Quinta-feira, Abril 28, 2011

Prosa do Absurdo

DECADÊNCIA


É a ideia de início, apogeu e declínio

A decadência do que ousei chamar poesia

Essa necessidade constante de dizer, dizer e dizer

Como se fosse importante, útil ou necessário

Empreendi uma mesma viagem por mesmas estradas

A paisagem ali parada, a mesma, e eu sem achar graça

Estava em outra cidade, as montanhas com o céu atrás

Muito verde e muita árvore, rios e represas, nuvens

E eu desdenhava essa beleza como se a desconhecesse

Deplorava qualquer emoção de sentir fazendo parte

De repente é que me vejo cansado das pessoas

Com suas ideias de deus e de vida e seu medo da morte

Com seu desdém para com tudo que é real e importante

Com seu descaso para tudo quanto é sentimento mesmo

O amor e o desamor, a paixão, o desejo, um sonho que seja

E de repente a proximidade das pessoas me afronta

E me aflige, aborrece, causa asco de dar pena

De relance surge um lampejo: elas estão certas

Eu é que sempre andei a estar de todo errado

Qual seja! Que seja assim, não sei, nem quero saber

Experimentei uma imensa sensação de grande vazio

E quis apagar meus pensamentos todos e as palavras

Quis calar-me de vez e achei que era falta de inspiração

E é, eu sei que é, essa vontade entranhada de algo novo

Deu medo olhar tudo em volta e não ser capaz de sentir

Deu medo não sentir mais nada como sempre sentia

Deu medo de ser uma irreversível transformação

Tive a nítida sensação de uma irremediável solidão

Assustei-me com a impressão clara e indubitável

De essa tristeza deixar de ser acidente e tornar-se essência

De tornar o alheio silêncio um silencio bem maior e só meu

Mas mesmo assim teimo em fazer pouco caso de tudo

Sem medo da morte de tudo, mesmo dos sonhos fáceis

Não temi amanhã acordar e não ser capaz de escrever mais

De ter ocorrido de uma tal poesia ter me abandonado de vez

Na falta de vontade de um querer ainda ter alguma vontade

De talvez ter abandonado a ideia de sanidade infundada

Para me afundar numa insanidade bem fundamentada

Aquela que me diz que é melhor não querer nada

E aceitar a decadência vir aos poucos me tirar tudo

Quinta-feira, Fevereiro 17, 2011

Considerações Extemporâneas

CONSIDERAÇÕES EXTEMPORÂNEAS

(Se tem mais o que fazer, vai fazer

porque o texto vai ser muito longo...)


I - Preliminares

Mil e vinte textos. É muita coisa. Considerando que neste espaço há mais de dois milhões e meio de textos, mesmo assim, para um autor só é muita coisa. Voltei à escrita desde janeiro de 2005, o que dá seis anos e 170 textos por anos, mais ou menos 14 por mês. Isso é como escrever um dia sim e outro não. Um texto a cada dois dias é de fato muita prolixidade.

Eu cantaria a cidade, sua cor cinza, seu ar taciturno, sua gente indo e vindo, suas belezas e seus contrastes. Mas a poesia me arrasta para outra prosa e me arranca outros versos mais desatentos, os mais desapegados de mim, como se eu não fizessse nada, só estivesse aqui a servir de intermediário entre a inspiração e a composição.

Eu cantaria a estrada, mudar de paisagens. Outros rostos, outras cidades, as árvores pelo caminho, o por do sol ao longo da caminhada, os céus azuis e as nuvens propondo charadas em suas formas. As montanhas azuis ao longe, o verde, uma cachoeira a cantarolar bem ao lado de onde se passa, a fumaça que sai de um fogão a lenha de uma casa qualquer. Mas a poesia me traz de volta com seu ímpeto e me dita as palavras mais dissonantes entre o que se capta pelo olhar e o que se derrama na letra fria.

Eu cantaria essa razão suficiente para quebrar o silêncio, o motivo de toda essa inquietação, essas indagações todas, esse encanto diante dos mistérios, esse pasmar diante do ainda não conhecido e explorado, essa saudação respeitosa ao infinito, essa adoração a tudo o que ainda nem existe de belo. Mas a poesia me arranca do voo e me atira na terra, me faz murmurar entre trevas e andar sobre as pedras.

Eu cantaria a vida e os mistérios dela, todas as canções dos sonhos e suas cores, os sorrisos e o êxtase diante do romper de cada aurora a me invadir a retina, as brisas da tarde e o suspirar de cada anoitecer. Mas a poesia me cala e me obriga a olhar para dentro, me abre este abismo dentro do ser, me coloca diante do espelho, dita o próximo passo e insinua a próxima palavra. E me faz falar sempre de amor. Amor, do amor, meu amor, este único que tenho. E me faz nunca esquecer.

Daí que os versos são tristes e cinza. Daí que as palavras estão sempre em torno dessas tristezas, adornando essa solidão, ensaiando o grito contido. A palavra me obriga a viver. E viver é sentir tudo o que sinto.

Certo é, como me inspirou Cortázar, que entre viver e escrever não faço nenhuma distinção. O que vai na alma deito em palavras, o que dói dentro soa fora como dor que deve ser.

E me pergunto tanto como é que podia ser diferente. Sobre o que mais a poesia teria que dizer. Há os rascunhos de dois contos, umas três crônicas e há até mesmo algumas elucubrações filosófica para ser escritas, mas dormem no papel, porque o lirismo rebelde e sem freio não quer dizer outra coisa.

Escrevo quase que por osmose. O pensamento vira palavra, a palavra vira verso e o verso vira poema. E o poema vira tudo de cabeça para baixo e torno a dizer mais uma vez o que tanto já disse de tantas formas. E o poema não espera, tem pressa em dizer e quer dizer tudo. E diz sem paciência, mesmo sem ter tempo para dizer. Não para nem para descansar ou para pensar, pensou já é.

Então a poesia se faz prolífera e prolixa. Diz tudo outra vez buscando sempre uma outra forma de dizer. Repete, corta, acrescenta, lembra, esquece, negligencia e dá importância ao tudo e ao nada, dá importância só para o dizer.

Há cem poemas que grito pelo amor que perdi, e vou gritar ainda muito mais. Há muito mais de cem poemas que só quero dizer que quero amar, essa mulher e não outra, dessa forma ou melhor, nunca menor ou pior. Só nesse amor é que qualquer poesia em mim vai se realizar. E ponto final.


II – Penetração

Mas estou aqui e é aqui que escrevo. Aqui despejo tudo o que penso e sinto todos os instantes de meus dias. É assim mesmo. Como se não houvesse mais o que fazer ou como se eu não soubesse fazer outra coisa. Como se eu não pudesse mais viver se não fizesse isso.

Aqui é um lugar aprazível, confortável mesmo. Mas ao mesmo tempo estranho e engraçado. Aqui é o lugar onde sou acusado de ser poeta.

Aqui é o lugar em que achamos que somos e podemos ser poetas. E, diga-se, nunca foi tão fácil escrever, ou melhor dizendo, postar seus escritos à vontade, como se eles fossem assim tão importantes para o resto insensível da humanidade. Dessa facilidade, garantida pela impessoalidade do mundo virtual, advém o sentimento de que podemos tudo. Somos deuses solitários de nossos universos apartados, extremamente separados pela arrogância do arvorar-se divinos. E somos humanos, demasiado humanos. E padecemos, hoje, de agorafobia. O outro é apenas o que se interpõe entre o que somos e o outro que criamos em nossas mal fundamentadas expectativas.

O meio em que nos comunicamos não dá margem para a crítica, ainda que construtiva e bem intencionada. O meio em que produzimos nossos maravilhosos textos está povoado de gente despreparada para o convívio intelectual (ou poético-literário), que está aqui para satisfazer alguma necessidade excusa ou resolver no local menos apropriado as carências que não foram resolvidas no real.

Acontece que a vida é real e a realidade é para ser vivenciada. O mundo não espera parado a gente amarrar os sapatos, o tempo corre, sempre com sua seta apontando para o que vem. A vida não espera a gente aprender e ensina a cada momento a todos sem distinção, os atentos e os distraídos.

Sim. Eu acho que todo mundo tem o direito de escrever-dizer o que quiser a liberdade garantida para isso. Sim. Eu acho que todo mundo pode se expressar segundo suas capacidades e possibilidades, segundo suas crenças e convicções, segundo suas ilusões e anseios. Creio mesmo que todo mundo precisa sair do silêncio na hora de sair e soltar seu grito.

Só não aceito transformarem aquilo que nos é tão caro em no mínimo estrume para o futuro.

“Diga-me o que lê e te direi o que és capaz de produzir. Se fisicamente somos o que comemos, intelectualmente somos o que lemos.” Tirei essa frase de um livro que estou lendo e ela soou como uma bofetada.

Em Retratos da Leitura no Brasil vi que a nossa média de leitura é de 4,9 livros por ano, sendo que há países em que essa média é de 10 livros por ano. Isso sem falar nos títulos que são lidos. Mas isso são estatísticas e considerações sobre elas que poderei explorar em outro texto, depois de terminada a minha pesquisa. Gasta-se mais tempo vendo televisão do que lendo livros, isso sem esquecer que a programação que nos empurram pode ser classificada como puro lixo. Nem é preciso citar exemplos.

Não há, de minha parte, intenção alguma de elitizar o conhecimento, o acesso a ele ou o modo como o obtemos. Tenho imenso prazer em ver que as pessoas estão lendo nos ônibus e nos trens e que a internet tenha possibilitado o ingresso de tantos à capacidade democática de expressão. E possibilitando maior facilidade na obtenção de informação ou mesmo de formação, se é que há esta. Preocupa-me apenas a qualidade do que comemos, porque a quantidade e variedade temos de monte.

Triste povo que não tem uma boa escola, que não é apenas o lugar onde adquirimos conhecimento, mas sim onde temos a oportundidade de compartilhar tanto o conhecimento obtido quanto a convivência com o outro que também exerce a mesma oportunidade.

Sou apenas um entre tantos. A poesia que tento aqui escrever está em permanente construção e reconstrução. Estou aqui simplesmente para dividir meus textos com quem se dispõe a ler. E leio tanta gente, mais do que se pode imaginar. Estou aqui somente para compartilhar, com quem possa chamar de meu igual, essa inquietação lírica sobre o que nem somos capazes ainda de definir. Estou aqui para dizer e digo.

Foi num dia qualquer de minha vida que me demorei a digerir um pedaço de verso de Álvaro de Campos em “A Hora Absurda” que me soou estranhamente encantador: “...e a hora é de assombros e toda ela escombros dela.” E nunca mais deixei de ficar encantado.


III – Orgasmo

Mesmo que eu goste de verdade de muitos deles, sei que mil e vinte textos é muita coisa para se escrever impunemente. E nem todos vão ser tão bons assim, alguns até muito ruins. E tenho até alguns que me são verdadeiramente caros que muita gente não leu. Estão lá atrás no tempo em que empilhei todas estas páginas. “Brinca a Vida”, “Errando Poesia”, “Agora Fico Só” e a tentativa de conto “Revelação” são alguns deles.

Estou sempre ensaiando descansar essa escrivaninha e descansar dela. Talvez descansar os outros de minhas palavras. E ler mais a literatura que me falta, assim como a poesia e a filosofia. Conversar com aqueles que trilharam o caminho bem antes e que trilharam muito bem. E revisar e repassar esses meus tantos textos. Aprender a ler e aprender a escrever é minha maior meta. O que é necessário e indispensável.

Não porque o que a gente vai escrever a partir disso seja algo mais bonito para mostrar para os outros, ou galgar os degraus de uma certa fama, granjear elogios e cultivar vaidades. Mas porque tenho que dizer o que vai lá de insistente dessa coisa que chamamos poesia.

Agora só falo desse amor. Um amor que vou querer para todo o sempre e sei que vou querer. E sei mais, que nunca vou deixar de querer. Porque foi minha poesia mal ajambrada e derramada sem nenhum cuidado que me chamou a atenção para essa forma de amar e me disse que isso sim é que amor. Nem que ele seja só meu, que só eu o sinta, já terá valido a pena tê-lo sentido, porque depois disso eu me construí dois dedinhos melhor, eu me tornei melhor do que posso ser, tudo isso só por causa desse amor.

Amor o que nos falta. Amor fundamentado e consentido, amor sentido como tudo o que não entendemos, mas que não é por isso que vamos deixar de querer. Porque se não sei o que é, pelo menos sei também o que não é.

Não que eu não tenha tido outros amores na vida, ou outras experiências de amor. Amores tão grandes quanto este, tão bons e até melhores. Mas é que este Amor aconteceu num momento da vida em que eu achava que nunca mais ia ter. Quando eu não acreditava mais que podia acontecer.

É isso tudo que não quero que me peçam um dia para jogar fora ou esquecer.

É disso que tenta falar a minha vã poesia. E nunca vai se cansar de dizer.

E mesmo que um dia eu não diga mais, vai ser este Amor que ainda me fará querer tanto escrever. Que ninguém leia, ou lendo não se importe. Pois isso ainda é pouco motivo para eu deixar de dizer.

Postado no Recanto das Letras:

http://recantodasletras.uol.com.br/prosapoetica/2796788

Terça-feira, Dezembro 07, 2010

Rescaldo II

Alguns meses a cultivar a idiotice do que parece uma ideia fixa. O dilema de esquecer ou não quem se ama se estende até o cansaço definitivo. Até sentir-se mal com o descaso parecer até ofensa, ou de propósito, ou coisa que se leva, mesmo sem querer, para o lado pessoal. A coisa deve ser comigo. Só pode ser comigo.

Ridículo ficar imaginando que o telefone vai tocar. Ou que ao ligar o computador vai ter um email. Uma carta, isso é o pior. Esperar uma carta. Uma mensagem no celular.

E já imaginei coisa ainda pior, que a encontraria me esperando a porta, ou mesmo dentro do apartamento. Ou ainda sentada num banco do parque a minha espera, para conversar, dar notícias. Espantosamente ridículo. E digo que imaginar isso é o pior porque tenho a plena certeza de que isso nunca vai mesmo acontecer.

Não preciso adivinhar as coisas, esse esforço é inútil, as palavras estão ditas, os recados estão dados, as decisões tomadas. “Segue teu caminho” e “Eu não quero amar você”. Que mais quero ainda ouvir ou saber? Que mais ainda penso em fazer?

As férias começam com a promessa das horas de todos os dias a correrem vazias e eu chego ao extremo de pensar na heresia de que seria melhor eu estar trabalhando, andando estrada afora, quanto mais longe e cansativo melhor. Tanto melhor que fosse como foi dias atrás, semana atrás de semana, que nem deu para pensar em mim mesmo e nessas coisas todas.

O que tortura é parar aqui e ter tempo para mim mesmo este nada que sempre sobra depois dos equívocos de parte a parte, cuja culpa sempre tenho a sensação de ser somente minha ou de ter que carregar sozinho.

A ilusão é um tormento, promete coisas que a realidade nunca vai proporcionar.

Tenho o péssimo costume de respeitar a decisão dos outros, mesmo quando não foi claramente dita e mesmo em prejuízo do meu próprio bem estar. E fico de mãos atadas, pois sei que qualquer iniciativa minha vai ser vista como invasão. Ou como insistência em que de mim não se quer mais.

Saio dos desenlaces sempre com nada, sempre à deriva, sempre com um enorme sentimento de culpa e com a sensação de que não resta mesmo nada a fazer. Então não faço, mesmo que queira muito e saiba o que poderia ou deveria fazer, em respeito a quem não quer mais, eu me calo e me entrego a essa autocomiseração de me fazer triste e solitário, certo de que o amor sorri para mim como que de brincadeira.

Assim vou me entregando até me acostumar com essa espécie de solidão imputada pelas circunstâncias. Elimino minha vontade, desfaço-me facilmente dos desejos.

Vou aceitando a máxima por mim mesmo inventada que melhor do que precisar de pouco é precisar de nada.

Nada eu tenho, nada eu quero, nada eu penso, nada mais a dizer...

Terça-feira, Novembro 30, 2010

Rescaldo I

Acordei assim, meio com um ar blazé, ou o vulgo cara de entojo para comigo mesmo diante do espelho. Assomado de um desacorçôo que não sei de onde vem. Quer dizer, sei, mas não sei como. Um entojo, uma má vontade de administrar as coisas, certas coisas, com o passar do tempo, esperando o tempo passar para ver se tudo melhora por decurso de prazo.

É aí que eu penso nessa merda toda de ficar racionalizando o irracional do que nem é tão concreto assim, puramente abstrato. Complicado? Pois é. É assim que é.

Não gosto destes períodos de sai ano e entra ano. Nada demais isso, nenhum trauma, nenhuma lembrança ruim. Nada disso. Não gosto simplesmente do espírito de alienação que toma conta de todos, como se passar de trinta e um de dezembro de um ano que morre para o primeiro de janeiro de outro ano que nasce fosse a solução para tudo o que não resolvemos nos trezentos e sessenta e cinco dias precedentes. Se me pego fazendo isso, fico puto comigo mesmo.

Ora, talvez esteja tentando fazer um balanço, e isso também é típico dessas épocas. Depois do balanço uma lista de propósitos com um leve disfarce de planejamento do futuro, porque o futuro vai ser melhor.

Quer saber? Foda-se o futuro e o presente. E o passado que morra também se quiser, porque dele já peguei o que precisava e só o que precisava.

Mas tá! Fico pensando no que passou, o que fiz esses dias todos e esses anos. Sinto um cheiro de repetição no ar, vindo de uma acomodação absurda. A vida tem sido muito confortável, previsível, protocolar.

Escrevi demais e abusei demais da poesia, até sangrar os piores dos melhores versos e vice versa, os melhores dos piores versos.

Se olhar tudo que escrevi, uns trinta, cinqüenta poemas atrás, talvez mais, foi essa choradeira com as palavras por um amor que se realizava e ia tão bem, mas depois descambou para o infortúnio de nem as súplicas das palavras adiantarem de nada. Daí eu me sentir mendigando a atenção de quem parece não querer me ver nem pintado, não saber de mim e nem dar o ar da graça, para um “oi, como vai?”.

Assim eu entendo o entojo. Sou eu mesmo cansado de mim mesmo. Tudo isso nem é diferente de qualquer coisa que seja que eu já não tenha feito ou pela qual não tenha passado. Tudo de novo, de novo do mesmo jeito.

Eu não desisto das coisas tão facilmente. Não sou tolo o suficiente para desistir. Mas deixo as coisas desistirem de mim. São as coisas que perdem o significado e eu, insistente, que demoro a perceber. Ainda agora nem imagino o significado que as coisas tem.

Eu amo ainda. O mesmo amor, só que carregado dos equívocos de parte a parte, de todos os ônus que parecem pesar tanto sobre mim. Amor e equívocos, assim se vai fazendo da vida essa aventura desinteressante.

O que eu quero então? Emoção! Quero diante de mim e de meu olhar um olhar que aceite os desafios por piores que eles possam parecer. Mas não tenho mais o poder de fazer esse amor dizer e significar a outro o que diz e significa para mim.

Então aceito o silêncio. E aprendo a aceitar mais. E aprendo um silêncio insustentável, que pouco depois vai ser muito difícil de quebrar. Depois de tudo não vou ser mais eu mesmo, serei eu acrescido dos equívocos dos quais a vida se faz mais rica e do que se aprende mais do que com os acertos.

E, diga-se de passagem, o que eu aprendo, nunca esqueço.

Sexta-feira, Abril 16, 2010

16/04/2010 - 00:21

Agora parece que estamos os dois lá naquele “fim de todas as coisas”. Parece que se passou um século, dois. Parece que há atrás de nós toda uma era. E o que se foi não volta mais. Triste, não? Triste não.

Um inventário de todos os momentos, dos melhores momentos, seria um tanto inútil, para não dizer sem sentido. Porque paira no ar a impressão de que todos os momentos não foram mais do que simples ensaios para a vivência do presente, única parte do tempo em que nos reconhecemos incompletos tanto para o passado quanto para o futuro. E o que fomos ou fizemos ou não, no passado, faremos ou seremos ou não, no futuro. Mas o que dizer sobre o que somos? Não dizemos nada, queremos ser sempre aquele que fomos ou aquele que seremos e nunca o que somos realmente.

Isso tudo para falar de história, da nossa história. Olhar para os tão conhecidos e já vividos momentos e rir deles com gosto. Ou para falar do que há por vir, que queremos tanto prever e não somos capazes.

E eu me sinto cada vez mais incapaz de dizer qualquer coisa que valha sobre qualquer coisa que importe. Carrego na vida todas as boas lembranças da vida, no entanto não isentas de suas emendas e remendos, ou um parafuso faltando, uma peça solta aqui ou ali, alguma coisa sobrando em alguma parte ou faltando em outra.

Tivemos amigos (ou ainda temos?) e eles parecem que não nos tem. Mudamos imperceptivelmente e eles nada mudaram, são os mesmos e nós somos os mesmos numa versão mais aprimorada, aprendendo com erros e acertos, rindo das desgraças e mesmo lamentando pequenas alegrias paradoxalmente.

O tempo nos leva adiante, sempre. Crescemos, envelhecemos, perdemos coisas pelo caminho e não encontramos nunca mais o que nem sabíamos que procurávamos tanto. Mas amadurecemos aquelas coisas exatas as quais não se vende nem se empresta, muito menos se aluga, amadurecemos aquelas coisas que compartilhamos sempre.

Queria dizer mais, sempre. Ter em mãos uma fórmula ou uma receita. Mas essa coisa de felicidade e satisfação não cabe em lugares pequenos, motivo pelo qual temos de nos fazer grandes para as poucas coisas grandes da vida ou para as muitas coisas pequenas que realmente importam.

Eu posso me gabar de dizer diante de muita coisa que eu sabia que muita coisa seria assim mesmo. Não adivinhei e nem sei ao certo se pressenti. O saber muitas vezes não se explica com palavras, mas sim com uma certa dose de silêncio.

Deveria dizer, se pudesse, então, aquieta sua alma e sinta o cheiro e o sabor desse silêncio interior. Se acha que foi fundo consigo mesma, vá mais fundo ainda para ver o que é bom.

Na verdade, acho essa vida medíocre demais para demasiada preocupação, e curta para tantos planos. Acho o mundo ridiculamente plausível demais para ser pensado em demasia. Aliás, acho que pensamos demais, somos por demais “intelectuais” que não percebem que basta um buraco na terra e um pouco de água para cultivar uma porção considerável de beleza.

Abdico de ser este ser que pensa para ser este ser que sente que pensa. Porque não creio em absolutamente nada que me cheire a mofo, não creio em nada que vá um pouco mais além do que imaginamos poder descrever em nossos intelectuais devaneios. Nosso discurso que constrói um mundo possível e uma realidade plausível destrói desastrosamente a beleza de as coisas serem exatamente o que são.

Por que este discurso para você? Eu não sei, sou o cara que não sabe. Sou o cara que sente, embora muitas vezes nem saiba o que sente.

Talvez para dizer a você para trocar o olhar ou o espelho, ou talvez os dois a um só tempo. Para dizer que leio ainda suas coisas paradas no tempo, aquele tempo que já foi. Para dizer que as águias já vieram nos resgatar no fim de todas as coisas e que talvez tenhamos um absurdo receio de viver cada recomeço, sem as coisas todas que nos atrapalham continuar caminhando. Ou voar com a devida e insustentável leveza.

Sejamos leves, então. E sejamos os mesmos, que já deu certo e vai dar mesmo. Mas sejamos rápidos, que o tempo desconhece nossa paciência e capacidade de esperar.

Porque daqui a dez anos, vou estar velho demais para dizer as coisas e você velha demais para ouvir.

Domingo, Julho 26, 2009

Já está escrito!

Terá sido o brilho dos olhos. Talvez a luz do sorriso. Os cabelos emoldurando toda a beleza do rosto. O jeito de olhar. Ou um certo modo de sorrir. Pode ser que seja a perfeição das mãos. A pele limpa e clara, suave, muito suave, macia aos olhos, talvez doce para o toque. A força das pernas, quem sabe? A cintura perfeita, os ombros que encaixam um lindo pescoço. Uma certa elegância nos braços? Ou a voz? Talvez a voz... a postura no andar, pode ser a postura ao estar parada? Não dá para saber, talvez tudo como um todo e uma riqueza em cada detalhe, ou a combinação de ricos detalhes em tudo como um todo. As costas nuas, se eu as visse nuas agora, como de bailarina em pose. Os pés de menina num corpo de mulher. Um corpo de mulher...

Uma menina num corpo de mulher, uma mulher com jeito de menina, a alegria de viver, o sorriso amplo sempre aberto, olhos brilhantes, jeito faceiro de me olhar, que não esqueço, um modo suave de piscar, sedutora, querendo aprender a seduzir com a inocência de quem sabe sentir mas ainda não sabe que sente o que sente.

Terá sido mesmo obra do destino que brinca com a história de nossas vidas, que nos coloca uma hora perto e outra longe, que nos aproxima de novo sem que possamos ficar próximos, que nos faz encarar um ao outro tendo que disfarçar que seria inevitável não resistir desviar o olhar. Seria obra do destino nos fazer viver em terras distantes e vagar em navios e mares distintos, para depois dar-se o encontro num mesmo porto, naquele dia frio e chuvoso, que seria tão triste se não tivesse sido tão importante.

Ou terá sido um capricho do acaso, que quando resolve caprichar não economiza nas cenas mais lindas que pode arranjar para arrancar dois seres de seus caminhos desencontrados para os colocar na mesma estrada, na mesma sala, no mesmo quarto daquela casa na mesma rua de nossas infâncias, onde ainda tínhamos o sabor de nossos quintais e o cheiro das fogueiras das festas tradicionais, na mesma rua onde nunca imagináramos onde nossos passos iriam nos levar e onde nosso caminhar iria nos trazer.

Ou ainda terá sido obra de um deus travesso a escolher quem atingir com suas setas envenenadas do mais doce veneno que existe, tão doce que quem tem não quer perder e quem não tem não vê o dia em que possa ter. Aquele veneno que quando se tem se vive e quando se perde morre-se um pouco.

Terá sido por obra de algum feitiço que venha a existir quando existe fogo nos olhos e um arder dentro do peito, quando sucumbimos com a falta de sono e fome, quando pensamos só naquilo que sabemos o que é sem precisar dizer o nome.

Terá sido por isso e por tudo talvez, talvez por nada, por simplesmente ter que ser porque assim teria sido desde todo o sempre. De tal modo que por ele é que passamos a existir, sendo que sem ele nada do que somos poderia existir e nada do que queremos faria sentido acontecer.

Terá sido por causa desse silêncio de perguntas que nunca ousamos fazer, por temer a resposta que há ou não haver a resposta, mas que uma coragem insana irrompe do peito num grito inevitável como o trovão das tempestades a bradar dos céus a tudo o que há na terra para que ouça de uma vez que eu te amo tanto e não sei o que terá sido esse amar que não me interessa saber senão sentir que é esse amar que por falta de melhor nome todos os poetas haverão de cantar e chamar pelo simples, singelo e terno nome de Amor.

21/07/2009 – 03:00

Segunda-feira, Julho 20, 2009

Vida Minha

Vida minha, nada a por, nada por tirar, cada cena em seu lugar, cada gota, de suor e sangue, derramada, nunca foi em vão, cada coisa a seu tempo e no seu lugar, a cada palavra o seu efeito, a cada sentimento sua emoção, a cada passo uma direção, a cada grito a sua canção. Vida minha, viveria tudo de novo, exatamente como teria que ter sido, se soubesse que tudo que teria que viver, era para ter aqui me trazido. Vida minha, faria tudo de novo, se soubesse que era para vir até aqui e ter ainda tanto por fazer. Vida minha, e sentiria tudo de novo, pelo simples e incontestável prazer de aprender a sentir. Todas as coisas como as coisas são. Para viver, vida minha, de novo toda essa emoção!
Vida minha, eu perderia de novo todos os amores, e mesmo isso não seria em vão. Só para aprender sobre os amores que vem e vão, só para estar atento quando esse amor tivesse vindo, se eu soubesse que viria, ah, vida minha, não teria nada mais por fazer, a não ser sentar num canto qualquer de todos os meus dias, e ficar olhando a estrada, o céu, a lua e as estrelas, o nascer e o por do sol, e mesmo debaixo da mais forte chuva, porque saberia que você viria, vida minha, e que a partir disso, viver valeria muito a pena.