Domingo, Julho 26, 2009

Já está escrito!

Terá sido o brilho dos olhos. Talvez a luz do sorriso. Os cabelos emoldurando toda a beleza do rosto. O jeito de olhar. Ou um certo modo de sorrir. Pode ser que seja a perfeição das mãos. A pele limpa e clara, suave, muito suave, macia aos olhos, talvez doce para o toque. A força das pernas, quem sabe? A cintura perfeita, os ombros que encaixam um lindo pescoço. Uma certa elegância nos braços? Ou a voz? Talvez a voz... a postura no andar, pode ser a postura ao estar parada? Não dá para saber, talvez tudo como um todo e uma riqueza em cada detalhe, ou a combinação de ricos detalhes em tudo como um todo. As costas nuas, se eu as visse nuas agora, como de bailarina em pose. Os pés de menina num corpo de mulher. Um corpo de mulher...

Uma menina num corpo de mulher, uma mulher com jeito de menina, a alegria de viver, o sorriso amplo sempre aberto, olhos brilhantes, jeito faceiro de me olhar, que não esqueço, um modo suave de piscar, sedutora, querendo aprender a seduzir com a inocência de quem sabe sentir mas ainda não sabe que sente o que sente.

Terá sido mesmo obra do destino que brinca com a história de nossas vidas, que nos coloca uma hora perto e outra longe, que nos aproxima de novo sem que possamos ficar próximos, que nos faz encarar um ao outro tendo que disfarçar que seria inevitável não resistir desviar o olhar. Seria obra do destino nos fazer viver em terras distantes e vagar em navios e mares distintos, para depois dar-se o encontro num mesmo porto, naquele dia frio e chuvoso, que seria tão triste se não tivesse sido tão importante.

Ou terá sido um capricho do acaso, que quando resolve caprichar não economiza nas cenas mais lindas que pode arranjar para arrancar dois seres de seus caminhos desencontrados para os colocar na mesma estrada, na mesma sala, no mesmo quarto daquela casa na mesma rua de nossas infâncias, onde ainda tínhamos o sabor de nossos quintais e o cheiro das fogueiras das festas tradicionais, na mesma rua onde nunca imagináramos onde nossos passos iriam nos levar e onde nosso caminhar iria nos trazer.

Ou ainda terá sido obra de um deus travesso a escolher quem atingir com suas setas envenenadas do mais doce veneno que existe, tão doce que quem tem não quer perder e quem não tem não vê o dia em que possa ter. Aquele veneno que quando se tem se vive e quando se perde morre-se um pouco.

Terá sido por obra de algum feitiço que venha a existir quando existe fogo nos olhos e um arder dentro do peito, quando sucumbimos com a falta de sono e fome, quando pensamos só naquilo que sabemos o que é sem precisar dizer o nome.

Terá sido por isso e por tudo talvez, talvez por nada, por simplesmente ter que ser porque assim teria sido desde todo o sempre. De tal modo que por ele é que passamos a existir, sendo que sem ele nada do que somos poderia existir e nada do que queremos faria sentido acontecer.

Terá sido por causa desse silêncio de perguntas que nunca ousamos fazer, por temer a resposta que há ou não haver a resposta, mas que uma coragem insana irrompe do peito num grito inevitável como o trovão das tempestades a bradar dos céus a tudo o que há na terra para que ouça de uma vez que eu te amo tanto e não sei o que terá sido esse amar que não me interessa saber senão sentir que é esse amar que por falta de melhor nome todos os poetas haverão de cantar e chamar pelo simples, singelo e terno nome de Amor.

21/07/2009 – 03:00

Segunda-feira, Julho 20, 2009

Vida Minha

Vida minha, nada a por, nada por tirar, cada cena em seu lugar, cada gota, de suor e sangue, derramada, nunca foi em vão, cada coisa a seu tempo e no seu lugar, a cada palavra o seu efeito, a cada sentimento sua emoção, a cada passo uma direção, a cada grito a sua canção. Vida minha, viveria tudo de novo, exatamente como teria que ter sido, se soubesse que tudo que teria que viver, era para ter aqui me trazido. Vida minha, faria tudo de novo, se soubesse que era para vir até aqui e ter ainda tanto por fazer. Vida minha, e sentiria tudo de novo, pelo simples e incontestável prazer de aprender a sentir. Todas as coisas como as coisas são. Para viver, vida minha, de novo toda essa emoção!
Vida minha, eu perderia de novo todos os amores, e mesmo isso não seria em vão. Só para aprender sobre os amores que vem e vão, só para estar atento quando esse amor tivesse vindo, se eu soubesse que viria, ah, vida minha, não teria nada mais por fazer, a não ser sentar num canto qualquer de todos os meus dias, e ficar olhando a estrada, o céu, a lua e as estrelas, o nascer e o por do sol, e mesmo debaixo da mais forte chuva, porque saberia que você viria, vida minha, e que a partir disso, viver valeria muito a pena.

Sábado, Julho 18, 2009

Amor, meu grande amor!

Amor, meu grande amor! Já não era sem tempo depois que se passou o tempo, que o tempo nos trouxesse bem aqui, de frente um para o outro, depois que o tempo tinha nos arrastado cada qual para sua própria vida, despercebidos de existir um e outro, um para o outro, um sem o outro, sempre outro sem o um. E solidão e esquecimentos que lá longe no tempo existia já esse amor, assim como devia ser, com seus apertos no coração de uma saudade sabe-se lá como, sabe-se lá por que, sabe-se lá de que, e sabe-se lá de quem.
Amor, meu grande amor! Repartiu-se entre nós exata metade para cada um e foi tentar ser amor para qualquer um, por qualquer coisa, qualquer ilusão, desencontro e desencantos; amor semente que foi no tempo brotar tão a tempo, esse fogo crescendo, incendiando bem devagar, até nos queimar em febre e nos arrancar soluços, nos deixar exaustos de saudade, tanta saudade de tudo o que nem tivemos ainda, por falta de tempo.
Amor, meu grande amor! Esse amor silêncio, sussurro tão bem escondido bem lá dentro do peito, esse amor sombra a nos seguir aonde quer que fôssemos, esse amor espera, esperado, esse amor desesperado de nunca se revelar revelando-se bem no romper desse silêncio, nessa noite à distância tornando próximos passado e presente, misturando tudo dentro da gente, tão de repente que parece que foi sempre.
Amor, meu grande amor! Nascido de repente bem na nossa frente e a gente de olhos fechados e o coração distraído, amor subtraído de nossos passos, um amor de antanho, de tão bem antes que percebêssemos ser amor, grande amor que nunca nos deixou assim tão afastados, que nos manteve próximos mesmo nos desencontros, marcando hora e lugar de vir e chegar bem a tempo de nos encontrar nesse grito, no ecoar de nossa poesia insistente.
Amor, meu grande amor! Amor para ser sentido agora, enquanto o tempo haverá de fazer eu aprender, aos poucos e bem devagar, sua pele, seu cheiro, suas mãos, dentro desse abraço, seus olhos e seus lábios, toda essa tanta luz de seu sorriso, como se fora do tempo, de todo o tempo tudo tivesse nascido ali exatamente naquele momento.
Amor, meu grande amor, para eu aprender seu gosto, para nunca mais esquecer.

Quarta-feira, Julho 01, 2009

Rascunho de poema

Não era só meu o poema que se perdeu quando tocou a campainha.... rompendo o silêncio sempre há gritos e mediocridades e clamores de uma vidinha tão singular e sem sal. E a gente perde o que não se quis, a gente não quer e perde, deixa passar, enquanto passamos. Estamos sempre passando e, passados, passamos sem ver o crepúsculo, ou aquele por-do-sol. A gente não vê nada no espelho.
Não era só meu o sonho que se perdeu... esquecemos dele sempre que se abre e fecha rapidamente a porta do trem. Quando respondemos o "bom dia" protocolar de sempre, sempre o mesmo, sempre igual. E esvaziamos todas as horas do dia enchendo a agenda. Deixamos a noite passar sem um suspiro, sem nem sequer um arrepio de perplexidade diante do tão comum e corriqueiro de uma vida besta e sem sonhos, sem aspirações, sem ter aonde ir, o que fazer e sem ter a menor ideia do que há por sentir. E descobrir...
Não era só meu o amor que se perdeu... ah, nossas emoções tão bem planejadas, nossas mais doces ilusões estampadas em out doors fora de nós, fora e tão distantes, nossos sentimentos self service, nosso prazer delivery, nossas lágrimas plastificadas para viagem. Nosso tesão fast-food, tanta assepsia em nossas relações mais banais, a distância mais conveniente, nossa posição tão segura bem aqui dentro... nossos amores fabricados em série na linha de montagem dentro do peito.
Não era só minha a imensa tristeza quando olhei o álbum de fotos da vida.... e vi como era lindo aquele amor tão fora de moda, ultrapassado, embolorado, esmaecido, amarelecido com o pó do tempo. Aquele romantismo tão imbecil e que sempre tinha sido tão bom, tão bom que chegava a ser ótimo.
Não era só meu aquele amor que se perdeu pelos fios dos postes em inúteis interligações telefônicas, que se dissolveu e se banalizou via cabo.
Não era só meu, e nem sei se tinha sido um dia meu, amor ridículo e impossível, impraticável, amor inimaginável. Empoeirado numa sala de museu aquele amor, ah, amor, vi também que ele era teu.

Quarta-feira, Junho 24, 2009

Um dia...

Vontade de escrever alguma coisa que de mim eu diga algo a mim mesmo... chato chegar tarde em casa e querer aproveitar a noite desse dia para ainda tentar ser algo. A poesia em mim cansada ou cansada de mim, ou eu cansado de tudo, ou de nada, cansado a ponto de nem querer dormir.
Um dia esquecerei rostos. Um dia apagarei caminhos e não deixarei rastros. Um dia se apagarão em mim as lembranças, todas. Um dia irão se desfazer prováveis destinos e possíveis desatinos. Um dia, amor, não haverá mais o que amar e nem porque amar. Um dia será tarde, tão tarde, que restará apenas essa sensação de ainda nem ter vivido.
Insatisfação. A angústia que brota na pele como uma certeza de que a única coisa que verdadeiramente angustia é viver.
Amor por tudo e por todos, por qualquer coisa e qualquer um, por que não diz logo o que quer de mim? Poesia gritando em mim, por que não silencia e me deixa de uma vez por todas em paz?
Desejo de ser comum, o mais reles dos seres comuns que rastejam sobre a terra. Sem anseios e sonhos, sem expectativas, sem possibilidades. Ser apenas, só ser. Ser da maneira mais econômica de emoções e sofrimentos, ser pleno de esquecimentos.
Como o por do sol que nada te pede, apenas repete insistentemente o seu espetáculo cotidiano...
Como o vento suave que nunca vai a lugar algum e está sempre voltando...
Ou como o tempo que tem como única ocupação passar.
Um dia as palavras ainda não concebidas brotarão de um descuido meu.
Um dia os poemas não serão mais escritos, mas escreverão tudo o que ainda não pude dizer.
Um dia esse amor se apresentará em chamas, inevitável.
Um dia as emoções hão de explodir em mim como a parir um outro universo.
E não saberei mais o que fazer, o que ser, o que sentir, o que imaginar.



Sexta-feira, Junho 12, 2009

Se não dormes...

Eu só vou dormir agora para ver se nasce novo o dia de amanhã... acho que não! Essa inquietação que me rouba o sono vezes seguidas, uma noite atrás da outra, coisa sem diagnóstico definido, sem explicação. É só uma inquietação, sutil e sorrateira. É uma vontade de fuçar velhas gavetas sem saber bem o que procurar, um não saber o que se quer fazer, escrever, desenhar, ver filmes ou ouvir música, sempre a mesma coisa do mesmo jeito...
Não! Eu não vou cantar essa solidão e essa tristeza como se fossem um poema de Chico Buarque... porque isto é aquela coisa já impregnada nas paredes do apartamento, um tapete de cacos de vidro!
Nada é assim tão sério. Eu tinha tanto por fazer e fazer por querer mais do que precisar, mas essa apatia me tira para dançar sua marcha fúnebre, tenho que ir dormir embalado ao som de mais esse réquiem. Ora dane-se!
Então é o quê? É só trabalhar, ganhar dinheiro e pagar as contas, perder vinte quilos, parar de fumar, beber menos, estudar não sei o que para o que nem sei, diminuir ainda mais a quota já precária de prazer, não dá para ser feliz porque a felicidade não existe, não se pode ter prazer porque o prazer é uma ignomínia: substantivo feminino, afronta pública, desonra, injúria, degradação moral, humilhação, vergonha, opróbrio... e para ser franco, eu queria ser um franco-atirador.
E já chega! Tudo chega a um estado tão estranho de normalidade a ponto de a gente não se importar com nada. Está muito na moda não se importar com nada. Até fingir que é dor a dor que deveras sente...
E despeja-se tudo nesses jogos de palavras, incessantes, desinteressantes, que afinal ninguém mesmo vai ler e, se o fizer, muito difícil que vá se importar.
Banalização, do adjetivo banal: vulgar, corriqueiro, trivial, fútil, frívolo... banalização de todos os sentimentos, de todos os pensamentos e conceitos, de toda ideia que se pode ter da realidade, banalização do desejo de desejar, do amor e da paixão, toda a nossa vida expressa em planilhas de cálculo visualizada em gráficos coloridos, estatísticas, receitas, requisitos básicos para atestado de normalidade, certificados de adequação, enquadramento, ajustes, aceitação! Enquanto isso...
Os sonhos se dissipam... o que era mesmo aquela tal esperança? Vou lá eu saber daquela tal esperança? Que sobre ela escrevam um tanto mais de livros somente para as árvores terem morrido em vão.
O último poema de amor hei de escrever na areia de uma praia...

Segunda-feira, Maio 11, 2009

Contingência

Talvez eu aprenda a escrever algo que preste... um dia. Talvez aprenda a desenhar e a pintar. Talvez um dia eu seja doutor, para falar do que não tenho certeza para quem não entende lá muito bem e tudo fique elas por elas, o palavrório unido às caras de conteúdo, aos hipócritas meneios de cabeça de quem finge entender o que nem ouviu direito. Talvez eu me dê satisfeito um dia com essa mediocridade que parece ser necessária para se conviver com o homem, esse animal irracional e irmão do infortúnio. Mas essa noite não! Só essa noite não.

Olhei em volta tudo o que me rodeia no tempo e no espaço, limitado por essas paredes e descrito pelas lembranças do que não esqueço. Eu queria só não aprender mais nada, saber metade do que sei, não me importar nem com um décimo do que me importo. Ser um pária que pudesse viver em paz sem ninguém a vomitar em meus ouvidos verdades mal digeridas. Sem que ninguém me cagasse seus conselhos de como a vida seria melhor se eu fizesse tudo de outro jeito, sem ao menos me perguntar se não era esse o jeito que faço do jeito que sempre quis fazer e fiz.

As últimas quarenta e oito horas eu saí à rua só para comprar cigarros. E tirei fotos do prédio em que moro, do parque, da árvore. Talvez eu aprenda a fazer fotografias boas um dia, a ponto de fotografar apenas o que meus olhos querem ver, o que cabe num olhar, o que vale a pena caber num olhar.

Mais uns dois ou três finais de semana desses e eu poderei dizer que aprendi o que é solidão. Mas tenho a vaga idéia de que estava certo que a solidão verdadeira consiste em não ter para onde ir e nem para onde voltar. Eu que não queria me esconder atrás desta tela, tendo que usá-la como janela.

Acho um pouco culpa minha. Eu me calei. Ninguém mais me lê, vê meus desenhos, nem ouve a minha voz. Vou andar por aí me apresentando como um vaso, adequado para enfeitar certos ambientes, minha casa, minha rua, sua casa, minha mesa de trabalho, a mesa de um bar... a solidão deve ser olhar para o espelho e não ver mais ninguém. É seu nome apagado dos monumentos erigidos a certos momentos que se passou com as pessoas, mais as pessoas não visitam mais esses monumentos. É seu nome apagado das histórias mais corriqueiras.

A solidão é um túmulo no qual mais ninguém vai colocar flores. É um nome esquecido e um retrato esmaecido. É a mentira escrita no epitáfio: “saudade dos teus...”

Ter que ser forte e carregar tudo isso aonde quer que vá, sua bagagem, sua carga, sua sina, seu destino desafortunado.

É ouvir uma música de seu tempo de quinze, dezesseis anos, e sentir uma indescritível saudade da sensação tola de se sentir apaixonado. E ter a certeza de que aquilo passou e nunca mais vai acontecer.

É de ter de ouvir de algum energúmeno que toda a filosofia se resume em um autor, ou em um livro, que toda a poesia se resume num poema e que toda a música se resume em algo que alguém fez hoje depois de todo mundo ter feito. É ouvir de um imbecil qualquer que bebe, fuma e cheira que toda a vida se resume numa única frase ou numa única palavra: fracasso, somos todos fracassados.

Eu não choro lágrimas de sangue, não padeço de medos pueris nem me entrego a covardias bem fundamentadas. Não me iludo com esperança, essa invenção platônica e cristã. Sei que os dias passam sendo o que são e que a realidade ou é o que percebo dela, o que invento ou o que quero ver, inventar e perceber. Contingência. Nisso eu acredito. Mas mesmo isso não me impede de tentar tornar a vida algo menos chato, menos obrigatório, menos burocrático e protocolar.

Cada vez mais difícil, com tanta coisa e tanta gente para atrapalhar.