo de poesia em gesto. Todas as músicas. Todas as sinfonias no sussurro de cada palavra. Todo o amor de toda a eternidade e de todo universo, mesmo que não seja preciso dizer eu te amo.

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Há música

Agora são apenas os rostos da minha imaginação. As mulheres que eu amo são as que eu desenho, as que me olham do fundo da pasta, aquelas que têm seus mais enigmáticos olhares. O limiar da falta de lucidez será estar próximo de uma certa loucura. Bobagem! É só este convívio com uma duradoura solidão, esse silêncio sempre absurdo dentro de mim, essa aceitação de todos os fatos inaceitáveis. Não vai haver ninguém pelo caminho, ninguém para tomar pela mão, ninguém para dividir a tristeza de momentos tão felizes. Ninguém para compartilhar esse olhar que se perde na madrugada, lua e estrelas, a noite e sua escuridão, seu silêncio, imensa quietude, ninguém com um abraço que me aproxime de todos os medos do mundo e que me afaste de mim mesmo.
Tristeza, é sempre mais tristeza do que solidão. tristeza por tudo e por nada, por tão pouco, muito pouco. E aceitar tudo isso como se fosse uma dádiva, acalentar a tristeza porque sua existência é verdadeira e necessária, mais do que a improvável felicidade.
Não mais fingir, não mentir a cada olhar no espelho, não se deixar enganar por tantas coisas tão tolas e inúteis.
Nenhum lugar cabe em mim, nenhuma distância me percorre, nenhuma mão me alcança, nenhum olhar me atinge em cheio para dar um sentido a existência. Existir não faz o menor sentido e o medo dessas palavras agora faz menos sentido ainda.
Os sonhos, sempre os sonhos. Sonhar de olhos abertos até que se quebre o enorme silêncio e eu possa dormir. Aquela vontade de nunca ir a lugar nenhum, não ver sequer uma pessoa que seja, não ouvir mais nada sobre tudo e qualquer coisa, entregar-se ao silêncio, a mais absoluta das forças da natureza. Apagar meu nome de todas as bocas, banir minha imagem de todas as lembranças, tirar minha vida de toda essa história. Eu preciso ir, encontrar de vez o que vim fazer aqui. Eu preciso ir para bem longe, onde todas as distâncias não irão fazer nenhum sentido.
Esquecer a vida e seu sofrimento, essas lágrimas sempre derramadas em vão, essa dor no meio do peito tão indecifrável, esquecer toda essa vontade de amar tão incontrolável. E nascer de novo na manhã que se avizinha, nascer novo, outro que não eu mesmo. Para que me conheçam menos ainda, que não saibam nada, e para que possam ter a certeza de que nunca vão me conhecer.
Agora sei que sou a tristeza. E na tristeza de ser isso, sou o desconhecido.
Ainda bem que há música e alguém que ainda saiba ouvir a música que há. Sim, uma nota triste de um violino aqui, um rufar de tambores ali, anunciando um espírito revolucionário. Eu não prestava atenção às minhas próprias palavras, quando me contam, escuto-as de modo diferente, como se não fosse eu, mas talvez um eu como uma centelha no coração de outros. Ouça quem sabe ouvir. Ouvidos para quem tem sensibilidade. Sensibilidade para quem é capaz de viver. E vida para quem ainda é capaz de sonhar. E sonhos para quem se atreve a viver.
PS.: O final quase perdido:
"Ainda bem que tudo pode soar às vezes como música, uma nota triste de um violino aqui, um ribombar de tambores revolucionários ali, talvez algo mais, piano e metais, sinfonias para quem tem ouvidos, ouvidos para quem tem sensibilidade, sensibilidade para quem sabe que está vivo e pode estar. E vida para quem ainda é capaz de sonhar. E sonhos para quem é capaz de viver."

Você

Eu ontem deitei ao seu lado sem ter você ali. E a solidão disse que você não vinha mais no meio de um sonho, porque cada sonho, todo sonho acaba. O seu rosto não estava ali no vazio, um beijo perdido no meio da noite, a saudade sangrando em cada momento que passa, inútil e inevitável. E eu abraçando cada lembrança de tudo o que não vai acontecer mais. Não de novo.
O telefone ocupado no meio da noite, você lê outro, talvez, fala outro, pensa outro talvez, e talvez eu outro que não eu tão capaz de entender silêncios e distâncias, e a viver o vazio que me traz esse estar sempre sem sono. Eu acordado prolongando a agonia de saber que em ninguém vou encontrar você nunca mais.
Olhar tudo em volta dessa verdade que tem que ser assim mesmo, não de outro jeito, essa verdade indesculpável de não me saber mais o que se faz quando não se sabe realmente o que fazer, o que ser, o que pensar, o que sentir. Sempre essa mesma coisa, sentir muito todas as coisas e ter que ouvir todos em volta pensando essas coisas da maneira mais absurda e improvável que existe, da maneira mais inadequada.
E perceber que não existe mais. Não existo mais nas histórias todas das pessoas, no que falam e no que vêem, no que pensam. Não existo para os seus sentimentos, para alguma espécie de carinho que me pudessem ter, que não têm, porque nem isso mais sabem ter. Outra sintonia em meu mundo à parte, ou na minha parte dessa mesma porcaria de mundo.
Meus sentimentos mais caros todos lançados no chão. Sou menos que o boneco com que as meninas brincariam de imaginar seus príncipes encantados que haverão de vir montados em cavalos brancos inimaginavelmente bonitos. E deverei brevemente mofar no fundo de uma enorme caixa de brinquedos.
Falta-me alguma coisa para que me vejam, para que saibam que existo e sinto todas as coisas como elas bem que deveriam ser. Falta-me alguma coisa e não há como saber o que é. Porque em tudo o que dizem eu não me encontro.
Eu não faço parte do conto de fadas em cujo final todos viveram felizes para sempre.
Minhas palavras e meus poemas, minha mais ativa imaginação, meu espírito criativo que se quer tão selvagem, meu modo de olhar para todas as coisas, minha capacidade de ouvir, minha vontade de entender cada pedaço de cada ser de que me aproximo, isso tudo, tudo isso não vale mais nada. Falta-me alguma coisa, uma luz ou um fogo, um ribombar de mil trovões, ou o estrondoso clamor de todos os meus demônios, ventos uivantes da partida de uma caravana de fantasmas. Falta-me andar errante por mais duas eternidades, mundos distantes e inexistentes, desconhecidos, com seus desertos e abismos, cumes de montanhas que tocam o céu, profundezas que se avizinham de todos os infernos.
Para me sentir vivo e tão sozinho como sempre houve por ser não de outro jeito. Para não precisar mais de muito pouco, precisando enfim de nada.
E aprender a voz indizível do silêncio, a eloqüência do olhar. Estar em paz diante de tudo assim se desmoronando tão aos poucos que ninguém percebe, diante de tudo que se dissipa desde o mais imediato instante anterior a esse que também já passou.
Estar em paz como que na hora da morte, sem angústias ou esperanças, sem dúvida ou temor, apenas paz, somente a paz de quem sabe que sabe que vai saber dormir para sempre.
Eu ontem fui dormir e você era o vazio imenso ao meu lado. Você era o silêncio e a distância, você era a serenidade da hora da morte, você era a vida inteira a passar-me diante dos olhos, todas as lembranças dissipando-se, um olhar que nunca nada igual tinha visto ainda.
Você era essa dor de viver, essa solidão que se eterniza e essa distância que não se percorre nem em sonhos, que não cabe na imaginação.
Você era esse pensamento mais belo que pode haver, que se perdeu no tempo, e que nunca ainda nasceu e nunca mais vai nascer.

Mentira

Mentira! É mentira! Deve ser mentira que sinto tudo isso. Mentindo para mim ou para o mundo, para fora ou para dentro, diante do espelho, alastram-se no decorrer das horas todas as mentiras que inventamos para nós mesmos (e que funcionam também para os outros), talvez para a vida ficar mais fácil de ser vivida, para aplacar nossa melancolia e enganar nossos piores medos.
Medo sim! O medo da solidão, o medo do sofrimento, o medo da morte. O medo do fim inevitável de tudo, o que nos leva a mais possível certeza de que são tolas e sempre serão tolas todas as nossas esperanças. Estão solapados os alicerces de nossos castelos de sonhos. Vivemos em ruína, pobres seres errantes que somos, tristes órfãos, miseráveis grãos de poeira espalhados pelos ventos impetuosos do tempo.
Que merda é saber que houve um tempo em que gostavam de me ouvir sobre essas mesmas coisas. Gostavam desse meu modo de olhar para todas as coisas. Agora parece que mudaram todos eles seu próprio olhar para as coisas e eu continuo com o meu olhar, por falta de outro modo de ver. Não que eu não queira, mas talvez por não achar outro melhor.
Então é hora de me calar. Já sou um fantasma nas conversas, como aquele vovô que pensam que caducou, ou como um velho e rabugento tio, que não tem paciência para ficar ouvindo as pessoas se enganando o tempo todo sobre tudo.
Eu fiquei ouvindo da cadeira de balanço onde eu estava sentado reclamarem tanto hoje em dia dos relacionamentos, dos sentimentos, dos amores e das paixões. E vociferarem que não dá mais certo. Não existe mais a pessoa certa para determinada pessoa. Parece que as pessoas não se encaixam mais ou algo que mudou drasticamente no mundo não encaixa mais nelas. Eu tento gritar que sei o que falta, ou acho que sei, mas é melhor balançar um tanto mais nessa cadeira, ruminar minhas melhores lembranças, deixar-me embalar por meus mais doces pensamentos e pegar no sono com um sorriso de escárnio bem no canto da boca, que seja imperceptível ou não, todo mundo sabe que quem enlouquece ou perde simplesmente a razão, ou fica caduco, simplesmente ri à toa. Que assim seja. Pois nem isso funciona mais.
Ninguém mais namora, se apaixona ou se entrega como devia ao amor, eu diria entre dormindo e acordado, e voltaria a dormir para poder fingir bem que não disse nada.
Eu poderia dizer que é como “andar de bicicleta”. Mas antes tenho que ouvir uma ladainha de reclamações do tipo as bicicletas não são mais as mesmas, as ruas estão diferentes, tem muita subida pelo caminho, o selim machuca a bunda, os pneus nunca estão bem cheios. Em matéria de amor inventaram um outro modo de andar de bicicleta, não deu certo, tentaram outra vez, não vai dar certo, não vai dar certo. Há que se gritar isso pelos quatro cantos da cidade, espalhar em outdoors, em panfletos entregues aos passantes, não deu certo, não vai dar certo, não está dando certo. Em matéria de amor, desaprenderam a andar de bicicleta. Mas não me dêem ouvidos, há para mim a desculpa de ou ter perdido o juízo ou ter ficado caduco mesmo. E eu nem esqueci como se anda de bicicleta, mas faz tempo que não ando.Não pensem agora que eu quero estar certo, eu não quero. Eu sempre quero estar errado e é para mim sempre triste quando me ajudam a constatar que não estou. Eu vou vivendo as coisas aos poucos e aos poucos é que vou tentando entender. Sei que hoje quero apenas “andar de bicicleta”, deparar-me com aquela imensa ladeira e soltar os freios, quero sentir o vento na cara.

quarta-feira, novembro 14, 2007

Ainda a Razão e a Emoção

Vou voltar para casa. Toda a vida se resume em voltar para casa, a casa que me resta tão diferente de tudo o que um dia foi casa. Minha casa das ilusões, de fingir que tudo está tão bem com o que se tem. De me esforçar para não desabar a frágil estrutura que não sei para que lado vai, se da reconstrução ou da ruína.
O futuro me olha de longe, indiferente, sei que seus planos não me incluem, não consideram minha existência. E sei que é tarde para tanta coisa. Só não sei o que é que se há por fazer que não seja ainda tarde. Sei bastante do tempo perdido, que não se busca mais, porque não vale a pena. Nem tanto.
Eu me lembro de mim e esse tempo de que me lembro é sempre outrora. Às vezes nem sei se lembro, nem sei mais se posso lembrar se fui feliz ou não. Algumas alegrias pelo caminho, isso sim. Alguns muito bons momentos, talvez. Alegrias que nunca me prometeram ser eternas e nem nunca firmaram o compromisso de tornarem-se felicidade. Felicidade? Na metafísica dos sentimentos tornados possíveis pela tola e vã razão, de longe o mais obscuro. As alegrias, pelo menos, talvez tenham sido sinceras.
Terá havido amores. Por certo, algo perto disso que se pode chamar amor. Ou paixão talvez. E entre esta e aquele o enorme abismo onde ensaiamos nossos tímidos passos de viver. Viver! Essa aventura impossível, e incabível, insuportável. Por vezes torturante. Esse permanente desejo de ser mais do que se pode ou do que se consegue, sempre outra coisa que não a coisa que somos.
Se ainda há de permanecer qualquer coisa que possa chamar de paixão, o amor tornou-se mais abstrato e inatingível. Vou me apaixonar por muita coisa ainda, por muitas pessoas, por algumas mulheres ou por uma mulher em especial. Mas vou desistir logo, dada a impossibilidade de isso poder ser amor. Inventaram de “desinventar” o amor. E não inventam de reinventar.
Certo de que ninguém mais daqui em diante vai me amar, tudo se tornou de repente um sonho inútil. Vou amar à toa, inutilmente e sempre em segredo. Jogaram a água do banho com o bebê dentro. Varreram do mundo dos nossos sentimentos logo o maior deles, o mais genuíno. E construímos nossos castelos de emoções espúrias. Num mundo tão prático toda emoção é bastarda.
Hoje o amor é visto como possibilidade. E como possibilidade o amor é contingente. É algo a se considerar, a escolher. Isso mesmo. Damos sempre a impressão (e temos essa pretensão) de que escolhemos em matéria de amor. Havia um tempo em que era doce a ilusão de que o amor é que nos escolhia. Mas tem coisa pior do que isso. O amor é também objeto de conhecimento e, quanto a isso, assolado pelas mais severas críticas, sejam intelectuais, culturais e até mesmo filosóficas. Eu diria que até críticas científicas. E a verdade é que ninguém mais é capaz de sentir amor, ou de se entregar a esse sentimento.
Se há ainda alguém que resista a isso, é logo taxado de romântico, como se ser romântico fosse ser portador de uma doença abominável, de um defeito grave, ou ainda ser ultrapassado. O amor está fora de moda. Eu sou fora de moda e vez por outra sou acusado de ser romântico. Já me xingam de poeta, logo haverão de me chamar parnasiano.
Sempre que puder vou reavivar a polêmica dicotomia posta arbitrariamente entre razão e emoção. Ainda que não considere um par de opostos, pois não se anulam de forma alguma, e ainda que muitas vezes não se complementam, pois o excesso de uma sempre há de atrapalhar outra, diria que razão e emoção convivem perfeitamente. Mas afirmo que a emoção não é racional e a razão não é emocional. A não ser que isso seja extremamente necessário.
Tudo isso para dizer que parece que vou desistir de amar. Cansado de coisas inúteis nessa vida, vou tentar arranjar algo mais proveitosos para fazer. Então, desisto. E muito a contragosto.

segunda-feira, novembro 12, 2007

Não me quer sair o poema

Poema que não me quer sair poema, prosa que se insinua e me põe a andar na rua quando estou aqui dentro, preso, aqui dentro, com tudo preso aqui dentro de mim que ninguém ouve ou sabe, pouco importa dizer, ser ouvido e sabido, que o que dói não é o silêncio, mas sim o desperdício de palavras soltas ao vento. Que me custam o preço do sangue que jorra emoção pura, indescritível e indizível, que eu tento mesmo assim dizer, mesmo sem saber por quê. Ninguém para ouvir.
Não é estar só o que me mata aos poucos, mas é estar triste e não ter recurso para transpor essa tristeza sempre presente, estar triste e esquecer que há alegrias por toda parte, porque a parte que me cabe não mais me toca e de longe nada mais me provoca. E o que evoca esse vazio além de ser só o vazio é esvaziar-me tanto de tanta coisa que nem tenho. Eu me mantenho calmo e atento, eu tento ter tanto dessa força que não tenho, que me pensam ter exatamente quando mais preciso e não tenho. Ninguém para saber.
E você nem sequer me devora essa palavras, faminta e voraz como eu queria, não se alimenta do que sei que sei sentir. E me vomita as suas e procuro em seus despojos alguma coisa do pouco de tanta coisa que pode ser minha. E não encontro nada na digestão de meus pensamentos mal digeridos em sua consciência. Há esse grito, ainda esse sufoco, esse estar um tanto louco e mais um pouco do que consciente de que é tênue a fronteira entre a loucura e a lucidez. Talvez uma ou outra, agora, uma ou outra ainda ontem, uma ou outra quem sabe amanhã, quem sabe por muito tempo ainda, quem sabe para sempre. Ninguém para entender.
E ter que me pintar de todas as cores para não me verem incolor, me valer de todos os sabores para não me terem insípido, me adornar de cheiros para não estar inodoro. Todas essas máscaras, essas pequenas farsas, esse desconversar sempre oportuno, ter que disfarçar o medo e a angústia, esconder essa lágrima e a outra, a anterior e a próxima, a imprevisível e a incontrolável. Revestir-me da mais bela e forte armadura, a esconder-me um eu dourado por dentro e férreo por fora. Eu esse mistério insolúvel, essa trama desfeita mal costurada, essa história inacabada, sempre por se fazer, sabe-se lá o que fazer. Eu um outro que não esse, esse que podem ver a esconder o que sou. Ninguém para perceber.
Mais uma madrugada e meus fantasmas, companhia mais certa da mais certa solidão, meus pensamentos e lembranças, isentos de qualquer esperança ou de qualquer outra coisa tão tola que nos embala o viver, todo instante tão igual a provar-me que dura muito o que não queremos e que é tão efêmero tudo de que precisamos. O tempo é esse temível monstro, protagonista de todos os pesadelos, receptáculo de todos os medos, de toda a angústia, depósito de todas as minhas horas vazias, o tempo que desperdiço, o tempo que me devora, e me torna nada de nada de nada. Essa sensação de estar preso, isolado, náufrago em cada segundo que passa incessante nessa ilha que não se visita, que não se conhece a localização. Meu cadáver que sempre vem dar na praia. Ninguém para resgatar.
Todas essas janelas e cada um de nós sem asas, ou esquecidos da capacidade de voar, com medo das alturas, tanto chão para rastejar, tanto por indagar, o mundo das coisas e o mundo dos significados das coisas, as perguntas sem respostas e as respostas sem perguntas, o medo de saber, os conceitos e os preconceitos, nossa mediocridade humana, nossa pretensão de centro, de riqueza, de domínio, nossa pretensão de razão e motivo de alguma criação, enfim, nossa pretensão de que a verdade seja algo que bate com nossas representações, ou nossas quimeras, nossas divagações, nossas mais tolas ilusões. Tanto mistério lá fora, muito mais mistério aqui dentro. Ninguém capaz de desvendar.
E agora essa vontade de ter ficado calado, não ter revelado tanto do que se sente, tão à toa, e impunemente, e assim tão inutilmente. Ao meu redor só olhares estupefatos, e atônitos ouvidos de quem não pode e nem quer entender nada, de quem teme aquele olhar para dentro de si mesmo, essa apatia da vida e esse medo da morte, fazendo-nos aceitar mentiras que nós próprios todo dia construímos com tanto desvelo, e com tanto empenho. Melhor que essa melancolia, muito melhor mesmo, é todo o silêncio possível. Sabemos tudo de nós mesmos e esquecemos, não queremos saber, lembrar, pensar. E ninguém mais para nos revelar.

quinta-feira, novembro 08, 2007

Ainda a saudade

Em alguns momentos, todas as mulheres são Ela. E o são no que têm de comum a todas as mulheres, as quais eu sempre olho sem evitar me lembrar dela. E ao mesmo tempo não são, porque ela é uma mulher entre tantas, uma mulher entre todas.
A distância e a saudade, a impressão quase certa de que nada será como antes, tudo isso sendo carregado de um lado para outro, como uma bagagem que não se escolheu levar. Toda a história em seus mínimos detalhes repassada a cada instante na mente, como se isso fosse refazer a história ou dar-lhe outros contornos, eliminar as contingências, evitar as vicissitudes, para que tudo acontecesse sempre da melhor maneira que se possa querer.
Mais uma vez a caminho da universidade, depois de volta à estação do metrô, a presença dessa mulher ou de seu fantasma, esse tudo que aqui ficou e que não sei onde ponho e com o que não sei o que faço.
Se em tudo procuro dela me afastar, de um modo ou de outro tudo dela me aproxima. Na ausência dela há um ranço de presença, um rastro que indica que não levou tudo. Não consigo esvaziar-me, não consigo simplesmente abstrair qualquer lembrança, não me entrego ao esquecimento.
Eu me vejo ali naqueles lugares todos, como um tolo contemplando com incontida emoção tudo que não terei de volta. Tomo suas mãos a caminho do metrô. Outra hora estou sentado numa mesa de bar perto dela com um assunto qualquer, só para ter levado mais perto meu olhar de seus lábios, dos seus olhos e cabelos, do contorno dos seios. Para poder olhar disfarçadamente seu corpo quando se vai e quando volta dali a uns instantes. Para estar bem perto de seu sorriso, ouvir tudo o que diz mesmo que fosse em sussurros.
Mas ainda ontem refazia por outros motivos esse caminho. E à noite parece que as lembranças são mais vorazes em fazer doer em nós tudo de que sentimos falta.
Então eu me canso. Canso de tudo tão fácil demais e demoro, no entanto, para perceber esse cansaço. Tanto, que quando percebo, ele é extremo. Canso-me de olhar tudo em volta e tudo me fazer lembrar dela, ainda que não faça muita questão de esquecer, o que eu não queria mesmo era lembrar dessa forma, como uma falta que me faz, como ausência que me deixa incompleto, como impossibilidade que não me deixa viver sentindo-me inteiro.
O tormento, para tentar esquecer, é ficar repassando cada cena dessa história, o que excita a memória e provoca o efeito contrário do esquecimento. E é ainda mais do que simples lembrança, é o desejo de que esses momentos todos nunca tivessem acabado.
Não sei mais o que dizer a mim mesmo disso tudo que me atormenta. Sei apenas sentir-me atormentado pela grande possibilidade de ter que levar a vida a partir daqui sozinho, que é mais econômico e saudável, economiza muito de nossas emoções baratas que gastamos à toa e nos livra de estarmos doentes de sentimento, amor, um mal que parece não ter cura.
Tudo isso me leva a uma triste conclusão: sinto menos falta de mulher do que sinto dela.
Agora mais um prazo para uma dissertação de mestrado. Estou às voltas com minhas tão malfeitas leituras e sem saber do que quero falar. Filosofia, onde é que eu fui me meter? Epistemologia e subjetividade. Alguma coisa que faça uma ligação entre filosofia e literatura, o mundo do texto, os contos de Cortazar, os romances de Umberto Eco, as pinturas de Van Gogh. Mas o que eu quero saber, o que eu quero entender? Quero tentar entender como é que o artista cria e, conseqüentemente, como e por que cria. É uma boa pergunta. Mas por onde começar. Acho que me assusta o titulo de mestre. Sempre soube viver muito bem os bastidores de todos os meus talentos. Algum bloqueio me impede de colocar todos eles em cena.
Escrever algo que muita gente goste de ler. Esse é o sonho. Sei que é isso que eu sempre quis fazer, ainda que não soubesse ou demorasse a descobrir. Os livros sempre estiveram a minha volta, como o maior sinal no qual bastaria ter prestado um pouco mais de atenção.
Paciência! Antes tarde do que nunca.
Agora cuido do meu caldeirão de emoções baratas, cozinhadas em banho-maria.
Sou assim, parece que nunca quis ser outro. E pronto!

terça-feira, outubro 30, 2007

Seis mundos possíveis ideais

Eu me “desapaixonei” de você. É simples assim. A gente pega aquele monte de paixão e acua num canto qualquer do peito, põe de castigo, não deixa mais ir brincar na rua por um tempo indeterminado. Essa paixão acuada e de castigo, encerrada lá naquele canto não pode mais ser pensada. Não se pensa nela de jeito nenhum. Não é fácil. Porque tudo em volta vai fazer você lembrar, tudo em volta vai conspirar a favor da menor reminiscência. Então você tem que ser decidido em não mais pensar. Você tem que se tornar um especialista em esquecimento. E tem que fazer de conta que tudo de tão bom e belo que foi trazido por essa paixão não é assim tão importante. Tem que achar coisas mais importantes nas quais pensar, nas quais dedicar seu tempo. Por exemplo, aprender sânscrito. É difícil pra caramba, mas tentando, você vai esquecer qualquer paixão. Quer dizer, você vai se sentir tão incompetente, que vai achar que nem para se apaixonar você presta. Pode ser outra língua: russo, gaélico, hebraico, árabe, mandarim. Não vale inglês, francês ou espanhol, talvez nem italiano, alemão, porque vai que você aprende e aí vai ficar dizendo por aí “eu te amo” em qualquer uma dessas línguas. Se não der certo, tente decifrar hieróglifos, sem ajuda.
Mas tem essa coisa das coisas levando você às lembranças. Isso é complicado. O jeito é você tratar isso como uma história, um verdadeiro romance ou uma boa novela e excluir-se como personagem. A história é linda, é verdade, mas aquele que lá está fazendo e dizendo todas aquelas coisas, aquele que está sentindo todas essas coisas tão lindas e boas, aquele não é você. Definitivamente não é você. Não pode ser você. Não deve ser você. Você não. Pronto. Você fora da história já é bem um meio caminho andado.
Tem mais um problema. São as pessoas apaixonadas a sua volta. Vai ter que lidar com isso, e vai ter que lidar bem. Os casais que andam de mãos dadas, que vivem se bicando aos beijos, abraçadinhos em tantos momentos, com aqueles olhares e tudo o mais. Não preste atenção por mais de um minuto nos amassos alheios, que é uma possibilidade muito grande de recaída. Faça de conta que você é um tipo de representante superior da espécie humana e paira acima dessas vicissitudes, digamos, emocionais, sentimentais. Isso é um mero desperdício de energia e você poupa suas energias para coisas mais elevadas, mais prazerosas e gratificantes. Não seja um reles ser humano mortal e passional, não, você é mais.
Ocupe-se de algo mais proveitoso. Como por exemplo mudar todas as concepções de mundo que você tem e mesmo as que andam por aí aos borbotões. Porque visões de mundo há por aí de cambulhada. Use toda sua imaginação em coisas muito mais úteis e questões mais edificantes, do que essa coisa de gosto dela e ela não gosta de mim, ela gosta de mim mas eu não gosto dela, eu queria encontrar alguém, não ouse sentir medo de ficar sozinho. Ficar sozinho é bom, é muito bom. Não passe suas valiosas horas de vida achando que você precisa encontrar alguém. Sabe quem você precisa encontrar? Aquele que lhe aparece no espelho do banheiro. Então, ocupe seu tempo em imaginar mundos possíveis ideais, mundos que certamente são melhores do que este. Muito melhores.
Nunca se atreva a se sentir sozinho, pense no silêncio e no sossego, poder espremer a pasta de dente no meio, deixar cuecas jogadas pelo quarto, toalha de banho no espaldar da cadeira, louça suja em cima da pia, levantar e não arrumar a cama, levantar num fim de semana e ir dormir de novo. Ouvir a música que você quer e cantar junto sem ninguém dizer que você desafina ou que errou a letra. E poder pensar sobre o que vai fazer depois de fazer nada, mais nada e depois disso, descansar de ter tanto o que fazer, porque até fazer nada às vezes cansa. E, afinal de contas, quem pode provar que dormir ou tirar um cochilo na poltrona não é fazer alguma coisa? Ninguém vai lhe perguntar aonde vai, onde foi e com quem, o que fez ou deixou de fazer. Pode ir a padaria com a roupa que usou para dormir, ninguém lá fora sabe que dormiu com ela.
Não desista de tentar imaginar aqueles mundos possíveis ideais. Mas, antes disso, é preciso livrar-se de algumas palavras fictícias, que são todas aquelas que só servem para nos enfeitar as fantasias ou alienar-nos da torturante realidade. Esta que nós temos tanto medo de encarar. A realidade crua e cruenta. Diria até que é cruel, para continuar no trocadilho proposicional. Vamos tentar uma pequena lista: amor, paixão, compaixão, resignação, esperança, fé, caridade, bondade, fraternidade. E por aí vai. Esse é só o começo da minha lista, façam a sua. As palavras, afinal, servem apenas para nos afastar da verdade. Aliás, verdade, uma outra palavra fictícia. Diria então que as palavras só servem para nos afastar da realidade, do que é real. O que é real? Que nascemos, vivemos e morremos. E sofremos tanto por tudo isso. Tenho dúvidas de que a palavra sofrimento seja fictícia. Acho até que é uma palavra curinga, que pode ser real e fictícia. Não vou fazer aqui uma lista das palavras curingas. Façam vocês a sua própria lista, memorizem e nunca esqueçam dela. É bom acrescentar coisas novas.
Não saber porque nasceu, viver e procurar em vão um sentido para isso, e não conseguir negar que vai morrer, embora não se pense muito nisso, e nem se fale, é tudo o que nos afasta do real e nos faz criar essas ficções para atenuar o nosso medo da morte, a “angústia de quem vive”. Angústia, aliás, uma outra grande palavra curinga. Assim como solidão e tristeza. Mas eu tinha jurado que não faria uma lista.
Mundo possível ideal número um: deus existe e criou tudo quanto existe para nosso bem e conforto, o dia em que percebermos isso seremos muito mais felizes. Soframos cá na terra, há um céu que nos aguarda, no qual seremos recompensados por tudo que aqui passamos. Recompensados eternamente. Por isso é que temos o Bem introjetado em nossos corações. Nos desviamos, mas há a possibilidade de sermos perdoados, bastando para isso o sincero arrependimento de todas as nossas faltas. E bastando que saibamos também perdoar. E tudo é divino e maravilhoso. Tudo tem um propósito que precisamos compreender nesse grande plano divino.
Mundo possível ideal número dois: o amor existe e sua conseqüência maior, o seu fim (no sentido de finalidade) é a felicidade, que também existe. Parece difícil, mas qualquer um pode alcançar a felicidade. Há pessoas felizes para onde quer que eu olhe, por todo o lado o que mais tem são pessoas extremamente satisfeitas. Mas há lugares no mundo em que falta o amor e, conseqüentemente, a felicidade. Felizmente, há também pessoas que são capazes, são fortes o bastante para isso, de levar o amor onde ele falta e tudo fica bem.
Mundo possível ideal número três: existe um estado de natureza, tão sonhado pelos filósofos do XVII-XVIII, pelo Iluminismo-Humanismo. Sim, o homem é bom por natureza, mas já em sociedade... A sociedade é que corrompe o homem. Tendo aceitado o fato de que existe um estado de natureza, basta almejar atingi-lo (ir até ele ou a ele voltar, vai saber), e a humanidade será enfim tudo de bom. Cada ser existente vai usar só aquilo de que precisa, nada além disso. A natureza vai ser preservada, com ela a humanidade. Harmonia nem será uma palavra curinga, será pura realidade. Harmonia de tudo com tudo o mais, de cada um com todos e de todos com cada um. Um verdadeiro paraíso materializado e tornado possível aqui e agora, nessa nossa tão palpável vida. Descobrir-se-á que a guerra é um grande engano, não mais se matará por motivo algum, todos os estados resolverão suas “disputas” ou na discussão pacífica ou, em último caso, por sorteio. Ou ainda em jogos. Jogar-se-ão jogos para dirimir as questões. Só que vencedores e vencidos ainda assim haverão de confraternizar como iguais, como irmãos. Aliás, descobrir-se-á que somos filhos de um mesmo pai criador, portanto, irmãos. Todos os povos assim se tratarão.
Mundo possível ideal número quatro: na seqüência do estado de natureza, não haverá posse e nem propriedade. E nem haverá riqueza, porque a riqueza só tem sua razão de ser sendo o oposto da miséria. Como não haverá miséria, não vai haver porque existir riqueza. Todos serão iguais e terão somente aquilo que necessitam para viver e viver bem. Se ocorrer de alguém não ter esse mínimo necessário, deverá ser por descuido ou acidente, então deverá haver a partilha. Uns ajudarão aos outros e assim todos ficarão bem. Não haverá nesse caso má distribuição desses bens mínimos necessários para se viver. Aliás, não haverá nem necessidade da existência de dinheiro. Todos os bens de produção serão muito bem distribuídos a cada qual segundo as suas necessidades. A humanidade em estado de natureza será a mais ideal das cooperativas.
Mundo possível ideal número cinco: tudo será mágico. Cupido existe. Você se apaixona e a pessoa apaixona-se por você de volta. Quanta felicidade! Ninguém será carente, insatisfeito, não haverá solidão e nem depressão, se houver choro será apenas de alegria. O amor será tanto nesse mundo que será muito difícil não partilhar esse amor com tantos quantos encontrar. Seremos uma bela e enorme família. Não haverá ciúme, raiva, rancor, vingança. Se somos capazes de partilhar o que é material, portanto perecível, seremos capazes de partilhar o que não é material, portanto, imperecível.
Mundo possível ideal número seis: não haverá preconceitos de qualquer ordem, em lugar algum. Sexo vai ser tão simples como um aceno de mão. Alias, compreender-se-á que um aperto de mão, um abraço ou um beijo são tudo coisas que a gente não consegue dar sem receber de volta, quer dizer, já o recebemos quando damos. Não se terá medo ou nojo do corpo. Tudo será limpo, sublime e perfeito. Todos serão igualmente belos por isso, pois a conquista não fará mais nenhum sentido, tudo estará posto, como a fruta na árvore, pronta para ser colhida e degustada. Degustaremos, enfim, essa existência feliz.

Pode ser de agora ficarem imaginando se tudo isso que foi dito é mesmo sério ou é apenas uma ironia. Seriedade e ironia também são palavras curinga, assim como todo este texto. Eu sei o que quis dizer e disse. Quem vai ler... bem,que se virem!
E sobre as tais palavras fictícias que não sei se o são ou se são curingas, as que me parecem mais próxima do real são três: a fome, a sede e o tesão.

sexta-feira, outubro 26, 2007

Uma hóspede


Faz uns três dias que ela chegou para ficar de vez. E me bater doído, jurando que de lá não sai tão cedo. Eu sabia que viria mais cedo ou mais tarde, ainda mais numa noite chuvosa de quarta-feira. Segunda e terça eu já pressentia sua presença, ou sua aproximação. E tal proximidade ameaçadora deu-me a certeza de que teria que amargar uma longa convivência. Meus pensamentos perambulando por aí, eu me dizia o tempo todo que “vai ser assim”, sim, vai. E não deixava de perguntar: vai ser mesmo assim? Sim, vai. O silêncio aterrador em volta respondia que sim, vai ser assim.
Não vou lá agora recebê-la com banda de música e tapete vermelho, vem sem ser convidada, não que não seja até bem-vinda, mas chegar de mala e cuia, com ar desafiador, instalando-se na minha vida sem me perguntar se posso, se quero, se suporto. Banda de música não, mas uma música ao menos achei na bagunça de meus pensamentos, de um velho disco de vinil que eu gostava tanto de ouvir, só não ouvi na chegada dela porque aí ia ser muito disparate da minha capacidade inabalável de rir da própria desgraça ou, quando não muito, colocar nela um adequado fundo musical. Lembrei Alceu Valença, uma letra de música que é um poema que eu gostaria de ter escrito, de tão simples que é chega a ser profundo, e diz tudo em tão poucas palavras. E serve para recebê-la, de modo a dizer que fique o quanto quiser, eu terei recursos para nos alimentar a ambos, pode dormir onde quiser, mudar o que quiser. Fique o tempo que precisar, que achar melhor para seu intuito. Eu não vou ser mais do tipo de me importar com muita coisa.
Com um sorriso nos lábios, na fronteira inteiramente tênue entre a loucura e a lucidez, eu a recebo, abro a porta para ela entrar com toda sua bagagem, hei de lhe passar um café quente, trocar os lençóis da cama, se for necessário, limpar com esmero o apartamento, talvez falte alguma coisa na geladeira que providenciarei com urgência. Se quiser dormir do lado da cama em que durmo, eu durmo do outro, se quiser descansar na minha poltrona preferida, pode ser, pode ir, pode ficar. Pode usar minha toalha, eu uso a outra, e os meus chinelos, ou se não eu compro um novo par.
Pode ir ficando, porque eu sabia que ela viria mesmo, que se instalaria de vez na minha vida, sem me dar conta ou satisfação de quando iria embora ou se iria, quem sabe, um dia, atormentar a rotina já atormentada de um outro que dela precise mais do que eu.
Não se importe muito comigo, com meus caprichos e minhas pequenas e mesmo as grandes manias, tudo é tão pouco e tão insignificante, dá para ficar sem levar muito tudo isso em conta. Eu durmo tarde porque não durmo cedo, e não durmo cedo porque quase não durmo. Acordo no meio da noite sempre com medo de descobrir que amo, eu amo, amo, eu amo, sempre com medo de descobrir. Depois volto a dormir e durmo logo, um sono sem sonhos, tudo muito simples. Não me siga pelos cantos, como agora, quando fujo para os cantos é porque gosto de chorar sozinho, sem ninguém me perguntando o que é, o que foi, o que será, por que e para que. Já me basta o próprio solilóquio com todas as suas indagações até agora sem resposta, sem a mínima chance de poder ser desvendado qualquer questionamento. Eu não sei. Pois não sei saber. Eu apenas sinto, pois isso eu sei, eu sei sentir.
É por isso que as lágrimas são líquidas, para não poderem ser represadas. A gente tapa um furo aqui, outro ali, reforça toda a estrutura. De repente tudo explode, e sai aos soluços. Depois dá um alívio danado, junto com um certo cansaço, uma fadiga, que eu poderia dizer, de existir, de ter de estar ali nesse momento, de estar vivo, de fazer coisas e ser coisas, de pensar coisas, de tentar entender as coisas. O que é melhor depois de uma crise de choro é um bom banho e algumas horas de sono. O banho inverte o sentido da água, em vez de água de dentro para fora, água de fora para dentro, ou só fora, lavando o cansaço. E o sono há de aquietar qualquer pensamento, esses cavalos selvagens a correr pelas pradarias da vida, mesmo eles, que não são domados de jeito nenhum, têm que descansar.
Então, não ligue muito para mim, nem me olhe, não se preocupe comigo muito que não vale a pena. Sinta-se em casa, só me diga por que nome devo chamá-la. Porque se não for assim, ainda tenho a música de que falei antes, a passear-me os pensamentos. E, nessa música, sei seu nome e seus maiores atributos, para melhor hospedá-la na minha humilde morada, ou na minha infame vida.
Pode ir ficando, que a música de Alceu Valença não roda na agulha do toca-discos, mas ninguém pode me impedir de cantarolar a música em minha mente:

A solidão é fera, a solidão devora.
É amiga das horas prima irmã do tempo,
E faz nossos relógios caminharem lentos,
Causando um descompasso no meu coração.
A solidão dos astros;
A solidão da lua;
A solidão da noite;
A solidão da rua.

E só mais uma coisa: melhor ela não me dizer quando e se vai embora. Melhor deixar eu tentar adivinhar.

Um hóspede


Ele já estava antes de ela chegar. Vamos ter que conviver os três (ou seriam quatro, se contar a Samambaia?), a mais estranha família que se possa ter notícia de se formar, tão estranha que até pode dar certo. Uma planta, um felino, um humano e um ente subjetivo. Este último tem muito mais presença na casa do que os outros três.
Mas o caso é que ele já estava lá, devidamente instalado, adaptado, ele já tomou posse de tudo o que acha que pode ser dele, ou de tudo o que acha que é dele. Ou seja, tudo.
Tenho que providenciar que sua estada por ali seja das mais satisfatórias, o que quer dizer que tenho que satisfazer todas (ou quase todas?) as suas vontades. Vontades? Sim, vá lá, por falta de termo melhor, vamos chamar esse existir displicente, com essas coisas que ele tem que fazer, e quer, de vontades. O problema não será meu se o termo “vontade” a ele atribuído suscitar algumas discussões filosóficas. Valor de verdade por valor de verdade, sou mais poeta do que filósofo, ou nada filósofo e alguma coisa poeta, coisa que o valha, espero. Então prefiro dizer que lhe faço as vontades fazendo as minhas, ou faço as minhas vontades procurando fazer-lhe as suas. A questão é que nossas vontades combinam, elas se dão muito bem.
Depois da chegada do ente subjetivo querendo dominar tudo e todos, eu e ele nos unimos mais, estamos mais amigos, mais divertidos, mais moleques, inventando jogos e coisas tais e quais para passar o tempo. Parece que nenhum de nós a quer, aquela hóspede compulsória, e nos viramos como podemos.
Mas não vamos falar dela, que este é para falar dele.
Sair de casa virou algo que precisa de uma estratégia de guerra. Dá que ele foge de novo, e a moça bonita do apartamento sete não esteja por lá para recolhê-lo e acolhê-lo como da outra vez. Tenho que estar certo, então, ao sair, de que o danado fica dentro. E que tudo esteja devidamente fechado. Janelas da sala e do quarto, as portas, a da saída-entrada, claro, a que dá para a área de serviço e a do banheiro, por ora para evitar que transforme em brinquedo todos os rolos de papel higiênico.Aliás, brinquedos ele tem de monte. Todos fáceis de conseguir.
Depois da chegada dela, a hóspede cujo nome não ouso pronunciar, a não ser com aquela música, eu saí ontem para uma hora do almoço aqui pelo Centro que se resumiu em andar sem guarda-chuva debaixo de uma leve garoa, e a idéia que me ocorreu só na rua de que precisava comprar algumas cuecas, e meias e bermudas. Nos grandes magazines os preços são altos. Mais uma voltinha e entro numa loja, digamos, mais popular. Volto para o turno da tarde enriquecido de mais pertences: dez cuecas, seis pares de meia e duas bermudas. Precisava só das cuecas, mas com o dinheiro que compraria seis cuecas no grande magazine, comprei tudo o que enumerei ali atrás. As meias novas me fizeram lembrar de que posso me livrar das meias velhas, aquelas que ou estão encardidas ou já apresentam um furo pequeno ou médio aqui e ali.
Chegar em casa é outra campanha de guerra. O gato sempre me espera já na porta e vai abrindo todos os miados possíveis, quer tudo ao mesmo tempo, água, comida, brincadeira, cafuné, e tudo não necessariamente nessa mesma ordem. Se pudesse mesmo ser tudo ao mesmo tempo, para ele seria melhor, bem melhor. Mas eu presumo que ele já percebe que para chegar a ele cem por cento livre para dar cem por cento de atenção, tenho que me livrar de algumas coisas que afinal de contas só eu faço. Levar fora o lixo, depois de recolher o dito cujo, claro, limpar a caixa de areia, já que ele suja apenas e é só o que pode fazer, trocar-lhe a água, beber eu próprio um pouco de água. E café, se eu lembrar de fazer, ou de der tempo. Minha mochila e a sacola com cuecas e meias estão em cima do sofá. Ele quer brincar. Esconde-se atrás de uma porta e espreita daquele jeito que aparece uma orelha e um olho, e acha que está escondido. Essa brincadeira começou como pega-pega, mas virou também esconde-esconde. E ele não só corre de mim, mas também corre atrás de mim. Ele me dá um certo sossego quando estou fazendo um lanche na mesa, não se atreve a subir lá. Mas quando termino o lanche e estou ao telefone, aí parece que ele quer escutar a conversa.
Tudo feito, nada mais para fazer. Nada disso. Deu para fazer mais bolas de meias com as meias velhas. Percebi que ele agora tem catorze bolas. Resolvo dar nome a esses brinquedos. Vamos lá imaginação pueril! Os nomes: Wilson, Peninha, Espinhuda, Mizuno, Cinza, Bunda Cinza I, Bunda Cinza II, Chico & César, Rasta & Fari, Orelhuda, Barban Tina e Playmobil. Confira-se: catorze bolas. O gato me olha de soslaio, achando que devo ter pirado por ficar dando nome a bolas de meia. Olho de volta para ele, de soslaio, ele deve ser pirado, não percebe o quanto parece bobo brincando com essas bolas.
Dou umas boas risadas no meio da noite, o gato correndo de um lado para o outro. Pula das bolas e em cima delas, feito macaco. Ele é engraçado e nem sabe o quanto, pois faz tudo isso a sério.
Hora de dormir. Tudo feito afinal, três horas da manhã. Alguém nessa casa precisa trabalhar, ração de gato não dá em árvores, o que é uma pena. Vou para cama com uma última leitura da noite. Ele nem pede mais licença. Deita-se lá também e dorme primeiro do que eu. Acordo e ele ainda está lá, do mesmo jeito e com as mesmas coisas. Rio de manhã lembrando as estripulias de ontem. Bom dia, Logan! Até mais à noite.