Ela virá como se nunca tivesse ido. E chegará como se eu nunca tivesse ficado aqui, imerso em minhas reflexões sobre a distância no tempo e no espaço e sobre todos os efeitos que certamente provoca. Ela virá como se tivesse onisciência, como se soubesse que sou feito de incapacidades, feito de uma tola força que me obriga a uma insuportável espera. Ela virá como se o tempo tivesse em mim só o efeito de passar simplesmente e não o de me transformar.
Ela virá para as coisas que imagina que deixou no lugar. Para as mesmas coisas. E vai querer encontra-las no mesmo lugar em que deixou, e do mesmo modo, e as mesmas coisas.
Ela virá e não tocará nesse vazio. Não iluminará essa escuridão. Não trará o fogo necessário para o frio de todas as noites, as passadas e as vindouras. Não quebrará com música e poesia esse insuportável silêncio. E não me olhará nos olhos. Não prestará atenção ao mínimo sussurro que soe como um grito, não se importará com a dor que afinal é alheia, alheia a ela, a todos e a tudo.
Ela virá e não sentirá o peso de minha tristeza. Não saberá em que canto da casa escondi essa vontade de chorar. Não saberá me sentir absorto e perdido em pensamentos naquela sacada, olhando o céu por detrás dos prédios, uma lua alta e brilhante no céu. Não me verá desfazendo-me aos poucos, entregando-me à inevitabilidade disso a que chamam destino. Ela virá e não saberá em que parte da história entra, em que ato dessa ópera bufa. Terá perdido sua deixa e não será capaz de improvisar.
Entrará péla porta errada. Sairá pela janela errada. Deitará na cama errada. Tentará ainda ser amada pela pessoa errada.
Ela virá e não encontrará ninguém em casa. Virá e não mais me encontrará.
Vai estranhar um outro brilho em meus olhos. Um outro perfume que se alastra em minhas lembranças. Não vai entender meus pensamentos distantes e suspensos no tempo e no espaço, anulando de vez toda distância. Não vai entender uma outra presença que não a dela e nem um coração não se agitar não por ela. Não vai entender que meu coração quando grita não ama e quando se cala não se engana. E não saberá mais não ser o que nunca quis ser e temerá que tudo seja assim. Não saberá mais nada de mim. Se soubesse talvez não viria.

